terça-feira, 9 de junho de 2026

O Brasil entre a Doutrina Monroe e a soberania latino-americana

Trump, bolsonarismo, dependência e consciência nacional diante da nova ofensiva dos Estados Unidos sobre a América Latina



Índice

  1. Lide: quando o Pix, o medo e a eleição entram no mesmo tabuleiro
  2. Introdução: a tese central
  3. A longa sombra da Doutrina Monroe
  4. Dependência: a estrutura invisível da subordinação
  5. O Brasil como obstáculo estratégico à nova tutela hemisférica
  6. Trump, Flávio Bolsonaro e a política da consonância
  7. Tarifas, Pix e soberania digital
  8. PCC, Comando Vermelho e o uso eleitoral da segurança pública
  9. O medo como tecnologia eleitoral
  10. O falso nacionalismo e a pedagogia da submissão
  11. Lula, soberania nacional e política externa autônoma
  12. Consciência nacional: o campo de batalha mais profundo
  13. Defesa integral: o que o Brasil precisa construir
  14. Soberania latino-americana: o papel histórico do Brasil
  15. Conclusão crítica
  16. Referências


1. Lide: quando o Pix, o medo e a eleição entram no mesmo tabuleiro

Imagine um pequeno comerciante em Cristalina, Goiânia, São Paulo, Manaus ou Recife. Ele abre a loja cedo, confere o estoque, paga fornecedor pelo Pix, conversa com clientes pelo WhatsApp, vende fiado para conhecidos e acompanha as notícias enquanto toma café. Num dia, ouve que os Estados Unidos querem impor novas tarifas ao Brasil. No outro, escuta que o sistema brasileiro de pagamentos eletrônicos virou tema de investigação comercial norte-americana. Em seguida, vê nas redes sociais que o PCC e o Comando Vermelho foram classificados pelos EUA como organizações terroristas. No mesmo noticiário, aparece Flávio Bolsonaro, candidato presidencial, dizendo que tem interlocução com Donald Trump e que segurança pública será centro de sua agenda.

O comerciante talvez não use as palavras “geopolítica”, “dependência”, “soberania digital” ou “Doutrina Monroe”. Mas sente que algo estranho está acontecendo. O preço pode subir. A exportação pode sofrer. O Pix, que faz parte da vida cotidiana, vira assunto internacional. O crime organizado, que já assusta a população, passa a ser tratado como tema da política externa dos Estados Unidos. E, no meio disso tudo, uma candidatura brasileira tenta apresentar sua proximidade com Trump como vantagem eleitoral.

Essa cena simples revela uma mudança profunda: o Brasil entrou em uma nova fase da disputa por soberania. A intervenção externa contemporânea não precisa aparecer com tanques nas ruas, navios no litoral ou tropas em fronteiras. Ela pode vir por tarifas, plataformas digitais, sistemas financeiros, campanhas de medo, enquadramentos jurídicos, operações informacionais e apoio simbólico a atores políticos internos.

A questão decisiva é: o Brasil será capaz de defender sua soberania ou aceitará novamente o papel histórico de país disciplinado por uma potência estrangeira?


2. Introdução: a tese central

A tese deste artigo é direta: o trumpismo recolocou a América Latina, e especialmente o Brasil, no centro de uma nova disputa hemisférica inspirada na velha lógica da Doutrina Monroe. Nesse processo, setores da extrema direita brasileira, especialmente o bolsonarismo, podem funcionar como vetores internos de uma estratégia externa de pressão política, econômica, tecnológica e eleitoral contra a soberania nacional.

Essa hipótese não significa afirmar, sem provas definitivas, que exista um acordo secreto formal entre Donald Trump e Flávio Bolsonaro para interferir diretamente nas eleições brasileiras. Uma acusação desse tipo exigiria documentos, registros, financiamento ilícito, coordenação operacional ou evidências materiais. Mas a análise política não depende apenas de confissão. Ela observa encadeamentos, interesses, efeitos, beneficiários e convergências.

E o encadeamento é preocupante. Flávio Bolsonaro se aproxima de Trump. Em seguida, temas centrais de sua candidatura — segurança pública, combate ao crime organizado, alinhamento internacional com os EUA e crítica a Lula — passam a receber reforço objetivo por atos do governo norte-americano. Os EUA propõem novas tarifas contra o Brasil, questionam práticas brasileiras em comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, designam o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras e intensificam a linguagem de pressão contra governos latino-americanos considerados autônomos demais (Reuters, 2026a; Associated Press, 2026).

