sexta-feira, 6 de março de 2026

O “não será uma guerra sem fim” que já soa como começo de Vietnã

Um motorista de aplicativo no posto e uma guerra decidida por gente que não pega fila no SUS



O motorista de aplicativo encosta no posto às 6h40, ainda com o celular carregando o mapa e os avisos do grupo do WhatsApp da categoria. Ele olha o preço, faz a conta do quanto precisa rodar para pagar combustível, almoço e a diária do aluguel do carro. Hoje, decide que vai ligar o app só nos horários de tarifa dinâmica. No mesmo bairro, a dona de uma padaria ajusta o preço do pão e do gás no caderno: o fornecedor avisou que o frete vai subir. E no gabinete da Secretaria Municipal de Educação, alguém revisa as rotas do transporte escolar: se o diesel escapar do orçamento, não dá para prometer ônibus para todo mundo do mesmo jeito.


A guerra entre EUA e Irã não entra na vida comum como uma explosão na TV. Ela entra como custo. Ela vira frete. Ela vira preço do gás, do diesel, do remédio que depende de logística, do asfalto que depende de derivado. E quando a guerra envolve um dos gargalos mais sensíveis da economia global — o fluxo de energia e navegação no Golfo — o impacto não é “lá longe”, é no caixa do dia seguinte.


Em 28 de fevereiro de 2026, Donald Trump anunciou que os EUA haviam iniciado “major combat operations in Iran” (operações de combate de grande porte) (United States Senate Democrats, 2026). Poucos dias depois, o Secretário de Defesa Pete Hegseth apareceu dizendo que isso não levaria a uma “endless war” (guerra sem fim) (Reuters, 2026a). A ONU, na mesma data do anúncio inicial, condenou a escalada e afirmou que o uso da força por EUA e Israel contra o Irã, seguido de retaliações, “undermines international peace and security” (mina a paz e a segurança internacionais) (United Nations, 2026a).


Este texto tem um objetivo direto: mostrar por que essa guerra, do jeito que foi anunciada e justificada, tem cara de armadilha estratégica — e por que a comparação com o Vietnã faz sentido não pela forma da guerra, mas pelo mecanismo de desgaste, contradição e custo crescente. A tese é simples e nada neutra: quando um governo entra numa guerra sem definir publicamente um critério verificável de término, e ainda precisa negar “guerra sem fim” na largada, a chance de repetir o roteiro político do Vietnã aumenta — e quem paga não é o gabinete em Washington, é o cotidiano de quem vive de trabalho, transporte, escola pública e preço no mercado (Reuters, 2026a; U.S. Department of State, 2025).


O leitor não precisa gostar do regime iraniano para entender isso. O regime pode ser criticável por mil motivos — e, mesmo assim, a guerra pode ser um método ruim, caro e instável. Uma coisa não anula a outra. Aliás, a história está cheia de governos terríveis usados como álibi para decisões que pioram o mundo.



A frase “guerra sem fim” não veio como confissão: veio como negação — e isso já é um sinal



Quando se fala em “guerra infinita” ou “guerra sem fim”, a imagem que vem à cabeça é aquela guerra que nunca tem conclusão. O detalhe importante aqui é o seguinte: no pronunciamento de 28 de fevereiro, Trump não aparece dizendo “vamos entrar numa guerra sem fim”. Ele anuncia a operação, descreve objetivos e acusações, e apresenta o conflito como necessário (United States Senate Democrats, 2026). A expressão “endless war” surge de forma mais nítida como negação pública: Hegseth diz que as operações não levarão a uma “endless war” e que a meta é destruir mísseis, marinha e infraestrutura de segurança do Irã (Reuters, 2026a).


Isso importa mais do que parece. Porque ninguém sobe ao púlpito para negar um risco que não está colado no debate. Se o governo precisa negar, é porque a dúvida já circula: “isso vai virar outra guerra interminável?”. Esse tipo de pergunta nasce quando os objetivos parecem elásticos e quando a lógica do conflito empurra para escalada.


A política funciona assim: se o governo está seguro de que a operação tem começo, meio e fim, ele apresenta métricas e prazo. Quando o governo não tem — ou não quer dizer — ele oferece confiança, tom de voz e um “fica tranquilo”. A frase “não será endless war” entra exatamente nesse lugar.


