segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Leviatã Digital e a corrupção da discordância

Nietzsche, bolhas políticas e o risco democrático nas eleições brasileiras de 2026


Lide

A frase atribuída a Friedrich Nietzsche — “a maneira mais segura de corromper um jovem é instruí-lo a ter em maior estima aqueles que pensam como ele do que aqueles que pensam diferente” — parece ter sido escrita para o nosso tempo. Ao lê-la, não penso apenas na juventude biológica, mas na juventude política de uma sociedade que ainda aprende, com dor, a viver democraticamente. O Brasil das últimas eleições presidenciais mostrou como a recusa da diferença pode ser transformada em método político, combustível eleitoral e arma de guerra cultural. Em 2026, mesmo com Jair Bolsonaro declarado inelegível pelo TSE por oito anos a partir das eleições de 2022, o bolsonarismo permanece como força simbólica, afetiva e digital capaz de reorganizar ressentimentos, medos e identidades políticas. O perigo, agora, não está apenas no líder, mas no sistema que aprendeu a fabricar obediência emocional em escala industrial. É aqui que entra o Leviatã Digital: a máquina invisível das plataformas, dos algoritmos, das bolhas, dos disparos, da inteligência artificial generativa e das narrativas que transformam divergência em inimigo.

O Tribunal Superior Eleitoral declarou Bolsonaro inelegível em 2023 por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, reconhecendo que ataques infundados ao sistema eleitoral afetam a confiança democrática.   Em 2024, o próprio TSE regulamentou o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral, proibindo deepfakes e exigindo identificação de conteúdos sintéticos, sinal de que o campo eleitoral entrou definitivamente na era da manipulação algorítmica.  


Artigo

Eu começo por Nietzsche porque há frases que envelhecem como advertências. Não são apenas pensamentos bonitos para circular em redes sociais; são lâminas conceituais. Quando leio que a forma mais segura de corromper um jovem é ensiná-lo a valorizar mais quem pensa como ele do que quem pensa diferente, vejo diante de mim o retrato moral da política contemporânea. A corrupção, nesse caso, não é apenas financeira, institucional ou jurídica. É uma corrupção da alma pública. É a deformação da capacidade de escutar. É a transformação da diferença em ameaça. É a substituição da inteligência pela fidelidade tribal.

A frase é atribuída a Nietzsche e aparece associada à obra Aurora, de 1881, em registros como o do Smithsonian American Art Museum.   Ainda que a circulação popular simplifique muitas vezes o contexto filosófico, o sentido permanece poderoso: uma sociedade se empobrece quando ensina seus jovens — e também seus adultos — a desconfiar do pensamento divergente. O problema não é concordar com os semelhantes. O problema é acreditar que somente os semelhantes merecem respeito.

Essa é a semente de toda política autoritária. Antes de destruir instituições, ela destrói a escuta. Antes de atacar tribunais, universidades, imprensa, ciência e Parlamento, ela ataca a disposição íntima de conviver com a diferença. Antes de prender corpos, aprisiona a imaginação. O autoritarismo começa quando o outro deixa de ser adversário e passa a ser inimigo moral.

Nas eleições brasileiras em que Jair Bolsonaro foi candidato, especialmente em 2018 e 2022, esse fenômeno apareceu de modo intenso. Não se tratou apenas de uma disputa convencional entre projetos de governo. Tratou-se de uma reorganização afetiva da política brasileira. A eleição virou campo de batalha identitária. Famílias se dividiram. Grupos de WhatsApp se transformaram em trincheiras. A imprensa foi apresentada como inimiga. A Justiça Eleitoral foi atacada. A ciência, durante a pandemia, foi relativizada. A urna eletrônica, sem prova consistente de fraude, tornou-se alvo permanente de suspeição.

O ponto central não é dizer que todo eleitor de Bolsonaro seja autoritário. Isso seria intelectualmente pobre e politicamente injusto. O ponto é outro: o bolsonarismo, como fenômeno político, soube explorar uma fragilidade humana profunda — o desejo de pertencer. Em momentos de medo, crise econômica, insegurança social e descrença institucional, muita gente prefere uma narrativa simples a uma explicação complexa. Prefere um culpado visível a uma análise estrutural. Prefere uma comunidade emocional a uma democracia cheia de dúvidas.

É exatamente aí que Nietzsche se torna atual. Corromper um jovem — ou um eleitor — é ensiná-lo a confundir pensamento crítico com traição. É ensiná-lo a ver o contraditório como ameaça. É fazê-lo acreditar que a verdade está sempre com o grupo, nunca com o argumento. Quando isso acontece, a política deixa de ser exercício público da razão e passa a ser liturgia de pertencimento.

O Brasil viveu isso com força. Em 2022, a desconfiança contra o sistema eleitoral foi alimentada de maneira sistemática. O TSE reconheceu, ao declarar Bolsonaro inelegível, que houve abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação em reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada, na qual se atacou a credibilidade do processo eleitoral brasileiro.   O fato é grave porque não se tratava de um cidadão comum emitindo opinião privada. Tratava-se do chefe de Estado usando sua posição institucional para corroer a confiança no próprio sistema pelo qual havia sido eleito.

Essa corrosão é uma das formas mais perigosas de violência política moderna. Não precisa necessariamente de tanques nas ruas para começar. Basta semear a dúvida permanente. Basta repetir que nada é confiável. Basta insinuar que toda derrota é fraude. Basta convencer uma base política de que as instituições só são legítimas quando confirmam sua vontade.

O nome disso é erosão democrática. Ela não ocorre de uma vez. Ela acontece por gotejamento. Um ataque à imprensa hoje. Uma suspeita contra as urnas amanhã. Uma teoria conspiratória depois. Uma desumanização do adversário na semana seguinte. Quando a sociedade percebe, já não debate mais políticas públicas; debate fantasmas.

É nesse cenário que proponho a imagem do Leviatã Digital. Thomas Hobbes imaginou o Leviatã como o grande corpo político que concentra força para evitar a guerra de todos contra todos. No mundo contemporâneo, porém, surgiu outro monstro: não necessariamente o Estado soberano clássico, mas uma arquitetura invisível de plataformas, algoritmos, bancos de dados, inteligência artificial, métricas de engajamento, impulsionamento, vigilância comportamental e manipulação emocional.

Esse Leviatã Digital não precisa mandar diretamente. Ele sugere. Ele ranqueia. Ele recomenda. Ele oculta. Ele amplifica. Ele mostra ao cidadão aquilo que o prende por mais tempo diante da tela. E, como a raiva engaja mais do que a serenidade, como o medo circula mais rápido do que a prudência, como a mentira escandalosa muitas vezes viaja mais depressa do que a correção responsável, a máquina tende a privilegiar conteúdos emocionalmente inflamáveis.

