Quando políticos, juízes e comentaristas dizem “o povo brasileiro”, parece que estamos falando de um sujeito único, abstrato, sem cor, sem gênero e sem CEP. Mas os números mais recentes do IBGE, do Ipea, do Atlas da Violência e do Observatório das Desigualdades desmontam essa ficção em poucos cliques: o povo real de 2024–2025 é majoritariamente negro, fortemente feminizado na pobreza, concentrado em territórios específicos – Amazônia, Nordeste rural, periferias metropolitanas – e exposto de forma desigual à fome, ao desemprego, à violência e à morte evitável. Este texto da série “Quem é o povo, afinal?” mergulha nesses dados e mostra, quadro a quadro, por que falar em “povo” no singular é, muitas vezes, uma forma elegante de esconder quem sobra da cidadania plena.
1. Quem é o povo, de fato? (Quadro 1)
O ponto de partida é simples: quem compõe o povo brasileiro hoje, em termos de raça e gênero?
Quadro 1 – Estrutura da população brasileira segundo cor/raça e gênero (Censo 2022)
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Grupo |
População aproximada (milhões) |
% do total do país* |
|
Brancos |
88,2 |
43,5% |
|
Pardos |
92,1 |
45,3% |
|
Pretos |
20,6 |
10,2% |
|
Negros (pretos + pardos) |
112,7 |
56,0% |
|
IndÃgenas |
1,7 |
0,8% |
|
Amarelos |
0,85 |
0,4% |
|
Mulheres negras (pretas + pardas) |
> 57 |
~28-29% |
*Percentuais arredondados, com base no Censo 2022.
O Censo 2022 mostrou que o Brasil é um país majoritariamente negro (pretos + pardos somam 56% da população), com 43,5% de brancos e pouco mais de 1% de indígenas e amarelos. As mulheres negras sozinhas representam algo em torno de um terço do país. Em termos brutos, estamos falando de mais de 57 milhões de mulheres negras vivendo em um território marcado por desigualdades históricas. (IBGE, 2022).
Esse primeiro quadro já desloca o discurso: quando alguém fala em “povo brasileiro” e imagina mentalmente uma família branca de classe média do Sudeste, está projetando um povo-ícone, não o povo real. A maioria do país é preta ou parda, com forte concentração no Norte e no Nordeste. O mapa racial brasileiro – que poderia acompanhar o Quadro 1 – mostra um “cinturão negro” que corre do Norte amazônico ao Nordeste e às periferias das grandes metrópoles.
Esse dado inicial não é detalhe. Ele é a chave para tudo que vem depois: se o povo é majoritariamente negro, qualquer democracia que trate a população negra como resto está, na prática, governando contra o próprio povo.
2. Pobreza e território: onde o povo aperta o cinto (Quadro 2)
Os discursos oficiais falam em “melhora” da economia, recorde de renda média e queda da pobreza. Isso é verdade nos agregados, mas, como sempre, o diabo mora nos recortes.
A Síntese de Indicadores Sociais (SIS/IBGE 2024) mostra que:
- a proporção de pobres (pessoas com renda domiciliar per capita abaixo de R$ 665/mês) caiu de 31,6% em 2022 para 27,4% em 2023,
- a extrema pobreza (abaixo de R$ 209/mês) recuou de 5,9% para 4,4% no mesmo período,
- ainda assim, cerca de 59 milhões de pessoas permanecem na pobreza e 9,5 milhões na extrema pobreza (IBGE, 2024).
Quadro 2 – Pobreza e extrema pobreza (Brasil, 2022–2023)
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Indicador (linha BM) |
2022 |
2023 |
|
% da população abaixo da linha de pobreza (R$ 665/mês) |
31,6% |
27,4% |
|
Nº de pessoas pobres |
67,7 milhões |
59 milhões |
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% da população em extrema pobreza (R$ 209/mês) |
5,9% |
4,4% |
|
Nº de pessoas em extrema pobreza |
12,6 milhões |
9,5 milhões |
Aonde vive essa gente? Não é por acaso que os mapas da SIS/IBGE apontam:
- interior do Norte e do Nordeste como zonas críticas de pobreza, com áreas em que mais de 60% da população é pobre (Vale do Rio Purus, Baixada Maranhense etc.);
- arcos periféricos de metrópoles (entorno de Manaus, Brasília, Rio, Cuiabá) como bolsões de pobreza ao lado de ilhas de riqueza e serviços.
