A família Bolsonaro, a soberania negociada e o patriotismo que trata o povo brasileiro como idiota
Por Eduardo Vasconcelos
O Brasil não é uma fotografia imóvel, muito menos uma propriedade de famílias políticas. É uma construção histórica contraditória, produzida por povos originários, africanos escravizados, imigrantes, trabalhadores urbanos e rurais, mulheres, homens, comunidades tradicionais e milhões de brasileiros cujas diferenças religiosas, regionais, étnicas, culturais e políticas não cabem em um único projeto de identidade.
Nossa nacionalidade foi construída com grandezas e misérias, acertos e erros, gestos de coragem e períodos de covardia institucional. Carrega a violência da escravidão e a luta pela abolição; o autoritarismo e a resistência democrática; a desigualdade persistente e a busca por direitos; a concentração da riqueza e uma capacidade extraordinária de produzir cultura, ciência, trabalho e solidariedade.
Não é preciso fingir que o Brasil sempre esteve certo para defendê-lo.
Amar um país não é negar suas injustiças. É reconhecer que elas devem ser enfrentadas por seu povo, por suas instituições e pelos instrumentos da democracia. O que nenhum brasileiro pode aceitar é que as contradições nacionais sejam utilizadas como pretexto para colocar nossa soberania nas mãos de governos estrangeiros.
As nações devem respeitar umas às outras. O Brasil deve manter relações diplomáticas com os Estados Unidos, a Argentina, a China, a União Europeia e todos os países dispostos à cooperação. Relações internacionais não são favores entre amigos ideológicos. São vínculos entre Estados soberanos, regidos por interesses legítimos, reciprocidade e respeito institucional.
Um governante que despreza outras nações não está à altura da responsabilidade de governar. E um político brasileiro que despreza a própria nação, aceita que ela seja economicamente punida ou busca padrinhos estrangeiros para vencer disputas domésticas não merece governá-la.
É justamente nesse ponto que a trajetória recente da família Bolsonaro assume contornos politicamente intoleráveis.
O nacionalismo que termina na alfândega
Durante anos, Jair Bolsonaro e seus filhos transformaram a bandeira, o hino, a camisa da seleção e as Forças Armadas em objetos de apropriação partidária. Tentaram convencer o país de que ser patriota significava apoiar a família Bolsonaro.
Quem discordasse seria comunista, inimigo da pátria, defensor da Venezuela ou cúmplice de uma conspiração imaginária contra o Brasil.
A propaganda era simples: eles seriam o Brasil; os adversários seriam a ameaça.
Mas o teste verdadeiro do patriotismo não acontece no palanque. Acontece quando o interesse pessoal entra em conflito com o interesse nacional.
É nessa hora que as fantasias se desfazem.
Quando o país enfrenta tarifas, pressões políticas e ameaças externas, espera-se de qualquer liderança brasileira uma reação inequívoca: o Brasil vem primeiro. Divergências internas devem ser enfrentadas internamente. Eleições devem ser disputadas com votos. Decisões judiciais devem ser contestadas por recursos. Leis devem ser modificadas pelo Congresso.
O que não se pode admitir é a tentativa de recorrer a governos estrangeiros para constranger instituições brasileiras ou produzir custos econômicos contra a população.
Esse limite foi rompido.
Eduardo Bolsonaro: liberdade para si, pressão para o Brasil
Eduardo Bolsonaro deixou o Brasil e passou a viver nos Estados Unidos em 2025. Em julho de 2026, confirmou ter obtido residência permanente norte-americana, o chamado green card, pela categoria EB-1A. Disse que buscava proteção contra aquilo que classifica como perseguição do Supremo Tribunal Federal. A Reuters registrou também que Eduardo condicionou uma eventual volta ao Brasil à concessão de anistia. (Reuters)
A contradição é brutal.
O homem que fez carreira apresentando-se como representante de um nacionalismo intransigente procura estabilidade jurídica e residencial em outro país enquanto participa da internacionalização de conflitos políticos brasileiros.
Não há problema moral em um brasileiro morar no exterior ou obter residência em outro país. Milhões fazem isso legitimamente. O problema está na distância entre a propaganda e a prática.
