Como a propaganda política seleciona fatos, apaga contextos e transforma governantes em personagens — e por que o eleitor brasileiro precisa aprender a reconhecer essa operação narrativa
Índice
- Lide
- O comercial que transformou verdades em uma grande mentira
2.1 O que os anexos relatam corretamente
2.2 A imprecisão histórica escondida dentro da própria peça - A mentira não estava necessariamente nos fatos
3.1 Seleção
3.2 Ordenação
3.3 Contextualização
3.4 Atribuição de causalidade - O enquadramento e a verdade estrategicamente incompleta
- O Brasil e a fabricação eleitoral de personagens presidenciais
5.1 O moralizador contra os privilegiados
5.2 O governante transformado em proprietário da estabilidade
5.3 O redentor social e a apropriação pessoal de políticas coletivas
5.4 A administradora eficiente construída pela continuidade
5.5 O veterano apresentado como inimigo do sistema - A propaganda não precisa inventar um currículo
- Números verdadeiros também podem produzir conclusões falsas
- O poder político da nostalgia e da indignação
- A nova escala da manipulação nas redes sociais
- Um método prático para examinar a propaganda política
- O alerta necessário ao eleitor brasileiro
- Conclusão
- Cinco pontos fundamentais
- Indicações de leitura
- Referências
Lide
Uma propaganda política não precisa inventar acontecimentos para enganar. Pode selecionar realizações verdadeiras, retirar seus custos, ocultar fracassos, apagar a participação de outras pessoas e organizar tudo em uma sequência emocionalmente irresistível. Foi isso que um célebre comercial brasileiro de 1987 demonstrou ao apresentar indicadores aparentemente positivos enquanto, pouco a pouco, formava na tela o rosto de Adolf Hitler. A peça continua atual, mas sua lição precisa ser aprofundada: algumas das afirmações utilizadas eram não apenas descontextualizadas, mas também historicamente mal atribuídas. No Brasil, diferentes políticos que chegaram à Presidência foram apresentados como moralizadores, salvadores da economia, protetores dos pobres, administradores insubstituíveis ou inimigos do sistema. Os fatos escolhidos nem sempre eram falsos. A personagem construída com eles, porém, frequentemente era muito maior, mais pura e mais coerente do que a realidade permitia sustentar.
1. O comercial que transformou verdades em uma grande mentira
No fim de 1987, a Folha de S.Paulo colocou no ar uma peça que se tornaria um clássico da publicidade brasileira. Criado pela agência W/GGK São Paulo, o filme começava com um pequeno ponto escuro. À medida que a câmera se afastava, outros pontos surgiam e formavam lentamente uma imagem.
Enquanto o rosto permanecia irreconhecível, uma voz grave descrevia um homem associado à recuperação econômica de seu país, à queda do desemprego e à expansão da produção. Mencionava ainda seu interesse por música e pintura. Somente ao final o espectador percebia que estava diante de Adolf Hitler.
A peça encerrava com uma frase memorável: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”.
A campanha realmente existiu, estreou em 1987, foi produzida para a Folha, recebeu o Leão de Ouro no festival de publicidade de Cannes e teve ampla repercussão internacional. Esses elementos dos anexos estão confirmados por registros da própria Folha de S.Paulo e do Clube de Criação.
A ideia era poderosa: uma sucessão de proposições isoladamente defensáveis pode produzir uma conclusão profundamente enganosa. O comercial não exaltava Hitler. Ao contrário, servia-se do choque provocado pela revelação para advertir sobre os perigos da informação parcial.
Contudo, a pesquisa histórica revela algo ainda mais interessante: nem todas as realizações apresentadas podem ser atribuídas a Hitler da maneira sugerida.
1.1 A hiperinflação que terminou antes da chegada de Hitler
O texto reproduzido nos anexos atribui ao ditador a redução de uma inflação gigantesca para aproximadamente 25% ao ano. O problema não está apenas na ausência de contexto. Está também na cronologia.
A hiperinflação alemã atingiu seu ponto extremo em 1923. Em novembro daquele ano, o governo introduziu uma nova moeda, o Rentenmark, e promoveu uma reforma monetária que estabilizou os preços. Hitler somente chegou à chancelaria em janeiro de 1933, quase dez anos depois.