A pergunta, portanto, não é apenas se Trump “apoia” Flávio Bolsonaro. A pergunta mais profunda é: as ações de Trump ajudam a produzir um ambiente de medo, instabilidade e desgaste político que favorece uma candidatura brasileira alinhada aos interesses norte-americanos?

A resposta, em termos analíticos, é sim. Há uma consonância objetiva. E essa consonância precisa ser enfrentada com maturidade: sem histeria, sem antiamericanismo infantil, mas também sem ingenuidade colonial.

A política brasileira precisa reaprender uma verdade elementar: não existe soberania sem consciência nacional. Um povo que não compreende a estrutura da própria dependência dificilmente consegue rompê-la. Como ensinou Paulo Freire, a consciência crítica nasce quando o sujeito deixa de naturalizar a opressão e começa a perceber as mediações históricas que produzem sua condição (Freire, 1987). A soberania, portanto, não é apenas assunto de diplomatas, militares ou economistas. É também um problema pedagógico, cultural e civilizatório.


3. A longa sombra da Doutrina Monroe

A Doutrina Monroe, anunciada em 1823, nasceu sob a aparência de defesa das Américas contra a recolonização europeia. Sua fórmula implícita — “a América para os americanos” — parecia, em seu contexto inicial, uma advertência às potências europeias para que não interferissem nos novos países independentes do continente. Mas a história mostrou que essa doutrina logo se transformaria em outra coisa: a legitimação da predominância dos Estados Unidos sobre a América Latina.

O Corolário Roosevelt, de 1904, agravou essa tendência ao afirmar que os EUA poderiam atuar como uma espécie de poder policial internacional no hemisfério. A partir daí, o discurso de proteção virou prática de tutela. Em nome da ordem, da estabilidade, do combate ao comunismo, da proteção da democracia ou da segurança regional, Washington interveio, pressionou, financiou, sancionou, bloqueou e condicionou governos latino-americanos ao longo de mais de um século.

Moniz Bandeira mostrou, em sua análise da formação do império norte-americano, que a política externa dos EUA para a América Latina sempre combinou retórica liberal e interesses estratégicos concretos: mercados, rotas, matérias-primas, influência militar, contenção de adversários e controle político regional (Bandeira, 2005). O império moderno raramente se apresenta como império. Ele se apresenta como defesa da liberdade, da ordem, da democracia ou do comércio justo.

O chamado “corolário Trump” atualiza essa tradição para o século XXI. A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025 menciona um “Trump Corollary” à Doutrina Monroe, associando-o à restauração do poder norte-americano e de suas prioridades no Hemisfério Ocidental (White House, 2025). Agora, os alvos já não são apenas potências europeias. São China, Rússia, migração, narcotráfico, governos autônomos, plataformas digitais nacionais, sistemas de pagamento soberanos e alianças multipolares.

A Doutrina Monroe não morreu. Ela mudou de linguagem. Em vez de falar apenas em colonização europeia, fala em segurança nacional, comércio digital, narcoterrorismo, cadeias produtivas, infraestrutura crítica, minerais estratégicos e contenção da China.

No século XIX, o império se impunha por canhoneiras. No século XX, por golpes, bases militares, organismos financeiros e Guerra Fria. No século XXI, ele também opera por algoritmos, tarifas, big techs, sanções, dados, narrativas e medo.


4. Dependência: a estrutura invisível da subordinação

Para compreender a vulnerabilidade brasileira diante dos EUA, é preciso falar de dependência. Não apenas dependência econômica no sentido simples, mas dependência estrutural: a forma pela qual países periféricos são inseridos no sistema mundial como fornecedores de matérias-primas, consumidores de tecnologia importada e mercados subordinados a decisões tomadas fora de seu território.

Celso Furtado compreendeu como poucos essa armadilha. Para ele, o subdesenvolvimento não era uma etapa atrasada do desenvolvimento, como se todos os países percorressem a mesma estrada em velocidades diferentes. O subdesenvolvimento era uma formação histórica específica, produzida pela inserção desigual das economias periféricas no capitalismo internacional (Furtado, 2007). Em outras palavras: a periferia não é pobre porque ficou “para trás”; muitas vezes, ela foi organizada para ocupar uma posição subordinada.

