Quando uma guerra toca escolas e hospitais, não é “um acidente inevitável”: é um sintoma político. O Estado — qualquer Estado — tende a transformar o civil em custo, em narrativa, em moeda. Na escalada militar envolvendo EUA e Israel contra o Irã, o ataque a uma escola de meninas em Minab e os relatos de danos a hospital em Teerã expõem o problema essencial: a guerra opera como tecnologia de poder que rebaixa o povo a variável. E governar, ao contrário, deveria significar preservar o direito do povo — precisamente quando a exceção tenta se tornar regra.
1) A guerra não “suspende” a civilização: ela testa seu último limite
A guerra sempre vem acompanhada de um truque moral: a promessa de que existe um motivo tão grande — segurança, dissuasão, sobrevivência nacional, “paz futura” — que a violência do presente se torna aceitável. O problema é que essa lógica funciona como solvente: uma vez aplicada, ela dissolve qualquer fronteira. E é por isso que, na prática, a guerra raramente para onde prometeu parar.
Quando a violência chega a uma escola, o que se vê não é apenas “tragédia”. É a revelação do mecanismo: o civil não é tratado como fim, mas como meio. O civil vira cifra, efeito colateral, ruído estatístico; quando convém, vira propaganda; quando incomoda, vira “desinformação”. O mesmo corpo que ontem era “povo” hoje é “custo operacional”.
No contexto recente da escalada EUA/Israel ↔ Irã, a própria ONU — pelo Escritório do Alto Comissariado de Direitos Humanos — pediu uma investigação “pronta, imparcial e completa” sobre o ataque a uma escola de meninas no sul do Irã e apelou por contenção e retorno às negociações. A ONU não atribuiu a autoria de forma conclusiva naquele momento, mas a exigência de investigação é justamente a resposta institucional ao que é mais grave: quando a guerra encosta em civis, não basta narrativa; é preciso apuração e responsabilização.
2) “Governar” é preservar o direito do povo — não apenas “vencer” o inimigo
Existe uma diferença crucial, muitas vezes apagada por discursos patrióticos: Estado não é sinônimo de povo. Estado é estrutura de poder, aparato, comando, burocracia, doutrina, capacidade de coerção. Povo é vida social concreta: famílias, trabalho, escola, saúde, cotidiano, vulnerabilidades, futuro.
Quando um governo diz que está “defendendo o povo” e, ao mesmo tempo, normaliza operações que atingem escolas e hospitais, ele está, na prática, defendendo outra coisa: a liberdade do Estado de agir sem limite. A guerra, nesse sentido, é o cenário mais propício para o Estado reivindicar poderes excepcionais, encurtar controles e pedir que a sociedade “confie”. O problema é que, sob a lógica da exceção, o civil entra numa zona cinzenta: é protegido quando dá reputação; é abandonado quando atrapalha o objetivo.
Por isso, a frase que deveria orientar qualquer análise minimamente ética é simples: o governo é legítimo enquanto protege o direito do povo — e essa obrigação não desaparece “porque começou uma guerra”. Ao contrário: a obrigação fica mais pesada, porque a tentação de violar aumenta.
3) As leis da guerra existem porque a guerra tende ao ilimitado
O Direito Internacional Humanitário (DIH) — o conjunto de normas que regula conflitos armados — não foi criado para romantizar guerra. Foi criado porque, deixada a si mesma, a guerra se expande até virar extermínio, e porque os Estados, quando podem, empurram o limite.
No nível mais básico, o DIH se organiza em três travas que qualquer pessoa consegue entender:
- Distinção: quem combate deve diferenciar combatentes e objetivos militares de civis e bens civis; ataques diretos contra civis são proibidos.
- Proporcionalidade: mesmo quando há objetivo militar, o ataque é proibido se o dano civil esperado for excessivo em relação à vantagem militar concreta e direta.
- Precauções: há dever de escolher meios e métodos para minimizar dano civil; se as condições mudam e o risco a civis se torna indevido, deve-se suspender ou cancelar o ataque.
Esses princípios não são “opinião”: são o núcleo operacional do DIH, apresentados e reiterados pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV/ICRC) em materiais de referência.
