quinta-feira, 2 de abril de 2026

A estupidez como fracasso da razão: Entre Descartes, Hannah Arendt, Kahneman e Jean-François Marmion



“O bom senso é o que há de mais universal no mundo”, escreveu Descartes no início do Discurso do Método. A frase, à primeira vista, parece uma celebração da racionalidade humana. Mas, lida à luz de obras contemporâneas como A psicologia da estupidez, organizada por Jean-François Marmion, ela adquire um tom quase irônico. Afinal, se o bom senso é tão universal, por que a irracionalidade, o autoengano, a cegueira moral e a adesão ao absurdo aparecem com tanta frequência na vida cotidiana, na política, nas instituições e até na ciência?


A pergunta é incômoda porque atinge o centro da experiência humana. O problema não é apenas que existam pessoas ignorantes. O problema é mais profundo: seres humanos inteligentes, instruídos, sofisticados e até brilhantes podem incorrer em formas graves de estupidez. E, não raramente, justamente por serem inteligentes, tornam-se ainda mais capazes de justificar o injustificável.


É nesse ponto que a reflexão de Marmion se torna particularmente fecunda. A estupidez, ali, não aparece como simples falta de inteligência, mas como falha do juízo, endurecimento do ego, recusa da dúvida, apego narcísico às próprias crenças e incapacidade de confrontar a realidade quando ela ameaça o conforto psicológico. Em outras palavras, a estupidez não é mera ausência de luz; às vezes, ela é uma luz mal orientada, usada para iluminar apenas aquilo que confirma o que já se queria ver.



Descartes e o ideal da razão disciplinada


Descartes jamais confundiu razão com opinião espontânea. Quando afirma a universalidade do bom senso, não está dizendo que todos pensam bem, mas que todos acreditam possuir a faculdade de julgar. A diferença é decisiva. Ter a faculdade da razão não significa exercê-la corretamente. Por isso, o filósofo francês propõe método, ordem, decomposição dos problemas, revisão cuidadosa e, sobretudo, dúvida.


Aqui surge uma primeira chave interpretativa importante: a estupidez talvez não seja o oposto da razão, mas o oposto do seu uso disciplinado. O erro humano não nasce apenas da ignorância; nasce também da pressa de concluir, da vaidade de acertar, da preguiça de revisar e do medo de admitir que talvez se esteja errado. Descartes apostava que a razão, quando submetida ao método, poderia corrigir essas tendências. Marmion, por sua vez, mostra o quanto essas tendências continuam operando, apesar de todo o aparato racional de que dispomos.


Há, portanto, menos contradição do que parece entre os dois. Descartes oferece o ideal normativo da razão. Marmion descreve sua degradação prática no cotidiano psicológico e social. Um mostra o caminho; o outro expõe os abismos.



Hannah Arendt e a banalidade da falha de pensar


A aproximação com Hannah Arendt aprofunda ainda mais o problema. Ao refletir sobre o totalitarismo e sobre o julgamento de Adolf Eichmann, Arendt formulou uma das ideias mais perturbadoras do pensamento contemporâneo: o mal nem sempre se apresenta como monstruosidade espetacular; ele pode emergir da banalidade, da incapacidade de pensar criticamente, da obediência sem reflexão, da adesão burocrática a rotinas desumanizantes (Arendt, 1999).


Esse ponto tem relação direta com a discussão sobre estupidez. A estupidez, em sua forma mais perigosa, não é necessariamente caricatural. Ela pode vestir terno, ocupar cargos, preencher formulários, assinar documentos, replicar slogans morais e agir dentro da mais aparente normalidade. Não se trata apenas de um déficit cognitivo, mas de um colapso ético do pensamento. A pessoa deixa de interrogar o sentido do que faz. Deixa de pensar a partir da perspectiva do outro. Deixa de submeter suas ações a um juízo interno.


