domingo, 31 de maio de 2026

O Príncipe Algorítmico e o Leviatã Digital: A Hegemonia Silenciosa na Era da Tecnopolítica


Eram seis da manhã de uma terça-feira quando o celular de Roberto vibrou no painel do carro. Um som agudo, desenhado por engenheiros acústicos a milhares de quilômetros de distância, avisava: tarifa dinâmica ativa. Roberto, que já acumulava doze horas ao volante pelas ruas de São Paulo no dia anterior, sentiu o pico de adrenalina. O aplicativo prometia um bônus multiplicador se ele completasse mais quinze viagens até o meio-dia, garantindo a manutenção do seu status "Diamante". Ele não tem férias remuneradas, não recolhe INSS e assume o risco de cada buraco na via, mas, ao olhar para a barra de progresso verde preenchendo a tela, sentiu-se no controle. "Sou meu próprio chefe", pensou, enquanto engatava a marcha.

A cerca de mil quilômetros dali, no interior de Goiás, o cenário era outro. Na sala da direção de um campus educacional, o clima era de exasperação frente a uma papelada imensa. Uma obra essencial para os alunos — a construção de um novo refeitório — estava paralisada há meses. O impasse entre a empreiteira e a comissão de fiscalização esbarrava nas rígidas amarras do Direito Administrativo, nas diretrizes da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e nos prazos engessados da Lei Orçamentária Anual (LOA). Para alterar o projeto arquitetônico e destravar a obra, era necessário um rito burocrático exaustivo, aprovações em conselhos, publicações no Diário Oficial e o escrutínio dos tribunais de contas.

O contraste entre essas duas cenas do nosso cotidiano não é apenas uma anedota sobre a ineficiência estatal frente à inovação privada. Ele é o sintoma central da maior transição de poder do nosso tempo. Enquanto o Estado tradicional sangra em sua própria burocracia, amarrado a uma arquitetura legal desenhada no século passado, uma nova entidade governa o tempo, o trabalho e o desejo de bilhões de pessoas com eficiência totalitária e sem precisar de um único voto: o Leviatã Digital.

A tese que defendo aqui, e que nos convida a repensar radicalmente a nossa esfera pública, é a de que as grandes plataformas de tecnologia não são apenas empresas de software ou ferramentas neutras de mercado. Elas se converteram no "Príncipe Algorítmico" — uma atualização do conceito de Antonio Gramsci —, exercendo uma hegemonia infraestrutural que modula o consenso social, uberiza as relações de trabalho e usurpa a soberania dos Estados-nação através de um agressivo colonialismo de dados. Para entender como fomos capturados por essa malha, precisamos descer aos porões da tecnopolítica.

 1. A Política dos Artefatos: O Código como Lei

Historicamente, fomos educados a enxergar a tecnologia como uma prateleira de ferramentas neutras. Se há um problema, aplicamos uma solução técnica. Contudo, a tecnopolítica nos ensina o oposto: a própria infraestrutura é a política materializada.

O filósofo Langdon Winner, em seu ensaio seminal, já provocava: os artefatos técnicos têm política. Quando o algoritmo de uma rede social decide o que aparece no topo do seu *feed*, ele não está realizando uma operação matemática neutra. Ele está exercendo poder editorial e político. Lawrence Lessig resumiu esse fenômeno com a máxima *Code is Law* (O código é a lei). Na praça pública digital, as regras que governam o que pode ou não ser dito, quem ganha visibilidade e quem é silenciado não são votadas por representantes eleitos, mas codificadas por engenheiros no Vale do Silício.

O Estado tradicional precisa publicar leis no Diário Oficial e garantir o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. O Leviatã Digital opera fora dessa jurisdição. Sua "Constituição" são os Termos de Serviço — contratos de adesão que ninguém lê, mas que todos assinam. Se uma plataforma decide banir um usuário ou desmonetizar um canal, a execução é instantânea e asséptica. O código legisla, julga e pune simultaneamente, contornando a morosidade e as garantias do Estado de Direito.

Essa arquitetura do consenso exige que o cidadão confie cegamente na "caixa preta" do algoritmo. Como aponta Sérgio Amadeu da Silveira, a força hegemônica das *Big Techs* reside justamente nessa opacidade, protegida por leis de propriedade intelectual. É uma privatização silenciosa da governança pública, onde o Estado de Exceção se disfarça de inovação tecnológica.

 2. O Príncipe Algorítmico e a Nova Hegemonia

Para desvendar a morfologia desse poder, precisamos resgatar Antonio Gramsci. Ao analisar as estruturas de poder do seu tempo, Gramsci atualizou o "Príncipe" de Maquiavel — que era um indivíduo — para o partido político. O partido era o "Moderno Príncipe", o organismo responsável por aglutinar vontades dispersas, organizar a sociedade e dirigir a ação política para forjar um novo Estado.

Hoje, essa função organizadora foi capturada. O partido perdeu o monopólio da mobilização. Quem organiza a massa, categoriza desejos, dita os humores sociais e direciona a vontade coletiva é o Príncipe Algorítmico das plataformas.

A grande sacada de Gramsci foi demonstrar que o poder não se sustenta apenas pela coerção bruta (polícia, prisões), mas pela hegemonia — a direção intelectual e moral que fabrica o consentimento ativo dos governados. Isso era feito através dos "aparelhos privados de hegemonia" (igrejas, escolas, jornais impressos). No século XXI, as plataformas digitais são os mais potentes aparelhos privados de hegemonia já concebidos.

E aqui reside a genialidade perversa da tecnopolítica: a fabricação desse consenso não ocorre pelo debate de ideias, mas pela modulação dos afetos e do comportamento. Cruzando o "senso comum" gramsciano com a teoria dos afetos de Baruch de Espinosa, percebemos que as redes governam através das nossas paixões. O algoritmo compreendeu que a "paixão triste" — a indignação, o ódio, o medo — gera muito mais engajamento do que a contemplação pacífica. A plataforma nos mantém conectados operando como uma máquina de fricção afetiva.

Como bem elabora Byung-Chul Han em sua Psicopolítica, o regime neoliberal digital abandonou a disciplina punitiva. O poder inteligente não proíbe; ele convida, seduz, estimula a confissão voluntária e a superexposição. O cidadão cede sua privacidade não porque está sob a mira de um fuzil hobbesiano, mas porque teme a invisibilidade social. É o consenso pela conveniência.

 3. O Privilégio da Servidão e a Uberização da Vida

A hegemonia do Príncipe Algorítmico, contudo, não flutua no éter das ideias; ela ancora raízes profundas na carne da classe trabalhadora. Voltamos a Roberto, nosso motorista da introdução. A arquitetura de consenso que o faz trabalhar 14 horas diárias sorrindo é o mesmo maquinário que desidrata os cofres da previdência pública.

Em *O privilégio da servidão*, Ricardo Antunes oferece o lastro crítico definitivo para entendermos como o capitalismo de plataforma reconfigura a luta de classes. A narrativa do Vale do Silício apresenta a revolução digital como a libertação da burocracia estatal e do trabalho assalariado. O que Antunes revela é a emergência de um "novo proletariado de serviços", submetido a níveis de precarização típicos do século XIX, mas operando sob tecnologias do século XXII.

A arquitetura do aplicativo atua como um feitor invisível. Não há um supervisor físico gritando ordens; a subordinação — a subsunção real do trabalho ao capital — está embutida na taxa de aceitação, no algoritmo de roteamento e na gamificação. Através de metas diárias e de um sistema de recompensas psicológicas idêntico ao dos cassinos, a exploração brutal é travestida de *game*.