A política aprendeu isso. E quem aprendeu melhor passou a tratar o eleitor não apenas como cidadão, mas como alvo comportamental. A pergunta deixou de ser apenas: “qual projeto de país convence essa pessoa?”. Passou a ser: “qual medo ativa essa pessoa?”, “qual inimigo mobiliza essa pessoa?”, “qual ressentimento faz essa pessoa compartilhar uma mensagem às duas da manhã?”.

Essa mudança é profunda. A democracia liberal moderna foi construída sobre a ideia de cidadão racional, informado, capaz de deliberar. Mas o capitalismo de plataformas descobriu o cidadão pulsional, irritável, ansioso, solitário, ressentido, monitorado e previsível. A política digital não fala apenas à razão. Ela fala ao sistema nervoso.

Por isso, 2026 preocupa. Não porque se possa afirmar com certeza o que ocorrerá, mas porque as condições tecnológicas e emocionais para uma nova rodada de radicalização continuam presentes. Bolsonaro está inelegível por decisão do TSE, que o tornou impedido de disputar eleições por oito anos contados a partir de 2022.   Mesmo assim, o bolsonarismo não depende apenas da presença formal de Bolsonaro na urna. Ele opera como cultura política. Como linguagem. Como identidade. Como rede de influenciadores. Como gramática de suspeição. Como economia moral do ressentimento.

Esse é o ponto decisivo: uma liderança pode ser juridicamente afastada da disputa, mas a forma política que ela ajudou a consolidar pode permanecer viva. Em 2026, o risco não será apenas perguntar quem será o candidato apoiado por Bolsonaro ou por seu campo político. A pergunta mais importante será: que tipo de eleitorado foi produzido pela década anterior? Um eleitorado aberto à divergência ou treinado para odiá-la? Um eleitorado disposto a verificar fatos ou condicionado a rejeitar toda informação incômoda como conspiração? Um eleitorado que reconhece adversários ou que precisa de inimigos?

A frase de Nietzsche toca exatamente nessa ferida. O jovem corrompido não é aquele que escolhe uma posição política. Isso é natural. Toda pessoa pensa a partir de valores, experiências, classe social, religião, território, formação e afetos. O jovem corrompido é aquele que perde a capacidade de admirar a inteligência do outro. É aquele que só respeita quem confirma suas certezas. É aquele que confunde discordância com inferioridade moral.

No bolsonarismo, esse mecanismo apareceu muitas vezes pela lógica da pureza: “cidadãos de bem” contra “comunistas”; “patriotas” contra “traidores”; “povo” contra “sistema”; “Deus” contra “inimigos da fé”; “liberdade” contra “ditadura do Judiciário”. Essas fórmulas são politicamente eficazes porque simplificam o mundo. Elas dão conforto a quem está perdido. Mas também interditam a complexidade.

Quando a política se organiza assim, não há espaço para mediação. Quem discorda não está apenas errado; está corrompido. Quem questiona não está apenas fazendo crítica; está servindo ao inimigo. Quem pede prova não está defendendo método; está acobertando uma fraude. Esse é o mecanismo psicológico que transforma democracia em seita política.

O Leviatã Digital amplia esse processo porque entrega a cada grupo um espelho. O sujeito entra na rede achando que está vendo o mundo, mas muitas vezes está vendo apenas uma versão personalizada de si mesmo. Seu medo volta para ele em forma de notícia. Sua raiva volta em forma de meme. Seu preconceito volta em forma de “opinião corajosa”. Sua suspeita volta em forma de denúncia sem prova. Aos poucos, a pessoa deixa de conversar com a realidade e passa a conversar com sua própria bolha.

Essa é a corrupção nietzschiana em escala algorítmica. Antes, uma família, uma igreja, uma escola ou um partido poderiam ensinar alguém a desprezar quem pensa diferente. Hoje, uma infraestrutura digital inteira pode fazer isso de modo automatizado, lucrativo e permanente.

O problema se agrava com a inteligência artificial generativa. Em 2024, o TSE já proibiu deepfakes e estabeleceu regras sobre o uso de IA na propaganda eleitoral.   Essa decisão não surgiu por acaso. Ela indica que a democracia entrou numa fase em que não basta discutir mentira escrita. Será preciso discutir voz falsa, imagem falsa, vídeo falso, documento falso, áudio falso, print falso, emoção falsa e indignação fabricada.

A desinformação clássica dizia: “isso aconteceu”. A desinformação algorítmica diz: “veja com seus próprios olhos”. E quando os olhos podem ser enganados por imagens sintéticas, quando a voz de alguém pode ser clonada, quando um vídeo pode simular um acontecimento inexistente, a política entra numa crise epistemológica. A pergunta deixa de ser apenas “em quem votar?”. Passa a ser “em que realidade acreditar?”.

A UNESCO e a OCDE têm alertado para os riscos da inteligência artificial, da desinformação e dos deepfakes para a integridade informacional e a democracia.   No Brasil, esse risco assume contornos próprios porque a sociedade já passou por um ciclo recente de ataques ao processo eleitoral. Ou seja, a IA não chega a um terreno neutro. Ela chega a um país onde parte do eleitorado já foi treinada a desconfiar das instituições.

Esse treinamento é a base da manipulação. Primeiro, enfraquece-se a confiança na imprensa. Depois, enfraquece-se a confiança na ciência. Em seguida, enfraquece-se a confiança no sistema eleitoral. Por fim, apresenta-se o líder ou seu grupo como única fonte legítima de verdade. Esse caminho é conhecido nas experiências autoritárias. A novidade contemporânea é que agora ele pode ser acelerado por redes sociais, microsegmentação e inteligência artificial.

A eleição de 2026, portanto, será muito mais do que uma disputa entre nomes. Será uma disputa pela capacidade coletiva de distinguir crítica legítima de sabotagem institucional. Democracia não exige obediência cega aos tribunais, governos ou meios de comunicação. Pelo contrário: exige fiscalização, crítica e transparência. Mas há uma diferença brutal entre criticar uma instituição com base em fatos e destruir a confiança pública com base em mentiras sistemáticas.

A crítica fortalece a democracia. A mentira organizada a envenena.

Quando Bolsonaro atacou as urnas sem apresentar provas proporcionais à gravidade das acusações, não estava apenas fazendo uma reclamação eleitoral. Estava produzindo uma subjetividade política: a subjetividade do eleitor que só aceita o resultado se vencer. Essa subjetividade é incompatível com a democracia. Democracia não é o regime em que meu lado sempre ganha. Democracia é o regime em que meu lado pode perder sem que eu destrua as regras do jogo.

Em 2026, esse será um teste decisivo. As datas eleitorais já foram definidas pelo TSE no calendário das eleições, com o primeiro turno previsto para outubro de 2026.   Mas a eleição real já começou antes: começou na disputa por atenção, na formação das bolhas, na guerra de narrativas, nas tentativas de reconstrução da memória de 2022 e 8 de janeiro, na tentativa de transformar punição judicial em martírio político, na fabricação de novas vítimas simbólicas.