Eduardo não é um imigrante comum procurando trabalho ou reunificação familiar. É um agente político que se projetou proclamando fidelidade absoluta à pátria e acusando adversários de submissão estrangeira. Ao mesmo tempo, procurou apoio de autoridades norte-americanas contra instituições do próprio Brasil e agora assegurou para si o direito de permanecer nos Estados Unidos.
A retórica era nacionalista. A saída encontrada foi estrangeira.
A liberdade reivindicada para Eduardo vem acompanhada da possibilidade de consequências comerciais para trabalhadores e empresas que ficaram no Brasil.
Ele obtém o green card. O trabalhador brasileiro recebe a tarifa.
Ele conquista segurança residencial. O exportador brasileiro enfrenta incerteza.
Ele se protege em território estrangeiro. A economia nacional é colocada sob pressão.
O Brasil real paga o custo do patriotismo cenográfico.
As tarifas não atingem ministros; atingem trabalhadores
Em julho de 2026, o governo dos Estados Unidos anunciou novas tarifas de 25% sobre parte relevante dos produtos brasileiros. A medida atingiu milhares de itens, embora setores importantes tenham recebido exceções. A disputa rapidamente entrou no centro da eleição presidencial e passou a ser utilizada por Lula e Flávio Bolsonaro para atribuição recíproca de responsabilidades. (Reuters)
Uma tarifa não é uma abstração diplomática.
Ela pode reduzir encomendas, diminuir margens, suspender investimentos, fechar turnos industriais e destruir empregos. Atinge fabricantes de máquinas, produtores rurais, trabalhadores de fábricas, transportadores, fornecedores, municípios exportadores e famílias inteiras.
O verdadeiro patriota não comemora a dificuldade comercial do próprio país porque ela pode prejudicar o presidente de quem não gosta.
Não admite que o sofrimento econômico nacional seja utilizado como instrumento para obter anistia, pressionar tribunais ou alterar o resultado de uma disputa doméstica.
É legítimo criticar a política comercial do governo Lula. É legítimo questionar a competência de seus negociadores. É legítimo discordar da política externa brasileira.
O que não é legítimo é desejar que o país fracasse para que uma família política volte ao poder.
Governos passam. Empresas, trabalhadores e comunidades permanecem com os prejuízos.
O subsolo brasileiro não é moeda de troca familiar
O Brasil possui reservas expressivas de terras raras e outros minerais críticos. Esses recursos são fundamentais para motores elétricos, turbinas eólicas, eletrônica avançada, telecomunicações, sistemas de defesa e cadeias tecnológicas que definirão a economia das próximas décadas.
O valor dessas reservas não pode ser calculado apenas pelo preço do minério extraído.
Elas valem também:
a tecnologia que pode ser desenvolvida;
as indústrias que podem ser instaladas;
os pesquisadores que podem ser formados;
os empregos qualificados que podem ser criados;
a autonomia energética e tecnológica que podem proporcionar;
e o poder de negociação internacional que conferem ao país.
A história econômica brasileira é marcada pela exportação de riquezas naturais com baixo valor agregado e pela posterior importação de produtos industrializados fabricados a partir dessas mesmas riquezas.
Exportamos a matéria. Compramos de volta a inteligência incorporada.
O Brasil não pode repetir esse roteiro colonial com os minerais estratégicos do século XXI.
Parcerias internacionais são necessárias. Os Estados Unidos têm interesse legítimo em diversificar seus fornecedores e reduzir dependências externas. O Brasil, por sua vez, precisa de investimentos, tecnologia e mercados.
Mas uma parceria soberana exige processamento mineral em território brasileiro, transferência tecnológica, proteção ambiental, participação de empresas nacionais, pesquisa científica e distribuição equilibrada dos benefícios.
O que não se pode aceitar é a apresentação antecipada das terras raras como presente diplomático ou moeda de aproximação com Washington.
Recursos que pertencem à nação não podem ser oferecidos para comprar simpatia por uma candidatura, proteção para uma família ou interferência em processos internos.
O subsolo brasileiro não pertence aos Bolsonaro.
Também não pertence ao governo Lula.
Pertence ao Brasil.