O próprio banco central alemão registra que a reforma monetária responsável por encerrar a hiperinflação ocorreu em novembro de 1923. A instituição também esclarece que, a partir de 1936, o regime nazista recorreu a controles de preços, salários e consumo que mantiveram uma inflação parcialmente escondida até a reforma monetária do pós-guerra (Deutsche Bundesbank).
Portanto, a hiperinflação realmente existiu. Sua estabilização também é um fato. Mas a ligação causal entre os dois acontecimentos e o governo nazista é historicamente indevida.
Temos aqui uma primeira lição: a existência de dois fatos não prova que um tenha sido causado pelo outro.
1.2 O desemprego caiu, mas o número não conta toda a história
A queda do desemprego durante os primeiros anos do regime nazista aparece nas estatísticas oficiais. Em 1933, a Alemanha tinha milhões de desempregados; poucos anos depois, o número registrado havia diminuído drasticamente.
Entretanto, parte dessa redução resultou do rearme militar, do serviço compulsório, da expansão das Forças Armadas e de grandes gastos públicos voltados à preparação para a guerra. Além disso, mulheres, judeus, opositores políticos e pessoas obrigadas a aceitar determinadas formas de trabalho deixaram de aparecer adequadamente nas estatísticas. Trabalhadores em ocupações parciais também podiam ser classificados como plenamente empregados.
O material histórico da Wiener Holocaust Library registra que a afirmação nazista de que o desemprego havia desaparecido era falsa, pois os números excluíam grupos expulsos do mercado de trabalho e não consideravam corretamente a subocupação. As jornadas foram ampliadas e os salários permaneceram controlados em níveis reduzidos (The Holocaust Explained).
A queda estatística, portanto, ocorreu. Mas o indicador escondia três perguntas decisivas:
- Quem deixou de ser contado?
- Que tipo de emprego foi criado?
- Qual era a finalidade econômica desse emprego?
Quando essas perguntas desaparecem, um número verdadeiro passa a funcionar como disfarce.
2. A mentira não estava necessariamente nos fatos
A frase do comercial é brilhante, mas precisa de um pequeno refinamento conceitual. A mentira não estava simplesmente “na seleção e na ordem”. Em alguns pontos, como vimos, havia também problema de atribuição histórica. Ainda assim, o mecanismo principal permanece válido.
Uma narrativa enganosa pode ser construída por cinco operações.
2.1 Seleção
O comunicador escolhe fatos favoráveis ao personagem:
- uma política bem-sucedida;
- uma queda temporária de determinado indicador;
- uma obra inaugurada;
- um programa social ampliado;
- uma medida contra privilégios;
- uma decisão popular;
- uma qualidade biográfica;
- um episódio de coragem.
Nada disso precisa ser inventado. Basta que os acontecimentos escolhidos apontem todos para a mesma direção.
2.2 Exclusão
Em seguida, ficam de fora:
- os fracassos;
- os custos econômicos e humanos;
- as promessas abandonadas;
- as alianças contraditórias;
- os beneficiários ocultos;
- os indicadores que pioraram;
- os resultados produzidos por administrações anteriores;
- as instituições e equipes que participaram da realização;
- as consequências posteriores.
A omissão não aparece na tela. Justamente por isso é tão eficiente. O eleitor vê o que foi mostrado, mas dificilmente percebe sozinho o tamanho da realidade que permaneceu fora do enquadramento.
2.3 Ordenação
Os fatos escolhidos são organizados como se fossem etapas naturais de uma demonstração:
havia caos → surgiu o líder → o líder enfrentou os poderosos → os indicadores melhoraram → a população recuperou a esperança.
Essa ordem estabelece uma causalidade narrativa. O simples fato de um acontecimento vir depois de outro faz o espectador sentir que o segundo foi produzido pelo primeiro.
Mas sequência temporal não é prova de causalidade. Uma economia pode melhorar durante um governo por fatores internacionais, políticas iniciadas anteriormente, decisões do Legislativo, atuação do banco central, crescimento de parceiros comerciais, ciclo de commodities, recuperação após uma crise ou combinação de várias causas.
2.4 Contextualização
A mesma estatística pode assumir sentidos opostos conforme o período de comparação.
