A entrada das terras raras no centro do discurso presidencial de Flávio Bolsonaro não é um detalhe de campanha. É um sintoma. Ao apresentar o Brasil, em evento da direita trumpista nos Estados Unidos, como solução para a dependência americana em relação à China no fornecimento de minerais críticos, o senador não apenas sinalizou uma preferência diplomática. Ele esboçou uma concepção de país: um Brasil pensado menos como potência industrial soberana e mais como fornecedor estratégico de recursos para uma arquitetura de poder liderada por Washington. A questão decisiva, portanto, não é apenas mineral. É política, econômica e civilizacional.
1. O que Flávio Bolsonaro disse — e por que isso importa
No CPAC realizado no Texas, Flávio Bolsonaro pediu que os Estados Unidos e o “mundo livre” exercessem “pressão diplomática” sobre o Brasil para que as eleições de 2026 fossem, segundo sua formulação, “livres e justas”, baseadas em “valores de origem americana”. No mesmo discurso, afirmou que o Brasil seria “a solução da América” para romper a dependência chinesa em minerais críticos, especialmente terras raras. A combinação desses dois elementos — tutela política externa e oferta de ativos estratégicos nacionais — revela mais do que retórica de palanque: revela um projeto de reposicionamento subordinado do Brasil na disputa global entre Washington e Pequim.
Esse ponto é crucial. Uma coisa é defender relações próximas com os Estados Unidos dentro da tradição diplomática de barganha entre Estados soberanos. Outra, muito diferente, é associar a legitimidade do processo político nacional à vigilância estrangeira e, ao mesmo tempo, apresentar o patrimônio mineral brasileiro como peça de alinhamento ideológico e estratégico. Quando uma candidatura presidencial transforma o subsolo do país em credencial para agradar uma potência, o debate deixa de ser apenas eleitoral. Passa a ser um debate sobre soberania.
Flávio tenta vender essa operação como uma espécie de “Bolsonaro 2.0”: menos ríspido, mais articulado, supostamente mais preparado para dialogar com o mercado e com o sistema político. Mas a moderação de estilo não altera o conteúdo profundo. O núcleo continua o mesmo: alinhamento orgânico ao conservadorismo trumpista, desconfiança em relação às instituições brasileiras e leitura do Brasil como plataforma geopolítica de uma direita hemisférica. A embalagem muda; a lógica permanece.
2. As terras raras e o novo mapa do poder
Terras raras não são “raras” apenas no sentido geológico vulgarizado pelo debate público. O que as torna estratégicas é sua centralidade tecnológica. Esses elementos são indispensáveis para ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas, sistemas eletrônicos avançados, aplicações aeroespaciais, defesa, inteligência artificial e cadeias industriais ligadas à transição energética. Em outras palavras: quem controla sua produção, processamento e fornecimento participa de um dos centros nervosos da economia do século XXI.
O Brasil entrou nesse tabuleiro com peso real. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o país detém cerca de 21 milhões de toneladas de reservas/recursos de terras raras, aproximadamente 23% do total global, figurando entre os maiores detentores do planeta. O governo federal, por sua vez, passou a apresentar essas reservas como parte de uma estratégia mais ampla de minerais críticos voltada à energia limpa, à mobilidade elétrica e às tecnologias avançadas. Não se trata, portanto, de um tema periférico. Trata-se de uma questão estrutural de inserção internacional.
Mas há uma diferença decisiva entre possuir reservas e controlar o valor gerado por elas. O verdadeiro poder não está apenas em cavar o minério. Está em refinar, separar, processar, transformar em insumo industrial e incorporá-lo a cadeias produtivas densas. É aí que a geopolítica se torna economia política. Um país que exporta minério bruto e importa tecnologia de alto valor captura pouco. Um país que domina etapas mais sofisticadas da cadeia pode converter riqueza geológica em capacidade industrial, tecnológica e fiscal.
3. O ponto central: o Brasil será fornecedor ou potência de processamento?
O próprio governo brasileiro reconhece esse dilema. No guia de 2026 para investidores estrangeiros em minerais críticos, o Ministério de Minas e Energia afirma que o objetivo nacional não é apenas atrair investimentos para exploração, mas desenvolver também o processamento mineral no Brasil e ampliar a agregação de valor no território nacional. O documento é explícito ao dizer que o país buscará expandir o valor adicionado aos minerais estratégicos, fortalecer cadeias produtivas e reduzir dependências externas em insumos críticos.
Esse reconhecimento é importante porque desmonta uma falsa dicotomia. O problema não é escolher entre “explorar” ou “não explorar”. O problema é decidir sob qual projeto nacional a exploração ocorrerá. Haverá verticalização produtiva? Haverá política industrial? Haverá formação tecnológica, pesquisa, química fina, magnetos, componentes e articulação entre mineração e manufatura avançada? Ou haverá apenas a repetição do velho padrão primário-exportador, agora com roupagem digital e verde?