O problema é que guerras não acabam por desejo. Elas acabam quando existe uma condição de término que não dependa de fé, nem de marketing, nem de conversão moral do inimigo. E é aqui que o Vietnã vira espelho.



Vietnã: não foi só uma guerra na selva. Foi uma guerra em que o “fim” nunca ficou claro



Vietnã costuma ser lembrado como selva, guerrilha, helicóptero e imagem de TV. Só que o núcleo do Vietnã, o que faz dele um trauma político, é outro: foi um conflito em que a superpotência entrou com objetivos políticos enormes e variáveis, sustentando uma narrativa de progresso, enquanto a realidade insistia em desmentir essa narrativa.


O próprio Departamento de Estado, ao reconstituir o período de 1969 a 1973, mostra como a presidência Nixon buscou “ending this war honorably” (encerrar a guerra “honrosamente”) e como o encerramento se tornou um projeto político em si, com negociações, retirada e “Vietnamization” (transferência do esforço para forças locais) (U.S. Department of State, 2025). A chave está na palavra “honorably”: não é um critério militar; é um critério político e simbólico. Quando uma guerra precisa terminar “com honra”, ela já virou disputa de narrativa. E disputa de narrativa costuma durar mais do que o planejado.


O Vietnã também ficou marcado pela “credibility gap”, a lacuna entre o que o governo dizia e o que o público percebia. Essa lacuna foi alimentada por discursos de “luz no fim do túnel”, a insistência pública de que a vitória estava próxima. O Council on Foreign Relations resgata esse tipo de fala de Westmoreland (“the end begins to come into view”) como parte do esforço de sustentar otimismo e controle (CFR, 2017). O Miller Center descreve como o governo Johnson montou uma “progress offensive” para convencer o público de que havia “light at the end of the tunnel” (Miller Center, s.d.). O FPRI lembra que o Tet Offensive, em 1968, foi um turning point precisamente por destruir a ilusão de controle e mudar o objetivo americano para uma saída “face-saving” (que salvasse a face) (FPRI, 2012).


Perceba como isso conversa com 2026: o governo inicia uma guerra grande e, em seguida, precisa dizer que não vai repetir “endless war”. É o mesmo padrão psicológico e político: antecipar a acusação antes que ela vire sentença.



Irã 2026: quando o objetivo parece “limpo”, mas o adversário é um sistema



A diferença mais óbvia entre Vietnã e Irã é o formato militar. Vietnã foi guerra terrestre prolongada com ocupação, tropas, pacificação, combate irregular. Irã, até aqui, aparece como campanha de ataques e resposta regional em múltiplos domínios (aéreo, mísseis, drones, mar, proxies). Então, sim: não é a mesma guerra.


Só que o mecanismo de atoleiro não depende de selva. Ele depende de uma coisa mais simples: o adversário não é um prédio; é um sistema que responde.


Se o objetivo for “destruir X bases” ou “eliminar Y lançadores”, isso tem critério mensurável. Mas se, ao mesmo tempo, o discurso político flerta com “mudança de regime”, o critério deixa de ser mensurável. A guerra vira uma tentativa de reconfigurar a política interna do outro país. Isso raramente termina rápido.


A imprensa internacional registrou, nesses primeiros dias, contradições e deslocamentos discursivos do governo Trump sobre os objetivos e “planos de guerra” (El País, 2026). E essa oscilação é um combustível clássico para “guerra sem fim”: quando o objetivo muda, o término também muda.


O leitor que não acompanha geopolítica pode pensar: “mas por que o objetivo mudaria?”. Porque a guerra tem um efeito perverso: ela cria situações que exigem resposta, e cada resposta vira justificativa para mais resposta. Um ataque gera retaliação. A retaliação gera pressão por escalada para “restabelecer dissuasão”. E, de repente, o governo já não está mais defendendo o objetivo inicial; está defendendo o próprio ato de não recuar.


É assim que nasce a guerra por inércia.



O gatilho econômico que faz a guerra sair do noticiário e entrar no supermercado: o mar



Para entender por que essa guerra importa para quem vive de rotina urbana, dá para focar num ponto que não exige doutorado: o transporte marítimo.