Um crescimento de 7% pode parecer extraordinário. Contudo, se ocorrer depois de uma recessão, parte dele poderá representar apenas recuperação de uma base deprimida. Uma inflação de 4% pode parecer excelente diante de 30%, mas preocupante se a meta for 2%. A criação de empregos pode impressionar, embora a renda tenha caído e a informalidade aumentado.
O contexto funciona para os números como a moldura para uma fotografia. A moldura não altera aquilo que está dentro da imagem, mas determina o que conseguimos enxergar.
2.5 Personalização da causalidade
Finalmente, resultados coletivos são convertidos em atributos pessoais:
o presidente criou;
o presidente salvou;
o presidente construiu;
o presidente derrotou;
o presidente deu.
Desaparecem servidores públicos, pesquisadores, empresas, governos subnacionais, Congresso, instituições de controle, movimentos sociais, condições externas e políticas acumuladas durante décadas. A política pública vira dádiva; o governante, benfeitor.
É nesse momento que a prestação de contas começa a se transformar em culto à personalidade.
3. O enquadramento e a verdade estrategicamente incompleta
A comunicação política chama esse processo de enquadramento: alguns aspectos da realidade são selecionados e tornam-se mais visíveis, orientando a definição do problema, a identificação de culpados e a escolha da solução. O enquadramento não é necessariamente desonesto. Toda comunicação precisa selecionar informações. Nenhum discurso consegue apresentar a realidade inteira.
O problema começa quando a seleção é utilizada deliberadamente para provocar uma conclusão que o conjunto das evidências não sustentaria.
A literatura internacional utiliza a palavra paltering para designar o emprego ativo de afirmações verdadeiras com a finalidade de produzir uma impressão enganosa. Experimentos realizados por pesquisadores de Harvard e da Universidade da Pensilvânia identificaram essa prática como diferente tanto da mentira direta quanto da simples omissão (Rogers et al., 2017).
Podemos chamá-la de verdade estrategicamente incompleta.
A distinção é importante:
- mentira direta: afirma algo falso;
- omissão: não menciona informação relevante;
- verdade estrategicamente incompleta: apresenta fatos verdadeiros de modo calculado para induzir uma conclusão falsa ou exagerada.
Na propaganda eleitoral, essa terceira forma é especialmente poderosa porque permite ao emissor responder às críticas com uma defesa aparentemente irrefutável: “Mas tudo o que eu disse é verdade”.
Talvez seja. A pergunta democrática, porém, não termina aí.
4. O Brasil e a fabricação de personagens presidenciais
Comparar o mecanismo do comercial com a política brasileira não significa equiparar moralmente governantes brasileiros ao nazismo. Seria historicamente absurdo e intelectualmente irresponsável. A comparação aqui se limita à técnica narrativa: selecionar fatos positivos, omitir contradições e fabricar uma identidade política mais coerente do que a realidade.
Desde a redemocratização, candidatos que posteriormente assumiram a Presidência foram apresentados por meio de personagens cuidadosamente construídos.
4.1 O moralizador contra os privilegiados
Na eleição de 1989, um ex-governador apresentou-se como inimigo dos altos salários no serviço público e defensor dos cidadãos pobres. A moralidade administrativa ocupava o centro de sua campanha. O personagem combinava juventude, modernidade, coragem e disposição para enfrentar os beneficiários do Estado.
Havia um fato real: durante o governo estadual, medidas contra remunerações consideradas excessivas haviam produzido visibilidade nacional. A campanha selecionou esse elemento e o transformou na essência do candidato. Não se tratava mais de um político com uma trajetória, alianças e interesses. Tratava-se do “caçador” que purificaria o Estado.
O Tribunal Superior Eleitoral registra que a moralidade pública era a base daquela candidatura e que o combate aos chamados “marajás” se tornou sua principal identidade pública. Após a posse, porém, o governo bloqueou por um ano e meio parte dos ativos financeiros, das contas correntes e das cadernetas de poupança. A inflação caiu inicialmente, mas voltou a subir; a economia entrou em recessão; e o mandato terminou em meio a um processo de responsabilização política (TSE — Julgados históricos).
