domingo, 12 de abril de 2026

Da fé herdada à reação intelectual

Bancadas religiosas, tecnocracia capturada e religiosidade líquida no Brasil contemporâneo


Índice 

  1. Lide
  2. O novo quadro religioso brasileiro
  3. Quando a representação religiosa se converte em poder de agenda
  4. Critério técnico, pressão confessional e erosão da confiança pública
  5. Ateísmo, desafiliação e religiosidade líquida: três coisas diferentes
  6. A hipótese sociológica: por que parte dos mais intelectualizados se afasta
  7. O equívoco central do debate brasileiro
  8. Conclusão
  9. Referências


O Brasil vive uma transformação religiosa e política simultânea. De um lado, a religião continua socialmente poderosa, com forte presença institucional, capilaridade eleitoral e influência crescente no Parlamento. De outro, o próprio campo religioso brasileiro se tornou mais fluido: os dados do Censo 2022 mostram queda do catolicismo, expansão evangélica e crescimento da população sem religião, que chegou a 9,3% entre as pessoas de 10 anos ou mais, somando 16,4 milhões de brasileiros.  Nessa conjuntura, a crescente presença de bancadas religiosas e a seleção de candidaturas dentro de igrejas produzem um efeito ambivalente. Para muitos, isso reforça pertencimento e representação; para outros, sobretudo entre segmentos mais escolarizados, urbanos e intelectualmente críticos, isso pode gerar desconfiança, afastamento institucional e até adesão ao ateísmo. Mas o ponto decisivo é outro: em muitos casos, o que cresce não é exatamente a negação do sagrado, e sim a recusa da captura político-institucional da religião. É nesse espaço que a sociologia de Zygmunt Bauman se torna especialmente útil. Sua noção de modernidade líquida ajuda a compreender por que, em vez de desaparecer, a religiosidade pode se tornar mais móvel, seletiva, privada e desconfiada das instituições. O problema, então, não é apenas religioso. É também político, cultural e epistemológico.


O novo quadro religioso brasileiro


O debate sobre religião e política no Brasil precisa começar por um dado elementar: o país mudou. O IBGE informou, com base no Censo 2022, que os católicos caíram para 56,7% da população de 10 anos ou mais, os evangélicos subiram para 26,9% e os sem religião chegaram a 9,3%, com crescimento em relação aos 7,9% registrados em 2010.  Isso significa que o Brasil continua profundamente religioso, mas já não é religiosamente homogêneo nem automaticamente estável.


Essa mudança importa porque quebra a imagem de uma sociedade em que a tradição religiosa se transmite de modo quase automático entre gerações. O cenário brasileiro aproxima-se, ainda que com peculiaridades próprias, de uma tendência mais ampla observada internacionalmente: o aumento da desafiliação religiosa e da categoria dos “sem religião”, que não coincide integralmente com ateísmo. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Pew Research Center registrou em 2025 que 29% dos adultos são religiosamente não afiliados, mas apenas 5% se identificam como ateus, 6% como agnósticos e 19% como “nada em particular”.  A distinção é sociologicamente decisiva: sair da religião institucional não significa, necessariamente, abandonar toda crença, toda espiritualidade ou toda busca de transcendência.


Esse mesmo raciocínio ajuda a interpretar o Brasil. O crescimento dos “sem religião” não autoriza concluir, de forma apressada, que a sociedade esteja se tornando simplesmente ateia. O que os dados sugerem com mais segurança é uma ampliação da distância entre crença e pertencimento formal, entre espiritualidade e instituição, entre experiência do sagrado e submissão duradoura a uma autoridade religiosa organizada. Essa separação é um dos traços mais claros daquilo que Bauman ajuda a pensar como religiosidade líquida.


Quando a representação religiosa se converte em poder de agenda


Ao mesmo tempo em que o campo religioso se pluraliza e se fluidifica, a presença parlamentar religiosa se consolida institucionalmente. A Câmara dos Deputados mantém formalmente a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, com página oficial própria e extensa lista de membros.  Além disso, a própria listagem de frentes parlamentares da 57ª Legislatura mostra a coexistência de frentes de forte marca moral e religiosa, como a Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família, e, mais recentemente, também a Frente Parlamentar em defesa do Estado Laico e da Liberdade Religiosa, criada em 2025. 


