sábado, 15 de novembro de 2025

Proclamação da República: o dia em que o Brasil mudou sem que o povo fosse chamado a decidir

Por Eduardo Vasconcelos — Brasil Esfera Pública

Publicado em 15 de novembro

No dia 15 de novembro, o Brasil recorda um dos episódios mais decisivos — e também mais controversos — de sua história. A Proclamação da República, conduzida por militares sem consulta ao povo, marcou o fim do Império e inaugurou um novo ciclo político, laico e modernizador. Entre acertos, contradições e promessas ainda não cumpridas, a data nos convida a refletir sobre a República como um projeto em construção, que ainda desafia o país a transformar seus ideais em cidadania real para todos.


No Brasil, a data de 15 de novembro costuma ser lembrada com bandeiras verde-amarelas, discursos protocolares e a promessa — sempre repetida — de que a República representou o nascimento de um país moderno, laico e democrático. Na prática, porém, a história é mais complexa, mais densa e, sobretudo, mais humana.


A Proclamação da República não foi o resultado de um clamor popular; foi, antes, um acordo entre elites civis e militares, consolidado por um golpe militar sem consulta ao povo, em um país que ainda nem havia curado as feridas da escravidão abolida apenas um ano antes. Ainda assim, o evento se tornou um divisor de águas na trajetória nacional.


Este artigo busca reconstruir essa história com rigor e narrativa — como ela realmente ocorreu e o que ela significou — para, ao final, responder a pergunta fundamental: afinal, o golpe de 1889 foi positivo para o Brasil?





1. A manhã que mudou o país: bastidores do 15 de novembro



O marechal Deodoro da Fonseca, já idoso e doente, acordou na manhã de 15 de novembro com a respiração pesada pela asma que o acompanhava havia anos. Estava acamado há quase uma semana. Não tinha planos de derrubar a Monarquia naquele dia — aliás, não tinha planos de derrubar a Monarquia em dia nenhum. Era amigo pessoal de D. Pedro II.


Mas os republicanos mais radicais, liderados por Benjamin Constant, souberam explorar dois pontos fracos do velho marechal:


  1. sua rivalidade pessoal com o chefe de governo, Visconde de Ouro Preto;
  2. sua personalidade militar, sensível a rumores de deslealdade.



E assim foi feito. Para tirá-lo da cama naquele dia quente no Rio de Janeiro, usaram um truque: informaram-lhe que Ouro Preto havia firmado um decreto de prisão contra ele — o que era falso. Contaram também que o Barão de Ladário teria aderido à República, o que era igualmente mentira (CARVALHO, 2007).


Essas provocações foram decisivas. Deodoro levantou-se irritado, reuniu tropas, marchou até o quartel-general e ordenou a queda do gabinete. Só mais tarde, já arrastado pela dinâmica dos acontecimentos, declarou a deposição da Monarquia e assumiu o governo provisório.


Como afirmou Lilia Schwarcz (2019), “Deodoro proclamou a República mais por circunstância e pressão do que por convicção”.





2. A Monarquia cai sem luta — e sem povo



Enquanto isso, no Paço Imperial, a reação de D. Pedro II é tão surpreendente quanto simbólica.


O imperador, embora amado por muitos, estava cansado da vida política, doente, e emocionalmente esgotado. Sua frase, registrada por contemporâneos, é conhecida:


“Se assim o querem, partirei. Já cumpri a minha missão.”

(D. Pedro II, apud BARMAN, 1999)


Não houve tentativa real de resistência. Não houve batalha.

Não houve confronto.


A República nasceu em silêncio — ou melhor, nasceu na ausência do povo, que sequer foi informado do que estava ocorrendo. Não houve plebiscito, consulta popular ou manifestação de rua.


Apenas um movimento militar e político que decidiu o futuro de uma nação sem perguntar à nação o que ela queria.





3. Por que o Império caiu? O peso da Lei Áurea e a virada da elite



A queda da Monarquia não se explica por um único fator.

Foi resultado de um conjunto de crises que se agravaram ao longo das décadas.



3.1. O Exército se sentia humilhado



Depois da Guerra do Paraguai, os militares queriam mais autonomia, reconhecimento e protagonismo político — e não conseguiam isso dentro da Monarquia (SCHWARCZ & STARLING, 2015).



3.2. A elite agrária rompeu com a Coroa após a Lei Áurea



Em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a abolição da escravidão.


A decisão foi humanamente correta, moralmente necessária e historicamente justa — mas atingiu diretamente os interesses da elite escravocrata, que esperava indenizações e compensações. A Monarquia não ofereceu nada disso.


A partir dali, os fazendeiros de café do Sudeste migraram para o republicanismo, especialmente em São Paulo.



3.3. A Monarquia se desgastou institucionalmente



O Poder Moderador, o governo centralizado e as crises parlamentares sucessivas fizeram o regime perder legitimidade entre as elites políticas.


O povo não participou do processo, mas as elites — civis e militares — decidiram que o Império deveria terminar.





4. A República que nasce do alto: instalação do novo regime



O novo governo provisório, chefiado por Deodoro, tomou decisões rápidas:


  1. dissolveu o Parlamento imperial;
  2. aboliu títulos de nobreza;
  3. separou Igreja e Estado (modelo laico inspirado na França e nos EUA);
  4. transformou províncias em estados, criando o federalismo;
  5. preparou uma nova Constituição, promulgada em 1891.



