quarta-feira, 3 de junho de 2026

Jair Bolsonaro e o Movimento Bolsonarista: trajetória, consolidação e impactos no Brasil contemporâneo


Introdução

O fenômeno político representado por Jair Messias Bolsonaro e pelo chamado bolsonarismo tornou-se um dos principais objetos de análise da ciência política, da sociologia e do jornalismo no Brasil contemporâneo. A ascensão de um deputado de “baixo clero” à Presidência da República, sua capacidade de reorganizar o campo da direita, a construção de uma base social profundamente leal e a radicalização do debate público configuram um caso complexo de populismo de direita em uma democracia recente.

Este texto analisa a relação entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o movimento bolsonarista, articulando: (a) a trajetória política de Bolsonaro antes de 2018; (b) a gênese e a conformação ideológica do bolsonarismo; (c) sua consolidação durante o governo federal (2019–2022); (d) a reconfiguração do movimento após a derrota eleitoral de 2022; e (e) os impactos sociais, eleitorais e culturais desse processo. Por fim, são apresentadas leituras acadêmicas e jornalísticas divergentes sobre o fenômeno, à luz de autores nacionais e internacionais que tratam de populismo, extrema-direita e erosão democrática (MUDDE, 2007; FINCHELSTEIN, 2017; LEVITSKY; ZIBLATT, 2018; NOBRE, 2020, entre outros).


1 Trajetória política de Jair Bolsonaro antes de 2018

Jair Messias Bolsonaro teve sua formação inicial nas Forças Armadas, servindo como oficial do Exército. Nos anos 1980, ganhou notoriedade ao protagonizar episódios de insubordinação relacionados à insatisfação salarial, chegando a ser acusado de planejar ações explosivas em protesto, o que o colocou sob julgamento no Superior Tribunal Militar (FOLHA DE S.PAULO, 2022). Absolvido, passou para a reserva em 1988 e, em seguida, ingressou na política institucional.

Em 1988, Bolsonaro foi eleito vereador no Rio de Janeiro, e em 1990 tornou-se deputado federal, cargo que exerceu por sete mandatos consecutivos, durante 27 anos. Ao longo desse período, integrou o chamado “baixo clero” – segmento de parlamentares com pouca expressão legislativa – sem ter sido protagonista de grandes projetos de lei ou articulações relevantes no Congresso (FOLHA DE S.PAULO, 2019). A construção de sua imagem pública, contudo, ocorreu menos pela produção legislativa e mais por declarações de forte teor ideológico e de confronto.

Durante a década de 1990 e os anos 2000, Bolsonaro defendeu reiteradamente a ditadura civil-militar de 1964–1985, relativizou ou justificou a tortura e criticou frontalmente iniciativas de memória e justiça de transição. Em diferentes ocasiões, louvou a atuação de órgãos de repressão, atacou minorias políticas e sociais e evidenciou uma visão autoritária de poder (FOLHA DE S.PAULO, 2014). Casos emblemáticos incluem declarações misóginas dirigidas à deputada Maria do Rosário e a defesa da tortura como instrumento supostamente legítimo no combate ao crime.

Apesar do perfil polêmico, Bolsonaro consolidou gradualmente um nicho de apoio entre militares da reserva, policiais, segmentos pró-armamento e grupos conservadores. A defesa insistente dos interesses das Forças Armadas no Parlamento, a crítica à Comissão Nacional da Verdade e a exaltação da ditadura fortaleceram sua imagem como porta-voz de uma sensibilidade conservadora e autoritária que permanecia latente no meio militar e em parcelas da sociedade civil (MARTINS FILHO, 2019).

Nos anos 2010, em contexto de desgaste do sistema político – marcado por grande visibilidade da Operação Lava Jato, recessão econômica e perda de confiança nas instituições –, Bolsonaro reposicionou-se como figura de oposição radical ao governo do Partido dos Trabalhadores (PT). Passou a articular um discurso de ruptura com a “velha política”, apresentando-se como outsider antiestablishment, apesar de se tratar de um parlamentar de carreira. A retórica de “nós contra eles”, a identificação do PT e da esquerda como inimigos internos e a defesa de valores morais conservadores foram fundamentais para que se tornasse, paulatinamente, uma referência da nova direita brasileira (NOBRE, 2020).


