Quando o afeto vira posse e a guerra chama de “consequência” aquilo que destrói mulheres e crianças
Há frases que parecem inofensivas porque foram naturalizadas. Repetem-se em música, conversa de bar, novela, meme, comentário apressado. “Na guerra e no amor vale tudo” é uma delas. Soa espirituosa, quase sábia. Mas não é. No fundo, essa frase funciona como uma licença moral improvisada: ela sugere que, diante da paixão ou do conflito, as regras comuns da dignidade humana poderiam ser suspensas. E é justamente aí que mora o problema.
No amor, essa suspensão costuma abrir espaço para o ciúme tratado como prova de sentimento, para o controle vestido de cuidado, para a perseguição interpretada como insistência romântica e, no limite mais brutal, para o feminicídio. Na guerra, a mesma lógica se reorganiza em escala industrial: mortes de mulheres e crianças passam a ser apresentadas como “efeitos colaterais”, deslocamentos forçados viram “custos estratégicos”, fome é tratada como desdobramento inevitável, e corpos civis desaparecem sob o vocabulário frio da geopolítica. Em ambos os casos, há um mecanismo comum: primeiro se desumaniza, depois se justifica.
É preciso dizer com clareza: nem no amor, nem na guerra, vale tudo. No amor, porque ninguém ama quando transforma o outro em propriedade. Na guerra, porque nenhum Estado, exército ou liderança política adquire o direito moral de converter vidas civis em estatística administrável. A frase popular tenta resolver com cinismo aquilo que a ética, o direito e a experiência humana tratam como limite inegociável.
No Brasil, o feminicídio continua revelando que uma parte da cultura afetiva ainda confunde vínculo com domínio. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 registrou 1.492 vítimas de feminicídio no país, com predominância de crimes praticados por companheiros ou ex-companheiros; 63,6% das vítimas eram mulheres negras. O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública tem insistido que, desde 2022, o país convive com uma média próxima de quatro feminicídios por dia. Isso não descreve casos isolados de “monstros”. Descreve uma engrenagem social persistente, íntima e estrutural.
O feminicídio raramente começa no ato extremo. Ele costuma ser precedido por uma pedagogia da posse. Vem antes a vigilância do celular, a exigência de senha, o isolamento de amizades, a desqualificação constante, o “você é minha”, o “sem mim você não é nada”, o “se não ficar comigo, não fica com mais ninguém”. O que se chama de amor, nesse registro, já não é amor: é soberania privada sobre a vida de outra pessoa. O agressor não suporta perder o comando e, quando perde, tenta restabelecê-lo pela intimidação ou pela eliminação. A morte, nesse caso, não é um excesso ocasional; é o último argumento de quem nunca reconheceu a autonomia da mulher.
Por isso, tratar feminicídio como “crime passional” é mais do que um erro conceitual. É uma fraude moral. Paixão não explica posse. Sofrimento não absolve violência. Frustração amorosa não autoriza execução. Quando a linguagem suaviza o crime, a cultura prepara a repetição dele. E o país conhece bem esse mecanismo: muitas vezes a sociedade ainda pergunta o que a vítima fez, por que não saiu antes, por que continuou, por que respondeu, por que terminou. São perguntas que, disfarçadas de curiosidade, transferem para a mulher parte do peso de uma violência produzida por um homem e tolerada por estruturas frágeis de prevenção e proteção.
Essa lógica da justificativa também aparece na guerra, apenas com roupas mais solenes. Quando cidades são bombardeadas, cercadas ou privadas de condições mínimas de sobrevivência, mulheres e crianças costumam pagar a conta mais alta. A UNICEF afirmou que 2024 foi um dos piores anos de sua história recente para crianças em conflito e, em levantamento apresentado em fevereiro de 2026, indicou que, só em 2024, aproximadamente 8.280 crianças foram mortas ou mutiladas em conflitos armados. No Oriente Médio e no Norte da África, a agência informou em julho de 2025 que ao menos 12,2 milhões de crianças foram mortas, mutiladas ou deslocadas em menos de dois anos de conflitos.
Em Gaza, a ONU Mulheres estimou, em maio de 2025, que mais de 28 mil mulheres e meninas haviam sido mortas desde o início da guerra em outubro de 2023. A agência também registrou que a crise humanitária atinge de forma desproporcional mulheres e meninas, com colapso de abrigo, água, alimentação e cuidados essenciais.