O bolsonarismo, como outras formas contemporâneas de extrema direita, opera muito bem com a figura do perseguido. Mesmo quando ocupa posições de poder, apresenta-se como minoria oprimida. Mesmo quando ataca instituições, diz estar sendo atacado. Mesmo quando mobiliza multidões, diz ser silenciado. Essa inversão é uma técnica política poderosa. Ela transforma responsabilização em perseguição, processo judicial em censura, derrota eleitoral em fraude, crítica jornalística em conspiração.

O Leviatã Digital potencializa essa inversão porque permite que uma narrativa seja repetida milhares de vezes, por milhares de perfis, em múltiplas plataformas, até parecer espontânea. A mentira, quando coordenada, ganha aparência de consenso. A indignação, quando automatizada, ganha aparência de povo. A bolha, quando numerosa, ganha aparência de país.

Mas o país real é mais complexo do que qualquer bolha. O Brasil não cabe em um grupo de WhatsApp. Não cabe em um algoritmo de recomendação. Não cabe em uma live. Não cabe em uma hashtag. O Brasil é contraditório, desigual, plural, religioso e secular, urbano e rural, conservador e progressista, popular e elitizado, ressentido e generoso, violento e solidário. Quem tenta reduzir esse país a uma única narrativa não o ama; tenta possuí-lo.

É por isso que a política da semelhança é tão perigosa. Ela parece confortável, mas é empobrecedora. Quando só converso com quem pensa como eu, minha visão de mundo enferruja. Quando só leio quem confirma minhas convicções, minha inteligência fica preguiçosa. Quando só respeito quem pertence ao meu grupo, minha moral vira tribalismo. E quando a política inteira funciona assim, a democracia adoece.

Nietzsche, nesse sentido, não nos oferece uma cartilha eleitoral. Oferece uma provocação ética. Ele nos obriga a perguntar: que tipo de formação política estamos dando às novas gerações? Estamos formando jovens capazes de suportar a diferença ou jovens treinados para cancelar, odiar, ridicularizar e excluir? Estamos formando cidadãos ou militantes de reflexo automático? Estamos ensinando pensamento crítico ou apenas fidelidade identitária?

Essa pergunta vale para todos os campos políticos. Nenhum grupo está imune ao fechamento sectário. A diferença é que, no Brasil recente, a extrema direita bolsonarista transformou essa dinâmica em método sistemático de mobilização. O problema não é apenas ter opinião forte. O problema é converter opinião em muralha contra a realidade.

O Leviatã Digital não cria sozinho o autoritarismo. Seria ingênuo culpar apenas a tecnologia. O ressentimento social tem raízes materiais: desigualdade, precarização do trabalho, medo da violência, crise de representação, humilhação cotidiana, frustração econômica, abandono territorial, falência de expectativas. A tecnologia não inventa esses sentimentos. Ela os captura, organiza e monetiza.

A extrema direita entendeu que muitas pessoas não queriam apenas propostas; queriam reconhecimento. Queriam ouvir que sua dor tinha culpados. Queriam ouvir que sua raiva era virtude. Queriam ouvir que sua confusão era lucidez. Queriam ouvir que odiar o outro era defender a pátria. Foi assim que o ressentimento virou identidade política.

A esquerda, o centro democrático, a imprensa, a universidade e as instituições precisam compreender isso com seriedade. Não basta chamar tudo de ignorância. Há ignorância, sim, mas há também abandono. Há manipulação, mas há também sofrimento real. Há fanatismo, mas há também medo. Uma democracia madura precisa combater a mentira sem desprezar o sujeito que foi capturado por ela.

Esse é um dos maiores desafios de 2026: enfrentar o bolsonarismo sem desumanizar seus eleitores. Criticar duramente lideranças autoritárias, redes de desinformação e ataques institucionais, mas sem cair na armadilha de tratar milhões de brasileiros como moralmente descartáveis. A democracia não vence imitando a lógica do inimigo absoluto. Vence reconstruindo espaços de verdade, justiça e convivência.

Mas isso exige coragem. Porque dialogar não é passar pano. Escutar não é concordar. Compreender não é absolver. Defender direitos não é aceitar chantagem golpista. Uma sociedade democrática precisa ser firme contra quem ataca as regras do jogo e, ao mesmo tempo, inteligente para recuperar aqueles que foram intoxicados pela pedagogia do ódio.

A pedagogia do ódio é simples: ela ensina que pensar diferente é ameaça. A pedagogia democrática é mais difícil: ela ensina que pensar diferente pode ser incômodo, mas é necessário. A primeira produz soldados de causa. A segunda produz cidadãos. A primeira precisa de inimigos. A segunda precisa de instituições. A primeira vive de certezas absolutas. A segunda sobrevive pela dúvida responsável.

O Leviatã Digital trabalha contra essa dúvida. Ele premia a certeza agressiva. Premia frases curtas, indignações rápidas, acusações virais, memes violentos, cortes descontextualizados. O pensamento complexo, por sua vez, é lento. Exige tempo, leitura, memória, contradição, paciência. Em uma sociedade acelerada, pensar virou quase um ato de resistência.

Talvez por isso a frase de Nietzsche incomode tanto. Ela nos lembra que a corrupção mais profunda não é ensinar alguém a errar. Errar faz parte da vida. A corrupção mais profunda é ensinar alguém a não querer encontrar quem possa mostrar seu erro. É destruir a humildade intelectual. É matar a curiosidade. É transformar convicção em cárcere.

As eleições de 2026 podem repetir comportamentos já observados: campanhas de suspeição contra pesquisas eleitorais, ataques preventivos ao sistema de votação, uso de pânico moral, exploração religiosa da política, circulação de vídeos manipulados, tentativa de transformar decisões judiciais em prova de perseguição, reativação de teorias conspiratórias, ataques à imprensa e mobilização afetiva contra “inimigos internos”. Não afirmo isso como profecia, mas como risco plausível diante do repertório político recente.

O Brasil precisa se antecipar. O TSE avançou ao regular IA, deepfakes e propaganda digital.   Mas regulação eleitoral não basta. É necessário fortalecer educação midiática, transparência algorítmica, responsabilização de plataformas, jornalismo profissional, cultura científica e formação política crítica. Uma democracia não se protege apenas com leis. Protege-se também com cidadãos capazes de reconhecer manipulação.

Aqui volto à juventude. O jovem de Nietzsche, no Brasil de 2026, não é apenas o estudante na escola. É qualquer pessoa submetida diariamente à educação invisível dos algoritmos. Todos estamos sendo formados por telas. Todos estamos sendo treinados por sistemas de recomendação. Todos estamos sendo empurrados para comunidades de semelhança. A pergunta é: quem educa nossa atenção?

