quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Duas ideias de mundo na tribuna da ONU

Lula, Trump e a disputa pelo sentido do poder no século XXI

Uma leitura filosófica, sociológica e fenomenológica dos discursos brasileiro e norte-americano na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas



Índice

  1. Introdução — Quando dois discursos revelam dois mundos
  2. A ONU como palco e como símbolo

    • 2.1 A crise da ordem internacional
    • 2.2 A liturgia diplomática como linguagem do poder
  3. Lula e a construção discursiva do estadista

    • 3.1 A indignação como categoria política
    • 3.2 Soberania sem isolamento
    • 3.3 O Brasil como potência média
  4. Trump e a política da potência

    • 4.1 A primazia da ação sobre a deliberação
    • 4.2 Segurança, ameaça e inimigo
    • 4.3 Soberania como autonomia diante do sistema internacional
  5. Lula e Trump: duas fenomenologias do poder

    • 5.1 Poder como reconhecimento
    • 5.2 Poder como capacidade de imposição
  6. O “quintal” e a geografia moral do mundo
  7. Guerra, paz e os limites da força
  8. Democracia, soberania e ingerência externa
  9. Inteligência artificial e a nova disputa pela soberania
  10. Clima, petróleo e as contradições do desenvolvimento
  11. A questão social como questão internacional
  12. A dimensão sociológica dos dois discursos
  13. O que significa falar como estadista?
  14. Conclusão — O Brasil diante da ordem que ainda não nasceu
  15. Cinco pontos centrais
  16. Indicações bibliográficas
  17. Referências


Lide

Em 22 de setembro de 2026, a tribuna da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas transformou-se em algo maior que um espaço diplomático. Em sequência, Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump apresentaram duas narrativas distintas sobre soberania, poder, guerra, tecnologia e futuro. O brasileiro construiu seu pronunciamento em torno da insuficiência da força e da necessidade de reconstrução do multilateralismo; o norte-americano enfatizou capacidade de ação, autonomia nacional, poder militar e resistência a mecanismos supranacionais. Não se tratou simplesmente de esquerda contra direita, Brasil contra Estados Unidos ou Sul contra Norte. Em perspectiva filosófica e sociológica, os pronunciamentos permitem enxergar duas respostas diferentes para uma pergunta muito mais profunda: como deve ser exercido o poder em um mundo no qual nenhuma potência consegue, sozinha, controlar todas as consequências de suas próprias decisões?


1. Introdução — Quando dois discursos revelam dois mundos

Discursos presidenciais na Assembleia Geral da ONU são atos políticos antes de serem peças oratórias. Cada palavra é pronunciada dentro de uma arquitetura simbólica construída desde 1945: Estados formalmente soberanos, desiguais em poder material, reúnem-se sob a ficção jurídica — necessária à própria existência da ordem internacional — de que podem conversar como membros de uma mesma comunidade política mundial.

É justamente por isso que os pronunciamentos de Lula e Trump, em 22 de setembro de 2026, merecem ser lidos conjuntamente.

O contraste não precisa ser artificialmente construído. Ele aparece nas próprias estruturas argumentativas.

Lula iniciou sua intervenção diagnosticando uma crise de legitimidade das Nações Unidas. Segundo o registro oficial da ONU, afirmou que todos estariam se tornando reféns da inação do Conselho de Segurança e defendeu que a diplomacia constitui a alternativa para impedir que conflitos regionais adquiram proporções globais. Também declarou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”, relacionando soberania à rejeição de novas zonas de influência. (General Debate)

Trump organizou sua intervenção por outro princípio. A própria Casa Branca escolheu como síntese de seu discurso: “While Others Have Talked, I Have Acted” — enquanto outros falaram, eu agi. O pronunciamento enfatizou força norte-americana, combate ao Irã, emprego do poder militar quando considerado necessário aos interesses dos Estados Unidos, rejeição à governança global e oposição a um esquema internacional de regulação da inteligência artificial. (The White House)

Há aí duas gramáticas políticas.

Uma pergunta: como construir regras suficientemente fortes para limitar o poder?

A outra: como preservar poder suficiente para que regras externas não limitem a soberania?

Essa diferença percorre praticamente todos os temas dos dois pronunciamentos.


2. A ONU como palco e como símbolo

A 81ª Assembleia Geral ocorre em circunstâncias particularmente interessantes. O tema institucional da sessão é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”. Participam do Debate Geral representantes dos 193 Estados-membros. (As Nações Unidas em Brasil)

O próprio secretário-geral António Guterres apresentou diagnóstico semelhante ao de uma crise sistêmica. Em sua abertura, sustentou que poder militar, econômico ou tecnológico, isoladamente, já não consegue assegurar paz, estabilidade ou segurança, defendendo uma “multipolaridade em rede” apoiada em instituições representativas das relações de poder contemporâneas. (As Nações Unidas em Brasil)

É nesse ambiente que devemos compreender Lula e Trump.

