quinta-feira, 2 de abril de 2026

Patriotismo de vitrine, dependência de fundo: O bolsonarismo fala em soberania, mas oferece ao Brasil o papel de fornecedor mineral de uma estratégia desenhada em Washington

 


O bolsonarismo gosta de falar grosso em nome da pátria. Invoca bandeira, hino, Deus, ordem, autoridade, tradição e soberania. Faz do patriotismo uma estética permanente. Mas, quando se observa o conteúdo material de seu projeto de poder, o que aparece não é um plano de fortalecimento nacional. O que aparece é outra coisa: um país empurrado para a condição de fornecedor de recursos estratégicos, de parceiro subalterno dos Estados Unidos e de economia resignada à baixa densidade industrial. A retórica é nacionalista; a prática é dependente.


Essa contradição ficou quase didaticamente exposta quando Flávio Bolsonaro afirmou, em março de 2026, em conferência nos Estados Unidos, que o Brasil seria “a solução dos EUA” para o acesso a minerais críticos e terras raras. A frase não é um detalhe, nem mero exagero de palco. Ela revela um modo de pensar. Em vez de apresentar o Brasil como nação que deve transformar seus recursos estratégicos em base de industrialização, inovação e autonomia tecnológica, a declaração o coloca como peça funcional de uma engrenagem externa: a estratégia norte-americana de reduzir dependências em relação à China. É uma fala que desloca o centro do problema. O foco deixa de ser o desenvolvimento brasileiro e passa a ser a conveniência geopolítica de Washington (CNN Brasil, 2026; Estado de Minas, 2026). 


É exatamente aí que se revela a pobreza estrutural do bolsonarismo como projeto nacional. Um país sério pergunta: como converter terras raras, lítio, nióbio, grafita, níquel e outros minerais críticos em cadeias industriais, centros de pesquisa, capacidade tecnológica, empregos qualificados e soberania produtiva? O bolsonarismo, ao que tudo indica, pergunta outra coisa: como usar esses ativos para reforçar vínculos políticos com os Estados Unidos? A diferença entre uma pergunta e outra é a diferença entre projeto de país e mentalidade colonial.


A questão mineral não é secundária. O próprio Estado brasileiro vem reconhecendo, por meio de estudos e documentos oficiais recentes, que os minerais estratégicos ocupam posição central na transição energética, na indústria de alta tecnologia, nas cadeias globais de valor e nas disputas geoeconômicas contemporâneas. Em março de 2026, a Casa Civil divulgou estudo com dados atualizados sobre reservas, produção e potencial brasileiro para nióbio, grafita, níquel, terras raras e lítio; no mesmo período, o Ministério de Minas e Energia destacou o papel desses insumos nas cadeias da transição energética e publicou um guia voltado a investimentos na cadeia mineral. Em outras palavras: o tema é estratégico para o século XXI, não apenas comercial (Casa Civil, 2026; MME, 2026a; MME, 2026b). 


Mas recursos estratégicos, por si sós, não fazem uma nação soberana. Essa é uma ilusão primária, quase geológica. O minério sai do subsolo; o desenvolvimento, não. Desenvolvimento exige Estado, coordenação, investimento, política industrial, ciência, engenharia, infraestrutura, crédito, conteúdo nacional, adensamento tecnológico e visão histórica. Sem isso, a riqueza mineral apenas muda de mãos. Sai da terra brasileira e entra na cadeia produtiva alheia. O país fica com o buraco, a dependência e, em muitos casos, a devastação territorial. Outros ficam com a tecnologia, a indústria, as patentes e o valor agregado.


É por isso que o debate sobre industrialização precisa voltar ao centro. O Brasil já conhece, há décadas, o custo da reprimarização e da perda de densidade manufatureira. Os dados do Banco Mundial mostram a longa redução da participação da indústria de transformação no PIB brasileiro, e a CNI voltou a alertar em 2026 para sinais que reacendem o risco de desindustrialização. Não se trata de nostalgia de fábrica nem de fetiche desenvolvimentista. Trata-se de reconhecer um fato elementar: países que não dominam etapas relevantes da produção complexa tornam-se estruturalmente vulneráveis, tecnologicamente dependentes e politicamente mais frágeis (World Bank, 2026; CNI, 2026). 


Nesse contexto, o histórico bolsonarista pesa contra qualquer pretensão de se apresentar como força comprometida com a reconstrução produtiva do país. Ainda antes da posse de Jair Bolsonaro, a proposta de extinguir o Ministério da Indústria e absorver suas funções no superministério da Economia foi criticada pela Confederação Nacional da Indústria e noticiada pela Agência Brasil. O gesto tinha valor simbólico e institucional: num país já marcado por enfraquecimento industrial, reduzir a centralidade política da indústria não era modernização; era rebaixamento estratégico (Agência Brasil, 2018a; Agência Brasil, 2018b). 


O contraste com a retomada recente da política industrial é eloquente. A Nova Indústria Brasil, lançada em janeiro de 2024, recolocou oficialmente no centro do debate metas de desenvolvimento produtivo, tecnológico e industrial até 2033, com missões definidas e instrumentos públicos articulados. Pode-se discutir sua execução, sua escala, seus gargalos e seus limites. Mas há nela um reconhecimento essencial: o Brasil não sairá da armadilha da dependência apenas exportando commodities, ainda que sejam commodities sofisticadas do ponto de vista geológico. É preciso transformar recursos em capacidade nacional (MDIC, 2024; Ministério da Fazenda, 2026). 