Para que isso funcione sem gerar revoltas, a plataforma utiliza seu poder hegemônico para incutir o mito do "empreendedorismo de si". O motorista, o entregador, o redator *freelancer* e até o professor que vende cursos online são convencidos de que são empresas individuais ("CEOs de si mesmos"). O trabalhador assume todos os custos operacionais, os riscos de saúde e a ausência de garantias. E, num triunfo absoluto da ideologia hegemônica de Gramsci, o próprio explorado defende a sua condição, enxergando a ausência de direitos (a CLT) como sinônimo de liberdade. O algoritmo forjou a servidão voluntária perfeita.

 4. O Estado Ampliado e a Crise da Soberania Pública

Enquanto o capital de plataforma agiliza a extração de valor por meio da uberização, o poder público patina. Na teoria política de Gramsci, o Estado é a soma da "sociedade política" (o aparato governamental e coercitivo) com a "sociedade civil" (onde se trava a disputa pela hegemonia). O Estado Ampliado se sustenta na medida em que a sociedade civil legitima a sociedade política.

O problema emerge quando corporações transnacionais passam a dominar completamente as trincheiras da sociedade civil, esvaziando o planejamento estatal. Evgeny Morozov diagnostica isso como o "solucionismo tecnológico". A resposta rápida oferecida pelo capital para problemas crônicos de mobilidade, educação e saúde seduz a população e desmoraliza o tempo da burocracia pública.

Quando um gestor educacional enfrenta o martírio de repactuar um contrato de obra pública, cumprindo à risca a Lei 8.666/93 ou a nova Lei de Licitações (14.133/21), garantindo ampla concorrência e probidade orçamentária (PLOA), o tempo da legalidade parece jurássico aos olhos de uma sociedade acostumada à entrega de comida em quinze minutos via aplicativo.

Esse choque temporal gera uma crise de legitimidade. O Leviatã Digital privatiza a esfera pública e se apresenta como a única via de eficiência. Quando os Estados tentam reagir e regular essas plataformas — exigindo responsabilidade sobre desinformação ou direitos trabalhistas —, as *Big Techs* utilizam seu domínio hegemônico para mobilizar a própria população contra as instituições democráticas, ameaçando sair do país ou cortar serviços essenciais. A soberania nacional é, assim, encurralada pela sua própria infraestrutura de comunicação.

 5. Geopolítica e Colonialismo de Dados: A Extração Final

Se quisermos ir além da superficialidade, precisamos levar essa análise para o cenário das Relações Internacionais. O Príncipe Algorítmico não é apátrida; seus servidores, seus lucros e seu poderio militar-jurídico têm endereços concentrados, predominantemente nos Estados Unidos e, cada vez mais, na China.

Não estamos falando apenas de redes sociais, mas da própria infraestrutura da Inteligência Artificial. Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs), orquestrações complexas via Python, *frameworks* como LangChain e automações via n8n dependem de um fluxo inimaginável de matéria-prima. E essa matéria-prima é o dado humano.

Nick Couldry e Ulises Mejias, ao formularem o conceito de *Colonialismo de Dados*, demonstram que as dinâmicas de exploração territorial de séculos passados apenas mudaram de estado físico. O Sul Global — o Brasil incluso — continua exercendo seu papel histórico na divisão internacional do trabalho. Antes exportávamos pau-brasil, ouro e café; hoje, exportamos nossos rastros comportamentais brutos, sem qualquer valor agregado, e importamos de volta o serviço embalado sob a forma de Inteligência Artificial e sistemas de reconhecimento computacional, pagando licenciamentos caríssimos em dólar.

O motorista Roberto, rodando por São Paulo, não produz apenas lucro tarifário; ele gera *terabytes* de dados sobre trânsito, demanda, rotas e comportamento de consumo. Toda essa inteligência coletiva brasileira é extraída, remetida a *data centers* no hemisfério norte, processada por IAs privadas e transformada em novos produtos que consolidam ainda mais a dependência tecnológica da nossa nação.

Essa é a fronteira final da tecnopolítica. A disputa geopolítica atual (como as sanções sobre microchips de altíssimo desempenho ou a guerra fria em torno da infraestrutura do 5G) revela que não haverá país soberano no século XXI sem uma infraestrutura digital soberana. O Leviatã Digital extrai não apenas nosso tempo e trabalho, mas a própria inteligência soberana de nossas populações.

 Considerações Finais: A Retomada da Esfera Pública

Navegamos das ruas engarrafadas da uberização, passamos pelos corredores lentos da gestão orçamentária do Estado, e chegamos aos cabos submarinos de fibra óptica que cimentam um novo colonialismo. O diagnóstico é severo: o Leviatã Digital exerce um controle sem precedentes, amparado por uma arquitetura do consenso que nos mantém anestesiados pelo consumo imediato, pelo engajamento cego e pelo mito de uma autonomia que mascara a precarização.

Não se trata de adotar uma postura tecnofóbica. As tecnologias de orquestração de dados, a Inteligência Artificial e a automação de processos possuem um potencial emancipatório extraordinário. Se utilizadas no planejamento público, poderiam antecipar crises sanitárias, otimizar a distribuição de recursos da LOA, acelerar o rito da fiscalização de obras e criar arranjos pedagógicos revolucionários nas salas de aula de nossos Institutos Federais.

Contudo, para que a técnica sirva à emancipação e não à espoliação, precisamos politizá-la. É imperativo que os debates sobre desenvolvimento, educação e trabalho deixem de encarar a tecnologia como uma prateleira neutra de inovação e passem a tratá-la pelo que ela é: o campo de batalha central da economia política contemporânea.

A resposta à hegemonia do Príncipe Algorítmico passa pela reabilitação do Estado como indutor de tecnologias públicas e soberanas, pela regulação trabalhista das plataformas que disfarçam o vínculo de emprego sob o manto do software, e por uma educação crítica que desmonte o "senso comum" do solucionismo tecnológico. Só assim poderemos resgatar a nossa esfera pública das mãos de um código corporativo opaco e devolver à sociedade a capacidade de escrever os seus próprios Termos de Uso.

 REFERÊNCIAS

 * ANTUNES, Ricardo. **O privilégio da servidão**: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

 * COULDRY, Nick; MEJIAS, Ulises A. **The Costs of Connection**: How Data Is Colonizing Human Life and Appropriating It for Capitalism. Stanford: Stanford University Press, 2019.

 * ESPINOSA, Baruch de. **Tratado Político**. Tradução de Diogo Pires Aurélio. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

 * GRAMSCI, Antonio. **Maquiavel, a política e o Estado moderno**. Tradução de Luiz Mário Gazzaneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

 * HAN, Byung-Chul. **Psicopolítica**: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução de Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.

 * LESSIG, Lawrence. **Code**: Version 2.0. New York: Basic Books, 2006.

 * MOROZOV, Evgeny. **Big Tech**: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

 * SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. **Democracia e os códigos invisíveis**: como os algoritmos estão moldando a política e a sociedade. São Paulo: Edições Sesc, 2019.

 * WINNER, Langdon. Do Artifacts Have Politics? **Daedalus**, v. 109, n. 1, p. 121-136, 1980.

 * ZUBOFF, Shoshana. **A era do capitalismo de vigilância**: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


quarta-feira, 27 de maio de 2026

Quando a religião virou arma geopolítica

Como o discurso moral foi usado para proteger interesses econômicos, combater reformas sociais e reorganizar o poder no Brasil


Introdução — a tese

A religião, em si, não é o problema. A fé pode consolar, organizar comunidades, produzir solidariedade, educar afetos e sustentar pessoas em momentos de dor. O problema começa quando a linguagem religiosa deixa de ser experiência espiritual e passa a funcionar como engenharia política. Foi isso que ocorreu em vários momentos da história brasileira, especialmente no contexto da Guerra Fria e do golpe civil-militar de 1964.