A ONU é simultaneamente uma instituição e um paradoxo.

Ela repousa sobre igualdade jurídica entre Estados profundamente desiguais materialmente.

São Paulo e Tuvalu possuem formalmente um voto? Não: São Paulo sequer é Estado soberano. Brasil e Tuvalu, entretanto, possuem um voto cada na Assembleia Geral. Mas Brasil, Estados Unidos, China, Tuvalu e França evidentemente não possuem capacidades econômicas, militares ou demográficas equivalentes.

O sistema internacional convive permanentemente com essa tensão entre igualdade normativa e desigualdade material.

Lula fala predominantemente a partir do primeiro princípio.

Trump enfatiza predominantemente o segundo.


3. Lula e a construção discursiva do estadista

Uma das palavras mais importantes no discurso brasileiro é indignação.

Lula não apresenta a ONU simplesmente como instituição ineficiente. Sua crítica possui componente moral: existe uma discrepância entre aquilo que a organização prometeu representar e aquilo que consegue realizar.

Aqui aparece uma questão filosófica importante.

Paul Ricoeur compreendia as instituições justas como parte indispensável da realização ética da vida coletiva. Quando instituições continuam existindo formalmente, mas deixam de realizar a finalidade que lhes atribui legitimidade, emerge uma crise que não é apenas administrativa: torna-se uma crise de sentido.

É precisamente essa estrutura que aparece na argumentação brasileira.

A ONU continua funcionando.

Há reuniões.

Há resoluções.

Há discursos.

Há votações.

Mas guerras prosseguem.

Daí a acusação de paralisia do Conselho de Segurança. Segundo o registro das Nações Unidas, Lula lembrou que 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e relacionou a incapacidade de resposta internacional ao funcionamento do Conselho e ao poder de veto. (General Debate)

O ponto merece atenção: Lula não propõe abandonar a instituição por considerá-la incapaz.

Propõe fortalecê-la porque ela é incapaz.

Essa diferença é fundamental.


4. Trump e a política da potência

Trump parte de outra ontologia política.

Seu discurso começa no sujeito capaz de agir.

A estrutura “outros falaram, eu agi” contrapõe palavra e ação, negociação e decisão, hesitação e potência. Na narrativa apresentada pela Casa Branca, os Estados Unidos teriam recuperado força suficiente para enfrentar inimigos, proteger interesses nacionais e utilizar poder militar quando necessário. (The White House)

É possível reconhecer nessa estrutura algo próximo da tradição realista das relações internacionais.

Em Hans Morgenthau, a política internacional deve ser compreendida a partir do interesse definido em termos de poder. Em Kenneth Waltz, a ausência de autoridade superior efetivamente capaz de proteger os Estados transforma a autopreservação em imperativo estrutural.

Trump radicaliza discursivamente essa percepção.

O mundo aparece menos como comunidade política imperfeita e mais como espaço competitivo ocupado por Estados, ameaças, fronteiras, adversários e interesses.

Isso ajuda a compreender a centralidade assumida pelo Irã em sua intervenção.

A Casa Branca registrou que Trump reiterou a determinação de impedir que Teerã obtenha armas nucleares e vinculou o regime iraniano ao terrorismo e aos ataques contra Israel. Também declarou que os Estados Unidos não permitiriam que ameaças aos seus interesses ganhassem espaço no Hemisfério Ocidental e poderiam utilizar sua capacidade militar para proteger interesses nacionais. (The White House)

Não é uma linguagem acidental.

É uma teoria do poder condensada em discurso político.


5. Lula e Trump: duas fenomenologias do poder

Aqui a fenomenologia oferece uma chave particularmente interessante.

A fenomenologia pergunta não apenas o que existe, mas como determinada realidade aparece à consciência.

Como o mundo aparece nos dois discursos?

No pronunciamento de Lula, o mundo aparece fundamentalmente como uma rede de interdependências ameaçada pela incapacidade de cooperação.

No de Trump, aparece principalmente como um campo de ameaças no qual a sobrevivência depende da preservação da capacidade de ação.

Para Lula, o perigo central é a ausência de regras eficazes.

Para Trump, o perigo pode estar também no excesso de regras que restrinjam a autonomia nacional.

Para Lula, a instituição internacional insuficientemente forte deixa os vulneráveis desprotegidos.

Para Trump, uma institucionalidade internacional excessivamente intrusiva pode restringir a liberdade de decisão dos Estados Unidos.