2 Surgimento do bolsonarismo: raízes ideológicas e bases sociais

O bolsonarismo surge como movimento político e sociocultural no entrecruzamento de três processos principais: a crise de representação dos partidos tradicionais, a intensificação da polarização e a rearticulação da extrema-direita em escala global (MUDDE, 2007; FINCHELSTEIN, 2017). No caso brasileiro, esse movimento se alimenta de frustrações acumuladas com corrupção, violência urbana, estagnação econômica e mudanças socioculturais percebidas como ameaças por grupos conservadores.

Do ponto de vista ideológico, o bolsonarismo combina elementos de populismo de direita radical, neoliberalismo econômico, conservadorismo moral e autoritarismo político. Conforme interpretações de autores brasileiros, pode-se sintetizar o projeto bolsonarista em quatro linhas de força: (a) neoliberal na economia; (b) autoritária na política; (c) intolerante no plano social; e (d) reguladora no plano moral (ALMEIDA, 2019). Dessa combinatória resulta a defesa de Estado mínimo em políticas sociais e regulação econômica, ao mesmo tempo em que se propõe Estado forte na repressão penal e na imposição de valores religiosos e morais.

A aliança com o cristianismo conservador, especialmente com segmentos evangélicos neopentecostais, é central para a formação do bolsonarismo. Pesquisas eleitorais indicam que, no segundo turno de 2018, cerca de dois terços dos eleitores evangélicos votaram em Bolsonaro, conferindo-lhe vantagem decisiva (ORO, 2019). O discurso de “Deus, pátria, família” e a posição enfática contra aborto, “ideologia de gênero” e pautas LGBTQIA+ foram articulados como uma cruzada moral, e a figura de Bolsonaro passou a ser apresentada por lideranças religiosas como instrumento de restauração da ordem cristã no país.

Paralelamente, o bolsonarismo canalizou a revolta contra a corrupção e o antipetismo, fortemente amplificados pela Lava Jato. A narrativa de que o PT teria corrompido o Estado e “destruído o país” forneceu combustível para um ressentimento difuso, especialmente nas classes médias urbanas (SINGER, 2018; SOLANO, 2018). O discurso de Bolsonaro se apresentou como resposta a esse ressentimento, prometendo “acabar com tudo isso que está aí” e recolocar o Brasil nos “trilhos da ordem”.

Outro componente estruturante é o uso intensivo das redes sociais como arena de mobilização. A campanha de 2018 reduziu a centralidade da televisão e reposicionou plataformas como Facebook, YouTube, Twitter e, sobretudo, WhatsApp como meios privilegiados de propaganda, organização e construção de identidade política. Estudos jornalísticos e acadêmicos identificaram o uso sistemático de desinformação, teorias conspiratórias e conteúdos de ódio em benefício da candidatura de Bolsonaro, com destaque para o disparo em massa de mensagens por empresas contratadas, prática que chegou a ser reconhecida pelos próprios executivos da plataforma (THE GUARDIAN, 2018; MIGUEL, 2019).

Nesse ambiente digital, consolidou-se uma comunidade bolsonarista fortemente coesa, com linguagem própria, símbolos (como a camisa da seleção brasileira e a bandeira nacional) e narrativas partilhadas, incluindo a ideia de que Bolsonaro representaria o “mito” destinado a salvar o país da corrupção e do comunismo. Essa identidade política, amparada por lideranças religiosas, influenciadores digitais, militares da reserva e empresários, constitui o núcleo duro do bolsonarismo.

A literatura especializada, entretanto, não converge em uma definição única para o fenômeno. Alguns autores falam em “populismo autoritário” (LEVITSKY; ZIBLATT, 2018), outros em “neofascismo tropical” (SAFATLE, 2019) ou “extrema-direita cristã” (ORO, 2019). Há um relativo consenso, contudo, de que o bolsonarismo combina traços de populismo de direita com elementos de tradição autoritária brasileira, reativando memórias e práticas vinculadas ao período ditatorial (MARTUSCELLI; SALOMÃO, 2020).