A campanha não precisou inventar o combate aos altos salários. Precisou apenas ampliar um episódio até que ele encobrisse todo o restante.
Essa talvez tenha sido a primeira grande demonstração, na democracia brasileira recente, de que uma identidade publicitária pode ser mais forte do que o currículo integral do candidato.
4.2 O governante transformado em proprietário da estabilidade
Na eleição de 1994, o controle da inflação exerceu papel decisivo sobre o voto. O plano de estabilização havia sido iniciado em 1993 e conseguiu romper a dinâmica inflacionária que atormentava o país. Segundo o Banco Central, tratou-se de um processo desenvolvido em etapas, com reorganização fiscal, criação de uma unidade de valor e introdução de uma nova moeda (Banco Central do Brasil).
A estabilização foi real. O benefício social também foi real. A inflação desorganizava salários, contratos, poupanças e decisões econômicas, prejudicando especialmente quem não possuía mecanismos financeiros de proteção.
A narrativa eleitoral, contudo, personalizou um processo coletivo. Uma política concebida por equipe técnica, aprovada pelo Congresso, executada por instituições públicas e sustentada pelo governo em exercício foi progressivamente associada a um único candidato.
Pesquisa preservada pela Biblioteca Digital da Justiça Eleitoral mostra que o controle da inflação e o horário eleitoral tiveram influência decisiva nas intenções de voto de 1994 (Biblioteca Digital do TSE).
A propaganda não mentia ao reconhecer a participação do candidato. Enganaria, entretanto, se sugerisse que a estabilização era obra solitária, propriedade pessoal ou prova automática de competência em todas as outras dimensões do governo.
Participar de uma conquista é diferente de ser sua única causa. A primeira afirmação pode ser verdadeira; a segunda é uma mitologia.
4.3 O redentor social e a apropriação pessoal de políticas coletivas
Nos anos 2000, ganhou força outro personagem: o governante de origem popular que compreendia os pobres porque conhecia suas dificuldades. A biografia era verdadeira. Também foram reais a valorização do salário mínimo, a expansão das transferências de renda, o crescimento do emprego formal e a redução da pobreza e da desigualdade em parte daquele período.
Estudos do Ipea reconhecem que a expansão das transferências, os benefícios previdenciários vinculados ao salário mínimo e o crescimento econômico contribuíram para a melhoria dos indicadores sociais. As avaliações também mostram que o programa de transferência de renda teve impacto próprio, embora não explique sozinho toda a redução da pobreza (Ipea).
Onde aparece o risco narrativo?
Quando conquistas sociais verdadeiras passam a sustentar conclusões muito mais amplas:
- somente um líder se preocupa com os pobres;
- programas públicos pertencem moralmente a uma pessoa;
- qualquer crítica ao governo representa ataque aos beneficiários;
- resultados positivos anulam denúncias e falhas institucionais;
- gratidão política deve transformar-se em fidelidade eleitoral permanente.
Durante o mesmo ciclo político, o Supremo Tribunal Federal julgou uma ação penal de grande repercussão e condenou agentes políticos, dirigentes partidários e operadores financeiros por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e peculato. Reconhecer esse fato não autoriza atribuir automaticamente responsabilidade penal a quem não foi condenado. Mas também não é legítimo apagá-lo da avaliação histórica do período (Supremo Tribunal Federal).
Uma política social bem-sucedida não torna um governo moralmente infalível. Da mesma maneira, a existência de corrupção não apaga os efeitos positivos de uma política pública. A análise honesta precisa sustentar as duas verdades ao mesmo tempo.
4.4 A administradora eficiente construída pela continuidade
Na eleição de 2010, a sucessão presidencial foi estruturada em torno da continuidade. A candidata governista havia ocupado ministérios importantes e participado da coordenação de projetos de infraestrutura. A propaganda transformou essa experiência em símbolo de capacidade executiva e apresentou a candidatura como garantia de preservação da prosperidade.
O contexto ajudava. O PIB brasileiro cresceu 7,5% em 2010, embora o próprio IBGE tenha destacado a influência da baixa base de comparação do ano anterior (IBGE, 2011).