É uma divergência muito mais profunda do que uma disputa entre personalidades.

São duas experiências políticas do mundo.


6. O “quintal” e a geografia moral do mundo

Poucas expressões do pronunciamento brasileiro carregam tanta densidade histórica quanto a afirmação de que o Brasil não cabe no “quintal” de ninguém.

“Quintal” não designa território físico.

É uma metáfora de hierarquia.

Quem possui uma casa também controla seu quintal.

Quando uma potência descreve determinada região como pertencente à sua esfera natural de influência, produz-se uma geografia política desigual: existem sujeitos da história e espaços sobre os quais esses sujeitos exercem influência.

A formulação brasileira rejeita essa distribuição hierárquica.

Reuters registrou que Lula relacionou diretamente essa defesa da soberania à interferência estrangeira nas eleições brasileiras e afirmou que o combate ao crime organizado deve ocorrer mediante cooperação internacional, não intervenção. (Reuters)

Essa distinção — cooperação sem subordinação — talvez seja uma das chaves conceituais de todo o pronunciamento.

Não significa autarquia.

Não significa neutralidade.

Tampouco significa equidistância automática entre potências.

Significa reivindicar autonomia decisória.

É justamente aí que surge a categoria das potências médias.

Países como o Brasil dificilmente poderão competir simetricamente com Estados Unidos ou China em poder militar. Sua capacidade internacional depende, portanto, de combinação mais complexa: território, população, recursos naturais, economia, capacidade diplomática, coalizões multilaterais e legitimidade.

O poder brasileiro é, nesse sentido, parcialmente relacional.


7. A materialidade por trás da soberania

Contudo, diplomacia sem materialidade corre o risco de transformar-se em retórica.

Por isso os recursos brasileiros importam.

Os dados mais recentes disponíveis da ANP mostram que, em julho de 2026, o Brasil produziu aproximadamente 4,498 milhões de barris de petróleo por dia, crescimento de 13,6% em relação a julho de 2025. Somando petróleo e gás, foram 5,851 milhões de barris de óleo equivalente/dia. (Serviços e Informações do Brasil)

Há ainda uma peculiaridade estrutural: grande produção petrolífera coexistindo com matriz elétrica fortemente renovável. Dados referentes a 2025 apontam participação renovável próxima de 87% na geração elétrica brasileira. (Statizoid)

Acrescentem-se biodiversidade, capacidade agrícola, água, minerais críticos, mercado consumidor, posição atlântica e peso demográfico.

A frase sobre o “quintal”, portanto, não deve ser interpretada apenas como recurso retórico nacionalista.

Ela expressa uma tentativa de converter ativos materiais em autonomia diplomática.


8. Guerra, paz e os limites da força

Talvez seja aqui que Lula e Trump mais claramente se afastem.

Lula declarou que “não haverá vencedores no campo de batalha” em relação à guerra entre Rússia e Ucrânia e apresentou a diplomacia como caminho necessário. Também advertiu contra ameaças de destruição de civilizações no Oriente Médio. (General Debate)

Trump, ao contrário, enfatizou a capacidade norte-americana de utilizar força contra ameaças e concentrou parcela substancial de seu pronunciamento no Irã. (The White House)

Essa divergência recupera um debate antiquíssimo.

Em Hobbes, a possibilidade da violência organiza a própria necessidade da ordem política.

Em Kant, particularmente em À paz perpétua, a paz duradoura exige transformar progressivamente relações de força em relações juridicamente estruturadas.

Carl Schmitt, por sua vez, lembra-nos que a política conserva permanentemente a possibilidade da distinção entre amigo e inimigo.

Podemos reconhecer algo dessas três tradições nos pronunciamentos.

Trump aproxima-se discursivamente da consciência hobbesiana e schmittiana: ameaças existem; inimigos existem; capacidade coercitiva continua sendo condição da segurança.

Lula aproxima-se do problema kantiano: se toda segurança depender indefinidamente da capacidade de coerção, a humanidade permanecerá presa ao dilema de segurança.

Nenhuma dessas posições elimina automaticamente o problema apresentado pela outra.

Eis justamente a tragédia.

Direito sem poder pode tornar-se impotente.

Poder sem direito pode tornar-se arbitrário.

A política internacional vive dentro dessa tensão.


9. Democracia, soberania e ingerência

O pronunciamento brasileiro possui ainda uma peculiaridade: conecta explicitamente política externa e democracia doméstica.

Isso permite aproximá-lo do conceito de jogo de dois níveis, formulado por Robert Putnam.

Governantes negociam simultaneamente diante de dois públicos: atores internacionais e sociedade doméstica.

Quando Lula fala sobre soberania eleitoral brasileira, portanto, dirige-se simultaneamente para fora e para dentro.

