A pergunta é simples, mas ninguém gosta de responder em voz alta: por que tanta gente aceita como “normal” trabalhar 12 horas por dia, sem férias, sem previsibilidade, dependendo de aplicativo — e ainda se sentir culpada quando o mês não fecha?
Não é só falta de emprego. Não é só “economia ruim”. Tem um conjunto de ideias circulando por aí — no TikTok, no púlpito, no RH, no balcão do banco, na palestra do Sebrae, no discurso do político — que faz a precariedade parecer virtude e a desigualdade parecer destino.
Este texto defende uma posição clara: no Brasil, liberalismo “de botequim”, neoliberalismo “de planilha”, moralidades religiosas de prosperidade e empreendedorismo de massa operam como cola ideológica que sustenta um mercado de trabalho e uma vida econômica em que o risco fica embaixo e o controle fica em cima. Isso não acontece porque “todo mundo é mau”. Acontece porque essas ideias oferecem explicações rápidas, frases fáceis e um tipo de conforto psicológico: se deu errado, é “falta de esforço”; se deu certo, é “mérito” (ou “bênção”). Enquanto isso, os mecanismos duros — tarifa, taxa, algoritmo, contrato, juros, monopólio local, exclusividade — continuam rodando sem constrangimento.
Objetivo. Mostrar, com exemplos brasileiros bem concretos, como essas ideologias aparecem no cotidiano (trabalho, escola, serviços públicos, pequenos negócios e rotina urbana) e por que elas ajudam a manter o arranjo de precarização, informalidade, uberização e automação.
Metodologia. Análise crítico-jornalística baseada em (i) dados oficiais sobre informalidade e ocupação (IBGE); (ii) estatísticas sobre digitalização financeira (Febraban) e (iii) indicadores sobre religião (Censo 2022/IBGE) e empreendedorismo (Sebrae). O texto conecta esses dados a cenas rotineiras para evitar discurso abstrato. As citações seguem autor-data conforme ABNT.
1) A cola ideológica: por que “ideia” importa mais do que parece
Você pode achar que “ideologia” é coisa de universidade. Só que ideologia, na prática, é aquilo que a pessoa repete sem perceber que está repetindo. É a frase pronta que encerra a conversa e evita olhar o mecanismo.
Duas frases comuns no Brasil:
- “Quem quer, dá um jeito.”
- “O Estado atrapalha; deixa o mercado funcionar.”
Quem fala isso não está, necessariamente, defendendo um tratado de filosofia. Está tentando explicar o próprio cansaço, a própria frustração, ou justificar por que alguém “ficou para trás”. O problema é que essas frases, repetidas em escala, viram manual de instruções para aceitar um país onde quase 4 em cada 10 ocupados estão na informalidade (IBGE, 2025).
E sim: a taxa anual de informalidade foi 39,0% em 2024 (IBGE, 2025). Isso não é detalhe estatístico. Isso significa um país enorme onde a norma cotidiana é trabalhar sem rede — e, num país assim, ideias que culpam o indivíduo têm terreno fértil. Porque, se o sujeito não tem proteção, ele precisa acreditar em alguma coisa para continuar saindo de casa.
2) Liberalismo no Brasil: “liberdade” que começa no contrato e termina no boleto
O liberalismo, no discurso brasileiro do dia a dia, costuma vir embalado como moral de independência: “não dependa de ninguém”, “não espere do governo”, “o mérito vence”. Até aí, parece bonito. Só que, na prática concreta do Brasil, esse liberalismo vira uma coisa bem específica: liberdade para contratar e cobrar; liberdade para terceirizar risco; liberdade para cortar custo.
2.1 Onde isso aparece no cotidiano?
No trabalho terceirizado do serviço público.
Um vigilante contratado por empresa terceirizada presta serviço num campus, numa escola, numa prefeitura. Ele troca de empresa a cada licitação. Perde continuidade, perde negociação, perde poder de reclamar. Quando a empresa atrasa salário, a desculpa é sempre burocrática. O liberalismo “do contrato” diz: “foi acordado”. O trabalhador diz: “e eu pago conta como?”
No aluguel e no crédito.