A tese deste artigo é direta: no Brasil dos anos 1960, setores econômicos, políticos, militares, midiáticos e internacionais transformaram disputas materiais — terra, salário, remessa de lucros, soberania nacional, direitos trabalhistas e organização popular — em uma guerra moral contra o “comunismo”, usando a religião como linguagem de mobilização social.

Essa tese encontra sustentação em autores como René Armand Dreifuss, Carlos Fico, Michael Löwy, Gerard Colby, Charlotte Dennett e em pesquisas recentes sobre Patrick Peyton e a Family Rosary Crusade. Dreifuss analisou o golpe de 1964 como uma ação articulada por elites civis, empresariais, tecnocráticas e militares, com destaque para IPES e IBAD, descrevendo o processo como uma “conquista do Estado” por interesses financeiro-industriais multinacionais e associados (Dreifuss, 1981). A própria descrição bibliográfica da obra destaca temas como “ação ideológica”, “guerra psicológica”, “IPES/IBAD e os militares” e “tomada do poder do Estado” por interesses multinacionais e associados.  

Carlos Fico, por sua vez, aprofundou a dimensão internacional, demonstrando a importância da política norte-americana no processo que levou à derrubada de João Goulart, inclusive por meio da chamada Operação Brother Sam. Documentos reunidos e analisados em obras sobre o tema indicam que a atuação dos Estados Unidos não foi fantasia conspiratória, mas parte de uma estratégia geopolítica da Guerra Fria. O Senado Federal registra que documentos da Biblioteca Lyndon Johnson comprovam a participação norte-americana no golpe e incluem material relacionado à Operação Brother Sam.  

O ponto decisivo, porém, está na mediação simbólica: como convencer parcelas expressivas da sociedade de que reformas sociais eram ameaça à família, à liberdade e à fé? A resposta passa pela construção do medo moral. A pesquisa de Isabella Villarinho Pereyra sobre Patrick Peyton e a Family Rosary Crusade mostra como a religião foi utilizada pelos Estados Unidos no combate ao comunismo na América Latina, articulando alianças com setores brasileiros no contexto do golpe de 1964.  

1. Uma cena brasileira: a dona de casa, o rádio e o medo

Imagine uma manhã de março de 1964. Uma mulher de classe média, em São Paulo, prepara o café enquanto o rádio fala em desordem, ameaça comunista, greves, sindicatos, reformas, agitação estudantil. Ela não leu Marx. Não conhece a Lei de Remessa de Lucros. Não sabe exatamente o que significa reforma agrária. Mas ouviu dizer que “vão tomar as casas”, que “a família cristã está ameaçada”, que “o Brasil pode virar uma nova Cuba”.

Na igreja, escuta algo parecido. Na vizinhança, a mesma conversa se repete. No jornal, a crise parece sempre culpa do governo. Na televisão nascente, nos púlpitos, nas associações de classe, nos grupos religiosos e nos clubes sociais, uma ideia começa a ganhar corpo: defender Deus, a família e a liberdade seria apoiar a queda de João Goulart.

Essa mulher talvez não se percebesse como agente de um projeto geopolítico. Ela se via como cidadã assustada. E é justamente assim que a engenharia ideológica funciona melhor: quando o indivíduo acredita estar agindo espontaneamente, mas suas emoções foram previamente organizadas por redes de propaganda, medo e autoridade moral.

A religião, nesse caso, não aparece como teologia profunda, nem como espiritualidade libertadora. Aparece como gramática política. Ela traduz interesses econômicos complexos em slogans simples. O medo da reforma agrária vira medo do comunismo. A limitação da remessa de lucros vira ataque à liberdade. A organização sindical vira ameaça à ordem. O debate econômico desaparece; no lugar dele, entra o pânico moral.

2. O que estava realmente em disputa?

Para compreender o período, é preciso sair da superfície. O Brasil do início dos anos 1960 vivia uma crise profunda. Havia inflação, instabilidade política, mobilização sindical, pressão camponesa, disputas militares, expansão urbana, desigualdade social e forte dependência externa. João Goulart propunha as chamadas Reformas de Base: reforma agrária, reforma urbana, reforma bancária, reforma tributária, reforma educacional, ampliação de direitos sociais e maior controle sobre capitais estrangeiros.

Essas propostas não eram uma revolução socialista nos moldes soviéticos. Eram reformas nacional-desenvolvimentistas, voltadas a reduzir desigualdades históricas e aumentar a capacidade do Estado brasileiro de organizar o desenvolvimento. No entanto, para setores da elite econômica, da grande propriedade rural, do empresariado associado ao capital internacional e do governo norte-americano, essas reformas ameaçavam interesses concretos.

A questão central era material: quem controlaria a terra? Quem controlaria o lucro? Quem controlaria o trabalho? Quem controlaria os recursos naturais? Quem definiria o papel do Brasil na divisão internacional do capitalismo?

Dreifuss interpreta o golpe de 1964 como resultado da ação de uma elite orgânica, articulada por empresários, militares, tecnocratas e intelectuais conservadores, que atuaram para desestabilizar o governo e reorganizar o Estado em favor de interesses financeiro-industriais multinacionais e associados (Dreifuss, 1981). A descrição da obra destaca justamente esse eixo: capital multinacional, estrutura política de poder, IPES/IBAD, guerra psicológica e tomada do Estado.  

Isso significa que o golpe não pode ser reduzido a uma “reação militar”. Ele foi civil, empresarial, midiático, religioso, internacional e militar. Os tanques foram a parte visível. Antes deles, houve financiamento, propaganda, produção de medo, construção de consenso e mobilização moral.

3. IPES, IBAD e a fabricação do consenso

O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, IPES, e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, IBAD, tiveram papel central na articulação política e ideológica contra Goulart. Essas organizações atuaram em campanhas de propaganda, formação de opinião, financiamento de candidaturas, produção de materiais anticomunistas e articulação com setores empresariais e militares.

A função dessas instituições era sofisticada: transformar interesses de classe em defesa abstrata da democracia. Não se dizia apenas “somos contra a reforma agrária porque ela ameaça a estrutura fundiária”. Dizia-se: “somos contra o comunismo”. Não se dizia “queremos preservar a remessa de lucros e os interesses de multinacionais”. Dizia-se: “defendemos a liberdade”. Não se dizia “tememos a organização dos trabalhadores”. Dizia-se: “defendemos a ordem”.

Essa substituição é essencial. A política se torna teatro moral. A economia se veste de religião. O privilégio se apresenta como virtude. A desigualdade passa a parecer consequência natural da ordem social, e qualquer tentativa de corrigi-la é tratada como ameaça à civilização.

É aqui que a religião entra com enorme força. A fé cristã, especialmente em setores conservadores do catolicismo, oferecia uma linguagem emocionalmente poderosa. Deus, família, pátria e liberdade formavam um vocabulário capaz de mobilizar pessoas comuns que jamais sairiam às ruas para defender “interesses financeiro-industriais multinacionais”, mas sairiam para defender seus filhos, sua casa, sua igreja e sua ideia de moralidade.

4. Guerra Fria: a geopolítica do medo

O Brasil dos anos 1960 não pode ser analisado isoladamente. O mundo vivia a Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética disputavam zonas de influência. A Revolução Cubana, em 1959, havia produzido pânico em Washington e nas elites latino-americanas. A partir dali, qualquer governo reformista na América Latina passou a ser lido, muitas vezes, como potencial ameaça comunista.