Se nossa atenção é educada pelo ódio, colheremos violência. Se é educada pela suspeita permanente, colheremos cinismo. Se é educada pela idolatria política, colheremos servidão. Se é educada pela diferença, pela leitura, pelo contraditório e pela responsabilidade, talvez ainda possamos colher democracia.

Não escrevo isso de modo neutro, porque neutralidade diante da destruição democrática pode virar cumplicidade. Escrevo em primeira pessoa porque considero necessário assumir posição: nenhuma sociedade sobrevive quando transforma adversários em inimigos existenciais. Nenhum país amadurece quando ensina seus jovens a desprezar quem pensa diferente. Nenhuma eleição é plenamente livre quando parte do eleitorado é bombardeada por mentiras calculadas para capturar medo, fé, ressentimento e identidade.

O Brasil precisa discutir 2026 não apenas como calendário eleitoral, mas como batalha civilizatória pela integridade da esfera pública. A questão não é apenas quem vencerá. A questão é que tipo de povo sairá dessa eleição. Um povo mais capaz de conviver ou mais treinado para odiar? Um povo mais crítico ou mais fechado em bolhas? Um povo mais livre ou mais domesticado pelo Leviatã Digital?

A democracia brasileira já mostrou força. Resistiu a ataques, realizou eleições, preservou a alternância de poder e manteve instituições funcionando. Mas resistência não é garantia eterna. Democracias morrem quando se acostumam com pequenas degradações. Morrem quando a mentira vira opinião legítima. Morrem quando a violência verbal vira estilo. Morrem quando a suspeição sem prova vira estratégia. Morrem quando a juventude — biológica ou política — aprende que só merece estima quem pensa igual.

Por isso, a frase atribuída a Nietzsche precisa ser lida como advertência nacional. O Brasil não será corrompido apenas por golpes explícitos. Pode ser corrompido por uma pedagogia cotidiana da intolerância. Pode ser corrompido por algoritmos que nos devolvem apenas nossos próprios fantasmas. Pode ser corrompido por líderes que exploram medo em vez de construir futuro. Pode ser corrompido por cidadãos que preferem a segurança da bolha ao desconforto da verdade.

Em 2026, o verdadeiro desafio não será apenas derrotar este ou aquele candidato. Será derrotar a lógica que transforma política em seita, tecnologia em manipulação e divergência em crime moral. Será reconstruir a capacidade de discordar sem destruir. Será lembrar que a democracia começa justamente onde termina a idolatria do semelhante.

Afinal, uma sociedade que só estima quem pensa igual já não pensa: apenas repete.


Cinco pontos relevantes do artigo

  1. A frase atribuída a Nietzsche permite interpretar a política contemporânea como crise da escuta e da convivência democrática.
  2. O bolsonarismo permanece relevante em 2026 como cultura política, mesmo com Bolsonaro inelegível.
  3. O Leviatã Digital representa a captura algorítmica da atenção, do medo e do ressentimento político.
  4. A inteligência artificial generativa aprofunda o risco eleitoral por meio de deepfakes, manipulação visual e desinformação personalizada.
  5. A defesa da democracia exige regulação, educação midiática, pensamento crítico e reconstrução da confiança pública.


Referências

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

NIETZSCHE, Friedrich. Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O’NEIL, Cathy. Algoritmos de destruição em massa. São Paulo: Rua do Sabão, 2020.

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. Facts not fakes: tackling disinformation, strengthening information integrity. Paris: OECD, 2024.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Por maioria de votos, TSE declara Bolsonaro inelegível por 8 anos. Brasília: TSE, 2023.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. TSE proíbe uso de inteligência artificial para criar e propagar conteúdos falsos nas eleições. Brasília: TSE, 2024.

UNESCO. Artificial intelligence and democracy. Paris: UNESCO, 2024.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


O detergente, a bactéria e a política da ignorância: quando a guerra cultural coloca a saúde pública em risco



O caso dos produtos Ypê suspensos pela Anvisa não deveria ser difícil de compreender: trata-se de uma decisão sanitária tomada diante de falhas graves de fabricação e risco microbiológico. A própria Anvisa informou que a medida envolve lotes específicos, com numeração final “1”, e orientou os consumidores a suspenderem imediatamente o uso desses produtos e entrarem em contato com o SAC da empresa para recolhimento. A Agência Brasil também registrou que a suspensão atingiu fabricação, comercialização, distribuição e uso de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes diante de “falhas graves na produção”.  

Tecnicamente, o ponto central é simples: produtos líquidos de limpeza, quando fabricados sob falhas de controle microbiológico, podem abrigar microrganismos indesejáveis. Entre eles, foi citada a preocupação com Pseudomonas aeruginosa, bactéria oportunista que pode representar risco maior para pessoas imunossuprimidas, idosos, crianças pequenas, pacientes com feridas, pessoas em tratamento oncológico, diabéticos e indivíduos com maior vulnerabilidade clínica. Não se trata de “medo inventado”, mas de vigilância sanitária: quando há possibilidade de contaminação, o princípio básico é prevenir antes que o dano ocorra.

A empresa recorreu administrativamente e conseguiu efeito suspensivo, mas a Anvisa manteve a orientação de que os consumidores não utilizem os produtos dos lotes afetados. Esse detalhe é fundamental: uma coisa é o debate jurídico-administrativo entre empresa e agência reguladora; outra, completamente diferente, é a conduta prudente do consumidor diante de um alerta sanitário.  

O problema começa quando uma parte da extrema direita transforma um tema de saúde pública em espetáculo de identidade política. Em vez de perguntar “qual lote?”, “qual risco?”, “qual laudo?”, “qual procedimento de recolhimento?”, parte da militância digital preferiu perguntar: “a empresa apoiou Bolsonaro?”. A partir daí, o raciocínio técnico foi substituído por uma narrativa de perseguição. Segundo registros da imprensa, apoiadores bolsonaristas passaram a defender a marca nas redes, associando a decisão da Anvisa a retaliação política por doações feitas por dirigentes ligados à empresa à campanha de Jair Bolsonaro em 2022.  

Aqui aparece a dissonância cognitiva em estado bruto: quando a autoridade sanitária adverte sobre risco microbiológico, a reação racional seria cautela; mas, quando o fato ameaça a identidade política do grupo, parte das pessoas prefere negar o risco, debochar da regulação e transformar o consumo do produto em ato de lealdade ideológica. É como se a bactéria perguntasse antes: “você é de direita ou de esquerda?”. Não pergunta. Microrganismo não vota, não milita e não respeita meme.

O paralelo com o caso Havaianas ajuda a entender o padrão. Em 2025, apoiadores de Bolsonaro promoveram boicote à marca após interpretarem uma peça publicitária com Fernanda Torres como provocação política à direita. O episódio levou a vídeos de descarte de chinelos, discursos de indignação e tentativa de converter um produto cotidiano em símbolo de guerra cultural.  