Arendt ajuda a perceber que a estupidez pode ser socialmente organizada. Ela não depende apenas de indivíduos “tolos”, mas de ambientes que recompensam conformismo, punem a reflexão, estimulam a simplificação e transformam a repetição em virtude. Em tais contextos, pensar torna-se quase um ato de resistência.


É precisamente por isso que a estupidez não deve ser tratada apenas como tema humorístico ou psicológico. Ela também é questão política. Uma sociedade que enfraquece a educação crítica, que substitui argumentação por slogans e que incentiva pertencimentos tribais acima da verdade cria condições favoráveis para a expansão de formas coletivas de estupidez.



Kahneman e a arquitetura mental do erro


Se Arendt ilumina a dimensão ética e política do problema, Daniel Kahneman ajuda a explicar sua base cognitiva. Em Rápido e Devagar, o autor demonstra que o pensamento humano opera, em grande medida, por dois modos: um rápido, intuitivo, automático e associativo; outro lento, analítico, deliberativo e custoso (Kahneman, 2012). O primeiro é indispensável para a vida prática, mas também está na origem de inúmeros vieses, ilusões e julgamentos precipitados.


Essa formulação é decisiva porque revela que a estupidez não é uma anomalia rara. Ela está inscrita na economia normal da mente. O cérebro busca atalhos, simplifica, preenche lacunas, confirma expectativas e protege identidades. Isso significa que o erro não é exceção; é uma possibilidade estrutural da cognição humana.


O efeito Dunning-Kruger, por exemplo, mencionado em debates dessa natureza, mostra algo quase cruel: indivíduos menos competentes tendem a superestimar suas capacidades justamente porque lhes faltam os recursos para perceber sua própria insuficiência. Mas o fenômeno não se limita aos menos preparados. Em outros contextos, especialistas também podem cair em excesso de confiança, rigidez interpretativa e fechamento diante do inesperado.


Kahneman desmonta uma crença confortável: a de que pensamos como juízes frios e imparciais. Na prática, pensamos muitas vezes como advogados de nossas próprias convicções. Em vez de buscar a verdade, buscamos defender posições com as quais já nos identificamos. Marmion se move no mesmo terreno quando sugere que a estupidez floresce onde o ego atropela a lógica.



Marmion e a estupidez como poluição mental


A imagem da estupidez como “poluição mental” é particularmente feliz porque comunica três aspectos importantes. Primeiro, sua ubiquidade: ela está em toda parte. Segundo, sua invisibilidade relativa: nem sempre é facilmente percebida por quem a reproduz. Terceiro, seu caráter contagioso: ambientes intoxicados por desinformação, ressentimento, vaidade e simplificação tornam o pensamento mais opaco.


Essa perspectiva impede uma leitura moralista simplista. A estupidez não é propriedade exclusiva “dos outros”. Ela atravessa todos. Ela aparece quando alguém prefere preservar a autoestima a corrigir um erro; quando confunde convicção com verdade; quando transforma pertencimento grupal em critério de realidade; quando acredita que mudar de ideia é sinal de fraqueza, e não de maturidade intelectual.


Há aqui um ponto filosófico central: a estupidez não se reduz ao não saber, mas ao fechamento do pensamento. O ignorante que reconhece sua ignorância pode estar mais próximo da sabedoria do que o erudito incapaz de rever uma crença. Nesse sentido, a figura socrática permanece atual. A consciência do limite talvez seja uma das formas mais altas de inteligência.



Emoção, ego e autodefesa do erro


O mérito de autores como Antonio Damasio foi mostrar que emoção e razão não são esferas isoladas. Não pensamos apesar das emoções; pensamos com elas, a partir delas e, muitas vezes, sob sua influência. Isso significa que a irracionalidade não é um acidente externo ao pensamento, mas algo que o atravessa desde dentro.


Quando uma crença se funde à identidade, criticá-la deixa de ser simples debate intelectual e passa a ser vivido como ameaça pessoal. Daí a violência de tantas discussões contemporâneas. Não está em jogo apenas uma opinião; está em jogo a autoimagem, o lugar no grupo, a sensação de pertencimento, a necessidade de não parecer fraco. A estupidez, então, ganha um componente afetivo poderoso: ela protege o ego contra a dor de admitir equívoco.