No caso brasileiro, essa leitura foi amplificada. João Goulart foi apresentado como se fosse uma espécie de caminho inevitável para o comunismo. Mas essa imagem era mais útil politicamente do que fiel à realidade. O projeto de Goulart era reformista, nacionalista e trabalhista, não uma revolução comunista.

A política externa norte-americana, entretanto, não trabalhava apenas com o que um governo era, mas com o que ele poderia representar para seus interesses estratégicos. Um Brasil mais soberano, com controle sobre capitais estrangeiros, reformas sociais e maior autonomia diplomática, poderia alterar o equilíbrio regional.

Carlos Fico analisa essa relação entre Brasil e Estados Unidos, demonstrando como a ditadura brasileira se inseriu no campo mais amplo da política norte-americana para a América Latina. A Operação Brother Sam, preparada para dar suporte logístico às forças golpistas caso houvesse resistência, revela que o golpe brasileiro tinha importância estratégica para Washington.  

Portanto, a religião não foi usada apenas internamente. Ela também fez parte de uma gramática transnacional do anticomunismo. O combate ao comunismo era militar, econômico, diplomático, cultural e religioso.

5. Patrick Peyton e o rosário como política internacional

Um dos pontos mais relevantes das pesquisas recentes é a atuação do padre Patrick Peyton e da Family Rosary Crusade, conhecida no Brasil como Cruzada do Rosário em Família. À primeira vista, trata-se de um movimento religioso devocional, centrado na oração do rosário e na defesa da família. Mas, no contexto da Guerra Fria, essa ação assumiu dimensão política.

A pesquisa de Isabella Villarinho Pereyra mostra que a atuação da Family Rosary Crusade no Brasil deve ser compreendida em perspectiva transnacional. O estudo evidencia como a religião foi utilizada pelos Estados Unidos no combate ao comunismo na América Latina, analisando jornais, documentos internos do governo norte-americano e documentos da própria organização religiosa.  

Outro estudo, de Anderson Guisolphi, afirma que as Cruzadas do Rosário em Família atuaram como ações anticomunistas nos meios católicos brasileiros entre 1962 e 1964. O resumo do artigo registra que o movimento associava a oração do rosário ao combate ao comunismo e examina interesses dos Estados Unidos, inclusive por meio da CIA, no patrocínio de eventos na América Latina.  

A ideia era simples e poderosa: tornar o anticomunismo uma prática religiosa cotidiana. Rezar contra o comunismo. Defender a família contra o comunismo. Marchar contra o comunismo. Votar contra o comunismo. Apoiar intervenções contra o comunismo.

Quando a política entra nesse nível da vida íntima, ela deixa de ser apenas debate público. Torna-se sentimento doméstico. A Guerra Fria entra na sala de jantar, no confessionário, na missa, na escola, no rádio e na conversa de família.

6. As Marchas da Família com Deus pela Liberdade

As Marchas da Família com Deus pela Liberdade foram o símbolo mais visível dessa fusão entre religião, moralidade, anticomunismo e política de massas. Elas reuniram setores médios, grupos católicos conservadores, entidades femininas, empresários, políticos e organizações civis contrárias a João Goulart.

A pergunta central é: essas marchas foram espontâneas? Parcialmente, sim. Pessoas reais foram às ruas movidas por medos reais. Mas medo real não significa medo espontâneo. O medo pode ser produzido, amplificado, dirigido e organizado.

É mais correto dizer que as marchas expressaram uma combinação entre sentimento social conservador e articulação política. Havia adesão popular, mas também havia redes de financiamento, propaganda, apoio institucional e coordenação ideológica.

O slogan “família com Deus pela liberdade” era brilhante do ponto de vista da comunicação política. Quem poderia ser contra a família? Quem poderia ser contra Deus? Quem poderia ser contra a liberdade? O problema é que, naquele contexto, essas palavras funcionavam como escudo retórico para um projeto de poder que resultaria em ditadura, censura, cassações, perseguições, tortura e supressão de direitos.

A contradição histórica é brutal: marchou-se em nome da liberdade para abrir caminho a um regime que destruiu liberdades democráticas.

A Comissão Nacional da Verdade, ao concluir seus trabalhos, afirmou a comprovação de graves violações de direitos humanos, seu caráter generalizado e sistemático, a ocorrência de crimes contra a humanidade e a persistência de práticas violadoras no Estado brasileiro.  

7. Teologia da Libertação: quando a fé muda de lado

O carrossel menciona também a Teologia da Libertação. Esse ponto é fundamental para evitar simplificações. A religião não é automaticamente conservadora. Ela pode servir à dominação, mas também pode servir à libertação.

Michael Löwy analisa exatamente essa ambiguidade. Em Marxismo e teologia da libertação, o autor mostra como setores cristãos latino-americanos passaram a interpretar a pobreza não como fatalidade divina, mas como resultado de estruturas históricas de exploração (Löwy, 1991). A fé, nesse caso, deixa de legitimar a ordem e passa a questioná-la.

A Teologia da Libertação aproximou cristianismo, justiça social, comunidades de base, crítica ao capitalismo dependente e opção pelos pobres. Isso assustou profundamente setores conservadores da Igreja, das elites latino-americanas e da política externa norte-americana.

O cristianismo que antes podia ser mobilizado contra reformas sociais agora também podia alimentar consciência popular, organização comunitária e denúncia da desigualdade. A fé deixava de ser apenas consolo individual e passava a ser instrumento de leitura crítica da realidade.

Por isso, após 1964, a repressão não se voltou apenas contra comunistas, sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda. Também atingiu padres, freiras, leigos, comunidades e movimentos eclesiais comprometidos com direitos humanos e justiça social.

A disputa, portanto, não era “religião contra política”. Era disputa sobre qual religião, qual política e a serviço de quem.

8. Teologia da Prosperidade e despolitização da pobreza

O material também aponta uma mudança de paradigma: a substituição gradual de leituras coletivas da pobreza por leituras individualistas, meritocráticas e moralizantes. Esse ponto precisa ser tratado com cuidado, mas é decisivo para compreender o presente.

A Teologia da Libertação dizia: a pobreza tem causas históricas, econômicas e políticas. A Teologia da Prosperidade, em muitas de suas versões, desloca o problema para o indivíduo: sucesso e fracasso passam a ser lidos como resultado de fé, disciplina, mérito, obediência e atitude pessoal.

Isso tem consequências políticas profundas. Se a pobreza é estrutural, exige política pública, reforma tributária, direitos trabalhistas, educação, saúde, moradia, distribuição de renda e democratização do Estado. Mas se a pobreza é apenas resultado de falha individual, então a política desaparece. O pobre deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser visto como alguém que ainda não “venceu” porque não teve fé suficiente, esforço suficiente ou disciplina suficiente.

Esse deslocamento é funcional ao neoliberalismo. Ele reduz conflitos sociais a trajetórias individuais. Despolitiza a desigualdade. Transforma injustiça em culpa pessoal.

É evidente que não se deve tratar todo religioso conservador como manipulador, nem todo fiel como manipulado. Isso seria injusto e sociologicamente pobre. O ponto é outro: certas formas de discurso religioso podem ser politicamente funcionais à manutenção da desigualdade quando retiram da esfera pública a discussão sobre estruturas econômicas.