A dona de um salão pequeno depende de maquininha e parcelamento para vender. O banco oferece “antecipação de recebíveis” a uma taxa que come margem. O discurso liberal cotidiano diz: “ninguém te obrigou”. Na prática, o bairro inteiro já paga no cartão, e o Pix nem sempre resolve (cliente quer parcelar). A liberdade, aqui, é escolher entre duas formas de perder.
Na saúde e no plano.
O sujeito informal não tem plano, fica no SUS. Quando consegue plano barato, descobre carência, coparticipação, rede limitada. O liberalismo “da escolha” aparece como: “é só contratar melhor”. Como se a renda do sujeito fosse elástica.
Esse liberalismo de superfície funciona porque cola na sensação real de que o Estado brasileiro é lento e muitas vezes injusto. Só que ele ignora um ponto básico: o mercado no Brasil não é um campo neutro com concorrência perfeita. Em energia, telecom, plataformas e bancos, há concentração e assimetria de poder. A liberdade do consumidor é limitada pelo funil.
3) Neoliberalismo no Brasil: quando a vida vira planilha e o fracasso vira culpa
Neoliberalismo aqui não é “politicagem”. É um jeito de organizar a vida. A pessoa passa a se enxergar como microempresa ambulante. O tempo vira ativo. O descanso vira desperdício. A saúde vira “performance”. E o trabalho vira uma mistura de meta com sobrevivência.
O que sustenta esse modo de pensar é uma promessa: se você “se gerir bem”, você sobe. A realidade entrega outra coisa: você se gerencia, se cobra, se endivida e continua preso a um jogo de regras que você não define.
3.1 A cultura da métrica
O entregador é medido por taxa de aceitação, tempo, avaliação.
A professora é empurrada para “indicadores” e “resultados” sem estrutura.
A atendente de call center é medida por tempo médio de atendimento e “resolução” — mesmo quando o problema do cliente é justamente o labirinto do sistema.
Esse é o neoliberalismo operando: transformar relações humanas em indicadores e transformar indicador em punição.
3.2 A digitalização bancária como “modernização” que desloca trabalho
Em 2024, 208,2 bilhões de transações bancárias foram feitas no Brasil, e 82% ocorreram por canais digitais; 75% pelo celular (Febraban, 2025). Isso é gigantesco.
Na prática, isso significa duas coisas ao mesmo tempo:
- Para quem domina o app, o banco virou bolso.
- Para quem não domina (muito idoso, muita gente com baixa escolaridade digital), o banco virou obstáculo.
E tem a parte que quase ninguém fala: essa digitalização desloca trabalho para o cliente. Você vira seu próprio caixa, seu próprio atendente, seu próprio “gerente”. O banco corta custo de agência e atendimento. E a irritação vira “ineficiência do usuário”: “você não sabe usar”. Esse é o neoliberalismo perfeito: o sistema reduz custo, e o consumidor acha que a falha é pessoal.
3.3 A estética do “gestor de si” no bairro
Você vê isso em todo lugar:
- No motoboy que compra curso de “como ganhar mais no app” em vez de exigir transparência de tarifa.
- Na vendedora que acha que se postar mais Reels, o algoritmo “vai reconhecer”.
- No jovem que acha que CLT é “fraqueza”, mas trabalha 14 horas por dia sem direito nenhum.
O neoliberalismo brasileiro não precisa de livro. Ele vive no celular.
4) Moralidades religiosas: quando fé vira regra econômica e disciplina social
Religião no Brasil é força social concreta, não folclore. O próprio IBGE, no Censo 2022, registrou mudança importante no mapa religioso: católicos seguem em queda; evangélicos e pessoas sem religião crescem (IBGE, 2025b). Isso não é só estatística de crença; isso reorganiza redes de apoio, voto, consumo, linguagem moral e até noção de sucesso.
4.1 O que a moralidade religiosa sustenta, na prática?
Em muitos territórios, a igreja funciona como:
- rede de sociabilidade (quem ajuda quem);
- rede de emprego informal (indicação, “irmão que contrata irmão”);
- rede de assistência (cesta básica, visita, apoio emocional);
- e, em alguns casos, como tribunal moral da comunidade.
Isso tem lado positivo real: há lugar onde a igreja é o que sobrou de organização comunitária. Só que a moralidade religiosa pode sustentar o arranjo econômico quando vira teologia prática do trabalho: “sofrimento dignifica”, “pobre é pobre porque não teve fé”, “prosperidade é prova de mérito espiritual”.