Externamente, afirma autonomia institucional.

Internamente, transforma soberania em questão eleitoral.

Reuters registrou essa dimensão ao observar que o presidente mencionou interferência externa, desinformação e robustez do sistema eleitoral brasileiro. (Reuters)

É justamente nesse ponto que a análise precisa permanecer crítica.

A retórica de soberania pode constituir princípio legítimo de política externa, mas também pode produzir dividendos eleitorais domésticos. As duas funções não são mutuamente excludentes.

Um discurso pode simultaneamente expressar uma doutrina diplomática e participar de uma campanha política.

Putnam ajuda precisamente a compreender por quê.


10. Inteligência artificial: a nova soberania

Há uma segunda oposição extraordinariamente reveladora.

Inteligência artificial.

Trump declarou rejeitar mecanismos globalistas de controle sobre IA. (The White House)

Lula defendeu maior regulação das grandes plataformas e da inteligência artificial, advertindo contra uma corrida tecnológica desprovida de salvaguardas éticas. (General Debate)

Novamente, a diferença transcende tecnologia.

Estamos discutindo quem tem autoridade para governar sistemas cujo alcance ultrapassa fronteiras nacionais.

A questão é filosoficamente fascinante.

Um modelo de inteligência artificial pode ser desenvolvido nos Estados Unidos, treinado com dados produzidos em dezenas de países, executado em infraestrutura localizada em outro território e gerar consequências políticas no Brasil.

Onde está a soberania?

No território?

Nos dados?

No algoritmo?

Na empresa?

No usuário?

No Estado?

A IA dissolve parte da velha correspondência entre território e poder.

Por isso, a disputa entre regulação multilateral e autonomia tecnológica nacional provavelmente constituirá uma das grandes controvérsias geopolíticas das próximas décadas.

Não por acaso, o próprio presidente da 81ª Assembleia advertiu que a IA já penetra redes elétricas, sistemas de água, registros médicos, economias e estruturas militares e defendeu salvaguardas baseadas em evidências científicas. (Nações Unidas)


11. Clima, petróleo e a contradição brasileira

A política brasileira também contém uma tensão que não deve ser escondida.

O país reivindica liderança climática e, simultaneamente, amplia sua relevância petrolífera.

Contradição?

Sim.

Mas é uma contradição característica da própria transição energética mundial.

A questão brasileira pode ser formulada assim: países que chegaram tarde ao desenvolvimento industrial devem abandonar imediatamente recursos fósseis enquanto economias desenvolvidas construíram durante dois séculos parte substancial de sua riqueza queimando carvão, petróleo e gás?

A pergunta possui uma dimensão de justiça distributiva.

Mas existe outra pergunta igualmente legítima: se cada país utilizar o desenvolvimento histórico dos demais como justificativa para prolongar combustíveis fósseis, como ocorrerá a descarbonização?

Essa tensão não admite solução retórica.

Exige cronogramas, financiamento, tecnologia e transformação estrutural.

Nesse ponto, o Brasil possui uma posição singular: enorme produção petrolífera e, simultaneamente, uma das matrizes elétricas mais renováveis entre grandes economias. (Serviços e Informações do Brasil)

Essa ambivalência pode tornar-se vantagem estratégica ou contradição crescente. Dependerá das escolhas realizadas.


12. A questão social como política internacional

Outro aspecto distingue fortemente a construção discursiva brasileira.

Lula transporta para a política externa categorias tradicionalmente associadas à política social: fome, desigualdade, trabalho, tributação e inclusão.

Isso possui raízes históricas em sua trajetória política, mas também corresponde a uma interpretação específica da ordem internacional.

A desigualdade deixa de ser compreendida como simples consequência econômica e passa a ser apresentada como problema político.

Aqui encontramos forte proximidade com a tradição de Karl Polanyi.

Em A grande transformação, Polanyi mostrou que mercados não existem fora da sociedade. A tentativa de transformar trabalho, terra e dinheiro em mercadorias inteiramente submetidas à lógica mercantil produz reações sociais e políticas.

No século XXI, poderíamos acrescentar novos objetos: dados, atenção, identidade digital e capacidade cognitiva.

Daí a relevância da crítica às plataformas, às apostas digitais e à concentração tecnológica.

Quando Lula introduz essas questões na ONU, desloca a fronteira entre política doméstica e internacional.

A vida cotidiana passa a ser geopolítica.

O aplicativo no celular, a transferência via Pix, a plataforma digital, o preço dos alimentos e a eletricidade do data center parecem assuntos diferentes.

Já não são.