No caso Havaianas, a reação foi o boicote; no caso Ypê, a reação foi o “boicote reverso”. Em ambos, o mecanismo é parecido: um produto comum deixa de ser produto e vira bandeira. Um chinelo vira campo de batalha. Um detergente vira teste de fidelidade. A política deixa de discutir emprego, renda, saúde, educação, soberania, ciência, orçamento público e capacidade de gestão — e passa a se comportar como torcida de marca.

Esse comportamento revela uma fragilidade grave de cultura pública. Quem disputa poder político precisa demonstrar responsabilidade diante de evidências, instituições, normas sanitárias e riscos coletivos. Quando lideranças estimulam pessoas a ignorar alerta de saúde para “provar” fidelidade ideológica, não estão exercendo coragem; estão flertando com irresponsabilidade pública.

A crítica, portanto, não é contra o direito de defesa da empresa. A Ypê tem direito ao contraditório, ao recurso administrativo, à apresentação de laudos e à contestação técnica. Isso é Estado de Direito. A crítica é contra a transformação de um procedimento sanitário em narrativa conspiratória sem prova suficiente. Defender a ampla defesa da empresa é legítimo; incentivar consumo de lote sob alerta sanitário é outra coisa.

O Brasil precisa amadurecer urgentemente. Em ano eleitoral, o país não pode aceitar que qualquer alerta técnico seja automaticamente sequestrado pela guerra cultural. A democracia depende de discordância, mas também depende de um mínimo de racionalidade pública. Quando até uma possível contaminação microbiológica vira palco para performance ideológica, o problema já não está no detergente: está na degradação da inteligência política nacional.

O aviso é simples e grave: um país que troca ciência por meme, vigilância sanitária por torcida e prudência por fanatismo coloca sua própria população em risco. O Brasil precisa de gestores capazes de distinguir fato de boato, laudo de slogan, fiscalização de perseguição e saúde pública de propaganda eleitoral. Sem isso, a eleição deixa de ser escolha democrática qualificada e vira um teste de sobrevivência institucional.


Conclusão

O caso Ypê expôs algo muito maior do que um problema sanitário em lotes de produtos de limpeza. Ele revelou, mais uma vez, o grau preocupante de dissonância cognitiva que tomou conta de parcelas significativas da extrema direita brasileira. Diante de um alerta técnico emitido por uma agência reguladora, baseado em inspeções, protocolos microbiológicos, falhas de fabricação e risco potencial à saúde pública, muitos preferiram abandonar completamente a racionalidade para transformar detergente em símbolo ideológico de guerra política.

A lógica se tornou absolutamente perversa: se a empresa foi associada ao bolsonarismo, então qualquer fiscalização passa automaticamente a ser tratada como perseguição; se a Anvisa emite um alerta sanitário, então a ciência vira “instrumento político”; se existe risco microbiológico, a resposta não é cautela, mas demonstração performática de fidelidade ideológica diante das câmeras das redes sociais. A realidade concreta deixa de importar. O que importa é proteger a narrativa do grupo, mesmo que isso signifique incentivar pessoas a ignorarem recomendações sanitárias básicas.

Esse comportamento é um retrato clássico da dissonância cognitiva descrita por Leon Festinger: quando fatos objetivos entram em choque com crenças identitárias profundamente internalizadas, muitos indivíduos não revisam suas crenças; ao contrário, reinterpretam os fatos para preservar emocionalmente sua identidade política. O problema é que, no Brasil contemporâneo, essa distorção deixou de ser apenas fenômeno psicológico individual e passou a produzir consequências coletivas perigosas. A ignorância virou militância. O negacionismo virou performance pública. A irresponsabilidade passou a ser tratada como coragem.

O mais assustador é perceber que esse padrão se repete continuamente. Foi assim na pandemia. Foi assim nos ataques às vacinas. Foi assim nas campanhas contra instituições científicas. Foi assim no episódio das Havaianas. E agora volta a ocorrer no caso Ypê. Tudo precisa virar guerra cultural. Tudo precisa virar trincheira ideológica. O debate público foi sequestrado por uma lógica infantilizada em que consumir ou boicotar produtos passou a substituir reflexão política séria sobre economia, saúde, soberania, educação e gestão pública.

Uma democracia madura não pode sobreviver sustentada em histeria algorítmica, desinformação emocional e culto permanente à irracionalidade. O Brasil está entrando em mais um ciclo eleitoral extremamente sensível, e o que está em jogo não é apenas a escolha de um presidente da República. O que está em disputa é a própria capacidade do país de continuar reconhecendo fatos objetivos, confiando minimamente em instituições técnicas e preservando algum grau de racionalidade coletiva.

Quando parte da população passa a enxergar fiscalização sanitária como conspiração política e ciência como inimiga ideológica, o problema já não é mais apenas político: é civilizacional. Nenhuma nação consegue construir futuro sustentável tratando conhecimento técnico como ameaça e ignorância como virtude moral.

O alerta, portanto, é urgente. O Brasil precisa reagir antes que a degradação cognitiva produzida pela radicalização digital destrua definitivamente nossa capacidade de discernimento coletivo. Porque um povo que perde a capacidade de distinguir evidência de fanatismo torna-se vulnerável não apenas a maus governos, mas à própria destruição da inteligência democrática.



O fascismo da indiferença: quando o abandono social vira método de governo

Do medo ao cansaço, da precariedade ao ódio: por que o fascismo contemporâneo não precisa repetir o passado para continuar sendo fascismo


Lide

O fascismo contemporâneo não precisa mais marchar com botas pelas ruas para se fazer presente. Ele pode aparecer na fila do hospital abandonado, no desemprego tratado como culpa individual, na violência contra pobres transformada em espetáculo, na humilhação cotidiana de quem depende do Estado e na indiferença social diante da dor alheia. Ao comentar a lógica atual do fascismo como “contragestão”, Vladimir Safatle aponta uma chave decisiva para compreender nosso tempo: o poder já não governa apenas organizando a vida; ele também governa desorganizando-a, abandonando populações inteiras à própria sorte e transformando essa precariedade em instrumento de controle. Este artigo parte dessa provocação para analisar o fascismo do século XXI como fenômeno político, afetivo, econômico e moral.


1. Introdução: o fascismo não voltou; ele mudou de roupa

Eu desconfio profundamente de toda análise política que procura o fascismo apenas nos arquivos empoeirados do século XX. É claro que a história importa. É claro que Mussolini, Hitler, Franco e Salazar continuam sendo referências incontornáveis para compreender a catástrofe autoritária moderna. Mas há um erro perigoso em acreditar que o fascismo só existe quando reaparece com a mesma estética, os mesmos símbolos, os mesmos uniformes e as mesmas instituições do passado.