Quando se soma essa geografia com o recorte racial, o quadro se adensa: a maior parte dos pobres brasileiros é negra, vivendo em territórios onde a presença do Estado é frequentemente mais forte na polícia do que em políticas de saúde, educação e cultura. (OBSERVATÓRIO DAS DESIGUALDADES, 2024; IPEA, 2023).
Aqui, o povo não é uma abstração patriótica: é um corpo concreto, negro, situado, que precisa de transporte, escola, posto de saúde e renda mínima para sobreviver.
3. Trabalho, renda e a linha de cor e gênero (Quadros 3 e 4)
Se o povo é quem trabalha, é preciso olhar para o mercado de trabalho com lupa.
Os dados da PNAD Contínua (3º trimestre de 2024) mostram um cenário aparentemente positivo: a taxa de desocupação geral caiu para 6,4%, a menor em quase uma década. Mas, mais uma vez, o agregado esconde desigualdades persistentes:
- homens: 5,3% de desocupação;
- mulheres: 7,7%;
- brancos: 5,0%;
- negros (pretos e pardos): entre 7,3% e 7,6%.
Quadro 3 – Taxa de desocupação por sexo e raça – 3º tri. 2024 (PNAD Contínua)
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Grupo |
Taxa de desocupação (3º tri. 2024) |
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Total Brasil |
6,4% |
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Homens |
5,3% |
|
Mulheres |
7,7% |
|
Brancos |
5,0% |
|
Pretos |
7,6% |
|
Pardos |
7,3% |
Traduzindo: mulheres negras seguem no topo da pirâmide de desocupação. Elas enfrentam ao mesmo tempo discriminação racial, sexismo, maternidade precarizada e mercados de trabalho locais frequentemente dominados por ocupações informais de baixa remuneração.
O Observatório das Desigualdades (2025) ajuda a completar o quadro:
- o índice de Gini da renda domiciliar ainda gira em torno de 0,52 – um nível alto de concentração;
- o 1% mais rico recebe mais de 30 vezes a renda da metade mais pobre;
- a informalidade atinge quase 46% dos trabalhadores pretos ou pardos, contra pouco mais de 34% dos brancos;
- entre os jovens que não estudam nem trabalham, quase metade são mulheres negras.
Quadro 4 – Desigualdade de renda e pobreza (Observatório das Desigualdades 2025)
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Indicador |
Valor recente |
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índice de Gini da renda domiciliar (4º tri. 2024) |
0,520 |
|
Razão 1% mais rico / 50% mais pobres (2024) |
30,5 vezes |
|
Variação desocupação negros (2023–>2024) |
9,1% —> 7,6% |
|
Variação desocupação mulheres (2023–>2024) |
9,5% —>8,1% |
Isso desmonta a imagem confortável de um “povo brasileiro trabalhador” homogêneo. O que existe, na prática, é um mercado de trabalho racializado e generificado:
- homens brancos: maiores salários, maior estabilidade;
- mulheres negras: maior desocupação, maior informalidade, renda menor, dupla jornada.
Quando alguém diz que está “defendendo o povo que trabalha”, mas se opõe sistematicamente a políticas de cuidado, igualdade salarial, cotas, serviços públicos e proteção social, está, na prática, defendendo um recorte específico do povo: o povo-ícone de quem já tem mais meios de se proteger.
4. A geografia do desemprego (Mapa ligado aos quadros)
A mesma PNAD mostra que o desemprego não está distribuído de maneira uniforme pelo território:
- taxas mais altas no Nordeste (Pernambuco, Bahia) e no Distrito Federal;
- taxas bem mais baixas em estados como Rondônia, Mato Grosso e Santa Catarina.
Se sobrepusermos esse mapa às informações do Quadro 1 (distribuição racial) e do Quadro 2 (pobreza), a coincidência é incômoda: os estados com mais negros e mais pobreza tendem a ter também mais desemprego.
Para o Brasil Esfera Pública, aqui faz sentido encaixar:
Taxa de desocupação por UF (3º tri. 2024)
- Maiores taxas: Pernambuco (10,5%), Bahia (9,7%), DF (8,8%).