Esses dados não provam, por si só, que toda decisão técnico-política esteja submetida à religião. Mas mostram algo muito importante: a religião não está apenas presente na sociedade civil; ela está organizada como força de pressão, articulação e negociação dentro do sistema político. Isso altera a forma como muitos cidadãos percebem o processo decisório.


Quando candidaturas são filtradas ou impulsionadas por redes eclesiais, quando agendas legislativas passam a responder intensamente a sensibilidades confessionais, e quando debates públicos sobre saúde, educação, ciência, gênero, direitos civis ou políticas sociais são enquadrados por gramáticas teológicas ou moralizantes, parte da sociedade começa a perceber que critérios universalizáveis de política pública estão sendo tensionados por critérios de convicção religiosa particular.


O problema não está no fato de religiosos participarem da política. Em uma democracia, isso é legítimo. O problema começa quando a mediação entre convicção privada e decisão pública se enfraquece. Em outras palavras: quando o argumento tecnicamente justificável, publicamente debatível e constitucionalmente universalizável perde espaço para a autoridade da pertença religiosa.


Critério técnico, pressão confessional e erosão da confiança pública


É exatamente nesse ponto que sua hipótese ganha força. Quando decisões que deveriam ser fundamentadas em evidência, impacto social, legalidade, racionalidade administrativa e critérios técnicos passam a ser fortemente pressionadas por bancadas religiosas, cria-se uma crise de confiança em dois níveis.


Primeiro, uma crise de confiança na política. O cidadão passa a suspeitar de que o interesse público foi substituído por barganha moral, clientelismo confessional ou captura simbólica do Estado.


Segundo, uma crise de confiança na própria religião institucional. A fé, que para muitos deveria remeter a transcendência, ética, mistério, interioridade e cuidado com o outro, aparece reduzida a instrumento de recrutamento eleitoral, disciplina de comportamento e guerra cultural. Para uma consciência intelectual mais exigente, isso pode produzir rejeição.


Essa rejeição, porém, não precisa desembocar imediatamente em ateísmo filosófico. Em muitos casos, ela assume a forma de distanciamento institucional: a pessoa continua crendo em Deus, em alguma ordem transcendente, em valores espirituais ou em uma dimensão não redutível da existência, mas se afasta das igrejas, das lideranças e das estruturas religiosas que passaram a confundir sagrado com poder.


Aqui Bauman é especialmente elucidativo. Em sua leitura da modernidade líquida, instituições antes estáveis perdem densidade, e indivíduos passam a desconfiar de vínculos rígidos, totais e duradouros. Essa lógica não atinge apenas casamento, trabalho ou identidade; atinge também religião. A fé pode permanecer, mas a confiança na instituição se dissolve.


Ateísmo, desafiliação e religiosidade líquida: três coisas diferentes


O debate brasileiro se torna pobre quando essas três categorias são tratadas como sinônimas.


Ateísmo é a negação ou não aceitação da existência de Deus ou de uma realidade transcendente.


Desafiliação religiosa é o desligamento de uma instituição, tradição ou comunidade religiosa específica.


Religiosidade líquida é outra coisa: é uma forma contemporânea de viver a espiritualidade de modo mais móvel, seletivo, híbrido, revisável e pouco subordinado a lealdades duradouras.


Essas distinções são indispensáveis. Uma pessoa pode tornar-se ateia após observar a captura política da religião? Sim, isso é possível. Mas também pode ocorrer algo mais frequente e mais sociologicamente fino: a pessoa não abandona a dimensão espiritual da vida, porém abandona a confiança em igrejas e lideranças que lhe parecem excessivamente instrumentalizadas pela política.


Os dados internacionais reforçam a importância dessa cautela. O crescimento dos “não afiliados” não se confunde automaticamente com crescimento dos ateus. O exemplo norte-americano é claríssimo: entre os 29% de não afiliados, só uma parte se define como ateia.  Logo, o afastamento institucional pode significar menos uma morte do sagrado e mais uma crise de legitimidade das formas tradicionais de mediação religiosa.


No Brasil, isso parece particularmente relevante porque o campo religioso segue vibrante e numeroso, ao mesmo tempo em que cresce o contingente sem religião. Essa combinação sugere que a sociedade não está deixando simplesmente de buscar sentido; ela está reconfigurando as formas de pertencimento e de autoridade.


