quinta-feira, 2 de abril de 2026

Patriotismo de vitrine, dependência de fundo: O bolsonarismo fala em soberania, mas oferece ao Brasil o papel de fornecedor mineral de uma estratégia desenhada em Washington

 


O bolsonarismo gosta de falar grosso em nome da pátria. Invoca bandeira, hino, Deus, ordem, autoridade, tradição e soberania. Faz do patriotismo uma estética permanente. Mas, quando se observa o conteúdo material de seu projeto de poder, o que aparece não é um plano de fortalecimento nacional. O que aparece é outra coisa: um país empurrado para a condição de fornecedor de recursos estratégicos, de parceiro subalterno dos Estados Unidos e de economia resignada à baixa densidade industrial. A retórica é nacionalista; a prática é dependente.


Essa contradição ficou quase didaticamente exposta quando Flávio Bolsonaro afirmou, em março de 2026, em conferência nos Estados Unidos, que o Brasil seria “a solução dos EUA” para o acesso a minerais críticos e terras raras. A frase não é um detalhe, nem mero exagero de palco. Ela revela um modo de pensar. Em vez de apresentar o Brasil como nação que deve transformar seus recursos estratégicos em base de industrialização, inovação e autonomia tecnológica, a declaração o coloca como peça funcional de uma engrenagem externa: a estratégia norte-americana de reduzir dependências em relação à China. É uma fala que desloca o centro do problema. O foco deixa de ser o desenvolvimento brasileiro e passa a ser a conveniência geopolítica de Washington (CNN Brasil, 2026; Estado de Minas, 2026). 


É exatamente aí que se revela a pobreza estrutural do bolsonarismo como projeto nacional. Um país sério pergunta: como converter terras raras, lítio, nióbio, grafita, níquel e outros minerais críticos em cadeias industriais, centros de pesquisa, capacidade tecnológica, empregos qualificados e soberania produtiva? O bolsonarismo, ao que tudo indica, pergunta outra coisa: como usar esses ativos para reforçar vínculos políticos com os Estados Unidos? A diferença entre uma pergunta e outra é a diferença entre projeto de país e mentalidade colonial.


A questão mineral não é secundária. O próprio Estado brasileiro vem reconhecendo, por meio de estudos e documentos oficiais recentes, que os minerais estratégicos ocupam posição central na transição energética, na indústria de alta tecnologia, nas cadeias globais de valor e nas disputas geoeconômicas contemporâneas. Em março de 2026, a Casa Civil divulgou estudo com dados atualizados sobre reservas, produção e potencial brasileiro para nióbio, grafita, níquel, terras raras e lítio; no mesmo período, o Ministério de Minas e Energia destacou o papel desses insumos nas cadeias da transição energética e publicou um guia voltado a investimentos na cadeia mineral. Em outras palavras: o tema é estratégico para o século XXI, não apenas comercial (Casa Civil, 2026; MME, 2026a; MME, 2026b). 


Mas recursos estratégicos, por si sós, não fazem uma nação soberana. Essa é uma ilusão primária, quase geológica. O minério sai do subsolo; o desenvolvimento, não. Desenvolvimento exige Estado, coordenação, investimento, política industrial, ciência, engenharia, infraestrutura, crédito, conteúdo nacional, adensamento tecnológico e visão histórica. Sem isso, a riqueza mineral apenas muda de mãos. Sai da terra brasileira e entra na cadeia produtiva alheia. O país fica com o buraco, a dependência e, em muitos casos, a devastação territorial. Outros ficam com a tecnologia, a indústria, as patentes e o valor agregado.


É por isso que o debate sobre industrialização precisa voltar ao centro. O Brasil já conhece, há décadas, o custo da reprimarização e da perda de densidade manufatureira. Os dados do Banco Mundial mostram a longa redução da participação da indústria de transformação no PIB brasileiro, e a CNI voltou a alertar em 2026 para sinais que reacendem o risco de desindustrialização. Não se trata de nostalgia de fábrica nem de fetiche desenvolvimentista. Trata-se de reconhecer um fato elementar: países que não dominam etapas relevantes da produção complexa tornam-se estruturalmente vulneráveis, tecnologicamente dependentes e politicamente mais frágeis (World Bank, 2026; CNI, 2026). 