- Menores: Rondônia (2,1%), Mato Grosso (2,3%), Santa Catarina (2,8%).
- Narrativa: Nordeste + DF como “ilhas” de desemprego mais alto num cenário geral de melhora; diálogo com o recorte racial (nesses estados, a população negra é maioria).
A mensagem visual é poderosa: não existe “desemprego brasileiro” abstrato. Existem ilhas de pleno emprego branco e arquipélagos de desemprego negro.
5. Violência letal: quem o Estado escolhe deixar morrer (Quadros 5 e 6)
Se renda e trabalho mostram quem vive mal, a violência mostra quem deixa de viver.
O Atlas da Violência 2024/2025 atualiza números que, sozinhos, já seriam uma denúncia política:
- em 2023, foram 45.747 homicídios no Brasil;
- cerca de 77% das vítimas eram negras;
- a chance de um negro ser assassinado é 2,7 vezes maior do que a de um não negro (dados consolidados da década).
Quadro 5 – Homicídios e raça (Brasil)
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Indicador |
Ano |
Valor |
|
Homicídios totais |
2022 |
46.409 mortes (taxa 21,7 por 100 mil hab.) |
|
Proporção de vítimas negras (pretos+pardos) |
2022 |
76,5% dos homicídios |
|
Homicídios totais |
2023 |
45.747 mortes |
|
Proporção de vítimas negras |
2023 |
76,97% (35.213 pessoas negras mortas) |
|
Risco relativo de um negro ser morto |
2025* |
2,7 vezes maior que o de um não negro |
*O Atlas 2025 trabalha com a série até 2023, mas o dado “2,7 vezes” é usado na divulgação de 2025 como leitura consolidada da década.
Quando recortamos por gênero, o cenário continua brutal:
- em 2023, 2.662 mulheres negras foram assassinadas, representando mais de 68% dos homicídios femininos;
- estados como Pernambuco, Roraima, Amazonas e Bahia lideram as taxas de homicídio de mulheres negras.
Quadro 6 – Homicídios de mulheres negras
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Indicador |
Ano |
Valor |
|
Homicídios de mulheres negras |
2023 |
2.662 mortes (68,2% dos homicídios femininos) |
|
Taxa de homicídiodio de mulheres negras (Brasil) |
2023 |
4,3 por 100 mil hab. |
|
Estados com maiores taxas entre mulheres negras |
2023 |
PE (7,2), RR (6,9), AM e BA (6,6) |
Em termos de povo, isso significa que a democracia brasileira está literalmente mais letal para uma parte do povo do que para outra. E essa parte tem cor, gênero e CEP:
- são jovens negros de periferia, alvo preferencial da combinação entre tráfico, milícia, omissão estatal e violência policial;
- são mulheres negras que morrem em casa, na rua, na borda de serviços públicos que falham em protegê-las de parceiros, ex-companheiros e situações de guerra informal.
A teoria de Achille Mbembe sobre necropolítica – o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer – encontra no Brasil um laboratório dolorosamente eloquente (MBEMBE, 2018). E essa decisão não é neutra: recai desproporcionalmente sobre o povo negro.
6. Saúde, maternidade e vidas evitáveis (Quadro 7)
Se olharmos para a saúde, o padrão se repete: a cor do corpo e o lugar onde ele está determinam a chance de sobreviver a causas evitáveis.
O Observatório das Desigualdades e estudos em saúde mostram:
- quase 40% das mortes no Brasil ainda são por causas evitáveis;
- entre homens negros, esse porcentual passa de 50%;
- a mortalidade materna se mantém acima das metas internacionais, com taxas mais altas no Norte e Nordeste;
- crianças indígenas seguem com taxas maiores de desnutrição e baixo peso.