13. A dimensão sociológica: duas formas de imaginar a sociedade

É possível sintetizar sociologicamente os dois pronunciamentos recorrendo a duas imagens.

A primeira é a sociedade como interdependência.

A segunda é a sociedade como competição.

Nenhuma sociedade real funciona exclusivamente por uma delas.

Norbert Elias demonstrou como o avanço histórico da interdependência cria redes nas quais decisões individuais produzem consequências cada vez mais distantes.

Essa descrição parece extraordinariamente adequada ao século XXI.

Uma guerra no Estreito de Ormuz afeta combustíveis no Brasil.

Uma decisão sobre semicondutores em Taiwan repercute sobre fábricas na Europa.

Uma política chinesa sobre minerais altera cadeias produtivas norte-americanas.

Uma decisão algorítmica tomada na Califórnia pode modificar o debate eleitoral de outro continente.

A humanidade tornou-se profundamente interdependente sem construir instituições políticas equivalentes ao grau dessa interdependência.

Este talvez seja o problema sociológico mais profundo revelado pelos dois discursos.

Trump responde tentando preservar capacidade soberana dentro da interdependência.

Lula responde tentando institucionalizar a própria interdependência.


14. Afinal, o que significa “falar como estadista”?

Chegamos ao ponto mais delicado.

Classificar objetivamente um presidente como “estadista” significaria emitir um juízo político abrangente. Analiticamente, é mais preciso perguntar:

quais características tradicionalmente associadas ao ethos do estadista aparecem no discurso?

Podemos identificar pelo menos cinco.

Primeiro, horizonte temporal ampliado. O discurso ultrapassa a conjuntura imediata e aborda arquitetura internacional, clima, tecnologia, guerra e desenvolvimento.

Segundo, representação do Estado para além do governo. A defesa da soberania e do multilateralismo é apresentada como posição brasileira de longo prazo.

Terceiro, reconhecimento dos limites do poder nacional. O Brasil não reivindica capacidade de impor sozinho uma nova ordem; procura ampliar instituições nas quais sua capacidade de influência possa crescer.

Quarto, articulação entre interesse nacional e bens públicos internacionais. Clima, paz, governança tecnológica e combate à fome aparecem simultaneamente como interesses brasileiros e problemas coletivos.

Quinto, conversão de recursos materiais em projeto diplomático.

Sob esses critérios, é possível dizer que Lula construiu deliberadamente na ONU um ethos discursivo de estadista: não apenas o chefe de um governo falando de suas realizações, mas o representante de um Estado tentando apresentar uma interpretação da ordem internacional e do lugar que seu país pretende ocupar nela.

Isso não obriga o observador a concordar com suas políticas.

Também não elimina contradições entre discurso e prática.

Significa apenas reconhecer a arquitetura política utilizada.

Trump também constrói um ethos presidencial de grande escala, mas diferente: o do líder decisório da potência hegemônica, legitimado pela disposição de empregar poder e defender autonomia nacional.

Portanto, a diferença fundamental não está entre presença e ausência de liderança.

Está no modelo de liderança reivindicado.


15. Conclusão — O Brasil diante da ordem que ainda não nasceu

Talvez a imagem mais poderosa para compreender os discursos de Lula e Trump seja uma mesa.

Trump pergunta quem possui força suficiente para sentar-se à cabeceira. Lula pergunta quem possui legitimidade para decidir quem pode sentar-se à mesa.

A diferença parece pequena. Na realidade, ela atravessa praticamente toda a história das relações internacionais.

O discurso norte-americano parte de uma constatação que não pode ser simplesmente descartada: apesar de décadas de institucionalização internacional, o poder continua distribuído de maneira profundamente desigual. Estados militarmente fortes preservam capacidades que os demais não possuem. Controlam tecnologias estratégicas, moedas, sistemas financeiros, cadeias produtivas, plataformas digitais, infraestrutura militar e mecanismos de sanção. Nesse mundo, a soberania sem capacidade material corre o risco de permanecer apenas formal.

O discurso brasileiro introduz a outra metade do problema. Se o poder material for suficiente para determinar quem estabelece as regras, a ordem internacional deixa de ser propriamente uma ordem e aproxima-se de uma hierarquia entre aqueles que podem decidir e aqueles que precisam obedecer.

É exatamente nesse intervalo que o Brasil procura construir seu espaço.

E talvez essa seja a dimensão mais importante do pronunciamento de Lula na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas.

O Brasil não reivindica substituir os Estados Unidos. Não dispõe dos instrumentos materiais para isso. Tampouco pretende ocupar o lugar da China, reproduzir o modelo russo de projeção militar ou transformar-se em potência imperial tradicional.

Sua ambição é diferente — e, em certo sentido, mais complexa.