O fascismo não é peça de museu. É tecnologia política.

Ele não precisa repetir sua forma histórica para preservar sua lógica profunda. Pode abandonar a camisa, a marcha e o partido único, mas continuar operando por meio da produção de inimigos, da naturalização da violência, da destruição da solidariedade e da transformação do sofrimento social em combustível político.

É nesse ponto que a formulação de Vladimir Safatle ganha força. Em entrevista ao The Intercept Brasil, publicada em abril de 2026, Safatle afirma que o perigo fascista no Brasil não se encerrou com a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022, pois o bolsonarismo expressaria uma forma mais ampla e persistente de organização política e afetiva da sociedade (Safatle, 2026).  

A imagem anexada destaca uma ideia central atribuída a Safatle: o fascismo contemporâneo opera pela contragestão, isto é, pelo uso do abandono social como ferramenta de controle. A palavra é forte porque inverte a expectativa comum sobre o poder. Estamos acostumados a pensar que governar é administrar, coordenar, proteger, ordenar. Mas, no fascismo contemporâneo, governar também pode significar abandonar, desmontar, precarizar, expor e deixar morrer.

Essa é a tese que desejo aprofundar aqui.


2. A contragestão como política do abandono

A noção de contragestão é decisiva porque rompe com uma ingenuidade muito comum: a ideia de que o abandono social é sempre falha do Estado. Nem sempre. Muitas vezes, o abandono é projeto.

Quando uma população inteira passa anos sem saneamento básico, sem escola de qualidade, sem atendimento de saúde, sem transporte digno, sem segurança pública cidadã e sem perspectiva de futuro, isso não pode ser explicado apenas por incompetência administrativa. Há uma racionalidade política nesse desmonte.

O abandono produz medo.
O medo produz ressentimento.
O ressentimento procura culpados.
E o fascismo oferece inimigos.

É assim que a miséria social pode ser convertida em obediência política. O cidadão abandonado deixa de se perguntar por que seus direitos foram retirados e passa a odiar aquele que foi apontado como culpado por sua dor: o imigrante, o pobre, o negro, o comunista imaginário, o professor, o artista, o cientista, a feminista, o sindicalista, o servidor público, o estudante universitário, o morador da periferia.

Nesse processo, o poder deixa de responder ao sofrimento social com políticas públicas e passa a administrá-lo como matéria-prima da dominação.

Michel Foucault mostrou que o poder moderno não atua apenas proibindo ou reprimindo; ele produz corpos, condutas, subjetividades e formas de vida (Foucault, 2014). No caso da contragestão, pode-se dizer que o poder também produz desamparo. Ele fabrica sujeitos esgotados, isolados, endividados e emocionalmente disponíveis para discursos de força.

O abandono, portanto, não é ausência de governo. É governo por outros meios.


3. O fascismo histórico e suas metamorfoses

Para compreender o fascismo contemporâneo, é preciso evitar duas simplificações.

A primeira é dizer que tudo é fascismo. Isso esvazia o conceito.

A segunda é dizer que nada é fascismo se não repetir literalmente a Itália de Mussolini ou a Alemanha nazista. Isso paralisa a análise.

O fascismo histórico nasceu em meio às crises do capitalismo liberal, ao trauma da Primeira Guerra Mundial, ao medo das revoluções socialistas e à reorganização violenta das massas. Ele combinou nacionalismo extremo, culto da autoridade, militarização da política, perseguição a inimigos internos, destruição de organizações populares e promessa de regeneração nacional (Paxton, 2007).

Mas o fascismo nunca foi apenas um regime. Foi também uma gramática emocional.

Ele oferecia pertencimento a sujeitos humilhados. Dava sentido a sociedades em crise. Transformava frustração em ódio politicamente dirigido. Prometia ordem em meio ao caos. Convertia medo em obediência. Transformava violência em virtude.

É por isso que Theodor Adorno continua atual. Ao estudar a personalidade autoritária, Adorno e seus colaboradores mostraram que o autoritarismo não depende apenas de instituições políticas, mas também de estruturas psíquicas, afetivas e culturais que predispõem sujeitos à submissão diante dos fortes e à agressividade contra os vulneráveis (Adorno et al., 2019).

O fascismo contemporâneo conserva essa arquitetura afetiva, mas atua em outro cenário histórico. Hoje, ele se move dentro de democracias formais, usa redes digitais, apropria-se da linguagem da liberdade, apresenta-se como rebeldia contra “o sistema” e, ao mesmo tempo, serve frequentemente aos interesses mais duros do próprio sistema econômico.

Essa é sua astúcia: parecer antissistema enquanto protege as engrenagens mais brutais da desigualdade.


4. Neoliberalismo, precarização e fascismo social

Não se pode compreender o novo fascismo sem compreender o neoliberalismo.

O neoliberalismo não é apenas uma política econômica de privatizações, austeridade e redução de direitos sociais. Ele é uma racionalidade que transforma tudo em mercado: a escola, a saúde, o trabalho, o afeto, o corpo, a religião, a política e até a autoestima.

Wendy Brown argumenta que o neoliberalismo corrói a própria substância da democracia ao transformar cidadãos em empreendedores de si mesmos, submetendo todas as dimensões da vida ao cálculo econômico (Brown, 2019). Quando isso acontece, a sociedade deixa de ser comunidade política e vira arena concorrencial.

O sujeito neoliberal é ensinado a acreditar que está sozinho. Se venceu, foi mérito. Se fracassou, foi culpa sua.

Essa pedagogia da culpa individual é fundamental para o fascismo contemporâneo. O trabalhador precarizado, sem direitos, sem tempo, sem proteção e sem futuro, é levado a interpretar sua dor não como resultado de estruturas sociais injustas, mas como fracasso pessoal ou como consequência da ação de algum inimigo inventado.

A precariedade vira ressentimento.
O ressentimento vira ódio.
O ódio vira política.

Safatle, ao tratar dos novos fascismos globais, desloca a análise para essa dimensão interna das sociedades liberais: o fascismo não aparece simplesmente como força externa contra a democracia, mas como algo produzido pelas próprias contradições das democracias realmente existentes e das sociedades capitalistas contemporâneas (Safatle, 2026). A página institucional da USP sobre seu livro A ameaça interna destaca justamente essa tese do fascismo estrutural que assombra sociedades ditas liberais em situações de crise.  

Aqui está a questão mais incômoda: o fascismo não nasce apenas contra a ordem liberal. Muitas vezes, nasce de dentro dela.


5. A política da dessensibilização

Um dos pontos mais importantes da formulação de Safatle é a ideia de que o fascismo contemporâneo opera por dois afetos centrais: dessensibilização e indiferença.

Esses afetos não são detalhes psicológicos. São fundamentos políticos.

