domingo, 7 de dezembro de 2025

3 – Democracia em Disputa – Personalismo Tutelar e a Construção do Militar como Guardião da Nação

A figura do militar como salvador do país não surgiu espontaneamente: foi construída, reiterada e celebrada por instituições, discursos oficiais e pela própria cultura política. Esta seção mostra como se consolidou o mito do “militar incorruptível”, usado historicamente para legitimar intervenções e tutelas sobre o poder civil.


A adesão de parcelas significativas da população brasileira ao militarismo não pode ser compreendida sem examinar o fenômeno que José Murilo de Carvalho define como “personalismo tutelar” — a crença histórica de que as Forças Armadas seriam, por essência, representantes da nação e guardiãs da ordem, chamadas a intervir quando as instituições civis entram em crise. Trata-se de uma concepção profundamente enraizada na formação política do Brasil e que atravessa a história nacional do século XIX ao XXI, atuando de modo decisivo nos momentos de ruptura institucional.


Essa mentalidade não desapareceu com a redemocratização; pelo contrário, foi rearticulada em novos termos no século XXI, especialmente durante o governo Bolsonaro e nas mobilizações golpistas de 2022–2023. Nesta seção, analisamos criticamente como o Exército brasileiro construiu, ao longo do tempo, a autoimagem de “poder moderador” e por que esse simbolismo continua a ter força entre amplos setores sociais.





3.1. A construção histórica do Exército como “instituição moral”



Desde o final do Império, as Forças Armadas procuraram posicionar-se como representantes diretas do interesse nacional. José Murilo de Carvalho (2005) mostra que o Exército, após a Guerra do Paraguai, passou a reivindicar um papel político especial — não como instituição subordinada ao poder civil, mas como orientadora da nação. Isso se intensificou com a proclamação da República, evento no qual os militares foram protagonistas não apenas militares, mas ideológicos.


Essa construção simbólica produziu dois efeitos duradouros:


  1. o militar foi identificado como figura superior à política civil, por supostamente agir movido por dever, disciplina e patriotismo;
  2. as Forças Armadas foram vistas como árbitro último da crise, um papel totalmente incompatível com democracias constitucionais modernas.



A ausência de um processo robusto de justiça de transição após a ditadura militar reforçou essa autoimagem, mantendo intacta a ideia de tutela.





3.2. A tutela militar na Primeira República e sua permanência na memória coletiva



A Primeira República (1889–1930) foi marcada por uma alternância entre governos civis e intervenções militares. As revoltas tenentistas, a Revolução de 1930 e o Estado Novo reforçaram a ideia de que os militares poderiam “corrigir” a política quando necessário.


Esses episódios consolidaram o militar como:


  • solucionador de crises,
  • agente moralizador,
  • voz legítima da nação contra elites corruptas,
  • protetor do povo contra a “desordem”.



Esses elementos não desapareceram após 1945; apenas foram incorporados ao imaginário coletivo. Até hoje, muitos brasileiros lembram de modo idealizado períodos autoritários como “tempos de ordem”, o que reforça a adesão popular a discursos militares durante crises.





3.3. A redemocratização e o reforço paradoxal da tutela militar



A transição democrática brasileira, por ter sido pactuada, conservadora e negociada com o próprio regime militar, produziu um paradoxo: ao mesmo tempo em que restaurou a democracia, manteve os militares como atores com prestígio social e capital político.


Sem justiça de transição, sem revisão dos currículos das escolas militares e sem responsabilização por violações de direitos humanos, o discurso tutelar permaneceu vivo. A Constituição de 1988 — apesar de democrática — deixou brechas interpretativas, como o polêmico Artigo 142, que foi posteriormente distorcido por setores militares e pela extrema direita para legitimar fantasias intervencionistas.


Durante os anos 1990 e 2000, o Exército reconstruiu sua imagem através de missões sociais (por exemplo, ações no Haiti) e aparições midiáticas que reforçavam sua suposta “neutralidade” e “competência técnica”. Essa narrativa voltou a adquirir força com a Operação Lava Jato, cujo discurso moralista reacendeu a expectativa de que “os militares são os únicos capazes de varrer a corrupção”.





3.4. A refundação tutelar no século XXI: bolsonarismo e militarização da política



A eleição de Jair Bolsonaro foi, em grande parte, um produto dessa cultura política construída ao longo de décadas. Bolsonaro não inventou o militarismo; ele reabilitou e instrumentalizou o imaginário militar existente. No governo, mais de 8.000 militares ocuparam funções civis, e generais passaram a emitir opiniões políticas, muitas vezes afrontando a separação entre poderes.