Nesse contexto, o histórico bolsonarista pesa contra qualquer pretensão de se apresentar como força comprometida com a reconstrução produtiva do país. Ainda antes da posse de Jair Bolsonaro, a proposta de extinguir o Ministério da Indústria e absorver suas funções no superministério da Economia foi criticada pela Confederação Nacional da Indústria e noticiada pela Agência Brasil. O gesto tinha valor simbólico e institucional: num país já marcado por enfraquecimento industrial, reduzir a centralidade política da indústria não era modernização; era rebaixamento estratégico (Agência Brasil, 2018a; Agência Brasil, 2018b). 


O contraste com a retomada recente da política industrial é eloquente. A Nova Indústria Brasil, lançada em janeiro de 2024, recolocou oficialmente no centro do debate metas de desenvolvimento produtivo, tecnológico e industrial até 2033, com missões definidas e instrumentos públicos articulados. Pode-se discutir sua execução, sua escala, seus gargalos e seus limites. Mas há nela um reconhecimento essencial: o Brasil não sairá da armadilha da dependência apenas exportando commodities, ainda que sejam commodities sofisticadas do ponto de vista geológico. É preciso transformar recursos em capacidade nacional (MDIC, 2024; Ministério da Fazenda, 2026). 


É aqui que a retórica patriótica do bolsonarismo começa a ruir como cenário de papelão. Porque não existe soberania real sem soberania produtiva. Não existe independência nacional baseada apenas em exportação mineral. Não existe projeto de potência em uma economia que aceita para si o papel de almoxarifado de insumos estratégicos de outros países. Falar em pátria enquanto se oferece o país como solução mineral para interesses externos não é nacionalismo. É marketing político aplicado à dependência.


Alguns dirão que isso é exagero, que negociar com os Estados Unidos é natural, que o Brasil deve vender para quem paga melhor. Em tese, sim. Nenhum país vive de isolamento. O problema não é comerciar; é se posicionar no comércio mundial como quem já aceitou o próprio lugar subalterno. Há uma diferença profunda entre negociar com firmeza e se apresentar como peça de reposição da geopolítica alheia. Uma coisa é vender com estratégia nacional. Outra, muito diferente, é discursar como se o destino brasileiro fosse ser útil ao rearranjo industrial e militar de Washington.


Esse traço não surge do nada. Ele dialoga com a lógica mais ampla do bolsonarismo na política externa. Desde 2019, análises e reportagens registraram o alinhamento fortemente ideológico de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, inclusive em detrimento de uma tradição diplomática brasileira mais pragmática e mais plural. O problema desse tipo de alinhamento não é apenas simbólico. Ele estreita a margem de manobra do país, embaralha interesse nacional com afinidade ideológica e transforma política externa em fidelidade de facção (Reuters, 2019). 


O efeito final é perverso. O bolsonarismo vende ao público interno a imagem de força, altivez e patriotismo, mas projeta externamente um Brasil disponível, útil e funcional aos interesses de uma potência estrangeira. É como se a bandeira servisse para ocultar o contrato implícito. Grita-se “soberania” no palanque, enquanto se naturaliza a subordinação na prática. O país aparece não como sujeito estratégico, mas como território de oferta: terras, minérios, commodities, mercado consumidor e adesão política.


Esse é o ponto central que precisa ser dito sem rodeios: um projeto que trata as terras raras brasileiras como ativo prioritariamente voltado a atender a ansiedade estratégica dos Estados Unidos, sem colocar no centro a industrialização nacional, não é um projeto de soberania; é um projeto de dependência ornamentado por retórica patriótica.


Não se trata de ser “contra os EUA”. Essa formulação infantiliza um debate sério. Trata-se de ser a favor do Brasil. E ser a favor do Brasil, neste caso, significa defender pelo menos seis compromissos elementares: controle nacional sobre recursos estratégicos; agregação de valor no território brasileiro; metas de processamento e transformação industrial; exigências de conteúdo local e transferência tecnológica; integração entre mineração, ciência e indústria; e inserção internacional guiada por interesse nacional, não por servilismo ideológico. Sem isso, terras raras podem até enriquecer alguns grupos econômicos, mas não construirão soberania.