Ruy Mauro Marini radicalizou essa leitura ao mostrar que a dependência latino-americana não é simples ausência de desenvolvimento, mas uma forma particular de reprodução do capitalismo, marcada por transferência de valor, superexploração do trabalho e subordinação externa (Marini, 2000). Isso ajuda a entender por que países ricos em recursos naturais podem continuar pobres em autonomia. Exportam riqueza material, mas importam tecnologia, finanças, padrões culturais, modelos institucionais e dependência.

Maria da Conceição Tavares também insistiu que o desenvolvimento nacional exige capacidade industrial, financeira e estatal. Um país que renuncia à indústria renuncia à soberania. Um país que aceita ser apenas exportador de commodities se condena à vulnerabilidade diante dos ciclos internacionais e dos centros decisórios externos (Tavares, 1972).

Essa discussão é decisiva para o Brasil de hoje. O país exporta soja, minério, carne, petróleo e alimentos, mas depende de chips, máquinas, equipamentos médicos, softwares, fertilizantes, plataformas digitais, nuvem computacional, sistemas operacionais, inteligência artificial estrangeira e infraestrutura tecnológica controlada por empresas globais. Isso significa que a dependência mudou de forma, mas não desapareceu.

Antes, a colônia dependia da metrópole para vender açúcar, ouro e café. Hoje, a periferia digital depende de plataformas, dados, semicondutores, sistemas financeiros, propriedade intelectual e infraestrutura computacional. A dependência ficou mais sofisticada. Por isso, ficou também mais difícil de enxergar.


5. O Brasil como obstáculo estratégico à nova tutela hemisférica

O Brasil é o grande obstáculo latino-americano a qualquer projeto de tutela hemisférica. Não porque seja invulnerável, mas porque possui escala, território, população, recursos naturais, energia, capacidade agrícola, biodiversidade, indústria remanescente, universidades, Institutos Federais, diplomacia profissional e presença em fóruns multilaterais.

Além disso, o Brasil mantém relação econômica profunda com a China, participa dos BRICS, lidera parte importante da agenda ambiental global, possui o Pix como infraestrutura pública de pagamentos, busca desenvolver inteligência artificial nacional e reivindica uma política externa multipolar.

Para a lógica trumpista, isso é problema. Um Brasil autônomo dificulta a recomposição da primazia norte-americana na América Latina. Um Brasil subordinado, por outro lado, facilitaria a contenção da China, a abertura de mercados, a pressão sobre a Amazônia, o controle de minerais estratégicos, a influência sobre plataformas digitais e a reorganização política do hemisfério sob liderança dos EUA.

A disputa, portanto, não é apenas ideológica. É estrutural. O Brasil representa uma possibilidade incômoda: a de uma nação latino-americana que negocia com todos, mas não obedece automaticamente a ninguém.

É por isso que a política externa brasileira incomoda quando busca autonomia. Não porque seja radical, mas porque recusa a posição de satélite. Um país periférico pode ser tolerado enquanto aceita sua posição subordinada. Torna-se problema quando começa a agir como sujeito histórico.

Frantz Fanon dizia que a descolonização verdadeira não se limita à troca de bandeiras; exige transformação da consciência, das instituições e das estruturas de dependência (Fanon, 1968). O Brasil formalmente é independente desde 1822. Mas a independência formal não elimina a colonialidade do poder, da economia e da cultura. A pergunta contemporânea é: o Brasil quer apenas ter bandeira própria ou quer ter destino próprio?


6. Trump, Flávio Bolsonaro e a política da consonância

Flávio Bolsonaro aparece nesse tabuleiro como figura estratégica porque reúne três dimensões: é herdeiro direto do bolsonarismo, dialoga com a extrema direita internacional e tenta se apresentar como interlocutor privilegiado de Trump.