A pergunta é incômoda, mas inevitável: de que adianta deter parte relevante das reservas globais de terras raras se o país aceitar o papel de almoxarifado mineral de potências estrangeiras? Ser dono do subsolo não basta. É preciso ser dono do destino econômico que dele decorre. Caso contrário, a abundância vira dependência. E a riqueza, paradoxalmente, reforça a subordinação.
4. Minaçu, Goiás, e a materialidade da disputa
Se alguém duvida de que essa disputa já saiu do plano abstrato, basta olhar para Minaçu, em Goiás. Em fevereiro de 2026, a Serra Verde anunciou um pacote de financiamento de US$ 565 milhões com a U.S. International Development Finance Corporation (DFC), agência do governo americano. O acordo inclui até mesmo a opção de o governo dos Estados Unidos adquirir uma participação acionária minoritária na empresa. A própria companhia descreveu o projeto como peça importante para construir “novas cadeias independentes de valor”.
Do lado americano, a linguagem foi ainda mais direta. A DFC afirmou que o financiamento à Serra Verde ajudará a desenvolver uma fonte “alinhada ao Ocidente” de elementos de terras raras, inclusive terras raras pesadas, em um contexto no qual a segurança das cadeias de suprimento é tratada como assunto de interesse estratégico e de segurança nacional dos EUA. Não há ingenuidade aqui. Não se trata de filantropia geoeconômica. Trata-se de política de poder.
Minaçu, assim, torna-se mais do que um município goiano com relevância mineral. Torna-se uma vitrine da disputa entre modelos. De um lado, o Brasil pode usar seus depósitos para construir capacidade industrial interna e negociar de maneira soberana com múltiplos parceiros. De outro, pode ser incorporado como elo subordinado em uma cadeia desenhada para atender prioritariamente às necessidades tecnológicas e securitárias de outras potências. O financiamento estrangeiro, por si só, não é o problema. O problema é a ausência de um projeto nacional suficientemente forte para enquadrar esse capital em favor do interesse brasileiro.
5. O bolsonarismo e a pedagogia da subordinação
A fala de Flávio Bolsonaro no CPAC ajuda a compreender a racionalidade por trás disso. Seu argumento não foi: “o Brasil precisa desenvolver sua indústria de terras raras e negociar em pé de igualdade com os EUA, a Europa, a Ásia e os BRICS”. Seu argumento foi outro: “o Brasil pode ajudar a América a romper a dependência da China”. O centro da frase não é o Brasil. O centro da frase é a América entendida como potência norte-americana. O país aparece como instrumento. Nunca como sujeito histórico pleno.
Esse é o ponto que precisa ser dito sem rodeios. O bolsonarismo nunca formulou um projeto consistente de soberania nacional no sentido material do termo. Seu nacionalismo é performático, emocional e seletivo. Ele se exalta diante de símbolos, mas recua diante da estrutura. Grita pela pátria, mas se acomoda quando a pátria é convocada a ocupar um lugar subordinado na divisão internacional do poder. Confunde honra nacional com alinhamento ideológico ao império de preferência.
Esse traço não é novo. Na fase anterior do bolsonarismo, o alinhamento pessoal de Jair Bolsonaro com Donald Trump já havia mostrado uma disposição incomum de subordinação diplomática. O que surge agora é uma atualização mais sofisticada: menos personalista na forma, mais institucionalizada no discurso. Em vez do gesto espalhafatoso, a promessa de “cadeias seguras”; em vez do elogio bruto, a linguagem da cooperação estratégica; em vez do improviso, a conversão de recursos naturais em moeda de fidelidade geopolítica.
6. O risco de repetir a velha história em versão high-tech
O Brasil já conhece esse enredo. Durante séculos, a economia nacional foi organizada em torno da exportação de bens primários com baixa agregação de valor. Mudavam os produtos — açúcar, ouro, café, minério, soja —, mas a lógica se repetia: riqueza territorial combinada com baixa soberania tecnológica e financeira. O debate sobre terras raras recoloca a mesma pergunta sob nova roupa. Serão os minerais críticos apenas mais um capítulo da longa história brasileira de especialização regressiva?
A novidade é que, agora, o extrativismo vem recoberto por um discurso de modernidade. Fala-se em transição energética, inteligência artificial, defesa avançada, semicondutores, motores de alta eficiência. Tudo isso é real. Mas pode funcionar como verniz para uma relação muito antiga: a periferia fornecendo base material para os centros de poder concentrarem ciência, tecnologia, finanças, patentes e renda. A sofisticação do produto não garante, por si, sofisticação do lugar ocupado pelo país.