O Brasil está diante de uma escolha histórica. Pode repetir seu velho roteiro periférico — exportar riqueza bruta e importar dependência sofisticada — ou pode usar sua base mineral como alicerce de reindustrialização, autonomia tecnológica e reconstrução do poder nacional. O bolsonarismo, até aqui, tem indicado com clareza de que lado está. Não do lado da industrialização brasileira, mas do lado da utilidade brasileira. Não do lado da soberania substantiva, mas do lado da obediência ideológica travestida de patriotismo.



Conclusão



A contradição do bolsonarismo não é acidental; é estrutural. Sua linguagem pública é a do nacionalismo, mas sua imaginação econômica e geopolítica é a da subordinação. Ao apresentar o Brasil como “solução” para a demanda estratégica dos Estados Unidos por minerais críticos, sem vincular esse ativo a um projeto robusto de industrialização, tecnologia e poder nacional, esse campo político confirma que seu patriotismo é mais cênico do que programático. O país que daí emerge não é soberano: é útil. Não é industrialmente ambicioso: é extrativamente disponível. Não é protagonista: é peça auxiliar. E um Brasil reduzido a fornecedor estratégico de potências externas pode até vestir a fantasia da grandeza, mas continuará preso à velha condição periférica que as elites dependentes sempre aceitaram com excessiva facilidade.



Referências



AGÊNCIA BRASIL. CNI quer permanência de ministério ameaçado de extinção por Bolsonaro. Brasília, 22 out. 2018a. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


AGÊNCIA BRASIL. CNI volta a se manifestar contra extinção do Ministério da Indústria. Brasília, 30 out. 2018b. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


CASA CIVIL. Estudo detalha panorama do potencial de minerais estratégicos no Brasil. Brasília, 3 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Flávio diz que Brasil é “solução para EUA ter minerais de terras raras”. Brasília, 30 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA. CNI se manifesta contra extinção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Brasília, 30 out. 2018. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


ESTADO DE MINAS. Flávio Bolsonaro: “Brasil é solução para os EUA ter minerais de terras raras”. Belo Horizonte, 29 mar. 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


MINISTÉRIO DA FAZENDA. Nova Indústria Brasil. Brasília, 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Guia do investidor estrangeiro em minerais críticos. Brasília, 2026a. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. MME publica Guia do Investidor 2026 para fortalecer atração de investimentos estrangeiros em minerais críticos. Brasília, 2 mar. 2026b. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS. Brasil ganha nova política industrial com metas e ações para o desenvolvimento até 2033. Brasília, 22 jan. 2024. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


REUTERS. Bolsonaro touts “changed”, U.S.-friendly Brazil to Washington. 18 mar. 2019. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 


WORLD BANK. Manufacturing, value added (% of GDP) - Brazil. Washington, DC, 2026. Disponível em: fonte consultada via web. Acesso em: 2 abr. 2026. 

Terras raras, soberania e tutela externa: Como a oferta do subsolo brasileiro aos EUA expõe o núcleo geopolítico da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro


A entrada das terras raras no centro do discurso presidencial de Flávio Bolsonaro não é um detalhe de campanha. É um sintoma. Ao apresentar o Brasil, em evento da direita trumpista nos Estados Unidos, como solução para a dependência americana em relação à China no fornecimento de minerais críticos, o senador não apenas sinalizou uma preferência diplomática. Ele esboçou uma concepção de país: um Brasil pensado menos como potência industrial soberana e mais como fornecedor estratégico de recursos para uma arquitetura de poder liderada por Washington. A questão decisiva, portanto, não é apenas mineral. É política, econômica e civilizacional. 



1. O que Flávio Bolsonaro disse — e por que isso importa


No CPAC realizado no Texas, Flávio Bolsonaro pediu que os Estados Unidos e o “mundo livre” exercessem “pressão diplomática” sobre o Brasil para que as eleições de 2026 fossem, segundo sua formulação, “livres e justas”, baseadas em “valores de origem americana”. No mesmo discurso, afirmou que o Brasil seria “a solução da América” para romper a dependência chinesa em minerais críticos, especialmente terras raras. A combinação desses dois elementos — tutela política externa e oferta de ativos estratégicos nacionais — revela mais do que retórica de palanque: revela um projeto de reposicionamento subordinado do Brasil na disputa global entre Washington e Pequim. 