9. Amazônia, missões e etnocídio cultural

O carrossel também aborda a fronteira amazônica e o etnocídio cultural. Esse tema exige especial precisão. A ditadura militar tratou a Amazônia como território estratégico para integração nacional, exploração mineral, expansão agropecuária, grandes obras e controle geopolítico. O lema “integrar para não entregar” escondia frequentemente uma visão colonial: a floresta era vista como vazio econômico; os povos indígenas, como obstáculo ao desenvolvimento.

A Comissão Nacional da Verdade e estudos sobre o Relatório Figueiredo mostram que povos indígenas foram vítimas de graves violações de direitos humanos. O Ministério dos Direitos Humanos registra que a CNV comprovou graves violações, seu caráter sistemático e generalizado e a ocorrência de crimes contra a humanidade.  

O Relatório Figueiredo, produzido em 1967, tornou-se documento-chave para entender violações cometidas contra povos indígenas pelo Serviço de Proteção aos Índios. Estudos recentes indicam que ele documenta práticas de controle, violência, exploração, deslocamento forçado, abusos e imposições assimilacionistas.  

O Instituto Socioambiental registra que a publicação sobre o Relatório Figueiredo trata de atrocidades como genocídio, exploração, trabalho escravo, massacres, ações de extermínio, deslocamentos forçados, usurpação territorial, abusos sexuais e práticas assimilacionistas destinadas a impedir a reprodução cultural dos povos indígenas.  

Nesse cenário, missões religiosas internacionais devem ser analisadas com cautela. Nem toda missão atuou da mesma forma. Nem todo missionário foi agente consciente de interesses econômicos. Mas é historicamente necessário investigar quando práticas missionárias serviram, direta ou indiretamente, à desestruturação cultural, à introdução de valores coloniais, à domesticação política e à abertura de territórios ao capital.

A obra de Colby e Dennett, Seja feita a vossa vontade, entra nesse debate ao relacionar evangelismo, Nelson Rockefeller, petróleo e Amazônia. Seu valor está em mostrar que religião, economia e geopolítica podem operar de forma articulada. Mas esse tipo de argumento exige rigor documental para evitar generalizações.

10. Como funciona a engenharia moral da política

A engenharia moral funciona por etapas.

Primeiro, identifica-se um conflito material: terra, salário, imposto, lucro, soberania, direitos sociais. Depois, esse conflito é traduzido em linguagem moral: família, Deus, liberdade, ordem, bons costumes. Em seguida, cria-se um inimigo absoluto: comunista, subversivo, ateu, inimigo da pátria, inimigo da família. Por fim, a população é convocada a defender valores abstratos, enquanto interesses concretos permanecem protegidos nos bastidores.

Esse mecanismo é eficiente porque valores morais mobilizam mais rapidamente do que argumentos econômicos. Poucas pessoas saem às ruas para defender a taxa de remessa de lucros. Muitas saem para defender seus filhos. Poucas marcham pela manutenção da concentração fundiária. Muitas marcham contra o medo de perder sua casa, sua igreja ou sua liberdade.

A engenharia moral não precisa convencer racionalmente. Ela precisa organizar afetos. Seu combustível é o medo. Seu método é a repetição. Sua linguagem é simples. Seu inimigo é absoluto. Sua promessa é a salvação.

Nesse sentido, a religião instrumentalizada se torna uma espécie de “atalho emocional” para a política. Ela reduz a complexidade histórica a uma batalha entre bem e mal.

11. O presente: por que esse debate ainda importa?

Esse tema não pertence apenas ao passado. A fusão entre religião, medo moral e interesses econômicos continua presente no Brasil contemporâneo. Sempre que debates sobre pobreza, tributação, direitos trabalhistas, meio ambiente, soberania, educação ou saúde são substituídos por pânicos morais, a velha engrenagem volta a funcionar.

Quando se discute desigualdade, fala-se em ameaça à liberdade. Quando se discute regulação econômica, fala-se em comunismo. Quando se discute direitos humanos, fala-se em defesa de bandidos. Quando se discute educação crítica, fala-se em doutrinação. Quando se discute proteção ambiental, fala-se em atraso. Quando se discute demarcação indígena, fala-se em obstáculo ao progresso.

O padrão é antigo: deslocar o debate material para o campo moral. Assim, evita-se discutir quem ganha, quem perde, quem paga, quem lucra e quem manda.

A pergunta decisiva é: quem se beneficia quando a população deixa de discutir economia política e passa a discutir apenas medo moral?

Conclusão crítica

O Brasil precisa aprender a distinguir fé de manipulação da fé. A religião é dimensão legítima da vida humana. Ela pode produzir sentido, comunidade, ética e compromisso social. Mas quando a religião é capturada por projetos de poder, ela deixa de iluminar consciências e passa a fabricar obediência.

O golpe de 1964 mostra que nenhuma ruptura democrática nasce apenas dos quartéis. Antes do golpe armado, há sempre um golpe simbólico. Antes dos tanques, há palavras. Antes da censura, há propaganda. Antes da perseguição, há a fabricação do inimigo. Antes da violência de Estado, há a autorização moral da sociedade.

A religião, quando convertida em arma geopolítica, serve para tornar aceitável o que, dito em linguagem econômica, talvez fosse inaceitável: concentração de renda, dependência externa, repressão popular, destruição de direitos, submissão nacional e bloqueio de reformas sociais.

O grande desafio democrático é recuperar o debate público da chantagem moral. Fé não pode ser biombo de privilégio. Deus não pode ser usado como cabo eleitoral de projetos autoritários. Família não pode ser transformada em senha para suprimir direitos. Liberdade não pode ser invocada para justificar ditadura.

A história brasileira ensina que toda vez que interesses econômicos se escondem atrás de discursos sagrados, é preciso olhar com mais atenção. Porque, muitas vezes, quando dizem estar defendendo Deus, estão defendendo propriedade. Quando dizem estar defendendo a família, estão defendendo hierarquia. Quando dizem estar defendendo a liberdade, estão defendendo o privilégio de poucos contra os direitos de muitos.

Referências

COLBY, Gerard; DENNETT, Charlotte. Seja feita a vossa vontade: a conquista da Amazônia: Nelson Rockefeller e o evangelismo na era do petróleo. Rio de Janeiro: Record, 1998.

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FICO, Carlos. O grande irmão: da Operação Brother Sam à Operação Bandeirantes: a ditadura militar brasileira e o governo dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

GUISOLPHI, Anderson José. Os rosários precederam os coturnos: o anticomunismo nas Cruzadas do Rosário em Família na América Latina e os golpes civil-militares (1960-1964). Cadernos de História, Belo Horizonte, v. 20, n. 33, p. 158-179, 2019.

LÖWY, Michael. Marxismo e teologia da libertação. São Paulo: Cortez, 1991.

PEREYRA, Isabella Villarinho. Rosários contra o comunismo: a atuação de Patrick Peyton e a Family Rosary Crusade no golpe militar de 1964. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 37, n. 82, 2024.

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BELTRÃO, Jane Felipe (org.). Relatório Figueiredo: atrocidades contra povos indígenas em tempos ditatoriais. Rio de Janeiro: Mórula; LACED/Museu Nacional, 2022.