Uma sociedade fascistizada não é apenas uma sociedade que odeia. É também uma sociedade que deixa de sentir. Ou melhor: sente seletivamente. Sente dor apenas pelos seus. Sente indignação apenas quando a vítima pertence ao grupo reconhecido como legítimo. Para os demais, oferece silêncio, desprezo ou aplauso diante da violência.

Essa dessensibilização é construída aos poucos.

Primeiro, naturaliza-se a desigualdade.
Depois, naturaliza-se a humilhação.
Depois, naturaliza-se a morte.
Por fim, naturaliza-se a ideia de que algumas vidas valem menos.

Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, mostrou que atrocidades políticas podem ser executadas não apenas por monstros excepcionais, mas por indivíduos comuns que deixam de pensar criticamente sobre as consequências de seus atos (Arendt, 1999). Essa reflexão é essencial para o nosso tempo. O horror contemporâneo nem sempre exige entusiasmo explícito. Muitas vezes, basta a indiferença.

A indiferença é o chão moral do fascismo.

Quando a sociedade passa a assistir à dor alheia como quem assiste a uma paisagem distante, o autoritarismo já venceu uma etapa decisiva. A violência deixa de escandalizar. A injustiça deixa de constranger. A morte do outro deixa de nos interromper.

Nesse ponto, a política se desumaniza.


6. O inimigo interno como método

Todo fascismo precisa de um inimigo interno.

O inimigo interno cumpre várias funções. Ele simplifica a realidade, organiza o medo, canaliza a frustração e desvia a atenção das estruturas reais de poder. Em vez de discutir concentração de renda, exploração do trabalho, captura do Estado por interesses privados ou destruição de políticas públicas, o debate público passa a girar em torno de ameaças fabricadas.

O fascismo precisa convencer as pessoas de que elas estão em guerra.

Guerra contra a esquerda.
Guerra contra a ciência.
Guerra contra os professores.
Guerra contra os artistas.
Guerra contra os direitos humanos.
Guerra contra a imprensa.
Guerra contra as minorias.
Guerra contra qualquer um que impeça a fantasia de uma sociedade homogênea.

Essa lógica aparece no Brasil de maneira muito evidente. O bolsonarismo não foi apenas um movimento eleitoral; foi uma pedagogia da hostilidade. Ele ensinou parte da sociedade a confundir brutalidade com autenticidade, ignorância com coragem, violência verbal com sinceridade e destruição institucional com liberdade.

O resultado é uma política fundada na permanente fabricação de inimigos.

Jason Stanley, ao analisar a política fascista, mostra que movimentos desse tipo frequentemente operam por meio de mitos de passado glorioso, propaganda, anti-intelectualismo, hierarquização social, vitimização do grupo dominante e criminalização dos adversários (Stanley, 2018). Esses elementos não precisam aparecer todos ao mesmo tempo nem da mesma forma. Mas, quando se articulam, criam uma atmosfera autoritária.

E atmosferas autoritárias antecedem regimes autoritários.


7. Biopolítica, necropolítica e abandono seletivo

A contragestão se conecta diretamente à biopolítica e à necropolítica.

Foucault mostrou que a modernidade política passou a administrar a vida: nascimento, saúde, população, higiene, sexualidade, produtividade, mortalidade (Foucault, 2014). O Estado moderno não apenas mata; ele também “faz viver” e “deixa morrer”.

Achille Mbembe radicaliza essa análise ao propor o conceito de necropolítica: o poder de decidir quem deve viver e quem pode morrer (Mbembe, 2018). Nas sociedades marcadas por racismo, colonialismo e desigualdade extrema, essa decisão não é abstrata. Ela tem endereço, cor, classe e território.

No Brasil, isso é brutalmente evidente.

O abandono não é distribuído igualmente. Ele pesa mais sobre periferias, populações negras, povos indígenas, trabalhadores pobres, moradores de rua, pessoas encarceradas e comunidades sem acesso efetivo a direitos básicos.

A contragestão, portanto, não abandona “a sociedade” de modo genérico. Ela abandona setores específicos da sociedade. E, ao fazer isso, ensina os demais a considerar esse abandono normal.

Aqui o fascismo contemporâneo se revela como gestão seletiva da morte social. Antes da morte física, há a morte simbólica: retirar de determinados grupos o direito de serem vistos como plenamente humanos.

Quando alguém diz “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, “pobre é pobre porque quer” ou “quem depende do Estado é vagabundo”, não está apenas expressando opinião. Está participando de uma economia moral fascistizante, na qual algumas vidas são expulsas do círculo da compaixão.


8. O papel das plataformas digitais: o fascismo como atmosfera algorítmica

O fascismo contemporâneo também aprendeu a viver nas redes.

As plataformas digitais não criaram o ódio, mas deram a ele velocidade, escala e monetização. O ressentimento passou a circular em tempo real. A mentira ganhou aparência de comunidade. A paranoia encontrou confirmação permanente. O absurdo encontrou audiência.

Zuboff descreve o capitalismo de vigilância como uma nova lógica econômica baseada na captura e predição do comportamento humano (Zuboff, 2021). Essa lógica não atua apenas no consumo. Ela reorganiza a política, pois transforma atenção em mercadoria e emoções em matéria-prima de engajamento.

A raiva engaja.
O medo engaja.
A humilhação engaja.
A desinformação engaja.
A violência simbólica engaja.

Nesse ambiente, o fascismo deixa de depender exclusivamente de organizações partidárias tradicionais. Ele se espalha como linguagem, meme, piada, comentário, vídeo curto, corrente de WhatsApp, corte de podcast, falso escândalo moral e teoria conspiratória.

O algoritmo não precisa ser fascista em intenção para produzir efeitos fascistizantes. Basta que recompense sistematicamente o conteúdo que desumaniza, polariza, simplifica e incendeia.

É nesse sentido que se pode falar em um Leviatã digital: não um monstro estatal centralizado, mas uma arquitetura difusa de controle, vigilância, manipulação afetiva e administração da atenção.

O fascismo do século XXI não precisa apenas de milícias nas ruas. Precisa também de bolhas digitais, influenciadores do ressentimento, empresários da mentira e plataformas que lucram com a decomposição do espaço público.


9. O Brasil e a pedagogia do abandono

O Brasil é terreno fértil para essa análise porque nunca resolveu plenamente suas heranças autoritárias.

A escravidão terminou formalmente, mas sua estrutura social permaneceu.
A República nasceu excludente.
A democracia foi interrompida por golpes.
A ditadura militar deixou marcas profundas.
A desigualdade continuou organizando o acesso à vida.

Por isso, o fascismo brasileiro não precisa importar integralmente modelos europeus. Ele encontra aqui um solo próprio: racismo estrutural, elitismo econômico, violência policial, anticomunismo delirante, moralismo religioso seletivo e desprezo histórico pelos pobres.