Esse ponto é crucial. Uma coisa é defender relações próximas com os Estados Unidos dentro da tradição diplomática de barganha entre Estados soberanos. Outra, muito diferente, é associar a legitimidade do processo político nacional à vigilância estrangeira e, ao mesmo tempo, apresentar o patrimônio mineral brasileiro como peça de alinhamento ideológico e estratégico. Quando uma candidatura presidencial transforma o subsolo do país em credencial para agradar uma potência, o debate deixa de ser apenas eleitoral. Passa a ser um debate sobre soberania. 


Flávio tenta vender essa operação como uma espécie de “Bolsonaro 2.0”: menos ríspido, mais articulado, supostamente mais preparado para dialogar com o mercado e com o sistema político. Mas a moderação de estilo não altera o conteúdo profundo. O núcleo continua o mesmo: alinhamento orgânico ao conservadorismo trumpista, desconfiança em relação às instituições brasileiras e leitura do Brasil como plataforma geopolítica de uma direita hemisférica. A embalagem muda; a lógica permanece. 



2. As terras raras e o novo mapa do poder


Terras raras não são “raras” apenas no sentido geológico vulgarizado pelo debate público. O que as torna estratégicas é sua centralidade tecnológica. Esses elementos são indispensáveis para ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas, sistemas eletrônicos avançados, aplicações aeroespaciais, defesa, inteligência artificial e cadeias industriais ligadas à transição energética. Em outras palavras: quem controla sua produção, processamento e fornecimento participa de um dos centros nervosos da economia do século XXI. 


O Brasil entrou nesse tabuleiro com peso real. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o país detém cerca de 21 milhões de toneladas de reservas/recursos de terras raras, aproximadamente 23% do total global, figurando entre os maiores detentores do planeta. O governo federal, por sua vez, passou a apresentar essas reservas como parte de uma estratégia mais ampla de minerais críticos voltada à energia limpa, à mobilidade elétrica e às tecnologias avançadas. Não se trata, portanto, de um tema periférico. Trata-se de uma questão estrutural de inserção internacional. 


Mas há uma diferença decisiva entre possuir reservas e controlar o valor gerado por elas. O verdadeiro poder não está apenas em cavar o minério. Está em refinar, separar, processar, transformar em insumo industrial e incorporá-lo a cadeias produtivas densas. É aí que a geopolítica se torna economia política. Um país que exporta minério bruto e importa tecnologia de alto valor captura pouco. Um país que domina etapas mais sofisticadas da cadeia pode converter riqueza geológica em capacidade industrial, tecnológica e fiscal. 



3. O ponto central: o Brasil será fornecedor ou potência de processamento?


O próprio governo brasileiro reconhece esse dilema. No guia de 2026 para investidores estrangeiros em minerais críticos, o Ministério de Minas e Energia afirma que o objetivo nacional não é apenas atrair investimentos para exploração, mas desenvolver também o processamento mineral no Brasil e ampliar a agregação de valor no território nacional. O documento é explícito ao dizer que o país buscará expandir o valor adicionado aos minerais estratégicos, fortalecer cadeias produtivas e reduzir dependências externas em insumos críticos. 


Esse reconhecimento é importante porque desmonta uma falsa dicotomia. O problema não é escolher entre “explorar” ou “não explorar”. O problema é decidir sob qual projeto nacional a exploração ocorrerá. Haverá verticalização produtiva? Haverá política industrial? Haverá formação tecnológica, pesquisa, química fina, magnetos, componentes e articulação entre mineração e manufatura avançada? Ou haverá apenas a repetição do velho padrão primário-exportador, agora com roupagem digital e verde? 


A pergunta é incômoda, mas inevitável: de que adianta deter parte relevante das reservas globais de terras raras se o país aceitar o papel de almoxarifado mineral de potências estrangeiras? Ser dono do subsolo não basta. É preciso ser dono do destino econômico que dele decorre. Caso contrário, a abundância vira dependência. E a riqueza, paradoxalmente, reforça a subordinação. 



4. Minaçu, Goiás, e a materialidade da disputa


Se alguém duvida de que essa disputa já saiu do plano abstrato, basta olhar para Minaçu, em Goiás. Em fevereiro de 2026, a Serra Verde anunciou um pacote de financiamento de US$ 565 milhões com a U.S. International Development Finance Corporation (DFC), agência do governo americano. O acordo inclui até mesmo a opção de o governo dos Estados Unidos adquirir uma participação acionária minoritária na empresa. A própria companhia descreveu o projeto como peça importante para construir “novas cadeias independentes de valor”. 