Flávio Bolsonaro e a terceirização da candidatura
Flávio Bolsonaro procura agora apoio político do presidente argentino Javier Milei. Milei recebeu Flávio em Buenos Aires, manifestou respaldo à sua candidatura presidencial e anunciou a intenção de comparecer à convenção do PL no Brasil. Também pretendia visitar Jair Bolsonaro, mas a visita foi impedida por decisão judicial em razão das restrições impostas ao ex-presidente. (El País)
O problema não é um candidato brasileiro conversar com um presidente estrangeiro.
Líderes políticos mantêm relações internacionais. Partidos integram redes ideológicas transnacionais. Apoios simbólicos entre dirigentes existem em todo o mundo.
A incoerência surge quando um candidato que se apresenta como encarnação da soberania nacional parece depender continuamente da chancela de governantes estrangeiros.
Primeiro, Washington.
Agora, Buenos Aires.
A candidatura que promete devolver o Brasil aos brasileiros procura legitimidade fora do Brasil.
Flávio deveria apresentar ao eleitor nacional um programa para emprego, renda, educação, saúde, segurança pública, indústria, ciência, meio ambiente e inserção internacional. Em vez disso, tenta importar o prestígio de Milei e herdar o capital político do pai.
Isso não demonstra estatura de estadista. Demonstra dependência.
Um candidato à Presidência precisa estar preparado para representar mais de duzentos milhões de brasileiros, inclusive aqueles que nunca votarão nele. Precisa compreender a complexidade de um país continental e plural. Precisa dialogar com governadores, Congresso, Judiciário, empresários, trabalhadores, universidades, movimentos sociais e comunidades tradicionais.
A Presidência não é extensão de uma guerra familiar.
O Brasil não pode ser administrado como grupo de mensagens.
A reunião com embaixadores e a reciclagem da mentira
Flávio Bolsonaro repetiu recentemente um gesto que se tornou símbolo da degradação institucional promovida por seu pai: levou a embaixadores informações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Segundo reportagem publicada em 21 de julho de 2026, o senador levantou suspeitas contra uma empresa venezuelana que não fornece urnas eletrônicas ao Brasil, reproduzindo uma associação enganosa para desacreditar o processo eleitoral. (Folha de S.Paulo)
Não se trata de um erro técnico inocente.
A mentira sobre as urnas já produziu consequências graves para a democracia brasileira. Foi utilizada para preparar a rejeição antecipada de resultados, atacar o Tribunal Superior Eleitoral, alimentar teorias conspiratórias e convencer parte da população de que somente uma vitória bolsonarista poderia ser legítima.
Repetir essa estratégia diante de representantes estrangeiros revela um método.
A mentira não é apresentada apenas ao eleitor brasileiro. É exportada.
Busca-se fabricar no exterior uma narrativa segundo a qual a democracia brasileira seria suspeita, o sistema eleitoral seria vulnerável e a família Bolsonaro seria vítima de instituições autoritárias.
O objetivo político é evidente: se Flávio perder, a fraude já estará insinuada; se vencer, o sistema subitamente voltará a ser confiável.
Essa lógica considera o povo brasileiro incapaz de perceber a manipulação.
O eleitor é tratado como alguém que deve esquecer que as mesmas urnas que elegem adversários elegem deputados, senadores e governadores bolsonaristas.
Quando o resultado favorece a família, a eleição vale.
Quando contraria a família, a eleição é atacada.
Isso não é convicção. É oportunismo.
A mentira como método político
Não é possível, em um único artigo, enumerar todas as declarações falsas, distorções e promessas contraditórias associadas à família Bolsonaro. Mas é possível identificar um padrão.
Durante anos, o bolsonarismo afirmou defender a liberdade enquanto atacava jornalistas, universidades, artistas e instituições de controle.
Disse defender a Constituição enquanto alimentava manifestações que pediam intervenção militar e fechamento do Supremo.
Proclamou combate à corrupção enquanto transformava qualquer investigação contra aliados ou familiares em perseguição.
Apresentou-se como inimigo da velha política enquanto negociava com seus métodos, distribuía cargos e construía alianças com o centrão.
Jurou fidelidade ao Brasil enquanto recorria ao apoio político de governos estrangeiros.
Acusou adversários de globalismo enquanto estabelecia uma rede internacional de extrema direita.
Defendeu a família como valor universal enquanto converteu a própria família em projeto de poder.