A hipótese sociológica: por que parte dos mais intelectualizados se afasta


Sua percepção sobre “algumas pessoas mais intelectuais” merece ser formulada com precisão. Não se trata de afirmar que inteligência leva ao ateísmo. Isso seria reducionista e empiricamente frágil. O ponto mais defensável é outro: determinados grupos com maior escolarização, maior exigência argumentativa e maior sensibilidade à separação entre esfera pública e convicção privada podem reagir negativamente quando percebem que a religião institucional deixou de ser mediação ética e passou a operar como mecanismo de poder.


Esse afastamento pode ser motivado por pelo menos quatro fatores.


O primeiro é epistemológico: decisões públicas exigem justificativas abertas ao contraditório, não apenas fundamentos confessionais.


O segundo é ético: muitos rejeitam a instrumentalização da fé para obtenção de poder ou controle social.


O terceiro é político: a fusão entre religião e agenda legislativa pode ser percebida como ameaça ao pluralismo e à laicidade.


O quarto é simbólico: quando a religião se torna linguagem de exclusão, policiamento moral ou guerra cultural, ela perde, para certos sujeitos, seu prestígio espiritual.


Nesses casos, a saída pode assumir formas diferentes. Alguns aderem ao ateísmo. Outros migram para o agnosticismo. Outros permanecem espirituais sem igreja. Outros ainda mantêm fé privada, porém recusam pertencimento. Em todos esses casos, a religiosidade herdada cede espaço a trajetórias biográficas mais fluidas. Eis o núcleo da religiosidade líquida.


O equívoco central do debate brasileiro


Talvez o maior erro analítico esteja justamente onde o senhor apontou: confundir os valores místicos da religiosidade humana com o conceito de religiosidade líquida.


Os valores místicos da religiosidade humana dizem respeito à abertura ao transcendente, à experiência do mistério, ao símbolo, ao rito, ao assombro, à interioridade, ao desejo de sentido e à relação com aquilo que ultrapassa o mero cálculo utilitário.


Já a religiosidade líquida não define o conteúdo espiritual em si. Ela define a forma social contemporânea sob a qual esse conteúdo passa a ser vivido. Nessa forma, a fé tende a ser mais instável, mais individualizada, menos herdada, menos obediente a instituições fixas e mais sujeita à lógica da escolha, do consumo simbólico e da revisão permanente.


Portanto, quando alguém rejeita a captura partidária ou parlamentar da religião, isso não significa necessariamente rejeição da mística, do sagrado ou da transcendência. Muitas vezes significa justamente o contrário: tentativa de separar a dimensão espiritual da sua apropriação por máquinas de poder.


Essa distinção é vital para o Brasil de hoje. Se ela não for feita, qualquer crítica à instrumentalização política da religião será lida como ataque à religiosidade em si. E qualquer defesa da experiência espiritual será confundida com apoio automático à expansão do poder religioso institucional sobre o Estado. Essa confusão empobrece o debate e radicaliza posições desnecessariamente.


Conclusão


O Brasil contemporâneo oferece um caso muito expressivo de tensão entre vitalidade religiosa, pluralização do campo de crenças e crescente influência parlamentar de grupos confessionais. Os dados do Censo 2022 mostram que o país continua majoritariamente religioso, mas com expansão dos sem religião e com maior fluidez identitária.  Ao mesmo tempo, a existência formal e robusta de frentes parlamentares religiosas confirma que a religião se converteu também em força organizada de agenda dentro do Estado. 


Nesse cenário, sua hipótese é intelectualmente forte: a intensificação da influência religiosa sobre decisões que deveriam ser justificadas por critérios técnicos e universais pode contribuir para o afastamento de parte dos setores mais críticos e intelectualizados. Mas esse afastamento não deve ser lido de modo simplista como mera explosão de ateísmo. Em muitos casos, ele parece corresponder a algo mais sutil e mais profundo: uma crise de legitimidade da religião institucional e uma migração para formas mais fluidas, privadas e seletivas de espiritualidade.