O Brasil pretende transformar peso em influência, recursos em autonomia e autonomia em capacidade de participar da construção das regras.

Essa distinção é decisiva.

O Brasil não quer apenas uma cadeira. Quer discutir quem organiza a mesa

Durante boa parte dos séculos XIX e XX, o sistema internacional foi estruturado por centros de poder capazes de estabelecer normas que depois seriam assimiladas pela periferia. Primeiro as potências europeias; posteriormente, com intensidade crescente após 1945, Estados Unidos e União Soviética; depois da Guerra Fria, uma ordem predominantemente liderada pelos Estados Unidos.

Esse mundo está mudando.

Mas seria precipitado afirmar que já existe uma nova ordem multipolar plenamente constituída.

O que existe é uma transição de hegemonia sem arquitetura institucional correspondente.

Os Estados Unidos continuam sendo uma potência militar, financeira, tecnológica e diplomática extraordinária. A China adquiriu escala econômica e tecnológica capaz de disputar espaços antes praticamente monopolizados pelo Ocidente. A Índia amplia seu peso demográfico, econômico e diplomático. Rússia, União Europeia, Turquia, Arábia Saudita, Indonésia e outras potências procuram ampliar suas margens de autonomia.

Nesse sistema mais fragmentado surge espaço para países que não desejam escolher permanentemente entre Washington e Pequim.

O Brasil está entre eles.

Isso ajuda a explicar a insistência brasileira na reforma do Conselho de Segurança, no fortalecimento do multilateralismo, na ampliação da representação do Sul Global e na recusa de uma América Latina concebida como área subordinada à influência automática de qualquer grande potência.

Quando Lula afirma que o Brasil não cabe no “quintal” de ninguém, portanto, a frase ultrapassa sua circunstância política.

Ela contém uma hipótese de política externa:

o Brasil pretende ser polo, não satélite.

Mas declarar essa pretensão é muito mais fácil do que realizá-la.

Uma potência média não se constrói apenas com diplomacia

Há uma tentação recorrente no debate brasileiro de confundir importância potencial com poder efetivo.

O Brasil possui território continental, mais de 200 milhões de habitantes, enorme capacidade agropecuária, petróleo, água, biodiversidade, minerais críticos, uma matriz elétrica predominantemente renovável, posição geográfica privilegiada no Atlântico Sul e uma tradição diplomática reconhecida.

Tudo isso importa.

Mas recursos não constituem automaticamente poder.

O minério debaixo do solo é potencial.

A tecnologia capaz de transformá-lo é poder.

A biodiversidade é patrimônio.

A ciência capaz de produzir conhecimento e propriedade intelectual a partir dela é poder.

A produção agrícola é capacidade econômica.

Controlar tecnologia, logística, fertilizantes, genética, máquinas e cadeias globais de comercialização amplia soberania.

Produzir petróleo é relevante.

Dominar tecnologias da transição energética é estratégico.

Possuir energia renovável abundante é vantagem.

Transformá-la em indústria, hidrogênio de baixo carbono, capacidade computacional, centros de dados e desenvolvimento tecnológico é outra coisa.

E possuir milhões de cidadãos conectados não significa possuir soberania digital quando plataformas, modelos de inteligência artificial, semicondutores, infraestrutura de nuvem e grandes bases de dados permanecem concentrados fora do país.

Essa talvez seja a pergunta que precisa acompanhar a política externa brasileira nos próximos anos:

o Brasil deseja apenas ser fornecedor estratégico de recursos para as potências do século XXI ou pretende transformar esses recursos em capacidade própria de decidir?

Essa escolha definirá muito mais nosso lugar no mundo do que qualquer discurso pronunciado na ONU.

O risco de trocar uma dependência por outra

Há ainda outro cuidado necessário.

Recusar a subordinação aos Estados Unidos não pode significar aceitar automaticamente dependência em relação à China.

Multipolaridade não é simplesmente mudar de polo.

Se a autonomia brasileira significar apenas substituir uma dependência tecnológica, financeira ou comercial por outra, não haverá verdadeira soberania.

Uma política externa efetivamente autônoma precisa preservar a capacidade de conversar com Washington sem obedecer automaticamente a Washington; negociar com Pequim sem transformar Pequim em novo centro de gravidade incontestável; cooperar com a União Europeia, Índia, África, América Latina e Oriente Médio sem transformar nenhuma dessas relações em alinhamento incondicional.

Essa é uma diplomacia muito mais difícil.

Exige aquilo que poderíamos chamar de autonomia relacional: capacidade de participar intensamente do sistema internacional sem entregar a terceiros o direito de determinar previamente as escolhas nacionais.

Não é neutralidade.

Não é isolamento.