A mentira mais profunda não está em uma única frase falsa. Está na tentativa de fazer o povo acreditar que o interesse dos Bolsonaro coincide necessariamente com o interesse do Brasil.
Não coincide.
Uma família pode perder uma eleição sem que o Brasil desapareça.
Um integrante pode ser investigado sem que a liberdade nacional esteja ameaçada.
Um ex-presidente pode ser responsabilizado sem que isso constitua perseguição contra todos os conservadores.
Uma candidatura pode fracassar sem que as urnas tenham sido fraudadas.
A democracia existe justamente para separar a continuidade do país da permanência de uma família no poder.
O povo brasileiro não é idiota
O bolsonarismo frequentemente fala em nome do “povo” enquanto o trata como massa de manobra.
Considera que o brasileiro esquecerá uma afirmação assim que outra narrativa for lançada.
Supõe que ninguém perceberá a contradição entre soberania e interferência estrangeira.
Acredita que bastará vestir verde e amarelo para transformar submissão em patriotismo.
Confia que palavras como Deus, família, liberdade e pátria dispensarão qualquer compromisso com a verdade.
Esse tratamento é ofensivo.
O povo brasileiro é diverso, inteligente e capaz de compreender diferenças políticas. Não precisa concordar sobre tudo. Pode escolher a direita, o centro ou a esquerda. Pode apoiar ou rejeitar Lula. Pode defender posições conservadoras sem se submeter à família Bolsonaro.
O conservadorismo brasileiro não pertence aos Bolsonaro.
O cristianismo não pertence aos Bolsonaro.
A bandeira nacional não pertence aos Bolsonaro.
A crítica ao governo Lula não pertence aos Bolsonaro.
É possível ser oposição sem atacar o Brasil.
É possível defender valores tradicionais sem mentir sobre urnas.
É possível manter relações com os Estados Unidos sem pedir tutela.
É possível dialogar com Milei sem transformar o presidente argentino em cabo eleitoral de uma candidatura brasileira.
O que não é possível é exigir que o eleitor confunda devoção familiar com amor ao país.
Milei não vota no Brasil
Javier Milei é presidente da Argentina e deve responder, em primeiro lugar, ao povo argentino. Pode ter afinidade ideológica com Flávio Bolsonaro, mas não conhece melhor o interesse brasileiro do que os cidadãos que vivem, trabalham e pagam impostos aqui.
Milei não enfrentará as consequências cotidianas das escolhas feitas pelo próximo presidente do Brasil.
Não utilizará nosso sistema público de saúde.
Não dependerá de nossas escolas.
Não sofrerá diretamente com o desemprego brasileiro.
Não pagará a conta das tarifas impostas aos nossos produtos.
Não decidirá soberanamente sobre nossas terras raras.
Milei não vota no Brasil.
Trump não vota no Brasil.
Nenhum presidente estrangeiro vota no Brasil.
A escolha pertence aos brasileiros.
Buscar apoio externo como complemento diplomático é uma coisa. Utilizar lideranças estrangeiras como certificados de legitimidade é outra.
Um candidato que precisa ser validado por Washington ou Buenos Aires antes de ser reconhecido pelo próprio país demonstra não compreender a fonte constitucional do poder que pretende exercer.
Todo poder emana do povo brasileiro, não de presidentes estrangeiros.
Flávio Bolsonaro não é o Brasil
Chamar uma pessoa de “catástrofe” pode expressar indignação, mas a crítica política torna-se mais poderosa quando demonstra onde está o perigo.
Flávio Bolsonaro representa uma ameaça política não porque possua uma essência pessoal catastrófica, mas porque sua candidatura reúne elementos profundamente danosos:
a continuidade de uma dinastia familiar;
a repetição de desinformação eleitoral;
a tentativa de desacreditar previamente as urnas;
a dependência simbólica de líderes estrangeiros;
a transformação de problemas jurídicos familiares em questões nacionais;
e a disposição de tratar a soberania como instrumento de campanha.
A catástrofe seria permitir que essa lógica chegasse novamente ao comando do Estado brasileiro.
Seria normalizar a ideia de que o país deve servir à família.
Seria aceitar que relações exteriores funcionem como canais de pressão sobre tribunais.
Seria reduzir a Presidência a mecanismo de autoproteção.