Em termos baumanianos, o que se vê não é necessariamente o fim da religião, mas sua liquefação. O sagrado não desaparece; ele perde forma fixa. A fé não morre; ela se descola da herança automática e da obediência estável. A experiência religiosa continua possível, mas cada vez menos garantida por instituições sólidas e cada vez mais atravessada por escolhas individuais, desconfiança institucional e reconfigurações culturais. O risco, para a democracia, é que a religião instrumentalizada produza simultaneamente dois efeitos perversos: de um lado, capture a política; de outro, desgaste a própria credibilidade espiritual que afirma defender. O risco, para a análise, é não perceber que entre a crença total e o ateísmo há um vasto território sociológico: o da religiosidade líquida.


Referências


BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.


BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.


BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar.


BRASIL. Câmara dos Deputados. Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional. Disponível em: portal da Câmara dos Deputados. Acesso em: 11 abr. 2026. 


BRASIL. Câmara dos Deputados. Frentes Parlamentares da 57ª Legislatura. Disponível em: portal da Câmara dos Deputados. Acesso em: 11 abr. 2026. 


IBGE. Censo 2022: católicos seguem em queda; evangélicos e sem religião crescem no país. Agência de Notícias, 6 jun. 2025. 


PEW RESEARCH CENTER. Religious identity in the United States. 26 fev. 2025. 



Religião, política e algoritmos na modernidade líquida

Como Bauman ajuda a compreender a disputa moral das novas gerações entre líderes religiosos, igrejas digitais e plataformas de atenção


Índice

  1. Lide
  2. O que significa pensar uma política da religiosidade líquida
  3. Bauman: vínculos frágeis, poder disperso e cultura em fluxo
  4. Da autoridade herdada à autoridade performática
  5. Igrejas digitais e o sagrado em regime de conexão
  6. Algoritmos como curadores invisíveis da experiência religiosa
  7. A nova geração entre desafiliação, busca espiritual e consumo de sentido
  8. Quando a religião entra na arena política por meio das plataformas
  9. O risco da moral instantânea e da indignação programada
  10. Conclusão
  11. Referências


A religiosidade líquida não afeta apenas a fé privada; ela reorganiza também a formação moral, a autoridade simbólica e a própria disputa política no Ocidente. Em uma época descrita por Zygmunt Bauman como marcada pela fragilidade dos vínculos, pela dissolução de formas duráveis e pela substituição de estruturas por redes, a religião deixa de ser apenas herança familiar ou pertença estável e passa a circular como oferta, conexão, conteúdo e performance. Nesse cenário, líderes religiosos já não disputam somente fiéis dentro dos templos, mas atenção dentro das plataformas; igrejas já não operam apenas como comunidades locais, mas como ecossistemas midiáticos; e algoritmos passam a selecionar quais sermões, indignações, símbolos e guerras culturais serão vistos, repetidos e internalizados pelas novas gerações. Ao mesmo tempo, dados recentes mostram que o desligamento da religião herdada cresceu em muitos países, que a desafiliação é expressiva entre jovens adultos e que o universo digital ocupa posição estrutural na vida cotidiana dos adolescentes. A questão já não é apenas se os jovens têm ou não religião, mas quem, como e por quais mediações está formando sua imaginação moral.  Em muitos países, grandes contingentes de adultos deixaram a religião da infância, e a categoria dos religiosamente não afiliados tem registrado ganhos líquidos por mudança religiosa. Nos Estados Unidos, pesquisas recentes também não mostram evidência clara de um “grande avivamento” nacional entre jovens adultos, ainda que existam movimentos localizados e maior visibilidade digital de experiências religiosas. 


O que significa pensar uma política da religiosidade líquida


Pensar religião, política e algoritmos a partir de Bauman exige ir além da sociologia tradicional da secularização. O problema central não é apenas que menos pessoas obedecem automaticamente à religião dos pais ou dos avós. O problema é que a própria religião foi deslocada para um ambiente histórico em que quase tudo circula sob o signo da escolha individual, da revisão permanente, da competição por atenção e da curta duração.


Em Tempos líquidos, Bauman descreve uma condição em que as organizações sociais já não conseguem manter sua forma por muito tempo, o poder se afasta da política e os indivíduos são lançados a um universo de incerteza e responsabilidade privatizada.  Em Amor líquido, ele mostra que o sujeito contemporâneo deseja vínculo, mas teme seu peso; precisa conectar-se, mas quer preservar a reversibilidade da conexão.  Em A cultura no mundo líquido moderno, ele sugere que a cultura deixou de operar prioritariamente como formação durável para operar como circuito de ofertas, estímulos e seduções. 