3 Consolidação do bolsonarismo no governo federal (2019–2022)

A eleição de Bolsonaro em 2018 e sua posse, em janeiro de 2019, significaram a transposição do bolsonarismo do terreno da oposição para o exercício efetivo do poder de Estado. A composição ministerial inicial evidenciou a tríplice aliança entre militares, tecnocratas ultraliberais e ideólogos da nova direita, distribuídos em pastas estratégicas como Economia, Relações Exteriores, Educação e Direitos Humanos.

3.1 Agenda política e econômica

Na área econômica, o governo adotou uma plataforma de reformas e privatizações liderada pelo ministro Paulo Guedes, alinhada ao receituário neoliberal: defesa de ajuste fiscal, redução do papel do Estado e desregulamentação. A aprovação da Reforma da Previdência, em 2019, representou a principal vitória estrutural desse programa. Contudo, a agenda liberal ampla encontrou limites na prática, tanto por resistências políticas no Congresso quanto pela eclosão da pandemia de Covid-19 em 2020, que exigiu expansão significativa do gasto público com auxílios emergenciais e políticas de mitigação (GUEDES, 2020; BRASIL ESCOLA, 2023).

No plano social e ambiental, o bolsonarismo se materializou em uma série de retrocessos normativos e institucionais. Destacam-se:

  • a flexibilização do acesso a armas de fogo por meio de dezenas de decretos e portarias, o que levou a um aumento exponencial de registros de CACs (colecionadores, atiradores e caçadores);
  • o enfraquecimento de órgãos ambientais, como IBAMA e ICMBio, e a paralisação de demarcações de terras indígenas;
  • o avanço do desmatamento na Amazônia, que atingiu médias anuais superiores às do período imediatamente anterior, revertendo uma tendência de redução observada na década de 2000 (OBSERVATÓRIO DO CLIMA, 2022).

Tais medidas impactaram diretamente a imagem internacional do Brasil, particularmente nas agendas de clima e direitos dos povos indígenas, levando a tensões diplomáticas com parceiros europeus e críticas em fóruns multilaterais.

3.2 Pandemia, negacionismo e polarização

A gestão da pandemia de Covid-19 é um dos elementos mais criticados do governo Bolsonaro. Em diversos momentos, o presidente minimizou a gravidade da doença, referindo-se ao vírus como “gripezinha”, defendeu medicamentos sem comprovação científica, atacou medidas de distanciamento social implementadas por governadores e prefeitos e difundiu desconfiança em relação às vacinas (BRASIL ESCOLA, 2023).

A literatura sobre populismo e saúde pública tem mostrado que lideranças populistas de direita, em diferentes países, tenderam a adotar posturas negacionistas ou minimizadoras da pandemia, o que resultou em piores desfechos sanitários (FREITAS; NOBRE, 2021). No caso brasileiro, a combinação de discurso negacionista, atraso na aquisição de vacinas, conflitos federativos e descoordenação federativa contribuiu para um quadro de elevada mortalidade, com centenas de milhares de mortes por Covid-19.

Apesar disso, parte significativa da base bolsonarista manteve apoio ao presidente, interpretando as medidas de isolamento como estratégias de controle autoritário e as vacinas como produtos suspeitos. A pandemia, portanto, aprofundou a polarização política e consolidou uma espécie de “epistemologia paralela” nos círculos bolsonaristas, em que informações científicas são frequentemente vistas como politizadas ou manipuladas por inimigos ideológicos.

3.3 Conflitos institucionais e erosão democrática

Outro eixo marcante do governo Bolsonaro foi o conflito permanente com as instituições democráticas. Em distintos momentos, o presidente e seus aliados atacaram o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a imprensa e o próprio Congresso Nacional, acusando-os de conspirar contra o governo.

A narrativa de fraude nas urnas eletrônicas, disseminada sem provas, tornou-se uma das principais armas retóricas do bolsonarismo. Reuniões com embaixadores estrangeiros foram utilizadas para repetir acusações infundadas contra o sistema eleitoral, o que posteriormente fundamentou ações judiciais e resultou na declaração de inelegibilidade de Bolsonaro por abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação (LEVITSKY; ZIBLATT, 2018; TSE, 2023).