No Sudão, a ONU Mulheres descreveu, em abril de 2025, o pior cenário humanitário do mundo para 6 milhões de mulheres e meninas deslocadas, ao mesmo tempo em que o número de pessoas expostas ao risco de violência de gênero triplicou para mais de 12 milhões desde o começo da guerra.
Na Ucrânia, a Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU verificou que 2025 foi o ano mais letal para civis desde 2022: 2.514 civis mortos e 12.142 feridos, com crescimento expressivo em relação a 2024. Entre os mortos contabilizados em 2025, havia 892 mulheres, 54 meninos e 38 meninas.
Esses números não servem para nivelar conflitos distintos nem para apagar responsabilidades específicas de cada guerra. Gaza não é Sudão. Sudão não é Ucrânia. Cada conflito tem história, atores, assimetrias, enquadramentos jurídicos e disputas políticas próprias. Mas todos eles revelam um traço perturbadoramente comum: mulheres e crianças aparecem repetidamente entre os grupos mais atingidos, seja pela morte direta, seja pelo deslocamento, pela fome, pela interrupção de serviços de saúde, pelo trauma prolongado e pela violência sexual associada ao conflito. A ONU registra que a violência sexual em guerra continua sendo empregada para intimidar, humilhar, dominar e romper o tecido social das comunidades, e as mulheres e meninas correspondem à esmagadora maioria das vítimas reportadas.
É nesse ponto que a frase “são consequências da guerra” precisa ser enfrentada. Sim, são consequências da guerra. Mas a formulação costuma ser usada de modo covarde, como se “consequência” significasse fatalidade neutra, quase meteorológica. Não significa. Quando um conflito é conduzido de forma a ampliar sofrimento civil, destruir infraestrutura básica, inviabilizar corredores humanitários ou normalizar ataques indiscriminados, não se está diante de uma simples consequência inevitável: está-se diante de escolhas políticas, militares e morais. A palavra “consequência”, sozinha, pode esconder agência. E o que não pode ser escondido é que decisões humanas produzem devastação humana.
Algo semelhante acontece no feminicídio quando alguém diz: “foi porque ele não aceitou a separação”. A frase parece explicativa, mas é apenas uma maquilagem do horror. Não aceitar a separação não mata ninguém por si só. O que mata é a decisão de um homem que se sente autorizado a punir a autonomia de uma mulher. Do mesmo modo, “a guerra” não mata abstratamente. Quem mata são cadeias de comando, estratégias de ataque, bloqueios, omissões deliberadas e sistemas de poder que passam a tratar vidas civis como dano administrável.
Há, portanto, uma convergência ética entre o lar violento e o campo de batalha: em ambos, o agressor deseja impor vontade sobre um corpo que não reconhece como plenamente livre. No feminicídio, a mulher é assassinada porque ousou existir fora do controle masculino. Na guerra, mulheres e crianças são esmagadas porque se tornaram obstáculos toleráveis no caminho de objetivos militares ou geopolíticos. A escala muda; a gramática do poder, não tanto.
Isso não significa confundir violência doméstica com guerra entre Estados como se fossem fenômenos idênticos. Não são. O erro analítico seria tão grave quanto a indiferença moral. O que existe é uma afinidade de lógica: a naturalização da exceção, o rebaixamento do outro, a licença para violar limites sob o pretexto de uma causa superior. No feminicídio, a causa superior é o ego ferido, a masculinidade proprietária, o narcisismo da posse. Na guerra, a causa superior é a segurança invocada sem freio, a soberania convertida em salvo-conduto, a razão de Estado despida de humanidade.
A sociedade costuma perceber melhor a barbárie quando ela chega de tanque, míssil e uniforme. Tem mais dificuldade quando ela entra em casa com flores, pedidos de desculpa e frases de amor doentio. Mas a violência íntima e a violência bélica compartilham um mesmo laboratório moral: ambas testam até onde o mundo tolera a redução do outro a objeto. E, infelizmente, o mundo tolera bastante.
Tolera quando transforma o feminicídio em assunto episódico, tratado com comoção passageira e pouca transformação estrutural. Tolera quando não amplia rede de proteção, quando a denúncia não chega a tempo, quando medidas protetivas falham, quando a escola não debate educação afetiva, quando a polícia nem sempre está preparada, quando o sistema de justiça reage tarde, quando a comunidade prefere o silêncio para “não se meter”. Tolera também quando aceita que a guerra seja narrada apenas pela ótica do tabuleiro estratégico, como se mapas importassem mais do que pessoas, como se a análise séria precisasse amputar a compaixão para parecer objetiva.