A Dinâmica Estrutural das Fraudes Financeiras e a Captura do Estado

Por que a educação financeira não basta quando o mercado transforma risco privado em prejuízo social


Índice

  1. Introdução: quando o investidor pequeno entra em um jogo grande demais
  2. A tese central: fraude financeira não é acidente, é arquitetura
  3. Educação financeira: necessária, mas insuficiente
  4. Assimetria informacional: o pequeno investidor diante da máquina
  5. O paradoxo risco-retorno e a sedução do ganho fácil
  6. Banco Master: capilaridade privada, risco pulverizado e socialização do prejuízo
  7. Americanas: quando a fraude contábil fica invisível ao investidor comum
  8. Ambipar: mercado, valorização artificial e zonas cinzentas da regulação
  9. Captura regulatória: quando o Estado sabe, mas não consegue agir
  10. Accountability: sabatinar reguladores é pouco, mas é necessário
  11. Conclusão: sem Estado forte, o mercado não se corrige; ele se protege
  12. Referências


Lide

A fala do professor e financista José Kobori em audiência pública no Senado Federal recolocou no centro do debate uma questão incômoda: até que ponto o pequeno investidor pode ser responsabilizado por perdas provocadas por estruturas financeiras complexas, distribuídas por grandes agentes de mercado e, muitas vezes, toleradas por falhas regulatórias? A audiência ocorreu em 20 de maio de 2026, na Comissão de Educação e Cultura, para discutir o PL 5.520/2025, que institui a Semana Nacional do Pequeno Investidor  . A tese deste artigo é direta: a educação financeira é importante, mas não substitui fiscalização pública, transparência regulatória e independência técnica do Estado.


1. Introdução: quando o investidor pequeno entra em um jogo grande demais

Imagine um trabalhador que passou vinte anos guardando parte do salário. Não é especulador. Não é operador profissional. Não acompanha balanços trimestrais com lupa. Ele apenas quer proteger o dinheiro da aposentadoria, ajudar um filho na faculdade ou formar uma reserva para emergências. Um dia, entra em uma plataforma de investimentos e encontra um produto aparentemente seguro: renda fixa, CDB, banco conhecido no mercado, cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, rentabilidade acima da média.

A propaganda não parece agressiva. O assessor fala em oportunidade. A plataforma transmite confiança. O nome “renda fixa” sugere estabilidade. O selo do FGC parece funcionar como uma espécie de airbag moral: se algo der errado, existe proteção.

Mas o que esse investidor não vê?

Ele não vê a estrutura de liquidez do banco emissor. Não vê a qualidade real dos ativos. Não vê os bastidores das decisões regulatórias. Não sabe se havia alertas técnicos engavetados. Não sabe quanto a plataforma recebeu para distribuir aquele papel. Não sabe se a alta rentabilidade era prêmio legítimo de risco ou sintoma de uma instituição em deterioração.

É nesse ponto que começa o problema.

A narrativa dominante costuma dizer que o investidor perdeu porque não estudou o bastante. A solução, então, seria simples: mais educação financeira. A tese parece razoável. Afinal, ninguém deveria aplicar dinheiro sem compreender risco, liquidez, diversificação e prazo. Mas essa explicação é incompleta. Pior: pode funcionar como escudo ideológico para deslocar a responsabilidade estrutural do sistema para o indivíduo.

José Kobori, na audiência pública sobre o pequeno investidor, atacou exatamente esse ponto. A educação financeira, segundo sua linha de raciocínio, é necessária, mas não basta para proteger o cidadão comum contra fraudes corporativas sofisticadas. O Senado registrou que o debate do PL 5.520/2025 tinha como finalidade discutir democratização do acesso a investimentos e educação financeira, em um ambiente de crescente complexidade do mercado de capitais  .

O que está em jogo, portanto, é mais profundo: quem deve proteger o pequeno investidor quando a fraude nasce dentro da própria arquitetura legal do mercado?

A resposta deste artigo é clara: sem Estado fiscalizador, tecnicamente protegido e institucionalmente independente, o pequeno investidor será sempre o elo mais frágil de uma cadeia que privatiza ganhos, distribui comissões e socializa prejuízos.

2. A tese central: fraude financeira não é acidente, é arquitetura

Fraudes financeiras de grande escala raramente se parecem com o estelionato rudimentar do imaginário popular. Não costumam nascer em becos clandestinos, mas em salas envidraçadas, relatórios sofisticados, estruturas societárias complexas, pareceres jurídicos, auditorias formais, plataformas digitais e produtos devidamente registrados.

A fraude moderna muitas vezes opera por dentro da legalidade aparente.

Essa é a primeira chave conceitual. A fraude financeira contemporânea não depende apenas de mentira direta. Ela depende de opacidade, assimetria, intermediação, linguagem técnica e dispersão de responsabilidade. Cada agente executa uma parte. Um emite. Outro estrutura. Outro audita. Outro distribui. Outro recomenda. Outro regula tardiamente. No final, quando o castelo desaba, a pergunta costuma ser dirigida ao investidor: “Mas você não sabia que retorno maior significa risco maior?”

Essa pergunta é verdadeira, mas insuficiente.

Sim, retorno maior indica risco maior. Mas reconhecer essa máxima não equivale a ter capacidade de auditar um banco, reclassificar risco de crédito, examinar demonstrações financeiras, avaliar operações entre partes relacionadas ou identificar manipulação de mercado. A educação financeira ensina o cidadão a desconfiar de promessas milagrosas. Ela não transforma o cidadão em Banco Central, CVM, auditoria independente, Ministério Público, Polícia Federal e contador forense ao mesmo tempo.

A teoria econômica já conhece esse problema há décadas. Akerlof (1970), ao discutir o “mercado dos limões”, mostrou que mercados marcados por assimetria informacional tendem a produzir distorções porque uma parte sabe muito mais do que a outra. Stiglitz (2002) aprofundou essa crítica ao demonstrar que informação imperfeita não é exceção: é elemento estrutural dos mercados reais.

No mercado financeiro, a assimetria é radical. O pequeno investidor vê a vitrine. Os grandes agentes veem a engrenagem.

3. Educação financeira: necessária, mas insuficiente

A educação financeira tem valor. Ela ajuda o cidadão a compreender orçamento, juros compostos, inflação, endividamento, diversificação e planejamento. Em uma sociedade marcada por desigualdade, crédito caro e baixa cultura de poupança, ensinar finanças pessoais é política pública relevante.

Mas há um risco: transformar educação financeira em desculpa para desregulação.

Quando se diz que o investidor precisa estudar mais, muitas vezes se oculta que há produtos deliberadamente complexos, distribuídos por instituições com incentivos conflitantes e validados por uma cadeia de confiança que o indivíduo não tem condições reais de verificar.

Educação financeira protege contra ingenuidade simples. Não protege, sozinha, contra engenharia financeira sofisticada.

O pequeno investidor pode aprender que não deve concentrar todo o patrimônio em um único emissor. Pode aprender que rentabilidade elevada exige cautela. Pode aprender que CDB não é Tesouro Nacional. Tudo isso é importante. Mas ele não tem acesso integral à situação prudencial de uma instituição financeira. Não sabe, em tempo real, se há crise de liquidez, descasamento de ativos e passivos, violações normativas ou deterioração econômico-financeira.

O caso Banco Master é emblemático. O Banco Central decretou, em 18 de novembro de 2025, a liquidação extrajudicial de instituições do Conglomerado Master, mencionando “grave crise de liquidez”, “comprometimento significativo” da situação econômico-financeira e “graves violações” às normas do Sistema Financeiro Nacional  . Ora, se a própria autoridade monetária precisou intervir formalmente para reconhecer a gravidade da situação, como exigir que o pequeno investidor tivesse capacidade plena de antecipar esse diagnóstico?

A educação financeira ajuda a formular perguntas. Mas quem tem poder de obter respostas profundas é o Estado regulador.

4. Assimetria informacional: o pequeno investidor diante da máquina

A assimetria informacional é o coração do problema. Em linguagem simples, ela ocorre quando uma parte da transação possui informações muito superiores à outra.

No mercado financeiro, isso aparece em vários níveis.