Não é equidistância moral entre todos os conflitos.

É capacidade decisória.

A multipolaridade não será necessariamente mais justa

Há também uma ilusão que o Brasil deve evitar.

O declínio relativo de uma ordem unipolar não significa automaticamente nascimento de uma ordem internacional mais democrática.

Um mundo com cinco grandes potências pode ser tão desigual quanto um mundo dominado por uma.

Pode ser ainda mais instável.

A multipolaridade cria oportunidades para potências médias porque amplia alternativas diplomáticas, comerciais e tecnológicas. Mas também aumenta disputas por recursos, corredores logísticos, minerais críticos, semicondutores, energia, dados e zonas de influência.

É justamente por isso que o multilateralismo defendido pelo Brasil possui uma dimensão estratégica.

Para uma superpotência, regras internacionais podem ser percebidas como restrições.

Para uma potência média, frequentemente funcionam como multiplicadores de poder.

O direito internacional reduz parcialmente a distância entre quem possui um porta-aviões e quem possui apenas soberania jurídica.

Uma organização internacional não elimina assimetrias materiais, mas pode aumentar o custo político da arbitrariedade.

Por isso o interesse brasileiro em instituições multilaterais não precisa ser interpretado como idealismo ingênuo.

Pode ser compreendido como realismo de potência média.

O Brasil precisa de regras justamente porque não possui poder suficiente para prescindir delas.

O verdadeiro projeto de potência começa dentro do país

Mas há uma última condição — talvez a mais importante.

Nenhuma política externa é maior do que a sociedade que a sustenta.

Não existe soberania internacional consistente sem capacidade doméstica.

Um país que pretende participar da governança da inteligência artificial precisa produzir ciência.

Um país que deseja influenciar a transição energética precisa formar engenheiros, pesquisadores e técnicos.

Um país que reivindica maior presença nas cadeias globais precisa possuir infraestrutura.

Um país que pretende falar em nome da democracia precisa preservar suas próprias instituições democráticas.

Um país que denuncia desigualdades internacionais precisa enfrentar suas desigualdades internas.

Um país que pretende ocupar a mesa dos grandes não pode aceitar permanentemente escolas frágeis, baixa produtividade, desindustrialização, dependência tecnológica e desigualdades sociais incompatíveis com suas próprias potencialidades.

É aqui que política externa encontra educação, ciência, indústria, infraestrutura, energia e política social.

A soberania começa muito antes da fronteira.

Começa na escola.

No laboratório.

Na universidade.

Na indústria.

Na capacidade computacional.

Na rede elétrica.

Na formação científica.

Na qualidade das instituições.

E, sobretudo, na capacidade de uma sociedade compreender os interesses que pretende defender.

O estadista e o dia seguinte ao discurso

É nesse ponto que a dimensão de estadista construída por Lula em seu pronunciamento encontra seu teste mais exigente.

Falar como estadista não significa apenas utilizar palavras grandiosas diante da Assembleia Geral.

Significa formular uma visão de país que ultrapasse a próxima eleição.

Sob esse aspecto, o discurso brasileiro apresenta características tradicionalmente associadas à linguagem de Estado: horizonte temporal ampliado, preocupação com a arquitetura internacional, articulação entre soberania e cooperação, defesa de bens públicos globais e tentativa de posicionar o Brasil dentro de uma transformação histórica que ultrapassa um governo.

Mas nenhum discurso, por mais consistente que seja, pode substituir resultados.

A história não julgará a política externa brasileira pela intensidade dos aplausos recebidos em Nova York.

Julgará se o Brasil conseguiu converter suas vantagens naturais, demográficas, energéticas, diplomáticas e econômicas em desenvolvimento, autonomia tecnológica e capacidade internacional.

É essa a diferença entre pronunciar soberania e construir soberania.

O lugar que o Brasil pretende ocupar

Talvez, então, possamos compreender de maneira mais precisa aquilo que estava em disputa quando Lula e Trump ocuparam sucessivamente a tribuna da ONU.

Trump falava a partir da posição de uma potência que procura preservar capacidade de decidir.

Lula falava a partir da posição de um país que procura ampliar sua capacidade de participar das decisões.

Um pretende preservar espaço.

O outro pretende conquistá-lo.

E essa diferença ajuda a explicar grande parte das divergências entre seus discursos.

O Brasil que aparece na fala de Lula não aceita retornar à condição de periferia obediente, mas também não reivindica uma hegemonia impossível. Procura ocupar uma terceira posição: a de potência articuladora de uma ordem multipolar regulada por instituições.

Essa talvez seja uma das ambições geopolíticas mais relevantes que o país pode formular.

Também é uma das mais difíceis.