O bolsonarismo deu forma política contemporânea a esses elementos. Ele não inventou o autoritarismo brasileiro, mas o atualizou. Transformou ressentimentos dispersos em identidade política. Deu linguagem a ódios antigos. Reabilitou simbolicamente a ditadura. Atacou universidades, imprensa, ciência, cultura e instituições democráticas. Fez da grosseria um estilo e da crueldade uma virtude.

Mas o mais grave talvez tenha sido outra coisa: a produção de indiferença.

Durante a pandemia de covid-19, por exemplo, o Brasil assistiu à politização da morte, à desqualificação da ciência e à banalização do sofrimento coletivo. Esse processo revelou como o abandono pode ser convertido em método de governo. Não se tratava apenas de negar a gravidade da crise sanitária; tratava-se de transformar a vulnerabilidade da população em experimento político de dessensibilização.

Ali ficou evidente que o fascismo contemporâneo não governa apenas pela repressão. Governa também pelo deboche diante da dor.


10. A falsa rebeldia autoritária

Uma das grandes armadilhas do fascismo contemporâneo é sua aparência de rebeldia.

Ele se apresenta como insubmissão contra elites, mídia, sistema, universidades e instituições. Mas, quando observado de perto, seu alvo real quase nunca é o poder econômico concentrado. Seu alvo preferencial são os vulneráveis, os intelectuais críticos, os direitos sociais, os sindicatos, os movimentos populares e qualquer forma de organização coletiva.

É uma rebeldia domesticada pelo capital.

Grita contra professores, mas silencia diante de bilionários.
Ataca artistas, mas protege especuladores.
Odeia pobres organizados, mas reverencia ricos predatórios.
Fala em liberdade, mas deseja obediência.
Fala em povo, mas governa para poucos.

Essa contradição é fundamental. O fascismo contemporâneo mobiliza o sofrimento real das pessoas, mas oferece uma explicação falsa para esse sofrimento. O trabalhador precarizado tem razão em estar revoltado. O problema é quando sua revolta é capturada por quem o convence de que seu inimigo é outro trabalhador ainda mais vulnerável.

Essa é a engenharia política da dominação: colocar os abandonados uns contra os outros, enquanto os verdadeiros beneficiários do abandono permanecem protegidos.


11. Como enfrentar o fascismo contemporâneo?

A pergunta do anexo é decisiva: qual alternativa seria possível para combater o fascismo que aparece hoje em novas formas?

A primeira resposta é: não basta defender abstratamente a democracia.

Uma democracia que abandona seu povo abre espaço para o fascismo. Uma democracia reduzida ao voto, mas incapaz de garantir dignidade material, proteção social, educação crítica e pertencimento coletivo, torna-se frágil diante das máquinas de ressentimento.

Combater o fascismo exige reconstruir as bases concretas da vida democrática.

Isso significa defender emprego digno, saúde pública, educação de qualidade, moradia, segurança alimentar, cultura, ciência, transporte, proteção ambiental e direitos sociais. Não como pauta secundária, mas como núcleo da luta antifascista.

A segunda resposta é disputar os afetos.

A esquerda, os democratas e os setores humanistas erram quando acreditam que basta apresentar dados corretos. Dados são necessários, mas não bastam. O fascismo não captura apenas opiniões; captura medos, dores, frustrações e desejos de pertencimento.

É preciso reconstruir uma linguagem pública capaz de falar com quem sofre sem humilhar, sem tratar o povo como massa ignorante e sem abandonar a dimensão emocional da política.

Paulo Freire já advertia que a educação libertadora não pode ser uma imposição vertical de saber, mas um processo dialógico de conscientização, no qual os sujeitos se reconhecem como capazes de compreender e transformar a realidade (Freire, 2019). Essa lição vale para a política democrática: não se combate o fascismo desprezando o povo que foi capturado por ele; combate-se criando condições para que esse povo reconheça a origem real de sua dor.

A terceira resposta é reconstruir instituições sem fetichizá-las.

Instituições importam. Supremo Tribunal Federal, Congresso, imprensa, universidades, escolas, sindicatos e órgãos de controle são barreiras relevantes contra o autoritarismo. Mas nenhuma instituição se sustenta sem base social democrática. A democracia precisa ser sentida como proteção concreta na vida cotidiana.

A quarta resposta é regular o poder digital.

Não há combate sério ao fascismo contemporâneo sem enfrentar a arquitetura das plataformas. A desinformação, o discurso de ódio e a radicalização algorítmica não podem ser tratados como simples opinião individual. Há uma indústria política e econômica da desestabilização democrática.

A quinta resposta é recuperar a ética da sensibilidade.

Parece simples, mas é revolucionário: voltar a se importar.

Importar-se com a criança sem escola.
Com o idoso sem atendimento.
Com a mãe que perdeu o filho para a violência.
Com o trabalhador exausto.
Com o jovem sem futuro.
Com o pobre humilhado.
Com o diferente perseguido.
Com a vítima transformada em estatística.

O fascismo cresce quando a dor do outro deixa de nos dizer respeito.


12. Conclusão: contra o fascismo, a reconstrução da humanidade comum

Eu concordo com Safatle quando ele afirma que o fascismo contemporâneo não pode ser compreendido como simples repetição do passado. Ele não precisa retornar com a mesma face porque aprendeu a habitar nossas instituições, nossos algoritmos, nossas conversas familiares, nossos medos privados e nossas frustrações coletivas.

Seu centro não está apenas no líder autoritário. Está na sociedade que aceita ser reorganizada pela indiferença.

A contragestão é justamente isso: o governo pelo abandono, a administração pela desproteção, o controle pela precariedade. É uma forma de poder que não precisa prometer vida digna. Basta transformar a insegurança em destino e oferecer inimigos para aliviar a angústia social.

Por isso, combater o fascismo exige mais do que indignação episódica. Exige projeto histórico. Exige Estado social. Exige educação crítica. Exige regulação democrática das plataformas digitais. Exige enfrentamento da desigualdade. Exige memória histórica. Exige linguagem popular. Exige coragem moral.

Mas, acima de tudo, exige reconstruir a capacidade de reconhecer o outro como humano.

Porque o fascismo começa exatamente quando essa capacidade morre.

E uma sociedade que já não se comove diante do sofrimento que produz está perigosamente pronta para aceitar qualquer barbárie em nome da ordem.


Referências

ADORNO, Theodor W. et al. A personalidade autoritária. São Paulo: Editora Unesp, 2019.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. São Paulo: Politeia, 2019.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2014.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

SAFATLE, Vladimir. A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. São Paulo: Autêntica, 2026.

SAFATLE, Vladimir. Vivemos em fascismos restritos, não em democracias liberais. The Intercept Brasil, 15 abr. 2026. Disponível em: The Intercept Brasil. Acesso em: 5 maio 2026.

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2018.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.