Primeiro, há assimetria técnica. Bancos, gestoras, corretoras e companhias abertas contam com equipes jurídicas, contábeis, financeiras e tecnológicas. O pequeno investidor, muitas vezes, conta apenas com uma lâmina de produto, um relatório comercial e a fala de um assessor.

Segundo, há assimetria temporal. Grandes agentes percebem sinais de deterioração antes do público. Conversam entre si, leem rumores, observam fluxo, monitoram balanços, acompanham mercado secundário. O investidor de varejo costuma chegar depois.

Terceiro, há assimetria de incentivos. Quem distribui um produto pode receber remuneração pela distribuição. Quem compra assume o risco. Se a comissão for alta, o incentivo à venda pode se sobrepor ao dever de prudência.

Quarto, há assimetria regulatória. O órgão técnico pode identificar sinais de alerta, mas a decisão de levar adiante uma investigação, punir agentes ou divulgar informações depende de hierarquias institucionais, processos administrativos e, em certos casos, pressões políticas e econômicas.

É aqui que entra a noção de captura regulatória.

Stigler (1971) argumentou que setores regulados podem capturar os órgãos encarregados de regulá-los, influenciando regras, decisões e prioridades. Essa captura nem sempre ocorre por corrupção direta. Pode ocorrer por pressão política, porta giratória, dependência informacional, lobby, medo de instabilidade sistêmica ou alinhamento ideológico entre regulador e regulado.

Quando a captura avança, o Estado não desaparece. Ele continua existindo. Mas passa a operar seletivamente.

Fiscaliza pouco quem deveria fiscalizar muito. Age tarde quando deveria agir cedo. Protege a aparência de normalidade até que a realidade se imponha pelo colapso.

5. O paradoxo risco-retorno e a sedução do ganho fácil

Em finanças, a relação entre risco e retorno é uma regra fundamental. Ativos que prometem retorno acima da média carregam, em geral, risco acima da média. Isso vale para ações, crédito privado, fundos, derivativos e também para renda fixa emitida por instituições menores.

Mas há uma armadilha psicológica. Quando o produto é vendido como “renda fixa” e aparece coberto pelo FGC, o investidor tende a perceber menos risco do que deveria.

O FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira ou conglomerado, com limite global de R$ 1 milhão em quatro anos, para aplicações elegíveis  . Essa garantia é importante para a estabilidade do sistema. Mas ela também pode gerar risco moral.

Risco moral ocorre quando uma proteção reduz o cuidado dos agentes. Se o investidor acredita que o FGC cobre tudo, pode aceitar rentabilidades muito elevadas sem avaliar adequadamente o emissor. Se a plataforma sabe que o investidor enxerga o produto como protegido, pode vender mais facilmente. Se o banco sabe que o selo de proteção facilita captação, pode crescer de modo agressivo. O resultado é perigoso: a garantia, criada para proteger a confiança sistêmica, pode ser usada como argumento comercial para espalhar risco.

Essa é uma contradição delicada. Não se trata de atacar o FGC. O fundo é peça importante do sistema financeiro. O problema surge quando a garantia vira instrumento de distribuição massiva de produto arriscado.

A pergunta correta não é apenas: “o investidor sabia do risco?”

A pergunta correta é: quem lucrou com a distribuição desse risco antes que ele explodisse?

6. Banco Master: capilaridade privada, risco pulverizado e socialização do prejuízo

O caso Banco Master concentra vários elementos da discussão.

Segundo o Banco Central, o Conglomerado Master era pequeno em termos sistêmicos: detinha 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do Sistema Financeiro Nacional. Mesmo assim, sua liquidação gerou enorme repercussão porque havia grande volume de investidores expostos a seus papéis, especialmente produtos de renda fixa distribuídos no varejo  .

A pergunta de Kobori é estrutural: como uma instituição sem capilaridade bancária comparável aos grandes bancos conseguiu distribuir volume tão expressivo de CDBs?

A resposta passa pela intermediação. Bancos pequenos ou médios podem acessar investidores por meio de plataformas, corretoras e assessores. Isso democratiza o acesso a produtos variados, mas também amplia o alcance de ativos de maior risco. A tecnologia encurta a distância entre emissor e investidor. O problema é que essa distância curta pode ser perigosa quando a curadoria é contaminada por incentivos comerciais.

Aqui aparece a expressão mais dura: cumplicidade de mercado.

Cumplicidade, nesse contexto, não significa necessariamente crime por parte de todos os envolvidos. Significa que a fraude ou o risco excessivo não se dissemina sozinho. Precisa de canais, reputações emprestadas, plataformas, discursos, relatórios, comissões e omissões. Um banco fragilizado não pulveriza dezenas de bilhões em CDBs apenas com uma placa na porta. Ele precisa da infraestrutura do próprio mercado.

E esse é o ponto politicamente sensível: quando o produto dá certo, os ganhos são privados; quando dá errado em grande escala, parte do custo é absorvida por mecanismos coletivos de proteção.

A Reuters noticiou que o FGC estimava desembolsar R$ 40,6 bilhões para cerca de 800 mil investidores no caso Master, em contexto de liquidação e investigações posteriores  . O dado é decisivo porque mostra a dimensão coletiva do problema. Ainda que o FGC seja uma entidade privada mantida pelo próprio sistema financeiro, seu acionamento em escala tão grande afeta custos, regras, confiança e comportamento de todo o mercado.

Por isso, o caso Master não é apenas episódio bancário. É uma aula sobre risco moral, distribuição de produtos, falha regulatória e socialização indireta de prejuízos.

7. Americanas: quando a fraude contábil fica invisível ao investidor comum

O caso Americanas demonstra outro tipo de assimetria: a contábil-corporativa.

A empresa informou em 2024 que investigação de comitê independente confirmou fraude contábil associada a lançamentos indevidos em fornecedores, contratos fictícios de verbas de propaganda cooperada e operações de risco sacado, entre outras práticas refletidas incorretamente no balanço  . A Polícia Federal investigava uma suposta fraude de R$ 25,3 bilhões  .

O que isso ensina?

Ensina que há fraudes invisíveis ao investidor comum. Não porque ele seja ignorante, mas porque a fraude é construída dentro da linguagem técnica da contabilidade, das operações financeiras e da governança corporativa.

O risco sacado, em si, não é necessariamente fraudulento. Trata-se de uma operação em que fornecedores antecipam recebíveis junto a instituições financeiras, geralmente com participação da empresa compradora. O problema surge quando a operação é usada de modo a mascarar endividamento, distorcer passivos ou melhorar artificialmente indicadores financeiros.

Como o pequeno investidor perceberia isso?

Ele teria que examinar notas explicativas, demonstrações financeiras, práticas contábeis, contratos, auditorias, relacionamento com bancos e consistência entre fluxo operacional e dívida. Mesmo analistas profissionais podem falhar diante de fraudes bem estruturadas. Exigir isso do investidor de varejo é quase uma ironia.

A CVM posteriormente acusou ex-executivos da Americanas de insider trading em investigação relacionada ao escândalo contábil, segundo a Reuters  . Esse ponto reforça outra dimensão: quando informações relevantes circulam de forma desigual, alguns agentes podem sair antes do colapso, enquanto o investidor comum fica preso ao prejuízo.

O mercado gosta de falar em eficiência informacional. Mas a realidade mostra que a informação não circula com a mesma velocidade, qualidade e profundidade para todos.