Seria entregar a política comercial e os recursos estratégicos às conveniências de uma guerra ideológica internacional.
Flávio Bolsonaro não é o Brasil.
Sua família não é a nação.
Seus problemas não são os problemas constitutivos de todo o povo.
Sua candidatura deve ser julgada por seus atos, suas propostas, suas contradições e suas alianças — não pela mitologia construída em torno do sobrenome.
Respeito entre as nações
A defesa da soberania brasileira não exige hostilidade contra os Estados Unidos ou a Argentina.
O povo norte-americano não é responsável pelas ambições da família Bolsonaro. O povo argentino não pode ser confundido com Javier Milei. Assim como o Brasil não se resume a Lula, Bolsonaro ou Flávio, nenhuma sociedade deve ser reduzida ao governante do momento.
O respeito internacional precisa ser recíproco.
O Brasil deve respeitar as escolhas soberanas dos argentinos, mesmo quando discorda delas. A Argentina deve respeitar o processo eleitoral e as instituições brasileiras.
O Brasil deve negociar com os Estados Unidos de maneira firme e pragmática. Os Estados Unidos devem reconhecer que divergências políticas não autorizam o uso de sanções e tarifas como mecanismos de interferência.
Governantes que humilham outras nações não demonstram força. Revelam incapacidade diplomática.
E políticos brasileiros que ajudam a expor o próprio país à humilhação externa não demonstram patriotismo. Demonstram desprezo pela comunidade política que pretendem governar.
O Brasil brasileiro
Defender o Brasil brasileiro significa defender um país que não pertence exclusivamente a uma religião, a uma região, a uma classe social, a uma cor, a uma ideologia ou a um sobrenome.
É defender o Brasil indígena, negro, branco, mestiço e imigrante.
O Brasil católico, evangélico, espírita, de religiões de matriz africana, judeu, muçulmano, agnóstico e ateu.
O Brasil do agronegócio e da agricultura familiar.
Da indústria e dos serviços.
Dos empresários e dos trabalhadores.
Das metrópoles e do interior.
Da Amazônia, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul.
Um presidente da República não governa apenas seus seguidores. Governa todos.
Quem só reconhece como brasileiro aquele que pensa como seu grupo não compreendeu a República.
Quem classifica adversários como inimigos internos não está preparado para representar uma sociedade plural.
Quem precisa de ameaças externas para resolver conflitos nacionais não compreendeu a soberania.
O Brasil brasileiro é complexo demais para caber no projeto familiar dos Bolsonaro.
A soberania não está à venda
A nacionalidade brasileira foi construída com acertos e erros e continuará sendo reconstruída por gerações que discordarão entre si.
Podemos divergir sobre economia, costumes, segurança pública, política externa e organização do Estado.
Podemos criticar Lula, o Congresso, o Supremo, governadores e qualquer autoridade.
Podemos defender reformas profundas.
O que não podemos é entregar a outro país o direito de decidir nossos conflitos.
Não podemos aceitar que tarifas contra produtos brasileiros sejam celebradas como oportunidade eleitoral.
Não podemos permitir que terras raras e minerais estratégicos sejam tratados como presentes para conquistar apoio externo.
Não podemos admitir que presidentes estrangeiros sejam convocados como fiadores de candidaturas brasileiras.
Não podemos tolerar que mentiras sobre as urnas sejam apresentadas a diplomatas para fabricar desconfiança internacional.
E não podemos permitir que uma família trate o povo brasileiro como idiota, supondo que bandeiras, slogans e referências religiosas esconderão indefinidamente a contradição entre o discurso patriótico e a submissão prática.
Quem não respeita outras nações não está preparado para governar.
Quem não respeita a própria nação não merece governá-la.
O Brasil não pertence a Jair, Eduardo ou Flávio Bolsonaro. Também não pertence a Lula ou a qualquer outro governante.
O Brasil pertence aos brasileiros.
Nossa democracia pode errar. Nossas instituições podem falhar. Nossos governos podem decepcionar. Mas são os brasileiros que devem corrigir esses erros, por meio do voto, da Constituição, da Justiça, do debate público e da participação política.
Podemos errar na construção do Brasil.
O que não podemos é abdicar do direito de continuar construindo-o com nossas próprias mãos.
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