É aqui que a retórica patriótica do bolsonarismo começa a ruir como cenário de papelão. Porque não existe soberania real sem soberania produtiva. Não existe independência nacional baseada apenas em exportação mineral. Não existe projeto de potência em uma economia que aceita para si o papel de almoxarifado de insumos estratégicos de outros países. Falar em pátria enquanto se oferece o país como solução mineral para interesses externos não é nacionalismo. É marketing político aplicado à dependência.


Alguns dirão que isso é exagero, que negociar com os Estados Unidos é natural, que o Brasil deve vender para quem paga melhor. Em tese, sim. Nenhum país vive de isolamento. O problema não é comerciar; é se posicionar no comércio mundial como quem já aceitou o próprio lugar subalterno. Há uma diferença profunda entre negociar com firmeza e se apresentar como peça de reposição da geopolítica alheia. Uma coisa é vender com estratégia nacional. Outra, muito diferente, é discursar como se o destino brasileiro fosse ser útil ao rearranjo industrial e militar de Washington.


Esse traço não surge do nada. Ele dialoga com a lógica mais ampla do bolsonarismo na política externa. Desde 2019, análises e reportagens registraram o alinhamento fortemente ideológico de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, inclusive em detrimento de uma tradição diplomática brasileira mais pragmática e mais plural. O problema desse tipo de alinhamento não é apenas simbólico. Ele estreita a margem de manobra do país, embaralha interesse nacional com afinidade ideológica e transforma política externa em fidelidade de facção (Reuters, 2019). 


O efeito final é perverso. O bolsonarismo vende ao público interno a imagem de força, altivez e patriotismo, mas projeta externamente um Brasil disponível, útil e funcional aos interesses de uma potência estrangeira. É como se a bandeira servisse para ocultar o contrato implícito. Grita-se “soberania” no palanque, enquanto se naturaliza a subordinação na prática. O país aparece não como sujeito estratégico, mas como território de oferta: terras, minérios, commodities, mercado consumidor e adesão política.


Esse é o ponto central que precisa ser dito sem rodeios: um projeto que trata as terras raras brasileiras como ativo prioritariamente voltado a atender a ansiedade estratégica dos Estados Unidos, sem colocar no centro a industrialização nacional, não é um projeto de soberania; é um projeto de dependência ornamentado por retórica patriótica.


Não se trata de ser “contra os EUA”. Essa formulação infantiliza um debate sério. Trata-se de ser a favor do Brasil. E ser a favor do Brasil, neste caso, significa defender pelo menos seis compromissos elementares: controle nacional sobre recursos estratégicos; agregação de valor no território brasileiro; metas de processamento e transformação industrial; exigências de conteúdo local e transferência tecnológica; integração entre mineração, ciência e indústria; e inserção internacional guiada por interesse nacional, não por servilismo ideológico. Sem isso, terras raras podem até enriquecer alguns grupos econômicos, mas não construirão soberania.


O Brasil está diante de uma escolha histórica. Pode repetir seu velho roteiro periférico — exportar riqueza bruta e importar dependência sofisticada — ou pode usar sua base mineral como alicerce de reindustrialização, autonomia tecnológica e reconstrução do poder nacional. O bolsonarismo, até aqui, tem indicado com clareza de que lado está. Não do lado da industrialização brasileira, mas do lado da utilidade brasileira. Não do lado da soberania substantiva, mas do lado da obediência ideológica travestida de patriotismo.



Conclusão



A contradição do bolsonarismo não é acidental; é estrutural. Sua linguagem pública é a do nacionalismo, mas sua imaginação econômica e geopolítica é a da subordinação. Ao apresentar o Brasil como “solução” para a demanda estratégica dos Estados Unidos por minerais críticos, sem vincular esse ativo a um projeto robusto de industrialização, tecnologia e poder nacional, esse campo político confirma que seu patriotismo é mais cênico do que programático. O país que daí emerge não é soberano: é útil. Não é industrialmente ambicioso: é extrativamente disponível. Não é protagonista: é peça auxiliar. E um Brasil reduzido a fornecedor estratégico de potências externas pode até vestir a fantasia da grandeza, mas continuará preso à velha condição periférica que as elites dependentes sempre aceitaram com excessiva facilidade.



Referências



AGÊNCIA BRASIL. CNI quer permanência de ministério ameaçado de extinção por Bolsonaro. Brasília, 22 out. 2018a. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


AGÊNCIA BRASIL. CNI volta a se manifestar contra extinção do Ministério da Indústria. Brasília, 30 out. 2018b. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


CASA CIVIL. Estudo detalha panorama do potencial de minerais estratégicos no Brasil. Brasília, 3 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Flávio diz que Brasil é “solução para EUA ter minerais de terras raras”. Brasília, 30 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA. CNI se manifesta contra extinção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Brasília, 30 out. 2018. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


ESTADO DE MINAS. Flávio Bolsonaro: “Brasil é solução para os EUA ter minerais de terras raras”. Belo Horizonte, 29 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


MINISTÉRIO DA FAZENDA. Nova Indústria Brasil. Brasília, 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Guia do investidor estrangeiro em minerais críticos. Brasília, 2026a. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. MME publica Guia do Investidor 2026 para fortalecer atração de investimentos estrangeiros em minerais críticos. Brasília, 2 mar. 2026b. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS. Brasil ganha nova política industrial com metas e ações para o desenvolvimento até 2033. Brasília, 22 jan. 2024. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


REUTERS. Bolsonaro touts “changed”, U.S.-friendly Brazil to Washington. 18 mar. 2019. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


WORLD BANK. Manufacturing, value added (% of GDP) - Brazil. Washington, DC, 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 

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