E aqui entra o ponto decisivo do seu argumento: escolas e hospitais são o que a civilização tem de mais sensível. Eles existem para reduzir a brutalidade da vida. Quando a guerra os atinge, ela não atinge “prédios”: ela atinge infância e cuidado — e, com isso, atinge o futuro.
4) Escola e hospital são civis por presunção; perder proteção não vira “licença para atacar”
No DIH, hospitais têm proteção especial porque sua função é salvar vidas. O ICRC é explícito: hospitais são protegidos; podem perder proteção em circunstâncias específicas, mas isso não cria “licença” para atacar sem limites — ainda assim valem distinção, proporcionalidade e precauções.
O mesmo raciocínio se aplica a escolas como bens civis: a regra é proteção. E mesmo quando se alega uso militar de algum espaço civil, o direito não vira carta branca. Na prática, a discussão séria sempre recai em perguntas muito concretas:
- Qual era o objetivo militar específico?
- Que evidência sustentava essa identificação?
- Que alternativas existiam para reduzir risco civil?
- O meio empregado era compatível com o ambiente?
- A vantagem militar era concreta e direta, ou uma abstração retórica?
- O dano previsto a civis era aceitável pelos parâmetros de proporcionalidade?
- Houve revisão e cancelamento quando o risco aumentou?
Sem essas respostas, “não era a intenção” vira apenas um álibi emocional.
5) O caso concreto expõe o mecanismo: a guerra opera sobre civis como variável
Na escalada EUA/Israel ↔ Irã, o ataque que atingiu uma escola de meninas em Minab se tornou símbolo exatamente porque rompe um limite moral elementar. A ONU pediu investigação; autoridades iranianas relataram dezenas/centenas de vítimas; autoridades dos EUA negaram alvo deliberado; Israel também indicou apuração. O que importa politicamente aqui é o que a ONU sinaliza: quando civis são atingidos em estruturas civis sensíveis, a narrativa não basta — é preciso investigação e prestação pública de contas.
Em paralelo, há relatos de danos a hospital em Teerã em decorrência de ataques israelenses, com testemunhas descrevendo a retirada de pacientes e destruição significativa. Mesmo que haja disputa sobre circunstâncias exatas, o ponto normativo é direto: hospitais têm proteção reforçada; qualquer dano relevante levanta imediatamente suspeitas e demanda escrutínio rigoroso.
E aqui aparece a engrenagem política que você quer denunciar: o civil é sempre funcional para o Estado em guerra.
- Para quem ataca, civis mortos viram “erro”, “dano colateral”, “escudo humano” — qualquer fórmula que reduza o peso moral e mantenha a campanha em marcha.
- Para quem é atacado, civis mortos podem virar prova de brutalidade externa e motor de unidade nacional — fortalecendo o próprio governo, mesmo que ele tenha responsabilidades internas graves.
- Para terceiros, civis mortos podem virar moeda de negociação, argumento de alinhamento e combustível de polarização.
Ou seja: o civil é a peça mais vulnerável porque é a mais manipulável. A guerra é o ambiente perfeito para transformar gente em “mensagem”.
6) “Justificativas estratégicas” não respondem ao essencial: o povo não é recurso
O discurso típico de guerra sempre tenta elevar o conflito ao nível do destino histórico: “neutralizar ameaça”, “impedir arma nuclear”, “conter terrorismo”, “restaurar estabilidade”. Mesmo quando algumas dessas preocupações têm fundamento, elas não resolvem o ponto central: o povo não pode ser tratado como recurso de guerra.
O problema real não é apenas a morte (que já seria suficiente). É a forma política da morte: quando o Estado a administra como ferramenta, ele reorganiza o contrato social em torno de uma hierarquia brutal — alguns são protegidos, outros são descartáveis.
É por isso que ataques que atingem escolas e hospitais não podem ser tratados como “detalhe trágico”. Eles são, na prática, um teste de civilização: se a sociedade aceita, abre-se uma porta que dificilmente se fecha. Hoje é “exceção”; amanhã vira “rotina”; depois vira doutrina.