O número era verdadeiro. Mas a propaganda podia organizá-lo de modo a sugerir que:
- o crescimento representava uma tendência permanente;
- a administração futura teria automaticamente o mesmo desempenho;
- a candidata possuía controle suficiente sobre as condições econômicas;
- a continuidade política garantiria continuidade estatística.
Os acontecimentos posteriores mostraram os limites dessa inferência. O PIB cresceu apenas 0,5% em 2014 e caiu 3,5% em 2015. Em 2016, sofreu nova retração, de 3,3% (IBGE).
Esses resultados tampouco podem ser atribuídos exclusivamente à pessoa que ocupava a Presidência. Houve erros internos, conflitos políticos, deterioração fiscal e condições econômicas externas. O ponto é outro: o crescimento de um ano não poderia provar, por si só, a capacidade de reproduzi-lo indefinidamente.
A propaganda havia convertido uma fotografia em promessa de filme completo.
4.5 O veterano apresentado como inimigo do sistema
Em 2018, a campanha vencedora apresentou um personagem antissistema e anticorrupção. O ambiente de descrença nos partidos, recessão, desemprego e revelações de esquemas ilícitos favoreceu essa narrativa.
Pesquisa disponível na Biblioteca Digital da Justiça Eleitoral examinou a propaganda televisiva do segundo turno e constatou que o eixo anticorrupção/antissistema representou aproximadamente 57,2% das menções codificadas (TSE — Estudos Eleitorais).
Não era invenção afirmar que o candidato criticava práticas tradicionais e partidos dominantes. O enquadramento problemático estava em apresentá-lo como alguém exterior ao sistema político. Quando eleito, ele exercia o sétimo mandato consecutivo de deputado federal e acumulava quase três décadas no Congresso, conforme registro da Agência Câmara.
É possível ser crítico de um sistema do qual se participa. O que não se pode fazer, sem distorção, é tratar longa experiência institucional como inexistente quando ela prejudica a imagem de novidade.
O político real era um parlamentar veterano que adotava discurso de ruptura. A personagem publicitária era um estranho que chegava para expulsar os ocupantes da política. A primeira descrição comportava a contradição; a segunda apagava metade da biografia.
5. A propaganda não precisa inventar um currículo
Os cinco exemplos pertencem a correntes ideológicas diferentes. Isso é importante. A verdade estrategicamente incompleta não constitui monopólio da esquerda, da direita ou do centro. É uma ferramenta do poder.
Um candidato pode ser realmente pobre em sua origem, realmente competente em determinada função, realmente responsável por uma política, realmente conservador, realmente progressista ou realmente crítico da corrupção. Nenhuma dessas verdades parciais demonstra, sozinha, que ele:
- será competente na Presidência;
- respeitará as instituições;
- manterá suas promessas;
- escolherá auxiliares idôneos;
- produzirá os mesmos resultados em outro contexto;
- não realizará alianças contraditórias;
- governará em benefício da maioria;
- aceitará limites constitucionais;
- tratará adversários como cidadãos legítimos.
A propaganda opera uma transformação silenciosa:
“Ele realizou determinada ação” converte-se em “ele possui determinada essência”.
O episódio vira identidade. A identidade vira destino. E o destino vira justificativa para o voto.
6. Números verdadeiros também podem produzir conclusões falsas
Quando uma campanha apresenta uma estatística, o eleitor costuma perguntar se o número está correto. Essa verificação é necessária, mas insuficiente.
Diante de qualquer indicador, precisamos perguntar:
- Qual é a fonte?
- Qual é o período inicial e final?
- O valor é nominal, real, absoluto ou proporcional?
- Houve mudança metodológica?
- Quem foi incluído e quem ficou fora?
- O resultado começou antes do governo?
- Existe tendência internacional semelhante?
- Qual foi o custo da política?
- Outros indicadores contam história diferente?
- A campanha está demonstrando causalidade ou apenas coincidência?
Imagine uma propaganda que informe: “Criamos dois milhões de empregos”. O número pode ser correto. Mas quantos empregos foram perdidos antes? São formais ou informais? A população economicamente ativa cresceu? A renda média aumentou? A jornada se alterou? O resultado ocorreu em um ou em quatro anos?
O número não responde sozinho.