Quando a tensão envolve o Estreito de Hormuz, o mundo presta atenção porque aquilo é gargalo de energia. E gargalo de energia vira custo de tudo. A Reuters destacou, em reportagens desses dias, a preocupação do mercado com o risco de disrupção do shipping e o impacto sobre preços de petróleo e gás (Reuters, 2026b). Em paralelo, há notícias sobre empresas suspendendo embarques ou reavaliando rotas, justamente por risco de ataques e de interrupção (Reuters, 2026c).


Agora, traduza para uma situação sem glamour:


  • Uma clínica de fisioterapia em bairro popular usa luva, álcool, descartáveis, alguns importados, e depende de entrega rápida. Se o frete encarece, o fornecedor repassa. A clínica não repassa totalmente porque perde cliente. Então corta despesa: reduz horário de atendimento, adia compra de equipamento, paga menos para o estagiário.
  • Um pequeno mercado de cidade do interior recebe parte do estoque por caminhão de distribuidora. Se o diesel sobe e o custo de transporte aumenta, o preço sobe. O mercado não tem margem para “absorver” muito. O consumidor troca marca, compra menos, e o mercado reduz variedade.
  • Um município com transporte escolar terceirizado enfrenta reajuste contratual porque o combustível subiu. A saída “técnica” vira política: corta rota, reduz linha, empurra aluno para caminhar mais, aumenta evasão.



A guerra vira o tipo de custo que ninguém assinou, mas todo mundo paga.


E isso se conecta com o Vietnã por outro caminho: o Vietnã não foi só “perda militar”, foi erosão política e econômica interna. Quando um conflito drena recursos e credibilidade, ele contamina o resto do Estado. A fila da saúde não melhora em país que vive de crise externa permanente. E o orçamento municipal não fica mais elástico porque um presidente decidiu bombardear alguém.



A ordem pós-1945: o dano que parece abstrato até virar “regra do mais forte”



A ONU, no dia 28 de fevereiro, condenou a escalada e disse que o uso da força e retaliações “undermine international peace and security” (United Nations, 2026a). Em outro pronunciamento no Conselho de Segurança, o Secretário-Geral foi ainda mais explícito sobre o risco de desencadear uma cadeia de eventos fora de controle e reiterou que não há alternativa viável ao assentamento pacífico de disputas (United Nations, 2026b). Isso não é poesia de diplomata. É um aviso institucional: quando grandes potências normalizam o uso da força fora de parâmetros claros, o sistema internacional perde previsibilidade.


A ordem pós-1945 — ONU, Carta, mecanismos multilaterais — foi construída justamente para reduzir o espaço do improviso bélico como ferramenta de política cotidiana. O problema é que essa ordem depende de dois elementos: regras escritas e autocontenção do poder.


Quando o poder decide que as regras são opcionais, o incentivo para os demais é copiar o método. O efeito prático disso, para quem vive em cidade e depende de serviço público, é menos previsibilidade e mais choque. Choque de energia, choque de comércio, choque de segurança. E choque, no fim, vira custo fiscal e custo de vida.


Há um aspecto adicional: esse tipo de guerra também tensiona o direito interno americano, porque acende de novo o debate sobre o Executivo iniciar hostilidades sem autorização formal do Congresso. Em 4 de março de 2026, o Washington Post registrou que o Senado rejeitou uma resolução para bloquear Trump de ordenar novos ataques ao Irã, mesmo com argumento de que o presidente iniciou a guerra sem consentimento do Congresso (The Washington Post, 2026). Isso significa que o conflito não está só no Oriente Médio: ele está dentro das instituições americanas.


Aí entra um ponto que ajuda a entender por que “ordem pós-1945” importa: se o país que vendeu por décadas a imagem de “guardião das regras” passa a tratar controle interno e direito internacional como detalhe, a “ordem” vira retórica. E retórica não segura preço de combustível.



O ponto que cola Vietnã e Irã: “vitória” definida como rearranjo político do outro



Se você quiser comparar Irã com Vietnã sem cair no exagero, a comparação mais honesta é esta: as duas situações ficam perigosas quando a vitória é definida como rearranjo político interno do adversário.