Aplicado ao fenômeno religioso, isso significa que a fé passa a habitar o mesmo ambiente das mercadorias simbólicas, dos influenciadores, dos fluxos emocionais, das identidades moduláveis e das redes que conectam e desconectam sem grande custo estrutural. A religião continua presente, mas sua forma social muda. Ela se torna mais móvel, mais midiática, mais seletiva e mais exposta à lógica política da visibilidade.


Bauman: vínculos frágeis, poder disperso e cultura em fluxo


Há três ideias de Bauman especialmente úteis aqui.


A primeira é a de que a modernidade líquida dissolve as estruturas longas que antes ofereciam estabilidade à experiência. Isso enfraquece a transmissão religiosa familiar e comunitária, porque a tradição já não encontra as mesmas condições institucionais de repetição. 


A segunda é o divórcio entre poder e política. Bauman sustenta que o poder efetivo se desloca para esferas extraterritoriais e globalizadas, enquanto a política continua local e fragilizada.  Hoje, parte desse poder simbólico circula pelas plataformas digitais: elas não são igrejas, não são parlamentos, não são escolas, mas condicionam fortemente a circulação da crença, da moral e da indignação.


A terceira é a transformação da cultura. Em vez de consolidar identidades estáveis, a cultura líquido-moderna passa a estimular a mutação constante.  Isso atinge diretamente a religião. O fiel herdado cede lugar ao usuário de repertórios espirituais; a ortodoxia densa cede espaço, em muitos casos, à curadoria pessoal do sagrado.


Da autoridade herdada à autoridade performática


Nas gerações anteriores, a autoridade religiosa costumava ser transmitida por uma cadeia relativamente sólida: família, comunidade, templo, rito, tradição, clero, calendário. O padre, o pastor, o rabino, o dirigente ou o ancião tinham autoridade porque ocupavam um lugar reconhecido numa estrutura durável.


Na modernidade líquida, essa autoridade não desaparece por completo, mas perde exclusividade. Ela passa a competir com uma nova forma de autoridade: a autoridade performática, isto é, aquela que nasce da capacidade de circular, engajar, emocionar, viralizar e fixar atenção. O líder religioso continua podendo ser institucional, mas seu alcance é cada vez mais mediado por linguagem audiovisual, presença em rede, carisma de plataforma e capacidade de leitura algorítmica do ambiente público.


Isso altera profundamente a política da religião. O líder que antes formava fiéis por convivência prolongada agora frequentemente forma públicos por contato recorrente, porém fragmentado. Ele fala menos a uma comunidade estável e mais a uma audiência oscilante. Seu sermão já não compete apenas com outros sermões; compete com influenciadores, entretenimento, escândalos, notícia, memes, guerra cultural e economia da distração.


Igrejas digitais e o sagrado em regime de conexão


As igrejas digitais são um dos fenômenos mais expressivos dessa mutação. Não se trata apenas de transmissão de cultos. Trata-se de uma reorganização do religioso em linguagem de plataforma: cortes curtos, pregação em formato de vídeo vertical, discipulado por comunidades de mensagem, aconselhamento por direct, identidade de grupo mediada por hashtags, pastoreio parcial por lives, consumo de doutrina por recomendação algorítmica.


Esse processo tem ganhos claros. Amplia acesso, reduz barreiras geográficas, aproxima jovens que talvez nunca entrassem num templo tradicional, permite circulação de formação religiosa e cria novas portas de entrada para a experiência espiritual. Mas ele também produz uma transformação estrutural: a religião entra em regime de conexão, e não necessariamente em regime de pertença duradoura.


Bauman antecipou algo semelhante ao mostrar que a rede serve tanto para conectar quanto para desconectar, e que a lógica das conexões tende a deslocar a lógica dos relacionamentos densos.  O problema, no campo religioso, é que uma conexão espiritual recorrente não equivale automaticamente a uma comunidade ética robusta. Pode haver proximidade simbólica sem responsabilidade compartilhada. Pode haver identidade declarada sem disciplina formativa. Pode haver presença digital sem enraizamento.