E aí acontece uma mágica social: o sujeito precarizado não se revolta com a estrutura; ele tenta “melhorar por dentro” — mais oração, mais disciplina, mais submissão, mais doação. Enquanto isso, o patrão que atrasa salário vira “homem de Deus em provação”. O sistema agradece.
4.2 A teologia da prosperidade como ideologia de mercado
A teologia da prosperidade, quando domina o discurso, funciona como uma forma religiosa de neoliberalismo: você é responsável pela sua vitória; se não venceu, faltou fé ou “alinhamento”. Isso conversa muito bem com um mercado de trabalho instável porque transforma precariedade em prova moral.
Exemplo brasileiro direto: o vendedor de consórcio que usa linguagem religiosa (“Deus vai te honrar”) para empurrar uma dívida longa para alguém endividado. Isso não é “fé”. É moralidade como ferramenta de venda.
4.3 E por que isso cresce?
Porque dá sentido e comunidade onde o Estado é ausente, a escola é precária e o trabalho é instável. O problema é quando essa rede vira justificativa para aceitar exploração. A fé vira anestesia. E anestesia, quando dura muito, vira política econômica sem precisar de ministro.
5) Empreendedorismo de massa: quando “ser MEI” vira destino e não escolha
O Brasil ama a palavra “empreendedor”. Só que muita gente rotulada como empreendedora é, na prática, trabalhadora sem rede.
O Sebrae aponta que 76% dos MEIs têm no MEI sua única fonte de renda, e que milhões dependem disso para sustentar a família (Sebrae, s.d.). Isso é um dado cruel porque mostra que MEI, para uma fatia enorme, não é “projeto”; é sobrevivência.
E o próprio Sebrae vem publicando alertas sobre mortalidade e inaptidão de MEIs em recortes regionais e análises recentes (Sebrae, 2025). Ou seja: o discurso de “abra seu negócio” costuma esconder que boa parte fecha cedo, fica inapta, acumula dívida e volta para o ciclo da precariedade.
5.1 Como o empreendedorismo vira ideologia?
Ele vira ideologia quando faz três movimentos:
- transforma emprego em “serviço” (você não é empregado; você é “prestador”);
- transforma direito em “custo” (férias e 13º viram “privilégios”);
- transforma fracasso estrutural em culpa individual (se não deu certo, você “não vendeu bem”).
Exemplo brasileiro de esquina: a manicure abre MEI porque o salão exige. Ela trabalha seis dias por semana, paga material, paga deslocamento, paga INSS, mas depende de um único salão que define preço e agenda. Chamar isso de “empreendedorismo” é maquiagem. É subordinação sem carteira.
5.2 O papel do Sebrae e do discurso oficial
O Sebrae oferece capacitação e tem importância real. Mas o uso político do empreendedorismo é outra coisa: governos e gestores adoram estatística de “abertura de CNPJ” porque parece dinamismo. Só que abrir CNPJ não garante renda, nem proteção, nem estabilidade.
Quando o país comemora “recorde de MEI”, precisa dizer junto: quantos sobrevivem, quantos têm renda decente, quantos viram inadimplentes. Sem isso, o empreendedorismo vira ideologia de gestão de pobreza.
6) Como essas ideologias se combinam num único pacote
Na vida real, elas não aparecem separadas. Elas se misturam no mesmo discurso do dia a dia, às vezes na mesma frase:
- “O governo não pode ajudar todo mundo” (liberalismo simplificado).
- “Você tem que se reinventar” (neoliberalismo da performance).
- “Deus honra quem acorda cedo” (moralidade religiosa aplicada ao trabalho).
- “Abre um MEI e faz teu corre” (empreendedorismo de massa como saída universal).
O resultado é um pacote perfeito para sustentar um sistema em que:
- o trabalhador assume risco;
- a plataforma controla dados;
- o banco controla crédito;
- e a política aparece como “atrapalhando”.
Enquanto isso, o que quase não se discute é: quem define as regras do jogo.