Em manifestações de rua – especialmente no 7 de Setembro de 2021 – o presidente adotou tom abertamente confrontacional, afirmando que não cumpriria decisões de ministros do STF e insinuando a possibilidade de ruptura institucional. A pressão de setores econômicos e políticos levou à publicação de uma carta de recuo, mas a percepção de que o presidente testava sistematicamente os limites da ordem democrática foi amplamente registrada em análises acadêmicas e jornalísticas (NOBRE, 2020).

3.4 Relação com o “Centrão” e práticas de governabilidade

Embora tenha vencido a eleição com discurso antiestablishment, Bolsonaro acabou por se apoiar intensamente no chamado “Centrão”, bloco de partidos fisiológicos do Congresso. A partir de 2020, cargos e recursos orçamentários foram distribuídos para consolidar uma base governista, incluindo mecanismos controversos como o chamado “orçamento secreto”, que ampliou a opacidade na destinação de emendas parlamentares (PODER360, 2021).

Essa aproximação garantiu estabilidade mínima e bloqueio de mais de uma centena de pedidos de impeachment, mas ao custo de contradições com a narrativa original de combate à “velha política”. O resultado foi uma combinação paradoxal: retórica antiestablishment na esfera pública e práticas tradicionais de coalizão e clientelismo na esfera institucional.


4 O bolsonarismo após 2022: oposição, radicalização e crise de liderança

A derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022 e a posse de Luiz Inácio Lula da Silva em 2023 inauguraram uma nova fase para o bolsonarismo, agora reposicionado como força de oposição. No imediato pós-eleição, observou-se uma recusa informal em reconhecer claramente o resultado, acompanhada de silêncio prolongado do presidente e da multiplicação de protestos em rodovias e acampamentos diante de quartéis, com pedidos de intervenção militar (CNN BRASIL, 2023).

4.1 Os eventos de 8 de janeiro de 2023

O ápice da radicalização ocorreu em 8 de janeiro de 2023, quando grupos de apoiadores invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. A ação, amplamente interpretada como tentativa de insurreição golpista, teve participação de pessoas que vinham sendo mobilizadas em acampamentos “patrióticos” desde o fim de 2022.

Os eventos resultaram em centenas de prisões, intervenções na segurança pública do Distrito Federal e abertura de investigações no STF e na Polícia Federal, algumas delas alcançando o próprio Bolsonaro, suspeito de ter estimulado o ambiente conspiratório que culminou nos ataques (CNN BRASIL, 2023). Do ponto de vista político, os atos de 8 de janeiro reduziram a legitimidade do bolsonarismo junto a setores moderados da sociedade e reforçaram a atuação de instituições em defesa da ordem democrática.

4.2 Inelegibilidade, processos judiciais e reorganização da direita

Em 2023, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Bolsonaro inelegível até 2030 por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação em ataque às urnas eletrônicas. Paralelamente, multiplicaram-se processos e inquéritos envolvendo o ex-presidente, incluindo casos sobre tentativa de subversão da ordem democrática, irregularidades em relação a joias recebidas de governos estrangeiros e outros episódios (TSE, 2023).

Essa conjuntura jurídica e política fragiliza a capacidade de Bolsonaro de liderar pessoalmente o campo da direita em disputas futuras, ainda que sua influência sobre o eleitorado permaneça significativa. O Partido Liberal (PL), por sua vez, emergiu das eleições de 2022 como maior bancada da Câmara dos Deputados, e governadores alinhados ao bolsonarismo foram eleitos em estados estratégicos, o que mantém o movimento como principal força de oposição ao governo Lula no plano institucional (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2023).

A médio prazo, o bolsonarismo tende a enfrentar um dilema de sucessão: ou transfere parte de seu capital político para novas lideranças (por exemplo, governadores e parlamentares destacados), ou se arrisca a permanecer excessivamente dependente da figura de Bolsonaro, limitado por restrições judiciais e legais. Ainda é incerto se o movimento será capaz de se moderar para ampliar sua base ou se continuará apostando na radicalização, o que tende a restringir seu alcance a um núcleo duro de apoiadores.