Também é possível escolher o ponto de partida mais conveniente. Um governante pode comparar o presente ao pior mês de uma crise e anunciar crescimento extraordinário. Seu adversário pode comparar o mesmo presente ao melhor ano da série e proclamar fracasso. Ambos utilizam dados reais. Cada um escolhe a janela que favorece sua conclusão.
A estatística, nesse caso, não está errada. Está sendo usada como cenário.
7. O poder político da nostalgia e da indignação
Duas emoções alimentam especialmente as narrativas eleitorais: a nostalgia e a indignação.
A nostalgia seleciona lembranças agradáveis de um governo anterior:
- o emprego que existia;
- o preço que parecia menor;
- o programa social recebido;
- a sensação de estabilidade;
- o reconhecimento internacional;
- a expectativa de futuro.
Os problemas do período desaparecem. A memória coletiva é editada como um vídeo comemorativo.
A indignação realiza o movimento inverso. Seleciona escândalos, crimes, erros e crises do adversário e os apresenta como totalidade. Nenhuma realização merece consideração; nenhuma circunstância precisa ser examinada; nenhuma distinção entre responsabilidade individual, partidária e institucional é preservada.
A nostalgia diz: “Tudo era melhor”.
A indignação responde: “Tudo era pior”.
Raramente qualquer uma das frases é verdadeira.
Campanhas eficientes não vendem apenas propostas. Elas oferecem ao eleitor uma identidade moral: quem vota conosco pertence ao grupo dos honestos, patriotas, solidários, modernos, religiosos, democratas ou defensores dos pobres. O adversário deixa de ser uma alternativa política e torna-se ameaça existencial.
Quando isso acontece, verificar fatos parece menos importante do que defender a própria comunidade.
8. A nova escala da manipulação nas redes sociais
O comercial de 1987 tinha duração determinada e era exibido nos intervalos da televisão. Hoje, a montagem narrativa é permanente, personalizada e distribuída por algoritmos.
Um vídeo de quinze segundos pode recortar uma frase verdadeira e eliminar a pergunta que a antecedeu. Um gráfico pode começar o eixo vertical em um ponto conveniente. Uma fotografia legítima pode ser associada a um acontecimento diferente. Um discurso antigo pode reaparecer como se tivesse sido pronunciado ontem. Um dado nacional pode ser apresentado como resultado de uma política municipal. Uma medida aprovada pelo Congresso pode ser reivindicada exclusivamente pelo Executivo.
A inteligência artificial adiciona novas possibilidades: clonagem de voz, alteração de imagens, fabricação de cenas e produção industrial de mensagens adaptadas a diferentes públicos.
Para as eleições de 2026, o TSE exige identificação explícita de conteúdos sintéticos produzidos ou manipulados por inteligência artificial, proíbe deepfakes e veda materiais fabricados ou gravemente descontextualizados que possam comprometer a integridade do processo eleitoral (Resolução TSE nº 23.755/2026).
A regra é necessária, mas não resolve todo o problema. A manipulação mais sofisticada pode utilizar somente imagens autênticas, declarações reais e números oficiais. A falsidade estará na conexão estabelecida entre eles.
A Justiça pode retirar uma mentira evidente. Nenhum tribunal, contudo, consegue substituir integralmente o juízo crítico do eleitor.
9. Um método prático para examinar a propaganda política
Antes de aceitar ou compartilhar uma peça de campanha, o eleitor pode submetê-la a um pequeno teste.
Primeira pergunta: o que foi afirmado?
Reescreva a mensagem sem música, cores, símbolos e adjetivos. Identifique a proposição verificável.
Segunda pergunta: qual é a fonte original?
Não aceite como fonte o próprio vídeo, um influenciador ou uma imagem sem referência. Procure o dado em instituições oficiais, estudos acadêmicos, legislação, decisões judiciais e séries estatísticas completas.
Terceira pergunta: o que ficou de fora?
Busque deliberadamente a informação que a campanha teria interesse em ocultar:
- custos;
- fracassos;
- indicadores contrários;
- alianças;
- decisões anteriores;
- participação de terceiros;
- consequências futuras.
Quarta pergunta: a causalidade foi demonstrada?
O fato ocorreu durante o governo ou por causa dele? A diferença é enorme.
Quinta pergunta: a biografia confirma o personagem?