A questão não é se um candidato brasileiro pode dialogar com autoridades estrangeiras. Pode. O problema está no contexto, no conteúdo e nos efeitos dessa aproximação. Quando um candidato presidencial brasileiro se aproxima de uma potência estrangeira em ano eleitoral e, logo em seguida, essa potência adota medidas que atingem o Brasil em áreas sensíveis — tarifas, Pix, segurança pública, classificação de facções — torna-se legítimo perguntar: essa relação serve para defender o Brasil em Washington ou para trazer a agenda de Washington para dentro da eleição brasileira?

A Associated Press informou que especialistas interpretaram a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos EUA como possível tentativa de influenciar a eleição brasileira, especialmente porque a medida teria sido solicitada por Flávio Bolsonaro durante sua passagem por Washington (Associated Press, 2026).

É aqui que surge o conceito de consonância. Não é necessário provar uma conspiração secreta para reconhecer alinhamento objetivo. Quando os atos de uma potência estrangeira reforçam a agenda de uma candidatura interna, e quando essa candidatura usa sua proximidade com essa potência como ativo eleitoral, há consonância política.

Essa consonância pode ser mais eficaz do que uma intervenção explícita. Uma declaração formal de Trump dizendo “votem em Flávio” poderia gerar reação nacionalista. Mas tarifas, pressão sobre sistemas digitais, enquadramento do crime organizado e discursos de segurança podem produzir efeitos eleitorais sem parecer campanha direta.

Antonio Gramsci ajuda a compreender esse processo. O poder não se sustenta apenas pela coerção, mas pela construção de hegemonia: isto é, pela capacidade de fazer uma visão de mundo parecer natural, inevitável e moralmente superior (Gramsci, 2002). Se a extrema direita consegue fazer o eleitor acreditar que submissão aos EUA é “pragmatismo”, que pressão estrangeira é “consequência da incompetência de Lula” e que alinhamento com Trump é “respeito internacional”, ela desloca o senso comum nacional.

A guerra política, portanto, é também guerra pela interpretação dos fatos.


7. Tarifas, Pix e soberania digital

As tarifas propostas pela administração Trump contra produtos brasileiros não podem ser vistas apenas como disputa comercial. Elas compõem uma linguagem de poder. Quando os EUA usam instrumentos como a Seção 301 para acusar práticas brasileiras de serem injustas em áreas como comércio digital, propriedade intelectual, serviços de pagamento eletrônico e meio ambiente, não estão apenas defendendo empresas. Estão afirmando que têm autoridade para julgar políticas nacionais de outro país conforme seus próprios interesses (USTR, 2026; Reuters, 2026a).

O Pix, nesse contexto, é símbolo central. Ele não é apenas um mecanismo de transferência bancária. É uma infraestrutura pública brasileira, criada e regulada pelo Banco Central, que reduziu custos de transação, ampliou inclusão financeira, fortaleceu pequenos negócios e diminuiu dependência de intermediários privados. O Pix é soberania digital no cotidiano.

Quando serviços de pagamento eletrônico entram na mira de uma investigação comercial norte-americana, o assunto deixa de ser técnico. Passa a ser político. Quem controla as infraestruturas por onde circula o dinheiro do povo? O Estado brasileiro? Bancos privados? Big techs? Empresas estrangeiras? Plataformas financeiras globais?

Joseph Nye popularizou o conceito de “poder brando” para explicar que as grandes potências não dominam apenas pela força militar, mas também pela capacidade de atrair, convencer, moldar preferências e definir padrões (Nye, 2004). No século XXI, poder brando e poder duro se misturam em plataformas digitais, infraestrutura financeira, propriedade intelectual, redes sociais, sistemas de pagamento, padrões tecnológicos e controle de dados.

Nesse sentido, o Pix incomoda porque mostra que o Estado brasileiro pode criar uma infraestrutura pública eficiente, massiva e popular fora do controle direto das grandes corporações financeiras internacionais. É tecnologia pública funcionando bem. E tecnologia pública bem-sucedida em país periférico é sempre politicamente perigosa para quem lucra com a dependência.

A defesa do Pix, portanto, não é apenas defesa de uma ferramenta. É defesa da capacidade brasileira de produzir soluções próprias.


8. PCC, Comando Vermelho e o uso eleitoral da segurança pública

O crime organizado é um problema real e gravíssimo. PCC e Comando Vermelho devem ser combatidos com inteligência, investigação financeira, cooperação internacional, controle de fronteiras, bloqueio patrimonial, ação policial qualificada, reforma prisional e presença do Estado nos territórios. Não há espaço para romantização do crime.