A República prometia modernidade.

Mas também carregava marcas autoritárias desde o primeiro dia.





5. A importância política, social e econômica da República



A República teve impactos profundos — para o bem e para o mal.



☑ 

5.1. Avanços políticos



  • Implanta o Estado laico.
  • Cria o presidencialismo.
  • Inicia o federalismo moderno.
  • Introduz valores republicanos e cívicos nas escolas.




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5.2. Avanços econômicos



  • Acelera urbanização e industrialização.
  • Expande ferrovias.
  • Moderniza o sistema bancário e financeiro.
  • Impulsiona o café, que financia a transição do país para a modernidade.




☑ 

5.3. Avanços institucionais



  • Reforma do Judiciário.
  • Criação do Supremo Tribunal Federal como órgão máximo (NUNES, 2017).
  • Base para políticas públicas do século XX.






6. Mas e o lado negativo? Ele é grande.




❌ 

6.1. A República excluiu o povo



A Primeira República proibiu voto de:


  • mulheres,
  • analfabetos,
  • soldados,
  • pobres sem renda mínima.



A democracia republicana era, na prática, um regime oligárquico.



❌ 

6.2. Coronelismo, fraude e violência política



Voto aberto, manipulado, controlado por coronéis. Um sistema construído para garantir o domínio das elites e impedir a participação popular.



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6.3. Tradição de golpes



A República nasce de um golpe militar — e essa marca se repete:


  • 1930 (Getúlio Vargas),
  • 1937 (Estado Novo),
  • 1964 (ditadura militar).



A instabilidade é, portanto, uma herança de origem.





7. Então a Proclamação da República foi positiva?



A resposta exige maturidade histórica:


A República foi positiva nos seus efeitos estruturais e negativos na sua forma de nascimento.


Foi um passo necessário para:


  • modernizar o país,
  • laicizar o Estado,
  • abrir caminho para a democracia futura,
  • reorientar a economia para a industrialização.



Mas também foi:


  • elitista,
  • autoritária,
  • excludente,
  • construída sem participação popular,
  • responsável por fortalecer a tutela militar sobre a política.



Ou seja: avançou no longo prazo, mas falhou no curto prazo.



8. Conclusão Crítica: a República brasileira ainda é um projeto inacabado



Comemorar a Proclamação da República é, de certa forma, um exercício de consciência histórica. Não celebramos o golpe, nem a forma abrupta como o poder mudou de mãos naquele 15 de novembro de 1889. Comemoramos, isto sim, o horizonte que se abriu, ainda que timidamente, para um país que precisava respirar novos ares depois de séculos marcado pela escravidão, pelo centralismo imperial e pela dependência de uma elite que falava por todos sem ouvir quase ninguém.


É verdade que a República nasceu sem o povo — e essa é uma ferida que a história não esconde. É verdade também que seu berço militar inaugurou um padrão de instabilidade que nos acompanharia ao longo de décadas. Mas, apesar de tudo isso, ela trouxe consigo a semente de um país que poderia, finalmente, enxergar a si mesmo como uma comunidade política plural, laica, diversa, capaz de construir seu próprio destino.


A República nos deu um Estado laico, ampliou o espaço das liberdades civis, reformulou instituições, reorientou a economia, abriu portas para que o Brasil deixasse de ser uma sociedade rural escravocrata e passasse a sonhar com modernidade. E, mesmo com suas contradições, foi sob a República que outros direitos — antes impensáveis — se tornaram possíveis: o voto feminino, o voto secreto, os direitos trabalhistas, a cidadania ampliada, a educação pública como ideal e promessa.


Mas o fato é que não concluímos essa travessia. A República brasileira permanece como um grande projeto em andamento, marcado por avanços e retrocessos, acertos e desvios, esperanças e frustrações. Ainda não conseguimos transformar plenamente o ideal republicano — de igualdade, de participação, de justiça social — em realidade cotidiana para todos os brasileiros. A desigualdade insiste em nos lembrar que pertencemos a um país que sempre caminhou mais rápido na construção de instituições do que na construção de cidadania.


Ainda assim, celebrar o 15 de novembro é reconhecer que a República é a casa que temos — e que ainda podemos transformar na casa que queremos. É um gesto de responsabilidade histórica e, ao mesmo tempo, de esperança. Mesmo com suas imperfeições e suas marcas de origem, ela foi o primeiro passo para um Brasil que, embora demore, continua tentando se encontrar.


Comemorar a República é afirmar que vale a pena continuar construindo, corrigindo e aperfeiçoando o pacto civilizatório que começou em 1889 — não porque ele tenha sido perfeito, mas porque ele continua sendo a nossa melhor chance de construir um país mais justo, mais plural e mais verdadeiramente nosso.



Referências



BARMAN, Roderick. Citizen Emperor: Pedro II and the Making of Brazil, 1825–1891. Stanford: Stanford University Press, 1999.


CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


NUNES, Eduardo. O Supremo na República Velha. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2017.


SCHWARCZ, Lilia; STARLING, Heloisa. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


SCHWARCZ, Lilia. As Barbas do Imperador. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.



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