Durante a pandemia, a militarização do Ministério da Saúde mostrou como essa tutela se traduzia em políticas públicas: decisões sanitárias transformadas em decisões de “guerra ideológica”, com graves consequências sociais.


Além disso, o bolsonarismo transformou o militar em:


  • ícone de pureza moral,
  • símbolo de combate ao inimigo interno (comunistas, STF, imprensa),
  • referência de ordem contra o suposto caos democrático.



A presença massiva de militares em manifestações golpistas — inclusive em acampamentos diante de quartéis — demonstra o quanto o personalismo tutelar venceu o ideal republicano de subordinação ao poder civil.





3.5. Como essa tutela legitima golpes: de 1964 ao 8 de janeiro de 2023



O golpe de 1964 só foi possível porque a sociedade brasileira já havia incorporado a ideia de que os militares poderiam intervir “para salvar a nação”. Essa mesma lógica reapareceu:


  • nas manifestações de 2015–2016,
  • no discurso bolsonarista entre 2018 e 2022,
  • nos acampamentos em frente aos quartéis,
  • e no golpe de 8 de janeiro de 2023.



O 8/1 foi, fundamentalmente, a atualização digital da velha tutela militar: cidadãos comuns pedindo que os militares “assumissem o poder” para corrigir o resultado eleitoral. A crença de que existe um “poder moderador” militar atuou como o combustível simbólico do golpismo contemporâneo.





Análise crítica da Seção 3



Esta seção aprofundou teoricamente:


  • o personalismo tutelar como chave interpretativa da política brasileira;
  • a construção simbólica das Forças Armadas como instituição moral;
  • a permanência dessa visão na redemocratização;
  • a reativação desse imaginário no bolsonarismo;
  • e a conexão direta entre tutela militar e o golpe de 8/1.



Os fundamentos centrais desta seção são:


  1. O militarismo não é um desvio, mas parte estrutural da cultura política brasileira.
  2. A democracia brasileira convive com um ethos tutelar que legitima intervenções.
  3. A redemocratização foi incompleta e deixou intacta a educação militar autoritária.
  4. O bolsonarismo reatualizou essa tradição, transformando-a em militância digital de massa.



A crítica principal aqui é que a democracia não conseguirá se consolidar sem enfrentar e desmilitarizar o imaginário social, não apenas instituições.


2 – Democracia em Disputa – A Redemocratização Incompleta e Seus Limites Estruturais

A transição iniciada em 1985 devolveu eleições e liberdade civil ao país, mas não conseguiu desmontar os pilares institucionais que sustentaram a ditadura. A ausência de justiça de transição, o silêncio sobre os crimes militares e a manutenção de estruturas autoritárias explicam por que a democracia brasileira permanece, até hoje, frágil e disputada.



Heranças Autoritárias, Modernização Conservadora e o DNA Antidemocrático da Política Brasileira



A compreensão da adesão popular ao militarismo brasileiro exige, como ponto de partida, uma reflexão crítica sobre o modo particular como o Brasil se modernizou política e institucionalmente. O processo de redemocratização (1974–1988) foi, em muitos aspectos, uma tentativa de corrigir uma falha estrutural da formação do Estado nacional: a inexistência histórica de uma tradição democrática enraizada.


A transição do regime militar para a democracia ocorreu num país cuja modernização, como destaca Florestan Fernandes (1976), sempre foi conservadora, isto é, implementada “de cima para baixo”, sem rupturas profundas com o passado oligárquico e escravocrata. A força das elites tradicionais, protegidas pelo Estado e pelas Forças Armadas, assegurou que a participação popular fosse mantida sob controle, mesmo quando ampliada formalmente com a Constituição de 1988. A redemocratização, assim, produziu instituições democráticas formalmente avançadas, mas sustentadas por uma cultura política ainda autoritária.



2.1. A modernização que não rompeu com o passado



Clássicos da sociologia brasileira — como Sérgio Buarque de Holanda (2006) e Raymundo Faoro (2001) — mostram que o Brasil nunca realizou um processo claro de separação entre:


  • as esferas do público e do privado,
  • o Estado e o patrimonialismo,
  • a autoridade racional-legal e a autoridade personalista,
  • o poder civil e o poder militar.



O Estado brasileiro manteve, ao longo de sua história, uma elite estatal e política apoiada por setores militares, o que produziu um padrão recorrente: em momentos de conflito, a população era educada a confiar não nas instituições democráticas, mas em figuras de autoridade moral — fossem coronéis, interventores, generais ou líderes religiosos.


Esse padrão não desapareceu com a Constituição de 1988, pois, como mostra Fernandes (1976), uma revolução burguesa inconclusa não cria cidadãos; cria consumidores, trabalhadores precarizados e sujeitos tutelados por estruturas de poder hierárquicas.