Mas combater o crime não significa aceitar que uma potência estrangeira defina unilateralmente o enquadramento jurídico da segurança pública brasileira. Quando os EUA classificam facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras, deslocam o tema do campo criminal para o campo da segurança internacional. Isso cria consequências jurídicas, diplomáticas e econômicas.

A Reuters registrou que autoridades brasileiras temem que essa designação prejudique a cooperação policial, torne investigações mais sigilosas, aumente riscos de sanções e abra margem para ações encobertas ou militares em território nacional (Reuters, 2026b).

O problema é evidente: uma política pública brasileira passa a ser atravessada por uma categoria jurídica definida fora do Brasil.

Além disso, a medida cria uma armadilha discursiva para Lula. Se critica a decisão dos EUA, pode ser acusado pela extrema direita de “defender criminosos”. Se aceita a decisão, legitima a ingerência externa. Se tenta explicar a diferença entre crime organizado e terrorismo, corre o risco de ser atropelado pela linguagem simplificada do medo.

Aqui aparece uma das grandes técnicas do autoritarismo moderno: reduzir problemas complexos a escolhas morais falsas. Ou se aceita a tutela estrangeira em nome do combate ao crime, ou se é acusado de proteger criminosos. A inteligência política desaparece. A nuance vira suspeita. A soberania vira “passar pano”. O medo ocupa o lugar da razão.

Mas a pergunta verdadeira é outra: segurança pública brasileira deve ser política de Estado brasileiro ou instrumento da política externa norte-americana?


9. O medo como tecnologia eleitoral

O medo sempre foi uma ferramenta de poder. Ele reduz a reflexão, simplifica dilemas, cria inimigos, acelera decisões e torna aceitáveis propostas que, em tempos normais, seriam vistas como perigosas.

Uma possível estratégia de interferência indireta nas eleições brasileiras não precisaria manipular urnas. Bastaria manipular o ambiente emocional do voto. Para isso, alguns temas são especialmente eficientes: crime organizado, insegurança, crise econômica, tarifas, ameaça ao Pix, China, comunismo, corrupção, narcoterrorismo, migração, Amazônia e suposta fraqueza do governo.

O roteiro é conhecido. Primeiro, amplia-se a sensação de ameaça. Depois, acusa-se o governo de incapacidade ou cumplicidade. Em seguida, apresenta-se um candidato forte, alinhado a uma potência poderosa, como única solução possível.

A política do medo não vende apenas um candidato. Ela vende primeiro o pânico que torna esse candidato aceitável.

Noam Chomsky, ao analisar a fabricação do consenso, mostrou como sistemas midiáticos e estruturas de poder podem organizar a percepção pública, definindo quais temas importam, quais ameaças devem ser temidas e quais interesses aparecem como “naturais” (Chomsky; Herman, 2003). No século XXI, essa fabricação do consenso não ocorre apenas por jornais e televisões. Ela passa por plataformas digitais, algoritmos, influenciadores, cortes de vídeo, memes, deepfakes, microsegmentação e inteligência artificial.

Em 2026, esse processo pode ser amplificado por IA, perfis falsos, vídeos manipulados e campanhas transnacionais. O Tribunal Superior Eleitoral reconheceu a desinformação como prioridade e atualizou regras sobre o uso de IA na propaganda eleitoral (TSE, 2026). Isso revela que a disputa eleitoral deixou de ser apenas disputa de propostas. Tornou-se também disputa de infraestrutura informacional.

Quem domina o medo domina parte da percepção pública. E quem domina a percepção pública pode deslocar o voto antes mesmo que o debate racional comece.


10. O falso nacionalismo e a pedagogia da submissão

Diante da acusação de subordinação a Trump, é provável que Flávio Bolsonaro tente adotar um discurso nacionalista. Essa seria uma jogada previsível: vestir o alinhamento com os EUA com linguagem de defesa do Brasil.

O argumento poderia ser: “não sou submisso; estou usando minha relação com Trump para defender o Brasil contra o crime, contra o isolamento internacional e contra o caos econômico”. A aproximação com Washington deixaria de ser apresentada como dependência e passaria a ser vendida como pragmatismo patriótico.