Do lado americano, a linguagem foi ainda mais direta. A DFC afirmou que o financiamento à Serra Verde ajudará a desenvolver uma fonte “alinhada ao Ocidente” de elementos de terras raras, inclusive terras raras pesadas, em um contexto no qual a segurança das cadeias de suprimento é tratada como assunto de interesse estratégico e de segurança nacional dos EUA. Não há ingenuidade aqui. Não se trata de filantropia geoeconômica. Trata-se de política de poder. 


Minaçu, assim, torna-se mais do que um município goiano com relevância mineral. Torna-se uma vitrine da disputa entre modelos. De um lado, o Brasil pode usar seus depósitos para construir capacidade industrial interna e negociar de maneira soberana com múltiplos parceiros. De outro, pode ser incorporado como elo subordinado em uma cadeia desenhada para atender prioritariamente às necessidades tecnológicas e securitárias de outras potências. O financiamento estrangeiro, por si só, não é o problema. O problema é a ausência de um projeto nacional suficientemente forte para enquadrar esse capital em favor do interesse brasileiro. 



5. O bolsonarismo e a pedagogia da subordinação


A fala de Flávio Bolsonaro no CPAC ajuda a compreender a racionalidade por trás disso. Seu argumento não foi: “o Brasil precisa desenvolver sua indústria de terras raras e negociar em pé de igualdade com os EUA, a Europa, a Ásia e os BRICS”. Seu argumento foi outro: “o Brasil pode ajudar a América a romper a dependência da China”. O centro da frase não é o Brasil. O centro da frase é a América entendida como potência norte-americana. O país aparece como instrumento. Nunca como sujeito histórico pleno. 


Esse é o ponto que precisa ser dito sem rodeios. O bolsonarismo nunca formulou um projeto consistente de soberania nacional no sentido material do termo. Seu nacionalismo é performático, emocional e seletivo. Ele se exalta diante de símbolos, mas recua diante da estrutura. Grita pela pátria, mas se acomoda quando a pátria é convocada a ocupar um lugar subordinado na divisão internacional do poder. Confunde honra nacional com alinhamento ideológico ao império de preferência. 


Esse traço não é novo. Na fase anterior do bolsonarismo, o alinhamento pessoal de Jair Bolsonaro com Donald Trump já havia mostrado uma disposição incomum de subordinação diplomática. O que surge agora é uma atualização mais sofisticada: menos personalista na forma, mais institucionalizada no discurso. Em vez do gesto espalhafatoso, a promessa de “cadeias seguras”; em vez do elogio bruto, a linguagem da cooperação estratégica; em vez do improviso, a conversão de recursos naturais em moeda de fidelidade geopolítica. 



6. O risco de repetir a velha história em versão high-tech


O Brasil já conhece esse enredo. Durante séculos, a economia nacional foi organizada em torno da exportação de bens primários com baixa agregação de valor. Mudavam os produtos — açúcar, ouro, café, minério, soja —, mas a lógica se repetia: riqueza territorial combinada com baixa soberania tecnológica e financeira. O debate sobre terras raras recoloca a mesma pergunta sob nova roupa. Serão os minerais críticos apenas mais um capítulo da longa história brasileira de especialização regressiva? 


A novidade é que, agora, o extrativismo vem recoberto por um discurso de modernidade. Fala-se em transição energética, inteligência artificial, defesa avançada, semicondutores, motores de alta eficiência. Tudo isso é real. Mas pode funcionar como verniz para uma relação muito antiga: a periferia fornecendo base material para os centros de poder concentrarem ciência, tecnologia, finanças, patentes e renda. A sofisticação do produto não garante, por si, sofisticação do lugar ocupado pelo país. 


É por isso que a disputa não pode ser reduzida a um problema técnico de mineração. O centro da discussão é: quem define a estratégia? O Brasil terá política industrial, planejamento estatal, crédito direcionado, pesquisa científica, fortalecimento da indústria de separação e refino, e integração entre mineração e manufatura? Ou aceitará ser celebrado como “parceiro confiável” justamente porque se dispõe a fornecer matéria-prima sem exigir a correspondente soberania produtiva? 