7) Por que isso importa para quem está no ônibus, na escola e no balcão do SUS
7.1 No ônibus e no trânsito
Se a ideologia dominante diz que cada um deve “se virar”, o poder público se sente autorizado a deixar transporte ruim por anos. A pessoa perde duas horas por dia em deslocamento e ainda ouve que precisa “produzir mais”. O neoliberalismo transforma tempo roubado em culpa individual.
7.2 Na escola
O aluno que trabalha em delivery chega exausto. A escola cobra foco. A família cobra resultado. A ideologia do mérito diz que ele “não quer”. Mas a variável não é vontade; é jornada.
A escola vira palco de moralização: “disciplina”, “empreendedorismo juvenil”, “projeto de vida”. Nada disso é ruim por si. Ruim é usar isso como substituto de política pública de renda, proteção e condições reais.
7.3 No SUS
O trabalhador informal adia consulta porque não pode faltar. Quando vai, já piorou. A ideologia do “cada um por si” transforma um problema estrutural (trabalho sem proteção) em “descuido”. E o sistema público vira o lugar onde a conta chega.
8) A posição deste texto, sem enfeite: isso é engenharia social para manter o risco embaixo
O que está em jogo não é “guerra cultural” abstrata. É controle do custo do trabalho e controle da obediência social.
- Liberalismo simplificado legitima cortar proteção (“o contrato é livre”).
- Neoliberalismo disciplina o sujeito (“você é seu próprio gerente”).
- Moralidades religiosas amortecem revolta (“sofrer é prova; prosperar é benção”).
- Empreendedorismo de massa oferece saída individual (“abre um CNPJ e para de reclamar”).
A combinação é funcional: reduz pressão por política pública e mantém a ideia de que o fracasso é íntimo, não estrutural.
Crítica previsível a essa posição
“Você está demonizando valores de esforço, fé e autonomia. Sem isso, vira vitimismo e dependência do Estado.”
Resposta
Ninguém está dizendo que esforço não importa, nem que fé não pode ser suporte, nem que autonomia é ruim. A questão é outra: quando esforço, fé e autonomia viram argumento para aceitar exploração e cortar direitos, eles deixam de ser virtude e viram ferramenta de controle.
Esforço sem regra vira exaustão. Fé sem crítica vira anestesia. Autonomia sem proteção vira solidão econômica.
E o Estado não é “pai”. Estado é instrumento coletivo. Em setores concentrados (banco, telecom, plataformas), sem regulação e sem política social mínima, “liberdade” vira piada: quem decide é quem controla o sistema.
Conclusão
Se a solução para tudo é “empreende”, “tenha fé” e “trabalhe mais”, então a pergunta fica bem prática: quem, exatamente, ganha quando a explicação do seu salário vira moral — e não contrato, regra e poder?
Referências bibliográficas
FEBRABAN. Oitenta e dois por cento das transações bancárias dos brasileiros são feitas pelos canais digitais. São Paulo, 11 jun. 2025. Disponível em: https://portal.febraban.org.br/noticia/4310/pt-br/. Acesso em: 17 fev. 2026.
IBGE. PNAD Contínua: em 2024, taxa anual de desocupação foi de 6,6%, enquanto taxa anual de informalidade foi de 39,0%. Agência IBGE Notícias, Rio de Janeiro, 31 jan. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/42530-pnad-continua-em-2024-taxa-anual-de-desocupacao-foi-de-6-6-enquanto-taxa-de-subutilizacao-foi-de-16-2. Acesso em: 17 fev. 2026.
IBGE. Censo 2022: católicos seguem em queda; evangélicos e sem religião crescem no país. Agência IBGE Notícias, Rio de Janeiro, 6 jun. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43593-censo-2022-catolicos-seguem-em-queda-evangelicos-e-sem-religiao-crescem-no-pais. Acesso em: 17 fev. 2026.
SEBRAE. O perfil do MEI no Brasil. Brasília: Sebrae, s.d. Disponível em: https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/o-perfil-do-mei-no-brasil%2C939b4c36e25f5810VgnVCM1000001b00320aRCRD. Acesso em: 17 fev. 2026.
SEBRAE. EmpreendeDados – MEI 2024/2025. Brasília: Sebrae, 29 jul. 2025. Disponível em: https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ufs/rr/newpage/empreendedados-mei-20242025%2Cfe990b8fce658910VgnVCM1000001b00320aRCRD. Acesso em: 17 fev. 2026.
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