Quem se apresenta como novo já exerceu mandatos? Quem promete independência depende de quais alianças? Quem se diz gestor administrou o quê? Quem reivindica honestidade enfrentou como as irregularidades de aliados?
Sexta pergunta: o critério vale para todos?
Se determinada prática é considerada intolerável no adversário, também será condenada quando realizada pelo candidato preferido?
Esse talvez seja o teste mais difícil. O eleitor não é manipulado apenas porque desconhece fatos. Muitas vezes, aceita a narrativa porque deseja que ela seja verdadeira.
10. O alerta necessário ao eleitor brasileiro
O primeiro dever do eleitor não é desconfiar de tudo. É desconfiar de qualquer explicação que pareça simples demais para a complexidade do país.
O Brasil não é salvo por uma pessoa. Também não é destruído por uma pessoa sozinha. Presidentes possuem enorme poder, mas governam dentro de estruturas institucionais, econômicas e sociais. Dependem do Congresso, do Judiciário, dos estados, dos municípios, do funcionalismo, de empresas, de movimentos sociais e das condições internacionais.
Desconfie do candidato que:
- se apresenta como único representante das pessoas honestas;
- transforma adversários em inimigos absolutos;
- reivindica para si políticas construídas por muitas instituições;
- mostra apenas o melhor ano de sua administração;
- atribui todo resultado negativo a fatores externos e todo resultado positivo à própria virtude;
- promete soluções sem explicar instrumentos, custos e limites;
- utiliza a própria biografia como substituto de um programa;
- oferece indignação onde deveria apresentar evidências;
- pede confiança pessoal em lugar de fiscalização institucional.
A democracia não exige eleitores sem preferência. Exige cidadãos capazes de submeter também o candidato preferido ao exame crítico.
Conclusão
O comercial de 1987 permanece memorável porque expôs uma fragilidade humana: confundimos facilmente fatos verdadeiros com narrativas verdadeiras. Entretanto, a pesquisa histórica torna sua mensagem ainda mais profunda. A queda da hiperinflação alemã ocorreu antes da chegada de Hitler ao poder; a diminuição do desemprego oficial incorporou rearme, coerção e exclusões estatísticas; a recuperação econômica não podia ser separada da preparação para a guerra e da destruição de direitos. Não se tratava apenas de fatos positivos colocados fora de ordem. Tratava-se da remoção deliberada da causalidade, do tempo, dos custos e das vítimas.
A política brasileira oferece muitos exemplos menos extremos, mas estruturalmente semelhantes. Um governante pode ter combatido privilégios sem ser o moralizador puro anunciado pela propaganda. Pode ter participado da estabilização econômica sem ser seu proprietário. Pode ter ampliado políticas sociais sem adquirir imunidade moral. Pode ter ocupado funções administrativas sem possuir controle sobre o futuro. Pode criticar o sistema sem jamais ter estado fora dele.
A verdade democrática não nasce da soma de fatos convenientes. Surge do confronto entre evidências favoráveis e desfavoráveis, resultados e custos, promessas e realizações, biografia e comportamento, discurso e instituição.
Por isso, diante da próxima propaganda, não pergunte apenas: “O que está sendo dito é verdadeiro?”.
Pergunte também:
Quem escolheu esses fatos?
Que fatos foram excluídos?
Quem mais participou desse resultado?
Qual período foi utilizado?
Que causalidade está sendo sugerida?
Qual personagem querem que eu enxergue?
E o que apareceria se a câmera se afastasse um pouco mais?
É justamente quando a imagem se completa que o eleitor começa, de fato, a enxergar.
Cinco pontos fundamentais
- Uma sequência de afirmações verdadeiras pode produzir uma conclusão enganosa quando contexto, causalidade e informações contrárias são omitidos.
- A propaganda da Folha de 1987 é autêntica, mas a associação entre Hitler e o fim da hiperinflação alemã é historicamente indevida: a estabilização ocorreu em 1923, uma década antes de sua chegada ao governo.
- Diferentes campanhas presidenciais brasileiras transformaram episódios reais em identidades absolutas: o moralizador, o salvador da economia, o protetor dos pobres, a administradora eficiente e o inimigo do sistema.