Mas existe uma diferença profunda entre nacionalismo real e nacionalismo performático. O nacionalismo real defende indústria, ciência, tecnologia, educação, soberania digital, Amazônia, defesa nacional, integração regional, democracia e autonomia diplomática. O nacionalismo performático usa bandeira, hino, Deus, família e ordem, mas aceita que uma potência estrangeira pressione o próprio país.

A pergunta que desmonta esse falso nacionalismo é simples: quando os interesses do Brasil entrarem em choque com os interesses dos EUA, de que lado ficará o candidato?

Patriotismo não é tirar foto com Trump. Patriotismo é defender o Brasil diante de Trump. Nacionalismo não é pedir ajuda estrangeira contra o próprio governo. Nacionalismo é impedir que qualquer governo estrangeiro interfira na decisão do povo brasileiro.

Existe uma pedagogia da submissão no falso nacionalismo. Ela ensina o povo a confundir dependência com proteção, obediência com maturidade, alinhamento automático com respeitabilidade internacional. É o colonizado dizendo: “seremos fortes quando formos aceitos pelo senhor”.

Paulo Freire chamaria isso de consciência ingênua: uma percepção incapaz de compreender as estruturas que produzem a própria opressão (Freire, 1987). A consciência crítica, ao contrário, pergunta: quem se beneficia dessa narrativa? Quem ganha quando o Brasil acredita que precisa agradar Washington para ser respeitado? Quem lucra quando confundimos soberania com submissão bem-comportada?

Nesse sentido, a categoria “entreguismo” volta ao debate público. Ela não deve ser usada como xingamento fácil, mas como conceito político. Entreguista é quem aceita subordinar interesses nacionais a uma potência externa, especialmente quando transforma pressão estrangeira contra o próprio país em vantagem eleitoral.


11. Lula, soberania nacional e política externa autônoma

No contexto atual, Lula tem se posicionado como defensor da soberania nacional diante das pressões de Trump. Isso não significa que sua política externa seja perfeita, nem que não possa ser criticada. Mas, no eixo central da disputa — autonomia brasileira diante dos EUA — sua postura tem sido de resistência.

Ao criticar tarifas unilaterais, rejeitar a tutela norte-americana sobre temas de segurança pública e defender uma política externa multipolar, Lula afirma que o Brasil não deve aceitar alinhamento automático. Essa postura incomoda Washington porque recoloca Brasília como sujeito, não como satélite.

A política externa brasileira, em sua melhor tradição, não precisa ser antiamericana. Precisa ser brasileira. Deve cooperar com os EUA quando houver interesse nacional, dialogar com a China sem submissão, fortalecer o Mercosul, ampliar presença no Sul Global, defender a Amazônia com soberania e participar de organismos multilaterais sem aceitar tutela.

Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e outros formuladores da política externa brasileira insistiram, em diferentes momentos, que a autonomia não é isolamento. Autonomia é capacidade de decidir. Um país autônomo conversa com todos, mas não aceita que outro país defina seus limites.

O dilema brasileiro não é escolher entre EUA e China. O dilema é escolher entre autonomia e dependência. Um país soberano negocia com todos, mas não obedece automaticamente a ninguém.

É por isso que a defesa de Lula, nesse ponto, não deve ser apenas partidária. Deve ser formulada como defesa do princípio republicano da soberania: a eleição brasileira pertence ao povo brasileiro, não a Washington, Pequim, Moscou, Bruxelas ou qualquer outro centro externo de poder.


12. Consciência nacional: o campo de batalha mais profundo

A luta pela soberania começa antes da economia, antes da diplomacia e antes da defesa militar. Começa na consciência.

Um país pode ter território, bandeira, hino e Constituição, mas continuar mentalmente colonizado. Isso ocorre quando suas elites acreditam que tudo que vem de fora é superior; quando seus formadores de opinião tratam a soberania como atraso; quando seus economistas confundem dependência com eficiência; quando seus políticos procuram chancela estrangeira para vencer disputas internas; quando seu povo é convencido de que defender o Brasil é “ideologia”, mas obedecer a Washington é “pragmatismo”.

A colonialidade mais profunda não está apenas no comércio exterior. Está na imaginação política.