Algoritmos como curadores invisíveis da experiência religiosa


É aqui que os algoritmos entram como elemento decisivo. Eles não criam a religião, mas organizam sua visibilidade. Em grande parte, eles decidem qual conteúdo será mais visto, repetido, monetizado e emocionalmente reforçado. Em outras palavras: os algoritmos funcionam como curadores invisíveis de parte relevante da experiência religiosa contemporânea.


Isso é especialmente importante para as novas gerações. Nos Estados Unidos, pesquisa do Pew Research Center mostrou que 96% dos adolescentes usam internet diariamente, quase metade diz estar online “quase constantemente”, 73% acessam YouTube todos os dias, cerca de seis em cada dez acessam TikTok diariamente, e um terço usa pelo menos uma grande plataforma quase o tempo todo.  Esses dados não são religiosos em si, mas têm efeito religioso direto: é nesse ambiente que muitos jovens hoje encontram linguagem moral, pertencimento simbólico, referências de fé e líderes de autoridade difusa.


A UNESCO também tem alertado para o peso dos criadores de conteúdo na esfera pública digital. Em sua iniciativa sobre creators, a organização afirma que influenciadores se tornaram importantes disseminadores de informação e registra que 62% dos “news influencers” não verificam sistematicamente a informação antes de compartilhá-la; 42% usam curtidas e visualizações como critério de credibilidade; e 73% dizem querer formação em alfabetização midiática e informacional. 


Quando esse ecossistema se cruza com religião e política, o problema se adensa. Não se trata apenas de doutrina mal explicada ou simplificada. Trata-se de uma formação moral mediada por mecanismos de recompensa que favorecem impacto, velocidade, reforço identitário e polarização.


A nova geração entre desafiliação, busca espiritual e consumo de sentido


Os dados mais recentes mostram que a relação das novas gerações com a religião é mais complexa do que a fórmula simplista “os jovens abandonaram a fé” sugere. Em vários países, muitas pessoas têm deixado a religião da infância; o crescimento dos religiosamente não afiliados é expressivo; e, entre jovens adultos, a desafiliação segue relevante. O Pew encontrou, em 36 países, que em muitos deles uma parcela significativa dos adultos abandonou o grupo religioso em que foi criada, e que os “sem religião” aparecem como a categoria com maiores ganhos líquidos por switching. 


Nos Estados Unidos, o PRRI mostrou que, entre 18 e 29 anos, a proporção de pessoas religiosamente não afiliadas subiu de 32% em 2013 para 38% em 2024; entre as mulheres jovens, chegou a 40%, enquanto entre homens jovens ficou em 36%. A mesma análise também encontrou declínio na frequência semanal a serviços religiosos entre mulheres jovens e aumento da parcela que diz que a religião não é importante em sua vida. 


Ao mesmo tempo, o próprio Pew advertiu, no fim de 2025, que pesquisas recentes não indicam evidência clara de um amplo renascimento religioso nacional entre jovens adultos norte-americanos.  Isso é importante porque impede diagnósticos apressados. A nova geração não cabe numa única categoria. Ela mistura desafiliação, busca espiritual, experimentação moral, consumo seletivo de tradição, presença digital intensa e desejo de autenticidade.


É justamente essa ambivalência que Bauman ajuda a compreender. O jovem líquido não rejeita necessariamente o sentido; ele rejeita com frequência os formatos pesados, totais e não revisáveis de autoridade. Quer comunidade, mas teme clausura. Quer transcendência, mas desconfia de captura institucional. Quer linguagem moral, mas sob condição de autonomia biográfica.


Quando a religião entra na arena política por meio das plataformas


A politização contemporânea da religião não ocorre apenas por partidos, eleições ou púlpitos tradicionais. Ela ocorre também por ecossistemas digitais de influência. Líderes religiosos, igrejas online, perfis de comentário moral, canais confessionais e páginas de guerra cultural disputam enquadramentos do mundo: família, gênero, nação, guerra, escola, sexualidade, liberdade, autoridade, justiça, sofrimento, inimigo.


Nesse ponto, Bauman continua extremamente atual. Quando ele fala da separação entre poder e política, ajuda a perceber que parte do poder de moldar sensibilidades já não está nas instituições democráticas clássicas, mas em redes transversais de circulação simbólica.  A religião, então, torna-se uma das linguagens mais eficazes para oferecer orientação existencial num mundo fragmentado. E, por isso mesmo, torna-se também um recurso político muito poderoso.