2.2. A ausência de cultura democrática enraizada



A democracia brasileira nasceu frágil porque nasceu tardia.

Durante quase toda a sua história — do período colonial até o final da ditadura — a população:


  • não votou,
  • não participou da vida política,
  • não teve direitos civis reconhecidos,
  • e não teve educação política estruturada.



Isso levou ao que José Murilo de Carvalho chamou de “cidadania tardia” e, em certo sentido, “cidadania tutelada”. Entretanto, essa tutela — exercida ora por elites civis, ora por militares — alimentou a ideia de que o Brasil precisa de “figuras fortes” e “ordem”, e não de instituições democráticas complexas.


A redemocratização tentou corrigir esse déficit, mas enfrentou um paradoxo: instituições democráticas foram implementadas sem que houvesse uma cultura democrática socialmente distribuída. Resultado: diante de crises, parte da população conhecia mais “o mito do militar disciplinador” do que os mecanismos democráticos de resolução de conflitos.



2.3. O peso da Ditadura Militar dentro da democracia



Os 21 anos de ditadura não foram apenas um regime autoritário: foram um projeto pedagógico, que ensinou profundamente:


  • a desconfiança das instituições civis,
  • a glorificação do militar como gestor,
  • a associação entre ordem e farda,
  • a visão de que política é sinônimo de corrupção,
  • a naturalização da vigilância e da repressão.



Esses valores não desapareceram em 1985. Eles foram transmitidos para:


  • escolas militares,
  • parte das escolas civis,
  • narrativas familiares (“naquele tempo era melhor”),
  • organizações conservadoras,
  • igrejas neopentecostais em ascensão,
  • setores médios inseguros.



A redemocratização não fez um processo claro de justiça de transição.

Não houve:


  • punição dos torturadores,
  • redução substancial da autonomia política das Forças Armadas,
  • mudança profunda na formação militar,
  • desmilitarização das polícias,
  • educação pública sobre os crimes do regime.



Diferentemente de países como Chile e Argentina, o Brasil optou por conciliar com o autoritarismo, e não enfrentá-lo. Isso permitiu que narrativas militares sobrevivessem intactas, sendo rearticuladas em momentos de crise — como após 2013 e durante o bolsonarismo.



2.4. A redemocratização incompleta e o retorno da retórica militar



O Brasil dos anos 1990 e 2000 viveu um período de estabilidade, mas nunca converteu essa estabilidade em:


  • educação política sistemática,
  • fortalecimento de instituições republicanas,
  • cultura cívica,
  • ampliação do senso crítico da população.



Assim, quando o país entrou em crise política profunda entre 2013 e 2022 — marcada por polarização, desigualdades, manipulação digital e perda da confiança nas instituições — a sociedade recorreu a repertórios anteriores ao período democrático.

O militarismo, por sua vez, ofereceu respostas simples para problemas complexos:


  • ordem contra o caos,
  • disciplina contra a desobediência,
  • moral contra a política,
  • pureza contra a corrupção,
  • autoridade contra a incerteza.



Essa gramática foi a base emocional que sustentou:


  • o retorno de militares ao governo,
  • a radicalização da extrema direita,
  • a crença no Art. 142 como “salvo-conduto”,
  • e, finalmente, a adesão de parte da população ao golpe de 8 de janeiro de 2023.




2.5. O 8 de janeiro como sintoma da modernização conservadora



O movimento golpista de 8/1 de 2023 só foi possível porque a modernização política do Brasil manteve viva:


  1. a desigualdade estrutural;
  2. a desconfiança nas instituições democráticas;
  3. a crença na autoridade moral dos militares;
  4. a personalização da política;
  5. o punitivismo social;
  6. a ausência de memória crítica sobre a ditadura;
  7. a fragilidade da educação cívica.



O 8/1 não foi um acidente.

Foi a consequência lógica de uma democracia construída sobre bases frágeis, onde o autoritarismo nunca foi totalmente expurgado.





ANÁLISE CRÍTICA DA SEÇÃO 2



Esta seção aprofunda os fundamentos teóricos de três pilares estruturantes:


  1. A modernização conservadora (Fernandes, Faoro, Holanda), que explica a permanência do autoritarismo estrutural.
  2. A cidadania incompleta, que demonstra a ausência de cultura democrática enraizada.
  3. A incompletude da redemocratização, que permitiu a sobrevivência do ethos militarista.



O texto evidencia que o militarismo não é uma anomalia, mas um produto histórico da formação do Estado brasileiro. Mostra ainda como esses elementos convergem no bolsonarismo e no golpe de 8/1, articulando teoria clássica e conjuntura recente.