No Vietnã, o objetivo final, no fundo, era impedir que um regime aliado colapsasse e que outro projeto político vencesse. Isso não é “capturar colina”; é moldar política interna. O Departamento de Estado, ao falar de “Vietnamization” e de negociação para saída, mostra como o problema era estrutural e político, não só militar (U.S. Department of State, 2025).


No Irã, o discurso público oscila entre “eliminar ameaças” e algo mais amplo, e a imprensa registrou contradições internas sobre planos e escopo (El País, 2026). Quando o escopo se amplia — e quando aparece a sombra de “regime change” — a guerra tende a perder critério de término. E é aí que a frase “não será endless war” vira, na melhor hipótese, um pedido de confiança; na pior, um autoengano.


O que define “guerra sem fim” não é a intenção declarada, é a estrutura do objetivo. Objetivo que depende de o adversário mudar de natureza política é objetivo elástico. E objetivo elástico é terreno fértil para escalada.



“Mas o Irã é um regime brutal, então vale”: a crítica mais comum — e por que ela falha como argumento de método



Essa é a crítica que aparece na mesa de bar, no comentário de rede social e até em editorial de jornal: “o Irã é ruim, então qualquer ataque é justificável”. É uma frase emocionalmente fácil e intelectualmente preguiçosa.


Porque ela confunde julgamento moral do regime com avaliação de eficácia e custo do método.


Mesmo que o regime iraniano seja repressivo, isso não transforma automaticamente guerra em solução. Guerra é uma ferramenta de alto risco. Ela cria retaliação, abre espaço para radicalização interna, e geralmente fortalece os setores mais duros do próprio regime que você diz querer enfraquecer.


Além disso, guerra não é cirurgia sem sangramento. Ela mexe com o mundo material. A Reuters noticiou reações do mercado e preocupações sobre crise em energia e navegação (Reuters, 2026b). Isso significa inflação e custo de vida, inclusive em países que não escolheram entrar nessa guerra.


No cotidiano, essa falha de argumento aparece assim: um prefeito pode dizer “precisamos cortar linha de ônibus porque é necessário”. A pergunta correta é: necessário para quê, com que custo e com qual critério de retorno? Só dizer “é necessário” não paga a passagem do trabalhador. Com guerra é igual.



O Vietnã ensinou uma coisa simples: quando a narrativa vira mais importante que a realidade, a guerra já perdeu



No Vietnã, o governo tentou sustentar publicamente a imagem de progresso. Westmoreland e outros líderes alimentaram o discurso de que o fim estava “à vista”, um tipo de conversa que o CFR resgata como parte do esforço de propaganda e de gestão de opinião pública (CFR, 2017). O Miller Center descreve a “progress offensive” e a manutenção do discurso de “light at the end of the tunnel” (Miller Center, s.d.). O Tet Offensive desmontou essa construção e obrigou o governo a deslocar o objetivo para uma saída que preservasse a imagem, como descreve o FPRI (FPRI, 2012).


Quando a guerra chega ao ponto em que o objetivo passa a ser “não parecer fraco” e “manter credibilidade”, o campo de batalha real vira secundário. A guerra vira uma máquina de reputação. E máquina de reputação costuma moer gente e orçamento até alguém desligar a tomada.


A comparação com Irã fica incômoda justamente porque o governo já está no começo tentando administrar narrativa: “não será endless war”. Isso é, ao mesmo tempo, uma tentativa de conter medo e um sinal de que o medo faz sentido.



Guerra e Constituição: quando o “exterior” desorganiza o interior



Um efeito típico de guerras prolongadas é que elas corroem instituições internas, porque criam exceções e hábitos de poder. No caso atual, a discussão sobre autorização do Congresso e poder de guerra volta com força. O Brennan Center argumentou, em 3 de março de 2026, que os ataques de Trump contra o Irã são inconstitucionais, apontando ausência de autorização congressual e contestando a narrativa de ameaça iminente (Brennan Center, 2026). No dia seguinte, o Senado rejeitou um esforço para bloquear a continuidade dos ataques, segundo o Washington Post (The Washington Post, 2026). Ou seja: a tensão não é só militar; é de governança.