Esse é um dos vícios mais perigosos do debate público contemporâneo: a crença de que falar em mulheres e crianças seria sentimentalismo, enquanto falar em território, retaliação, dissuasão e interesse nacional seria maturidade analítica. Não é. Uma análise política que não enxerga os corpos concretos destruídos por suas abstrações é apenas uma análise moralmente mutilada.
No fundo, a frase “na guerra e no amor vale tudo” só sobrevive porque serve aos fortes. Ela absolve quem controla, invade, pune, cerca, humilha e mata. Nunca protege a parte mais vulnerável. Nunca socorre a mulher perseguida. Nunca abriga a criança deslocada. Nunca devolve a vida interrompida. É uma frase funcional para o agressor, não para a vítima.
Por isso, o que precisa ser afirmado, contra o cinismo popular e contra a banalização institucional, é algo muito mais simples e muito mais exigente: nem o amor pode dispensar ética, nem a guerra pode dispensar humanidade. O amor sem limite moral vira posse. A guerra sem limite jurídico vira barbárie. E, quando a posse e a barbárie se encontram, mulheres e crianças quase sempre aparecem entre as primeiras sacrificadas.
A tarefa de uma sociedade civilizada começa justamente na recusa dessas permissões. Recusar a romantização do controle masculino. Recusar a linguagem que embeleza feminicídio. Recusar a neutralidade conveniente diante da violência doméstica. Recusar a retórica militar que chama civis mortos de preço inevitável. Recusar o conforto verbal das expressões que anestesiam a consciência. Porque toda vez que a linguagem absolve, a violência avança.
Dizer que “nem na guerra, nem no amor vale tudo” não é ingenuidade. É o mínimo ético sem o qual a vida comum desaba. Sem esse mínimo, o amor deixa de ser encontro e vira captura; a política deixa de ser mediação e vira esmagamento; a guerra deixa de ser sequer nomeável dentro do direito e se converte em devastação legitimada. O problema não é apenas o que se faz, mas o que se autoriza dizer para tornar o inaceitável suportável.
No amor que mata, chama-se ciúme de cuidado. Na guerra que massacra, chama-se consequência o que foi produzido por decisão humana. Em ambos os casos, a civilização perde quando aceita o vocabulário do agressor.
Conclusão
A frase “na guerra e no amor vale tudo” não é sabedoria popular; é uma pequena doutrina da licença. Ela ensina, de forma aparentemente leve, que existem situações em que a dignidade do outro pode ser relativizada. E é exatamente dessa relativização que nascem tanto o feminicídio quanto a naturalização da morte de mulheres e crianças em guerras contemporâneas. Em um caso, a mulher é tratada como posse privada. No outro, civis são tratados como dano suportável. Em ambos, o que se rompe é o mesmo princípio: ninguém pode reivindicar o direito de destruir o outro em nome do desejo, da honra, da segurança ou da vitória. Uma sociedade séria precisa rejeitar essa lógica na intimidade e na geopolítica, na linguagem cotidiana e no discurso oficial. Porque, quando se aceita que “vale tudo”, o que realmente se está dizendo é que certas vidas valem menos. E toda vez que uma cultura admite isso, ela já começou a fracassar.
Referências
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. São Paulo: FBSP, 2025.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Retrato dos feminicídios no Brasil. São Paulo: FBSP, 2026.
FONTE SEGURA; FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Quatro mulheres por dia: o feminicídio como falha estrutural do Estado brasileiro. 2026.
OHCHR. 2025 deadliest year for civilians in Ukraine since 2022, UN human rights monitors find. Genebra: United Nations Human Rights Monitoring Mission in Ukraine, 2026.
OHCHR. Four years on: fact sheet. Genebra: United Nations Human Rights Monitoring Mission in Ukraine, 2026.
UNFPA. We must stand by women and girls in crises in 2025. New York: United Nations Population Fund, 2024.
UNICEF. “Not the new normal” – 2024 one of the worst years in UNICEF’s history for children in conflict. New York: UNICEF, 2024.
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UNICEF. Every five seconds, a child is displaced, injured, or killed in conflicts in the Middle East and North Africa. Amã: UNICEF, 2025.
UN WOMEN. UN Women estimates over 28000 women and girls killed in Gaza since October 2023. New York: UN Women, 2025.
UN WOMEN. Gender snapshot for Gaza Strip. New York: UN Women, 2025.
UN WOMEN. Two years of relentless conflict in Sudan have triggered the world’s worst humanitarian crisis for 6 million displaced women and girls. New York: UN Women, 2025.
UNITED NATIONS. Conflict-related sexual violence. New York: United Nations, 2025.
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