7) A fraude moral do “não foi intencional”: negligência também mata e também responsabiliza
É possível que uma escola seja atingida por erro de inteligência, falha de identificação, desvio de rota, mau funcionamento, dados incompletos. Mas a conclusão “então ninguém é culpado” é moralmente infantil e juridicamente perigosa.
O DIH trabalha com obrigações positivas: precauções e dever de revisar. Se um ataque foi conduzido com imprudência, sem verificação adequada, com meio incompatível com o ambiente urbano, com aceitação de risco civil elevado, isso é mais do que “azar”: é uma decisão política travestida de acidente.
E é por isso que a ONU pede investigação independente e publicação de achados. A investigação é, neste cenário, a linha que separa civilização de propaganda: sem ela, a guerra vira autoperdão.
8) Por que isso acontece sempre: guerra concentra poder e dissolve controles
A guerra não é apenas choque entre forças armadas. Ela é um regime político:
- amplia segredos de Estado;
- reduz transparência;
- incentiva propaganda;
- intensifica vigilância;
- empurra o dissenso para a categoria de “traição”;
- converte crítica em “desmoralização das tropas”;
- e, principalmente, cria a ideia de que “os fins justificam os meios”.
Esse é o ponto estrutural: a guerra é o habitat natural do autoritarismo, mesmo em democracias. A linguagem muda, mas a lógica é a mesma: “agora não é hora de questionar”.
E quando a sociedade aceita que escolas e hospitais podem ser atingidos “porque é guerra”, ela não está apenas aceitando uma tragédia. Ela está aceitando uma política: a política do desprezo ao civil.
9) A tese final, sem anestesia
A guerra, por sua própria estrutura, tende a transformar civis em massa de manobra — para legitimar governos, sustentar campanhas e converter morte em argumento. Por isso, governar de verdade não é intensificar a exceção; é impedir que a exceção devore o direito.
E aqui cabe o martelo moral que não deveria precisar ser dito, mas precisa — sempre:
Nenhuma guerra, por nenhum motivo, justifica ações que atingem escolas e hospitais.
Quando isso acontece, não é “o preço inevitável”. É a confissão de que o poder decidiu que o povo é descartável.
Se o povo é descartável, não há governo legítimo. Há comando.
Referências
AL MONITOR. Israeli strikes hit hospital in Tehran, witnesses tell Reuters. 2026. Disponível em: https://www.al-monitor.com/originals/2026/03/israeli-strikes-hit-hospital-tehran-witnesses-tell-reuters. Acesso em: 3 mar. 2026.
COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA (ICRC). The basic principles of IHL. Disponível em: https://ir.icrc.org/en/international-humanitarian-law/basic-principles-ihl/. Acesso em: 3 mar. 2026.
COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA (ICRC). International Humanitarian Law (Handbook). Disponível em: https://www.icrc.org/sites/default/files/document/file_list/en_-_handbook_humanitarian_law_-_web.pdf. Acesso em: 3 mar. 2026.
COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA (ICRC). The protection of hospitals during armed conflicts: what the law says. 2023. Disponível em: https://www.icrc.org/en/document/protection-hospitals-during-armed-conflicts-what-law-says. Acesso em: 3 mar. 2026.
COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA (ICRC). Hospitals under fire: legal and practical challenges to strengthened protection. 2025. Disponível em: https://blogs.icrc.org/law-and-policy/2025/03/06/hospitals-under-fire-legal-and-practical-challenges-to-strengthened-protection/. Acesso em: 3 mar. 2026.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Office of the High Commissioner for Human Rights (OHCHR). Middle East crisis plays out worst fears; talks only way out. 2026. Disponível em: https://www.ohchr.org/en/press-briefing-notes/2026/03/middle-east-crisis. Acesso em: 3 mar. 2026.
REUTERS. UN calls for investigation into deadly strike on school in Iran. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/un-urges-investigation-into-horrific-attack-iran-school-2026-03-03/. Acesso em: 3 mar. 2026.
REUTERS. Iran state media shows funeral of Minab girls’ school strike (vídeo). 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/video/watch/idRW041703032026RP1/. Acesso em: 3 mar. 2026.
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