E esse tipo de erosão institucional é outro ponto de paralelo com Vietnã. O Vietnã deixou lições sobre limites do Executivo, confiança pública e trauma político. Quando um governo entra numa guerra sem consenso interno sólido, ele compra não só um inimigo externo, mas um desgaste interno prolongado.


No cotidiano, isso aparece como paralisia e ruído: a política vira guerra cultural, o debate público vira torcida, e problemas locais viram assunto secundário. O orçamento municipal não se resolve. A escola pública não melhora por mágica. Só aumenta o barulho.



A separação entre religião e Estado entra aqui como trava, não como tema “moral”



Você disse que defende drasticamente a separação entre religião e Estado. Isso não é um detalhe “filosófico”. Em guerra, isso vira mecanismo de contenção.


Quando política externa vira cruzada moral — de qualquer lado — a guerra ganha combustível interminável. “Bem contra mal” não tem cláusula de saída. O Estado laico, na prática, é uma maneira institucional de impedir que o poder público seja sequestrado por missão sagrada. E missão sagrada é o jeito mais rápido de transformar conflito em “infinito”: ela não admite fim, admite conversão ou destruição.


No Brasil, a defesa do Estado laico aparece em documentos institucionais como proteção de liberdade e prevenção de privilégios religiosos no Estado (CNMP, s.d.). No plano jurídico, a laicidade é tratada como parte do Estado Democrático de Direito, com separação entre Estado e instituições religiosas (Morais, 2021). Essa discussão parece distante do Irã, mas não é: quanto mais a guerra for vendida como luta moral, mais difícil fica parar. E quanto mais difícil parar, mais provável que vire “sem fim”.



Por que isso importa para Brasil, escola pública, serviço municipal e pequeno comércio



Mesmo sem o Brasil participar militarmente, o efeito econômico e político atravessa o país.


Pense em quatro cenas bem comuns:


  1. Escola pública com alimentação escolar: o fornecedor repassa frete; a prefeitura pressiona por preço; o fornecedor reduz qualidade; o aluno sente.
  2. Unidade de saúde com abastecimento de insumos: alguns itens dependem de importação e logística; o custo sobe; o município posterga compra; falta material; o atendimento piora.
  3. Oficina mecânica de bairro: peça importada atrasa e encarece; o carro do entregador fica parado; o entregador perde renda; a economia local trava.
  4. Ônibus urbano e transporte escolar: diesel sobe, contrato reajusta, rota corta, gente anda mais, gente desiste de estudo.



Esse encadeamento não é “teoria econômica”. É a forma como instabilidade internacional vira precariedade local.


Quando alguém diz “isso não tem a ver com a nossa vida”, geralmente está falando de uma vida que não depende de ônibus, de serviço público e de preço no mercado.



A crítica final: “comparar com Vietnã é exagero” — e a resposta



A crítica tem um pedaço de razão: Vietnã foi guerra terrestre prolongada com ocupação e uma dinâmica muito específica. Irã, até aqui, parece outra coisa.


Mas a comparação não é sobre selva. É sobre padrão de governo em guerra.


Vietnã ensinou que uma superpotência pode ter vantagem militar e, ainda assim, perder politicamente quando:


  • o objetivo é político e elástico,
  • o discurso muda para se adaptar à realidade,
  • a narrativa vira prioridade,
  • o custo cresce com o tempo,
  • e o “fim” depende do outro país virar outra coisa.



Esse conjunto é o terreno da “guerra sem fim”. E é por isso que, quando o Pentágono precisa dizer “não será endless war” já no começo, vale desconfiar do roteiro (Reuters, 2026a). O Vietnã também começou com confiança, linguagem de controle e promessa de solução. Terminou como terminou (U.S. Department of State, 2025).


O debate honesto não é “é igual ou não é igual?”. O debate honesto é: qual é o critério público de término, e quem garante que ele existe?


Se a resposta for vaga, a comparação com Vietnã deixa de ser metáfora e vira alerta.


No fim, a recomendação prática é bem pouco épica: pare de discutir “se o Irã merece” e comece a exigir que quem faz guerra diga qual é a métrica de término — em linguagem simples, com prazo e verificação. Se isso não aparecer, a conta já está chegando no posto.





Referências bibliográficas



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