A plataforma favorece mensagens claras, fortes, emocionais e identitárias. Logo, tende a premiar menos a tradição refletida e mais o conteúdo que organiza medos, fornece inimigos e oferece sensação de pertencimento imediato. O líder religioso digitalmente eficaz nem sempre é o mais teologicamente profundo; muitas vezes é o mais adaptado à gramática algorítmica da atenção.


O risco da moral instantânea e da indignação programada


Aqui emerge talvez o ponto mais delicado. Em Modernidade e Holocausto, Bauman insiste que a distância social e a mediação técnica podem reduzir a responsabilidade moral e facilitar formas de indiferença. Ele fala da produção social da invisibilidade moral e da necessidade de uma ética da distância e das consequências distantes.


Transportado para o mundo digital-religioso, esse alerta é crucial. A moral pode tornar-se instantânea, altamente reativa e pouco reflexiva. Julga-se rápido, partilha-se rápido, condena-se rápido, absolve-se rápido. A religião corre então o risco de ser usada menos como via de aprofundamento ético e mais como mecanismo de aceleração afetiva da política.


A indignação programada é um exemplo claro. O algoritmo aprende que certos temas mobilizam medo, raiva, fervor e lealdade grupal; logo, entrega mais desse conteúdo. O resultado não é apenas polarização. É uma espécie de catequese emocional automatizada, na qual o feed vai selecionando quais causas merecem compaixão, quais grupos merecem suspeita, quais símbolos merecem veneração e quais inimigos merecem combate.


Nesse ambiente, forma-se uma religiosidade politicamente eficiente, porém muitas vezes moralmente rasa. Fala-se muito em verdade, mas sob baixa capacidade de escuta; fala-se muito em valores, mas sob forte seletividade; fala-se muito em comunidade, mas frequentemente em comunidade contra alguém.


Conclusão


O encontro entre Bauman, religiosidade líquida e política digital revela uma mudança profunda na formação moral das novas gerações. A religião já não pode ser pensada apenas como herança comunitária nem apenas como crença privada. Ela passou a circular como linguagem de identidade, conteúdo de plataforma, repertório político e mercadoria simbólica. Nesse processo, líderes religiosos tornaram-se também mediadores de atenção; igrejas passaram a operar como ecossistemas comunicacionais; e algoritmos assumiram, sem mandato democrático nem responsabilidade pastoral, um papel poderoso na curadoria do visível e do crível.


Os dados mais recentes sugerem um quadro complexo: cresce a desafiliação em muitos contextos, a tradição herdada perde automaticidade, e não há prova robusta de um grande retorno geral da juventude à religião organizada nos Estados Unidos, embora existam sinais localizados e visíveis de interesse espiritual e engajamento.  Ao mesmo tempo, a vida digital é tão intensa entre adolescentes e jovens que ignorar seu papel na formação religiosa e política seria intelectualmente ingênuo. 


O grande desafio do Ocidente, nesse cenário, não é apenas “trazer os jovens de volta” nem simplesmente celebrar toda forma de espiritualidade conectada. O desafio é mais difícil: construir comunidades éticas densas, intelectualmente honestas e politicamente responsáveis em uma civilização treinada para o fluxo, a reversibilidade e a excitação contínua. Bauman diria que o problema do nosso tempo é reunir novamente o que foi separado: vínculo e liberdade, cultura e responsabilidade, poder e política. No campo religioso, isso significa talvez reunir de novo fé e formação, presença e comunidade, convicção e prudência, transcendência e responsabilidade pelo outro. Sem isso, a religião corre o risco de sobreviver, sim, mas em estado líquido demais para sustentar uma moral pública à altura da crise contemporânea.


Referências


BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. 


BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. 


BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. 


BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar. 


PEW RESEARCH CENTER. Around the world, many people are leaving their childhood religions. 26 mar. 2025. 


PEW RESEARCH CENTER. Religion holds steady in America: recent polling shows no clear evidence of a religious revival among young adults. 8 dez. 2025. 


PEW RESEARCH CENTER. Teens, social media and technology 2024. 12 dez. 2024. 


PRRI. Gen Z, gender, and religion. 5 mar. 2025. 


UNESCO. UNESCO trains digital content creators to become trusted voices online. atual. 18 mar. 2025. 


UNESCO. Empowering digital content creators as trusted information relays. 2025.