Esse mecanismo ajuda a explicar por que fatos muitas vezes não bastam. A pessoa pode ter diante de si evidências robustas e, ainda assim, recusá-las. Não porque seja incapaz de compreendê-las em termos estritamente lógicos, mas porque aceitá-las implicaria perda simbólica, humilhação narcísica ou ruptura identitária. A estupidez, nesse caso, é uma defesa psíquica.



Redes sociais, pós-verdade e aceleração da estupidez


O mundo digital não inventou a estupidez, mas a amplificou em escala inédita. As redes sociais comprimem o tempo da reflexão, premiam respostas rápidas, estimulam indignação instantânea, reforçam bolhas cognitivas e transformam visibilidade em valor. Nesse ambiente, nuance perde espaço. A dúvida parece fraqueza. A prudência parece hesitação. O extremismo, ao contrário, circula com mais potência porque simplifica, mobiliza afetos intensos e oferece identidade imediata.


A pós-verdade não significa o desaparecimento dos fatos, mas sua subordinação crescente à lógica da adesão emocional. O que importa deixa de ser o que é verdadeiro e passa a ser o que confirma o grupo, reforça o ressentimento ou preserva o ego coletivo. A estupidez torna-se, então, uma tecnologia de coesão tribal.


E aqui reside um dos maiores perigos contemporâneos: não se trata apenas de pessoas enganadas, mas de comunidades inteiras estruturadas em torno de formas de erro socialmente recompensadas. Mentiras compartilhadas geram pertencimento. Indignações fabricadas geram engajamento. A simplificação brutal do real produz sensação enganosa de clareza.



O contrário da estupidez: inteligência ou humildade?


Talvez a pergunta decisiva não seja “como eliminar a estupidez?”, porque isso é impossível, mas “o que pode contê-la?”. E a resposta talvez não seja simplesmente mais inteligência, mais informação ou mais técnica. Pessoas altamente informadas continuam sendo capazes de autoengano, arrogância e cegueira moral.


O verdadeiro antídoto parece estar numa virtude menos celebrada: a humildade intelectual. A capacidade de dizer “posso estar errado”. A disposição de revisar argumentos. O reconhecimento de que perceber não é o mesmo que compreender. A aceitação de que inteligência sem autocrítica pode degenerar em sofisticação do erro.


Nesse ponto, o problema da estupidez encontra a ética do pensamento. Pensar bem não é apenas ter capacidade lógica; é cultivar uma relação honesta com a verdade, com o outro e com os próprios limites. É justamente por isso que a dúvida não é fraqueza. Ela é condição de lucidez.



Conclusão


A provocação “o bom senso é universal, mas e a estupidez?” toca uma verdade desconfortável: a condição humana é atravessada por uma tensão permanente entre razão e autoengano. Descartes acreditou na potência universal da razão; Hannah Arendt mostrou o risco da ausência de pensamento; Kahneman revelou os atalhos e vieses da mente; Marmion reuniu essas inquietações numa investigação multifacetada sobre a propensão humana à irracionalidade.


O resultado é uma lição dura, mas necessária: a estupidez não está apenas na ignorância alheia, e sim na vulnerabilidade compartilhada de todos os sujeitos ao ego, ao conformismo, à pressa, ao medo, à vaidade e à recusa de duvidar. Ela é menos um defeito de alguns do que uma possibilidade permanente de todos.


Por isso, a verdadeira inteligência talvez não consista em parecer sempre certo, mas em preservar a capacidade de pensar contra si mesmo. Onde essa capacidade desaparece, nasce a estupidez; onde ela permanece viva, ainda há esperança de razão.



Referências


Arendt, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.


Descartes, R. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


Kahneman, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.


Marmion, J.-F. (org.). A psicologia da estupidez. Rio de Janeiro: Vestígio, 2020.

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