Fanon compreendeu que a dominação colonial produz subjetividades dependentes: sujeitos que passam a enxergar o mundo com os olhos do dominador (Fanon, 1968). Paulo Freire mostrou que a libertação exige leitura crítica da realidade, ou seja, capacidade de perceber que o mundo social não é destino natural, mas construção histórica (Freire, 1987).

Aplicado ao Brasil, isso significa que soberania não pode ser apenas palavra de gabinete. Precisa virar educação popular, formação política, currículo escolar, debate público, jornalismo, cultura, ciência, tecnologia e projeto nacional.

A pergunta fundamental é: o povo brasileiro sabe reconhecer quando uma potência estrangeira está usando seu medo para influenciar sua escolha política?

Se não souber, estará vulnerável.

Por isso, soberania é também alfabetização geopolítica. O cidadão precisa entender como tarifas podem funcionar como pressão política; como plataformas digitais podem influenciar eleições; como sistemas de pagamento são infraestruturas estratégicas; como a segurança pública pode ser usada para justificar ingerência; como a dependência tecnológica reduz autonomia; como elites internas podem operar como intermediárias de interesses externos.

Sem consciência nacional, o país pode ser dominado sem perceber. Pode chamar de “modernização” aquilo que é captura. Pode chamar de “parceria” aquilo que é subordinação. Pode chamar de “patriotismo” aquilo que é entreguismo.


13. Defesa integral: o que o Brasil precisa construir

Se o Brasil quer deixar de ser vulnerável às investidas externas, precisa construir uma defesa integral. Não basta retórica. Soberania se organiza.

A primeira frente é a defesa eleitoral. É preciso fiscalizar financiamento externo, impulsionamento digital, redes coordenadas, uso abusivo de IA, deepfakes, lobby internacional e qualquer tentativa de transformar sanções ou tarifas em arma eleitoral.

A segunda é a defesa tecnológica. O Brasil precisa investir em inteligência artificial nacional, nuvem soberana, data centers brasileiros, semicondutores, softwares públicos, criptografia, cibersegurança, satélites e proteção de dados estratégicos. Um país que depende integralmente de infraestrutura digital estrangeira pode ser pressionado sem que um tiro seja disparado.

A terceira é a defesa econômica. Reindustrialização não é nostalgia desenvolvimentista. É necessidade estratégica. O Brasil precisa produzir mais tecnologia, reduzir dependências críticas, fortalecer cadeias produtivas nacionais, apoiar a indústria da saúde, fertilizantes, defesa, máquinas, energia, biotecnologia e equipamentos digitais.

A quarta é a defesa social. Um país desigual é vulnerável à manipulação. Pobreza, medo, ressentimento e abandono territorial são matéria-prima para o autoritarismo. Soberania exige educação, saúde, emprego, segurança alimentar, inclusão digital e presença do Estado.

A quinta é a defesa militar, mas sob controle civil. O Brasil precisa de Forças Armadas modernas, tecnológicas, constitucionais e subordinadas ao poder civil. Defesa nacional não pode ser confundida com tutela militar sobre a política. A ditadura ensinou que militarismo interno ameaça a democracia; mas a história mundial ensina que país sem defesa externa se torna vulnerável. A síntese correta é: Forças Armadas fortes para defender a Pátria, jamais para governar a Pátria.

A sexta é a defesa jurídica. O Brasil precisa responder a sanções abusivas, extraterritorialidade jurídica, classificações unilaterais e pressões comerciais com Itamaraty, AGU, Congresso, OMC, ONU, Mercosul e alianças internacionais.

A sétima é a defesa cultural. É preciso romper a mentalidade colonial de parte das elites brasileiras, que confundem modernidade com submissão aos EUA. O Brasil deve aprender com todos, mas se ajoelhar diante de ninguém.

Essa defesa integral não é militarização da sociedade. É organização democrática da soberania.


14. Soberania latino-americana: o papel histórico do Brasil

A soberania brasileira só será plenamente segura se estiver articulada à soberania latino-americana. Um Brasil isolado pode ser pressionado. Uma América Latina integrada pode negociar.

O Brasil tem papel fundamental nesse processo, mas deve exercê-lo sem arrogância. Não pode substituir a tutela norte-americana por uma tutela brasileira. Seu papel deve ser cooperativo: articular integração produtiva, energética, científica, tecnológica, financeira, ambiental e defensiva.