7. Flávio Bolsonaro, mercado e o novo idioma da dependência


Parte da eficácia eleitoral de Flávio Bolsonaro decorre justamente de sua tentativa de traduzir o velho bolsonarismo para uma linguagem mais aceitável a investidores, ao mercado e a segmentos do centro político. Reuters mostrou, em março e abril de 2026, que sua pré-candidatura ganhou tração nas pesquisas, chegando ao empate técnico com Lula em cenários de segundo turno, ao mesmo tempo em que seus aliados calibravam a apresentação de uma agenda econômica voltada a cortes de gastos, redução de impostos e “melhoria do ambiente de negócios”. 


Nesse contexto, as terras raras cumprem dupla função. Para fora, apresentam o candidato como interlocutor útil à estratégia ocidental de contenção da dependência chinesa. Para dentro, oferecem ao mercado a imagem de um país com ativos valiosos capazes de atrair capital, financiamento e inserção em cadeias globais. O risco é que a linguagem do investimento esconda a assimetria da relação. Nem todo capital estrangeiro produz desenvolvimento soberano. Sem diretriz nacional, ele pode apenas reorganizar a dependência em padrões mais sofisticados. 



8. A escolha histórica diante do Brasil


O debate que Flávio Bolsonaro ajudou involuntariamente a iluminar é maior do que sua candidatura. O Brasil está diante de uma escolha histórica. Pode tratar as terras raras como mais um ciclo exportador, celebrado no curto prazo e incapaz de mudar estruturalmente o lugar do país no sistema internacional. Ou pode tratá-las como base material de um projeto nacional de reindustrialização, agregação de valor, autonomia tecnológica e soberania estratégica. 


Para isso, será preciso mais do que discurso patriótico. Será preciso Estado, planejamento, política industrial, ciência, engenharia, regulação e capacidade de negociação internacional. Será preciso, sobretudo, abandonar a ilusão infantil de que uma grande potência financia cadeias minerais no Sul Global por altruísmo ou amizade ideológica. Potências agem por interesse. O dever de um país soberano é fazer o mesmo. 



Conclusão


A oferta das terras raras brasileiras aos Estados Unidos, feita por Flávio Bolsonaro no palco do conservadorismo trumpista, não é um lapso retórico nem um detalhe periférico de campanha. Ela condensa uma visão de mundo. Nessa visão, o Brasil não aparece como civilização capaz de transformar sua riqueza mineral em densidade industrial, tecnológica e política própria. Aparece como território útil, parceiro obediente, reservatório confiável de insumos estratégicos para uma ordem internacional comandada por outros. Essa é a essência do problema. Não se trata apenas de quem vai extrair o minério, nem apenas de quem vai financiá-lo. Trata-se de saber se o país pretende ser sujeito de sua história ou plataforma de conveniência para projetos alheios. As terras raras recolocam, em linguagem contemporânea, uma velha pergunta brasileira: haverá soberania com industrialização e comando nacional da cadeia de valor, ou apenas mais uma modernização subordinada, agora embalada pelo léxico da segurança mineral, da transição energética e da geopolítica ocidental? O mérito involuntário da fala de Flávio Bolsonaro foi tornar essa escolha visível. O desafio do Brasil é não respondê-la de joelhos. 



Referências


BRASIL. Casa Civil. Estudo detalha panorama do potencial de minerais estratégicos no Brasil. Brasília: Casa Civil, 2026. 


BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Brazil’s Critical Minerals: A Guide for Foreign Investors 2026. Brasília: MME, 2026. 


CONGRESSO EM FOCO. Na CPAC, Flávio pede pressão dos EUA sobre eleições no Brasil. Brasília: Congresso em Foco, 2026. 


REUTERS. Flavio Bolsonaro draws even with Lula in Brazil election matchup, Datafolha shows. 2026. 


REUTERS. Stronger polls buy Flavio Bolsonaro time on economic team as Brazil race heats up. 2026. 


SERRA VERDE. Serra Verde Secures US$565 million Financing from US International Development Finance Corporation. 2026. 


SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. Serviço Geológico do Brasil esclarece dúvidas sobre potencial do país para terras raras e minerais estratégicos. Brasília: SGB, 2025. 


UNITED STATES INTERNATIONAL DEVELOPMENT FINANCE CORPORATION. DFC Highlights Landmark Critical Minerals Investments to Strengthen U.S. National Security During State Department Ministerial. Washington, D.C.: DFC, 2026.