Quadro 7 – Indicadores de saúde e raça
|
Indicador |
Recorte |
Valor recente |
|
Mortalidade por causas evitáveis (total) |
Brasil, 2023 |
39,2% |
|
Mortalidade por causas evitáveis - homens negros |
Brasil, 2023 |
51,8% |
|
Mortalidade por causas evitáveis - mulheres negras |
Brasil, 2023 |
37,8% |
|
Mortalidade materna (por 100 mil NV) |
Brasil, 2023 |
52 |
|
Mortalidade materna - Norte |
2023 |
71 |
|
Mortalidade materna - Nordeste |
2023 |
59 |
|
Crianças indígenas abaixo do peso |
2023 |
7,7% |
|
Crianças indígenas abaixo do peso |
2022 |
6,7% |
Na prática, o que está em jogo não é apenas acesso a hospital ou remédio, mas uma estrutura de cuidado profundamente desigual:
- estados mais pobres e mais negros têm menos leitos, menos profissionais, menos infraestrutura;
- serviços de saúde mental são escassos justamente onde a violência e a pobreza são mais intensas;
- mulheres negras enfrentam racismo institucional durante a gestação, o parto e o pós-parto, com maior probabilidade de não serem ouvidas em suas queixas.
O povo que sofre infarto, AVC, complicações gestacionais e violência sem resposta adequada não é o mesmo povo que aparece nas campanhas publicitárias sobre “saúde para todos”.
7. Quem fala em nome de quem? Representação política (Quadro 8)
Para fechar o círculo, vale olhar para a política institucional: quem está sentado nas cadeiras de prefeito e vereador dizendo agir em nome do “povo”?
Estudo da Confederação Nacional de Municípios sobre as eleições de 2024 mostra que:
- negros (pretos + pardos) são 56% da população, mas apenas 35,6% dos candidatos a cargos municipais;
- brancos são 43% da população, mas 63,6% dos candidatos;
- em estados como Santa Catarina, apenas 4% dos candidatos a prefeito são negros, embora 23% da população seja negra;
- no Ceará, 71% da população é negra, mas só 45% dos candidatos são;
- em São Paulo e Rio de Janeiro, a proporção de candidatos negros fica muito abaixo da proporção de eleitores negros.
Quadro 8 – Representação racial entre candidatos (Eleições 2024)
|
Grupo de candidatos |
% entre candidatos a prefeito/vereador |
% na população |
|
Candidatos negros (pretos+pardos) |
35,6% |
56% |
|
Candidatos brancos |
63,6% |
43% |
|
Candidatos amarelos/indígenas |
1,3% dos municípios com algum candidato |
~1-1,2% |
Ou seja: quem fala em nome do povo, em grande medida, não se parece com o povo. A sub-representação negra é gritante justamente em espaços onde decisões sobre orçamento, polícia, transporte, saúde e educação são tomadas.
Se juntarmos tudo:
- povo majoritariamente negro;
- pobres majoritariamente negros;
- mortos majoritariamente negros;
- desocupados e informais majoritariamente negros;
- mas prefeitos, vereadores, deputados, secretários e juízes majoritariamente brancos.
A pergunta da série – “quem é o povo, afinal?” – ganha aqui um complemento: quem tem direito de se apresentar como voz desse povo em arenas de poder?
8. Amarração política: povo-ícone x povo real
Os quadros e mapas desta matéria não são apenas informação: eles são um espelho incômodo para a retórica política brasileira.
- Quando o discurso fala em “povo de bem”, quem aparece nas imagens? Geralmente, famílias brancas de classe média. Quem fica de fora? Mulheres negras, juventude periférica, população indígena, gente em situação de rua, trabalhadores informais.
- Quando se diz que “o povo está no poder”, os dados de representação mostram que o povo real está, no máximo, parcialmente representado.
- Quando se celebra a queda da pobreza ou do desemprego, os recortes revelam que os ganhos chegam mais devagar justamente para quem perdeu mais ao longo da história.
Na linguagem da teoria do Estado, isso significa que o Brasil opera uma espécie de cidadania escalonada: uma parte do povo vive sob um regime de direitos amplos e proteção institucional; outra parte vive sob um regime de vulnerabilidade permanente, em que direitos existem mais no papel do que na experiência cotidiana.
A ideia de povo-ícone, trabalhada por Friedrich Müller, ajuda a nomear o truque: constrói-se uma imagem abstrata de povo – ordeiro, produtivo, moralmente alinhado ao projeto dominante – e, em nome dessa imagem, ignoram-se os dados que mostram quem está sendo sistematicamente empurrado para a borda.
Os quadros 1 a 8, espalhados ao longo deste texto, são um antídoto contra esse truque. Eles dizem, com números, o que a política muitas vezes se recusa a admitir com palavras: não haverá democracia do povo enquanto o povo real seguir organizado em castas de cor, gênero e território.
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