A América Latina precisa deixar de ser região de extração e passar a ser região de decisão. Exportar soja, minério, petróleo, carne e lítio enquanto importa chips, máquinas, medicamentos, softwares e tecnologia de alto valor agregado é perpetuar a dependência. A CEPAL tem insistido que a região precisa fortalecer políticas de desenvolvimento produtivo para superar o baixo dinamismo estrutural e ampliar capacidade tecnológica (CEPAL, 2025).

A integração latino-americana deve ser concreta: infraestrutura regional, cadeias industriais, cooperação em saúde, defesa cibernética, sistemas de pagamento, comércio em moedas locais, bancos de desenvolvimento, universidades em rede, proteção da Amazônia, combate ao crime transnacional e posição conjunta contra sanções abusivas.

A Amazônia, nesse contexto, é símbolo maior. Defendê-la significa protegê-la da destruição interna e da tutela externa. Soberania não é devastar em nome da pátria; também não é entregar em nome do ambientalismo internacional. Soberania é preservar, desenvolver ciência, proteger povos, combater crime ambiental e mostrar que o Brasil e seus vizinhos cuidam melhor da floresta do que qualquer potência estrangeira cuidaria.

A soberania latino-americana não deve ser anti-EUA, anti-China ou anti-Europa. Deve ser pró-América Latina. A região precisa dialogar com todos e subordinar-se a ninguém.


15. Conclusão crítica

O Brasil vive uma encruzilhada histórica. De um lado, está a possibilidade de aprofundar uma política externa soberana, multipolar, latino-americana, democrática e tecnologicamente autônoma. De outro, está o risco de retorno a uma condição semicolonial, na qual setores internos tratam a aprovação de Washington como certificado de legitimidade política.

O trumpismo não inventou a lógica imperial dos EUA, mas a tornou mais explícita. A Doutrina Monroe, agora atualizada em linguagem de segurança nacional, tarifas, comércio digital, narcoterrorismo e contenção da China, recoloca a América Latina como espaço de disputa. O Brasil, por seu tamanho e autonomia, torna-se alvo central. E o bolsonarismo, especialmente na figura de Flávio Bolsonaro, aparece como possível vetor interno dessa estratégia de enquadramento.

A intervenção contemporânea não precisa ser escandalosa. Pode operar como pânico. Pode fazer o povo acreditar que o país está isolado, que o crime tomou conta, que o Pix está ameaçado, que a economia será punida, que Lula provocou os EUA, que só um aliado de Trump pode salvar o Brasil. Esse é o perigo: transformar a pressão estrangeira contra o país em argumento eleitoral contra quem tenta defender a soberania nacional.

A resposta brasileira precisa ser madura. Não deve ser ódio aos EUA. Deve ser fim da ingenuidade. O povo norte-americano não é inimigo do Brasil. Mas o Estado norte-americano, quando age como potência imperial, pode se tornar adversário dos interesses brasileiros. Reconhecer isso não é extremismo. É lucidez geopolítica.

O Brasil não precisa escolher entre submissão e isolamento. Precisa escolher soberania. E soberania, no século XXI, significa muito mais do que discurso patriótico. Significa Pix protegido, IA nacional, indústria forte, Amazônia preservada, Forças Armadas constitucionais, sistema eleitoral blindado, plataformas reguladas, povo educado, ciência financiada, integração latino-americana e política externa altiva.

A frase final é simples: o Brasil não precisa ser inimigo dos Estados Unidos; precisa deixar claro que não será empregado deles. Parceria, sim. Submissão, não. Cooperação, sim. Tutela, jamais.

Porque um país que aceita que outro produza seu medo, escolha seus inimigos e discipline sua economia já perdeu parte de sua soberania antes mesmo de perceber.


16. Referências

ASSOCIATED PRESS. Experts say US targeting of Brazilian gangs is an attempt to sway election there. Associated Press, 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/6ef4f1467c6afb55fc2daf45ae6d3875. Acesso em: 7 jun. 2026.

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CEPAL. Panorama of productive development policies in Latin America and the Caribbean 2025. Santiago: Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, 2025. Disponível em: https://www.cepal.org. Acesso em: 7 jun. 2026.

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