8. Ambipar: mercado, valorização artificial e zonas cinzentas da regulação

O caso Ambipar exige cautela analítica. Há investigações, suspeitas e negativas dos envolvidos. Portanto, o correto é tratar o tema como hipótese regulatória sob apuração, não como condenação definitiva.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a CVM avançou em investigação para apurar eventual manipulação no preço das ações da Ambipar, após alta superior a 800% entre maio e agosto de 2024. A apuração buscava entender se fundos e operações ligados ao Banco Master, a Nelson Tanure e ao controlador da Ambipar, Tércio Borlenghi Junior, teriam contribuído de forma irregular para a valorização; os citados negaram atuação conjunta, conforme a reportagem  .

O ponto relevante para este artigo não é decretar culpa. É compreender a lógica estrutural.

Quando ações sobem de forma extraordinária em curto período, a pergunta regulatória é inevitável: houve fundamentos econômicos compatíveis? Houve liquidez real? Houve atuação coordenada? Houve uso de estruturas vinculadas? Houve efeito sobre garantias, operações societárias ou processos de aquisição?

Mercados de capitais dependem de preço. Mas preço não é apenas número. Preço é sinal. Quando o sinal é manipulado, todo o sistema decisório é contaminado.

Uma ação artificialmente valorizada pode ser usada como garantia. Pode influenciar negociações. Pode alterar percepção de solvência. Pode atrair investidores. Pode legitimar operações maiores. Em outras palavras, a manipulação de preço, quando ocorre, não é apenas uma distorção gráfica no home broker. É uma interferência na arquitetura da confiança.

Por isso a CVM existe. Por isso o Banco Central existe. Por isso regras de mercado existem.

O problema surge quando a área técnica identifica anomalias, mas a resposta institucional não avança com a força necessária. É nesse intervalo entre conhecimento técnico e decisão política que a captura regulatória se instala.

9. Captura regulatória: quando o Estado sabe, mas não consegue agir

A fala de Kobori toca em um ponto decisivo: o problema não seria a incapacidade técnica dos servidores públicos, mas a neutralização política de sua atuação.

Essa distinção é fundamental.

O Brasil possui quadros técnicos altamente qualificados em instituições como Banco Central, CVM, Receita Federal, Controladoria-Geral da União, Tribunal de Contas da União, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil. Em muitos casos, são servidores concursados, especializados, experientes e capazes de identificar anomalias antes que elas se tornem escândalos públicos.

Mas capacidade técnica não basta se não houver proteção institucional.

Quando relatórios são engavetados, alertas são relativizados, técnicos são afastados ou decisões são subordinadas a conveniências políticas e econômicas, a burocracia estatal perde sua função republicana. O Estado deixa de ser árbitro e passa a ser terreno de disputa.

Aqui, a análise de Bourdieu ajuda. O poder econômico pode se converter em poder simbólico e político. Grandes agentes não influenciam apenas por dinheiro. Influenciam por prestígio, acesso, narrativa, lobby, ameaça de instabilidade, controle de informação e capacidade de produzir consenso.

No mercado financeiro, essa conversão é ainda mais sofisticada. O discurso técnico pode ser usado para despolitizar decisões profundamente políticas. Diz-se que determinada intervenção poderia “assustar o mercado”. Diz-se que determinada investigação poderia “gerar instabilidade”. Diz-se que é preciso “preservar a confiança”. Mas confiança em quê? Na verdade? Ou na aparência de normalidade?

A captura regulatória não significa necessariamente que o regulador esteja vendido. Às vezes, significa que ele está cercado.

Cercado por pressões. Cercado por narrativas. Cercado por interesses. Cercado por medo de errar. Cercado por estruturas legais lentas. Cercado por falta de pessoal. Cercado por nomeações políticas. Cercado por um mercado que sabe transformar qualquer fiscalização mais dura em acusação de intervencionismo.

Nesse sentido, o neoliberalismo não elimina o Estado. Ele tenta redesenhá-lo. O Estado continua forte para garantir contratos, salvar confiança, proteger liquidez e estabilizar perdas sistêmicas. Mas se torna fraco para prevenir abusos, limitar ganhos predatórios e enfrentar conglomerados.

É o Estado forte para o capital e fraco para o cidadão.

10. Accountability: sabatinar reguladores é pouco, mas é necessário

A proposta atribuída a Kobori de transformar a Semana Nacional do Pequeno Investidor em espaço de sabatina pública dos reguladores é interessante porque desloca o debate.

Em vez de fazer apenas palestras educativas para ensinar o cidadão a investir melhor, a Semana poderia também exigir que Banco Central, CVM, B3, Anbima, plataformas e demais agentes prestem contas sobre falhas, alertas ignorados, processos paralisados e mecanismos de proteção.

Isso muda o eixo da política pública.

A pergunta deixa de ser apenas: “o investidor aprendeu?”

E passa a ser também: “o regulador agiu?”

Essa mudança é essencial. Sem accountability, a educação financeira vira teatro. Ensina-se o pequeno investidor a ser prudente, mas não se obriga o sistema a ser transparente.

Uma sabatina anual poderia abordar questões objetivas:

Quais alertas técnicos foram emitidos sobre instituições financeiras em deterioração?

Quantos processos sancionadores foram abertos?

Quantos foram arquivados?

Por quê?

Quais recomendações de áreas técnicas foram rejeitadas pelo colegiado?

Com quais fundamentos?

Houve afastamento de servidores após pareceres contrários a interesses econômicos relevantes?

Quais plataformas distribuíram produtos de instituições posteriormente liquidadas?

Qual foi a remuneração média de distribuição?

Houve conflito de interesses?

Essas perguntas não criminalizam o mercado. Elas civilizam o mercado.

Mercado sem transparência não é liberdade econômica. É assimetria organizada.

11. Conclusão: sem Estado forte, o mercado não se corrige; ele se protege

A tese deste artigo pode ser resumida em uma frase: fraudes financeiras de grande escala não são apenas falhas individuais; são falhas estruturais de governança, regulação, incentivos e poder.

A educação financeira é indispensável, mas não pode ser transformada em biombo moral. O pequeno investidor deve estudar, comparar, diversificar e desconfiar de retornos anormais. Mas ele não pode ser convertido em culpado principal por não enxergar aquilo que, muitas vezes, nem auditorias, analistas, conselhos, plataformas e reguladores conseguiram — ou quiseram — revelar a tempo.

O caso Banco Master expõe a força da distribuição financeira em rede. O caso Americanas mostra a opacidade da fraude contábil corporativa. O caso Ambipar, ainda em campo investigativo, revela a importância de vigiar movimentos anormais de preço e possíveis conexões entre valorização de mercado, garantias e operações societárias.

O fio comum é a assimetria.

De um lado, estruturas profissionais com acesso, capital, tecnologia, lobby e linguagem técnica. De outro, investidores pequenos, atraídos pela promessa de segurança, rentabilidade e democratização do mercado.

A pergunta final não é se o mercado deve existir. Evidentemente deve. A pergunta é outra: quem controla o mercado quando ele deixa de ser ambiente de investimento e se transforma em máquina de transferência de risco?

Sem Estado fiscalizador, o mercado não se corrige espontaneamente. Ele tende a proteger seus grandes agentes, preservar narrativas e transferir custos para os elos mais frágeis.

Por isso, a defesa do pequeno investidor não começa apenas na cartilha de educação financeira. Começa na independência da CVM. Na força técnica do Banco Central. Na proteção dos servidores que alertam. Na publicidade dos relatórios. Na responsabilização de distribuidores. Na transparência das comissões. Na regulação de conflitos de interesse. Na coragem política de enfrentar quem lucra antes do colapso.

No fim, a questão não é apenas financeira. É democrática.

Porque quando o poder econômico captura o Estado, o cidadão perde duas vezes: perde como investidor e perde como titular do interesse público.


Referências

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