5 Impactos sociais, eleitorais e culturais do bolsonarismo

Os impactos do bolsonarismo sobre a sociedade brasileira são profundos e múltiplos, alcançando dimensões sociais, eleitorais e culturais.

5.1 Polarização social e violência política

No plano social, registra-se um aumento significativo da polarização política, expressa em rupturas familiares, conflitos interpessoais e agressões motivadas por posições ideológicas distintas. Casos de violência política ocorreram com maior frequência nas eleições de 2018 e 2022, incluindo episódios de homicídio em discussões eleitorais, o que indica um ambiente de acirramento inédito na Nova República (SOLANO, 2018).

Paralelamente, observou-se crescimento de denúncias de crimes de ódio, incluindo racismo, LGBTfobia e intolerância religiosa, o que é associado por diversas análises ao encorajamento indireto dado por discursos presidenciais e governamentais de cunho discriminatório (ANISTIA INTERNACIONAL, 2021). A combinação de retórica de ódio, armamentismo e criminalização simbólica de adversários contribuiu para um clima de maior permissividade social em relação à violência política.

5.2 Reconfiguração do sistema partidário e do campo da direita

No plano eleitoral, o bolsonarismo reorganizou a direita brasileira. A centro-direita tradicional, representada principalmente pelo PSDB, perdeu protagonismo, e o eixo da disputa passou a se dar entre um projeto de direita radicalizada (em torno do bolsonarismo) e um campo progressista liderado pelo PT e aliados.

Estruturalmente, partidos que aderiram à agenda bolsonarista obtiveram grandes bancadas no Legislativo federal, e o PL assumiu centralidade na oposição. A reconfiguração do sistema partidário não ocorreu apenas pela substituição de siglas, mas também pela redefinição dos conteúdos ideológicos da direita, que passaram a incorporar com maior naturalidade elementos de extrema-direita, como ataques às instituições democráticas, ao pluralismo e a direitos de minorias (NOBRE, 2020).

5.3 Cultura política, identidade bolsonarista e disputa simbólica

No plano cultural, consolidou-se uma identidade bolsonarista que ultrapassa o apoio circunstancial a um governo. Trata-se de um conjunto de símbolos, narrativas e práticas que estruturam um “nós” e um “eles”: de um lado, “cidadãos de bem”, patriotas, cristãos; de outro, comunistas, corruptos, “globalistas” e “inimigos da pátria”. A camisa da seleção brasileira, a bandeira nacional e slogans religiosos passaram a ser apropriados como marcas de um campo ideológico específico, gerando inclusive respostas simbólicas do campo oposto.

Esse processo intensificou a disputa pela significação de valores como patriotismo, democracia, liberdade e família, frequentemente ressignificados em chave excludente. Ao mesmo tempo, a reação ao bolsonarismo levou à articulação de frentes amplas pela democracia, à retomada de movimentos feministas, negros e de trabalhadores, e à revalorização do debate público sobre autoritarismo, fascismo e direitos humanos (SOUZA, 2019; SAFATLE, 2019).

O campo da comunicação também foi profundamente afetado. A imprensa tradicional passou a intensificar práticas de checagem de fatos e enfrentamento à desinformação, enquanto uma ecologia paralela de canais digital-bolsonaristas se consolidou, com linguagens e narrativas próprias. Essa dualização da esfera informacional reforça bolhas de informação e dificulta a construção de consensos mínimos sobre fatos básicos, constituindo um desafio adicional para a qualidade da democracia.


6 Leituras acadêmicas e posicionamentos jornalísticos sobre o bolsonarismo

A produção acadêmica sobre Bolsonaro e o bolsonarismo é vasta e em expansão. Parte dos estudos situa o fenômeno na onda global de populismos de direita, destacando elementos comuns como o antiestablishment, o nacionalismo excludente, o ataque às instituições liberais e o uso sistemático da mentira e da desinformação (MUDDE, 2007; FINCHELSTEIN, 2017; LEVITSKY; ZIBLATT, 2018).