Porque exige simultaneamente autonomia e cooperação, pragmatismo e princípios, desenvolvimento e sustentabilidade, abertura econômica e capacidade nacional, relações com Estados Unidos e China, defesa de interesses brasileiros e compromisso com regras internacionais.

Não existe fórmula pronta.

Existe estratégia.

E estratégia significa saber não apenas onde estamos, mas onde queremos chegar.

Por isso, a frase “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” somente adquirirá densidade histórica se for acompanhada por outra convicção:

o Brasil precisa construir a casa que pretende habitar no mundo.

Não basta rejeitar o quintal.

É preciso possuir projeto próprio.

E esse projeto não poderá ser apenas de Lula, da esquerda, da direita ou do governo que estiver no poder.

Para produzir resultados duradouros, terá de tornar-se uma questão de Estado.

Porque governos duram quatro ou oito anos.

Transformações geopolíticas atravessam gerações.

Quando as futuras gerações olharem para esta fase de transição da ordem internacional, talvez não perguntem apenas se o Brasil apoiou Washington ou Pequim, se aproximou-se do Norte ou do Sul, concordou com Trump ou com seus adversários.

A pergunta será mais simples e muito mais dura:

quando o mundo começou a reorganizar suas relações de poder, o Brasil compreendeu a oportunidade histórica que tinha diante de si?

Essa é a pergunta que permanece depois que os discursos terminam, os microfones são desligados e os chefes de Estado deixam a tribuna.

Porque, no final, soberania não é dizer ao mundo que não obedeceremos.

Soberania é construir as condições para que possamos realmente escolher.



Cinco pontos centrais do artigo

  1. Lula e Trump apresentaram concepções diferentes de soberania: a brasileira enfatiza autonomia combinada com multilateralismo; a norte-americana enfatiza liberdade de ação e poder nacional.
  2. A divergência sobre a ONU revela duas teorias do poder: fortalecer instituições para limitar arbitrariedades ou preservar capacidade estatal diante das limitações impostas por instituições.
  3. A multipolaridade amplia a importância das potências médias, mas recursos naturais somente se convertem em poder quando acompanhados de tecnologia, instituições, capacidade econômica e estratégia diplomática.
  4. A inteligência artificial tornou-se problema de soberania, porque dados, algoritmos, infraestrutura e efeitos políticos atravessam fronteiras territoriais.
  5. O ethos de estadista construído por Lula decorre da tentativa de conectar interesses brasileiros a questões sistêmicas — paz, clima, desigualdade, tecnologia, democracia e reforma da governança global —, uma caracterização da estrutura de seu discurso, não uma avaliação eleitoral de seu governo.


Três livros para aprofundamento

KISSINGER, Henry. Ordem mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
Fundamental para compreender a relação entre legitimidade, equilíbrio de poder e diferentes concepções de ordem internacional.

POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens políticas e econômicas de nossa época. Rio de Janeiro: Contraponto, 2021.
Essencial para compreender por que economia, sociedade e poder político não podem ser analisados separadamente.

PUTNAM, Robert D. Diplomacy and domestic politics: the logic of two-level games. International Organization, Cambridge, v. 42, n. 3, p. 427–460, 1988.
Texto clássico para interpretar como líderes operam simultaneamente nas arenas doméstica e internacional.


Referências

ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

KANT, Immanuel. À paz perpétua. Porto Alegre: L&PM, 2008.

KISSINGER, Henry. Ordem mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

MORGENTHAU, Hans J. A política entre as nações: a luta pelo poder e pela paz. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 2003.

POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens políticas e econômicas de nossa época. Rio de Janeiro: Contraponto, 2021.

PUTNAM, Robert D. Diplomacy and domestic politics: the logic of two-level games. International Organization, Cambridge, v. 42, n. 3, p. 427–460, 1988.

WALTZ, Kenneth N. Theory of international politics. Reading: Addison-Wesley, 1979.

UNITED NATIONS. Brazil: 81st session — General Debate. New York, 22 set. 2026. Registro oficial do pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Disponível no portal do Debate Geral das Nações Unidas. Acesso em: 23 set. 2026. (General Debate)

UNITED NATIONS. General debate of the eighty-first session of the General Assembly. New York, 2026. (Nações Unidas)

UNITED STATES. The White House. President Trump at the United Nations: “While Others Have Talked, I Have Acted”. Washington, DC, 22 set. 2026. (The White House)

AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS. ANP divulga dados consolidados da produção de petróleo e gás em julho de 2026. Brasília, DF, 1 set. 2026. (Serviços e Informações do Brasil)

REUTERS. At the UN, Brazil’s Lula warns against foreign interference in upcoming election. 22 set. 2026. (Reuters)


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