- Resultados governamentais são coletivos e multicausais. Participar de uma conquista não significa ser sua única causa nem possuir seus resultados como patrimônio pessoal.
- O eleitor crítico precisa verificar não apenas a autenticidade de cada informação, mas também a seleção, a ordem, o período, a atribuição causal e aquilo que a propaganda decidiu esconder.
Três livros recomendados
- BERNAYS, Edward. Propaganda. Belo Horizonte: Autêntica, 2023.
Obra clássica para compreender como símbolos, emoções e autoridades são empregados na formação da opinião pública. - LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
Analisa como lideranças eleitas podem enfraquecer gradualmente normas e instituições democráticas. - MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia: por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Examina a relação entre frustração social, discursos antissistema, personalismo político e erosão democrática.
Referências
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Plano Real. Brasília, DF: Banco Central do Brasil, [s. d.]. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/planoreal. Acesso em: 22 ago. 2026.
BRASIL. Câmara dos Deputados. Registro institucional da trajetória parlamentar do candidato eleito à Presidência em 2018. Brasília, DF: Agência Câmara, 1 jan. 2019. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/550399-bolsonaro-e-o-2o-presidente-eleito-durante-o-mandato-de-deputado-federal/. Acesso em: 22 ago. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Julgados históricos. Brasília, DF: TSE, [s. d.]. Disponível em: https://www.tse.jus.br/jurisprudencia/julgados-historicos. Acesso em: 22 ago. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026. Altera a regulamentação da propaganda eleitoral para as eleições de 2026. Brasília, DF: TSE, 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2026/resolucao-no-23-755-de-2-de-marco-de-2026. Acesso em: 22 ago. 2026.
DEUTSCHE BUNDESBANK. Inflation: lessons learnt from history. Frankfurt: Deutsche Bundesbank, [s. d.]. Disponível em: https://www.bundesbank.de/en/tasks/topics/inflation-lessons-learnt-from-history-666006. Acesso em: 22 ago. 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Nova campanha da Folha faz homenagem a propaganda histórica. São Paulo, 29 jun. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/06/nova-campanha-da-folha-faz-homenagem-a-propaganda-historica.shtml. Acesso em: 22 ago. 2026.
IBGE. Em 2010, PIB varia 7,5% e fica em R$ 3,675 trilhões. Rio de Janeiro: IBGE, 3 mar. 2011. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/13983-asi-em-2010-pib-varia-75-e-fica-em-r-3675-trilhoes. Acesso em: 22 ago. 2026.
IBGE. Em 2016, PIB chega a R$ 6,3 trilhões e cai 3,3% em volume. Rio de Janeiro: IBGE, 9 nov. 2018. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/22936-em-2016-pib-chega-a-r-6-3-trilhoes-e-cai-3-3-em-volume. Acesso em: 22 ago. 2026.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Bolsa Família 2003–2010: avanços e desafios. Brasília, DF: Ipea, 2010. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/entities/book/c1aa5577-779c-49b7-98f4-b168ba478771. Acesso em: 22 ago. 2026.
MENDES, Antonio Manuel Teixeira; VENTURI, Gustavo. Eleição presidencial: o Plano Real na sucessão de 1994. Opinião Pública, Campinas, 1994. Disponível em: https://bibliotecadigital.tse.jus.br/xmlui/bitstream/handle/bdtse/3451/1994_mendes_eleicao_presidencial_plano.pdf. Acesso em: 22 ago. 2026.
ROGERS, Todd et al. Artful paltering: the risks and rewards of using truthful statements to mislead others. Journal of Personality and Social Psychology, Washington, DC, v. 112, n. 3, p. 456–473, 2017. Disponível em: https://www.hbs.edu/faculty/Pages/item.aspx?num=51679. Acesso em: 22 ago. 2026.
THE WIENER HOLOCAUST LIBRARY. Employment under the Nazi regime. Londres: The Holocaust Explained, [s. d.]. Disponível em: https://www.theholocaustexplained.org/life-in-nazi-occupied-europe/controlling-everyday-life/employment/. Acesso em: 22 ago. 2026.
UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. The Great Depression. Washington, DC: Holocaust Encyclopedia, [s. d.]. Disponível em: https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/the-great-depression. Acesso em: 22 ago. 2026.