Autores como Cas Mudde (2007) conceituam o populismo radical de direita como uma ideologia que combina nativismo, autoritarismo e populismo. Aplicado ao caso brasileiro, tal definição ilumina o caráter nativista do bolsonarismo (defesa de uma comunidade “autêntica” contra inimigos internos e externos), seu autoritarismo latente (preferência pela ordem e pela força em detrimento de direitos e garantias) e seu populismo (apelo direto ao “povo” contra elites corruptas).

Federico Finchelstein (2017) argumenta que experiências como a de Bolsonaro podem ser compreendidas como neofascismos adaptados à era democrática: lideranças que herdam elementos da tradição fascista (culto ao líder, violência política, ultranacionalismo) mas operam em contextos eleitorais e institucionais distintos. No Brasil, pensadores como Vladimir Safatle (2019) e Jessé Souza (2019) enfatizam a permanência de continuidades autoritárias na sociedade – racismo estrutural, herança escravocrata, desigualdades extremas – que facilitam a emergência de projetos de extrema-direita.

Por outro lado, há análises mais moderadas que preferem enquadrar o bolsonarismo como um populismo conservador ou uma direita reacionária que explorou circunstâncias específicas – crise econômica, Lava Jato, antipetismo – sem necessariamente constituir um fascismo pleno. Para esses autores, a resistência das instituições (incluindo o Judiciário, a imprensa e parte do Legislativo) e a derrota eleitoral de 2022 demonstram a resiliência da democracia brasileira, embora fragilizada (VILLA, 2020).

No campo jornalístico, os principais veículos de imprensa – Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, entre outros – documentaram amplamente o caráter autoritário de declarações e práticas do governo Bolsonaro, sobretudo em relação à gestão da pandemia, à política ambiental e aos ataques às instituições. Ao mesmo tempo, emergiu uma mídia alinhada ao bolsonarismo, que atuou na defesa do governo e na difusão de narrativas conspiratórias, reforçando a polarização informacional.

Essas leituras não são neutras: refletem posições políticas, valores normativos e diferentes concepções de democracia. No entanto, convergem em reconhecer que o ciclo bolsonarista expôs vulnerabilidades estruturais da democracia brasileira, tanto no plano institucional quanto no plano social, e recolocou com força na agenda pública a necessidade de enfrentar o autoritarismo, a desinformação e a desigualdade como desafios centrais.


Considerações finais

A trajetória de Jair Bolsonaro, do oficial do Exército ao ex-presidente, está indissociavelmente vinculada à emergência do bolsonarismo como movimento político de direita radical no Brasil. O processo envolveu a ativação de memórias autoritárias, a mobilização de ressentimentos sociais, a articulação de uma agenda neoliberal-conservadora e o uso intensivo de redes digitais como instrumento de propaganda e organização.

Durante o governo federal (2019–2022), o bolsonarismo mostrou-se capaz de implementar políticas substantivas – sobretudo no campo econômico, armamentista e ambiental –, ao mesmo tempo em que tensionou os limites da ordem democrática por meio de ataques às instituições, difusão de desinformação e naturalização da violência política. A gestão da pandemia de Covid-19 expôs com particular dureza os custos sociais e humanos da combinação entre negacionismo e populismo de direita.

Após a derrota eleitoral de 2022, o bolsonarismo não se dissolveu. Mantém-se como força social e institucional relevante, ainda que atravesse uma fase de crise de liderança, marcada pela inelegibilidade e pelos processos judiciais que atingem Bolsonaro. Sua base identitária permanece coesa e ativa, e o campo da direita brasileira continua amplamente reorganizado em torno de pautas e símbolos bolsonaristas.

Do ponto de vista analítico, o fenômeno desafia categorias clássicas e exige abordagens que combinem perspectivas históricas, sociológicas, políticas e culturais. Ao mesmo tempo, coloca questões normativas urgentes sobre a defesa da democracia, a regulação de plataformas digitais, o enfrentamento da desigualdade e da violência estrutural e a reconstrução de um espaço público capaz de sustentar o dissenso sem descambar para a destruição do oponente.

Em síntese, o bolsonarismo deixou marcas profundas na política, na cultura e na sociabilidade brasileiras. Compreender sua gênese, sua consolidação no poder e seus desdobramentos no pós-governo é condição indispensável para pensar o futuro da democracia no Brasil.


Referências

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