A transição iniciada em 1985 devolveu eleições e liberdade civil ao país, mas não conseguiu desmontar os pilares institucionais que sustentaram a ditadura. A ausência de justiça de transição, o silêncio sobre os crimes militares e a manutenção de estruturas autoritárias explicam por que a democracia brasileira permanece, até hoje, frágil e disputada.
Heranças Autoritárias, Modernização Conservadora e o DNA Antidemocrático da Política Brasileira
A compreensão da adesão popular ao militarismo brasileiro exige, como ponto de partida, uma reflexão crítica sobre o modo particular como o Brasil se modernizou política e institucionalmente. O processo de redemocratização (1974–1988) foi, em muitos aspectos, uma tentativa de corrigir uma falha estrutural da formação do Estado nacional: a inexistência histórica de uma tradição democrática enraizada.
A transição do regime militar para a democracia ocorreu num país cuja modernização, como destaca Florestan Fernandes (1976), sempre foi conservadora, isto é, implementada “de cima para baixo”, sem rupturas profundas com o passado oligárquico e escravocrata. A força das elites tradicionais, protegidas pelo Estado e pelas Forças Armadas, assegurou que a participação popular fosse mantida sob controle, mesmo quando ampliada formalmente com a Constituição de 1988. A redemocratização, assim, produziu instituições democráticas formalmente avançadas, mas sustentadas por uma cultura política ainda autoritária.
2.1. A modernização que não rompeu com o passado
Clássicos da sociologia brasileira — como Sérgio Buarque de Holanda (2006) e Raymundo Faoro (2001) — mostram que o Brasil nunca realizou um processo claro de separação entre:
- as esferas do público e do privado,
- o Estado e o patrimonialismo,
- a autoridade racional-legal e a autoridade personalista,
- o poder civil e o poder militar.
O Estado brasileiro manteve, ao longo de sua história, uma elite estatal e política apoiada por setores militares, o que produziu um padrão recorrente: em momentos de conflito, a população era educada a confiar não nas instituições democráticas, mas em figuras de autoridade moral — fossem coronéis, interventores, generais ou líderes religiosos.
Esse padrão não desapareceu com a Constituição de 1988, pois, como mostra Fernandes (1976), uma revolução burguesa inconclusa não cria cidadãos; cria consumidores, trabalhadores precarizados e sujeitos tutelados por estruturas de poder hierárquicas.
2.2. A ausência de cultura democrática enraizada
A democracia brasileira nasceu frágil porque nasceu tardia.
Durante quase toda a sua história — do período colonial até o final da ditadura — a população:
- não votou,
- não participou da vida política,
- não teve direitos civis reconhecidos,
- e não teve educação política estruturada.
Isso levou ao que José Murilo de Carvalho chamou de “cidadania tardia” e, em certo sentido, “cidadania tutelada”. Entretanto, essa tutela — exercida ora por elites civis, ora por militares — alimentou a ideia de que o Brasil precisa de “figuras fortes” e “ordem”, e não de instituições democráticas complexas.
A redemocratização tentou corrigir esse déficit, mas enfrentou um paradoxo: instituições democráticas foram implementadas sem que houvesse uma cultura democrática socialmente distribuída. Resultado: diante de crises, parte da população conhecia mais “o mito do militar disciplinador” do que os mecanismos democráticos de resolução de conflitos.
2.3. O peso da Ditadura Militar dentro da democracia
Os 21 anos de ditadura não foram apenas um regime autoritário: foram um projeto pedagógico, que ensinou profundamente:
- a desconfiança das instituições civis,
- a glorificação do militar como gestor,
- a associação entre ordem e farda,
- a visão de que política é sinônimo de corrupção,
- a naturalização da vigilância e da repressão.
Esses valores não desapareceram em 1985. Eles foram transmitidos para:
- escolas militares,
- parte das escolas civis,
- narrativas familiares (“naquele tempo era melhor”),
- organizações conservadoras,
- igrejas neopentecostais em ascensão,
- setores médios inseguros.
A redemocratização não fez um processo claro de justiça de transição.
Não houve:
- punição dos torturadores,
- redução substancial da autonomia política das Forças Armadas,
- mudança profunda na formação militar,
- desmilitarização das polícias,
- educação pública sobre os crimes do regime.
Diferentemente de países como Chile e Argentina, o Brasil optou por conciliar com o autoritarismo, e não enfrentá-lo. Isso permitiu que narrativas militares sobrevivessem intactas, sendo rearticuladas em momentos de crise — como após 2013 e durante o bolsonarismo.
2.4. A redemocratização incompleta e o retorno da retórica militar
O Brasil dos anos 1990 e 2000 viveu um período de estabilidade, mas nunca converteu essa estabilidade em:
- educação política sistemática,
- fortalecimento de instituições republicanas,
- cultura cívica,
- ampliação do senso crítico da população.
Assim, quando o país entrou em crise política profunda entre 2013 e 2022 — marcada por polarização, desigualdades, manipulação digital e perda da confiança nas instituições — a sociedade recorreu a repertórios anteriores ao período democrático.
O militarismo, por sua vez, ofereceu respostas simples para problemas complexos:
- ordem contra o caos,
- disciplina contra a desobediência,
- moral contra a política,
- pureza contra a corrupção,
- autoridade contra a incerteza.
Essa gramática foi a base emocional que sustentou:
- o retorno de militares ao governo,
- a radicalização da extrema direita,
- a crença no Art. 142 como “salvo-conduto”,
- e, finalmente, a adesão de parte da população ao golpe de 8 de janeiro de 2023.
2.5. O 8 de janeiro como sintoma da modernização conservadora
O movimento golpista de 8/1 de 2023 só foi possível porque a modernização política do Brasil manteve viva:
- a desigualdade estrutural;
- a desconfiança nas instituições democráticas;
- a crença na autoridade moral dos militares;
- a personalização da política;
- o punitivismo social;
- a ausência de memória crítica sobre a ditadura;
- a fragilidade da educação cívica.
O 8/1 não foi um acidente.
Foi a consequência lógica de uma democracia construída sobre bases frágeis, onde o autoritarismo nunca foi totalmente expurgado.
ANÁLISE CRÍTICA DA SEÇÃO 2
Esta seção aprofunda os fundamentos teóricos de três pilares estruturantes:
- A modernização conservadora (Fernandes, Faoro, Holanda), que explica a permanência do autoritarismo estrutural.
- A cidadania incompleta, que demonstra a ausência de cultura democrática enraizada.
- A incompletude da redemocratização, que permitiu a sobrevivência do ethos militarista.
O texto evidencia que o militarismo não é uma anomalia, mas um produto histórico da formação do Estado brasileiro. Mostra ainda como esses elementos convergem no bolsonarismo e no golpe de 8/1, articulando teoria clássica e conjuntura recente.
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