É por isso que a disputa não pode ser reduzida a um problema técnico de mineração. O centro da discussão é: quem define a estratégia? O Brasil terá política industrial, planejamento estatal, crédito direcionado, pesquisa científica, fortalecimento da indústria de separação e refino, e integração entre mineração e manufatura? Ou aceitará ser celebrado como “parceiro confiável” justamente porque se dispõe a fornecer matéria-prima sem exigir a correspondente soberania produtiva?
7. Flávio Bolsonaro, mercado e o novo idioma da dependência
Parte da eficácia eleitoral de Flávio Bolsonaro decorre justamente de sua tentativa de traduzir o velho bolsonarismo para uma linguagem mais aceitável a investidores, ao mercado e a segmentos do centro político. Reuters mostrou, em março e abril de 2026, que sua pré-candidatura ganhou tração nas pesquisas, chegando ao empate técnico com Lula em cenários de segundo turno, ao mesmo tempo em que seus aliados calibravam a apresentação de uma agenda econômica voltada a cortes de gastos, redução de impostos e “melhoria do ambiente de negócios”.
Nesse contexto, as terras raras cumprem dupla função. Para fora, apresentam o candidato como interlocutor útil à estratégia ocidental de contenção da dependência chinesa. Para dentro, oferecem ao mercado a imagem de um país com ativos valiosos capazes de atrair capital, financiamento e inserção em cadeias globais. O risco é que a linguagem do investimento esconda a assimetria da relação. Nem todo capital estrangeiro produz desenvolvimento soberano. Sem diretriz nacional, ele pode apenas reorganizar a dependência em padrões mais sofisticados.
8. A escolha histórica diante do Brasil
O debate que Flávio Bolsonaro ajudou involuntariamente a iluminar é maior do que sua candidatura. O Brasil está diante de uma escolha histórica. Pode tratar as terras raras como mais um ciclo exportador, celebrado no curto prazo e incapaz de mudar estruturalmente o lugar do país no sistema internacional. Ou pode tratá-las como base material de um projeto nacional de reindustrialização, agregação de valor, autonomia tecnológica e soberania estratégica.
Para isso, será preciso mais do que discurso patriótico. Será preciso Estado, planejamento, política industrial, ciência, engenharia, regulação e capacidade de negociação internacional. Será preciso, sobretudo, abandonar a ilusão infantil de que uma grande potência financia cadeias minerais no Sul Global por altruísmo ou amizade ideológica. Potências agem por interesse. O dever de um país soberano é fazer o mesmo.
Conclusão
A oferta das terras raras brasileiras aos Estados Unidos, feita por Flávio Bolsonaro no palco do conservadorismo trumpista, não é um lapso retórico nem um detalhe periférico de campanha. Ela condensa uma visão de mundo. Nessa visão, o Brasil não aparece como civilização capaz de transformar sua riqueza mineral em densidade industrial, tecnológica e política própria. Aparece como território útil, parceiro obediente, reservatório confiável de insumos estratégicos para uma ordem internacional comandada por outros. Essa é a essência do problema. Não se trata apenas de quem vai extrair o minério, nem apenas de quem vai financiá-lo. Trata-se de saber se o país pretende ser sujeito de sua história ou plataforma de conveniência para projetos alheios. As terras raras recolocam, em linguagem contemporânea, uma velha pergunta brasileira: haverá soberania com industrialização e comando nacional da cadeia de valor, ou apenas mais uma modernização subordinada, agora embalada pelo léxico da segurança mineral, da transição energética e da geopolítica ocidental? O mérito involuntário da fala de Flávio Bolsonaro foi tornar essa escolha visível. O desafio do Brasil é não respondê-la de joelhos.
Referências
BRASIL. Casa Civil. Estudo detalha panorama do potencial de minerais estratégicos no Brasil. Brasília: Casa Civil, 2026.
BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Brazil’s Critical Minerals: A Guide for Foreign Investors 2026. Brasília: MME, 2026.
CONGRESSO EM FOCO. Na CPAC, Flávio pede pressão dos EUA sobre eleições no Brasil. Brasília: Congresso em Foco, 2026.
REUTERS. Flavio Bolsonaro draws even with Lula in Brazil election matchup, Datafolha shows. 2026.
REUTERS. Stronger polls buy Flavio Bolsonaro time on economic team as Brazil race heats up. 2026.
SERRA VERDE. Serra Verde Secures US$565 million Financing from US International Development Finance Corporation. 2026.
SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. Serviço Geológico do Brasil esclarece dúvidas sobre potencial do país para terras raras e minerais estratégicos. Brasília: SGB, 2025.
UNITED STATES INTERNATIONAL DEVELOPMENT FINANCE CORPORATION. DFC Highlights Landmark Critical Minerals Investments to Strengthen U.S. National Security During State Department Ministerial. Washington, D.C.: DFC, 2026.
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