Da denúncia do genocídio em Gaza à refundação da ONU, o Brasil assume protagonismo ético e político em defesa de uma nova ordem mundial
Na abertura da Assembleia Geral da ONU de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um dos discursos mais contundentes da história da diplomacia brasileira. Diplomático, mas acusatório, firme e universalista, Lula defendeu a soberania democrática, denunciou o genocídio em Gaza e criticou a paralisia das instituições internacionais corroídas por vetos e unilateralismos. Ao mesmo tempo, projetou o Brasil como potência ética do Sul Global, convocando os povos a refundar a ordem internacional sobre bases mais justas, sociais e climáticas.
SOBERANIA, DEMOCRACIA E JUSTIÇA GLOBAL: O DISCURSO DE LULA NA ONU COMO MANIFESTO PARA O SÉCULO XXI
Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu à tribuna da ONU em setembro de 2025, não estava apenas representando o Brasil. Estava, na verdade, inscrevendo o país e sua história diplomática em uma das mais profundas crises de legitimidade da ordem mundial desde a Segunda Guerra. O tom de sua fala não foi apenas de defesa dos interesses nacionais, mas de um manifesto global em defesa da democracia, da soberania, da justiça social, da sustentabilidade e da dignidade humana.
Lula fez do discurso um ato de equilíbrio raro: diplomático, mas forte; conciliador, mas acusatório; nacional, mas universalista. Denunciou com coragem o genocídio em Gaza, apontando a cumplicidade dos vetos ocidentais no Conselho de Segurança da ONU, algo que poucos líderes ousaram verbalizar. Criticou a desigualdade global como vergonha universal, atacou o unilateralismo autoritário que corrói instituições, e chamou à refundação da ONU e da OMC, sem medo de nomear a crise da arquitetura multilateral. Ao mesmo tempo, inscreveu o Brasil na tradição do universalismo diplomático, ampliando seu escopo para incluir democracia, justiça social, regulação digital e justiça climática como novos fundamentos de uma ordem justa.
O ponto alto foi, sem dúvida, a denúncia do genocídio em Gaza. Ao utilizar o termo mais duro do direito internacional, Lula transformou o discurso em ato de coragem moral. Conforme Raphael Lemkin (1944), criador do termo, genocídio é a destruição planejada de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Ao usar essa palavra diante do mundo, o presidente não apenas nomeou a barbárie, mas denunciou a seletividade cúmplice das potências que bloqueiam cessar-fogos com seus vetos. Claude (1984) já advertia que a legitimidade da ONU depende da sua capacidade de refletir interesses comuns, e não privilégios históricos. A denúncia de Lula escancarou que a paralisia custa vidas e que a ONU, como está, tornou-se refém do autoritarismo institucionalizado.
O gesto teve também dimensão ética. Como lembra Arendt (1989), o mal não está apenas na violência, mas na indiferença que a normaliza. Lula recusou essa indiferença, convocando o mundo a olhar a tragédia de Gaza não como conflito distante, mas como ferida que ameaça a humanidade inteira. Essa coragem inscreveu o Brasil como potência ética, uma voz que ecoa indignação e esperança ao mesmo tempo.
No entanto, a fala não se limitou a Gaza. O presidente denunciou a corrosão das instituições internacionais por líderes que acreditam apenas na soberania absoluta, na violência e no espetáculo. Contra eles, propôs soberania responsável, política baseada no diálogo e diplomacia ética. Hedley Bull (2002) já lembrava que uma sociedade de Estados só existe quando regras comuns são aceitas. Ao recusar essas regras, líderes autoritários minam a própria ordem que dizem defender. Ao mesmo tempo, o espetáculo — como analisou Debord (1997) — transforma a política em vaidade midiática, corroendo a legitimidade da diplomacia. Lula expôs essa farsa com firmeza.
Outro eixo central foi a defesa do Estado Democrático de Direito. Lula relembrou ataques internos à democracia brasileira, como o 8 de janeiro, qualificando-os como ações antipatrióticas. A mensagem foi clara: patriotismo não é destruir instituições, mas preservá-las. Aqui, o presidente inscreveu o Brasil como nação que aprendeu com os traumas da ditadura e que reconhece que sem democracia não existe soberania legítima.
Mas Lula foi além: vinculou democracia à justiça social. A pobreza, disse, é uma vergonha universal. Essa ênfase conecta-se à visão de Amartya Sen (2010), para quem pobreza é privação de capacidades e não apenas renda. Ao universalizar o combate à fome, Lula propôs que a luta contra a desigualdade é dever de todos os povos. Não é caridade, mas direito humano.
A inovação mais notável foi a inclusão da regulação digital no universalismo brasileiro. A internet, disse Lula, não pode ser terra sem lei. Essa afirmação, simples e direta, toca no cerne da democracia contemporânea: a manipulação digital, as fake news e os algoritmos que corroem a esfera pública. Inspirado no pensamento de Castells (2003), Lula mostrou que o poder hoje se exerce pela capacidade de moldar consciências. Sem regulação, a rede se torna campo de manipulação autoritária. Ao trazer esse tema para a ONU, o Brasil assume pioneirismo em transformar a soberania digital em pauta multilateral.
Do mesmo modo, a justiça climática foi central. A referência à COP30 e à Amazônia recoloca o Brasil como potência ambiental. Aqui, Lula articulou soberania e universalismo: a floresta é nossa, mas a responsabilidade é de todos. Como lembra Beck (2010), riscos ambientais não respeitam fronteiras. O Brasil, portanto, não se apresenta como vítima, mas como líder disposto a propor caminhos.
Esses elementos se somam à tradição histórica do universalismo brasileiro. Desde sempre, o Brasil buscou equilibrar autonomia com cooperação, mediando conflitos e defendendo princípios universais. Mas Lula atualizou essa tradição, acrescentando novas dimensões: democracia, justiça social, regulação digital e clima. Como observa Boaventura de Sousa Santos (2007), a globalização só será legítima se for contra-hegemônica, capaz de dar voz aos excluídos. Esse é o universalismo brasileiro do século XXI.
A fala, no entanto, não foi apenas propositiva: foi também acusatória. Denunciou a desigualdade global, a paralisia da ONU e o unilateralismo autoritário das potências. Não se tratou de retórica vazia. Foi uma denúncia moral, baseada na convicção de que as instituições internacionais só sobreviverão se forem reformadas.
O impacto para o Sul Global foi imediato. Muitos países veem no Brasil uma voz que fala o que eles não podem. A denúncia do genocídio, a crítica aos vetos, a defesa da regulação digital e da justiça climática ecoam demandas históricas das nações marginalizadas. Nesse sentido, o discurso não foi apenas brasileiro, mas latino-americano, africano, árabe. Foi o discurso de um cidadão mundial que fala pela humanidade.
Ao final, a mensagem de Lula foi clara: ou refundamos as instituições internacionais ou elas se tornarão irrelevantes. A soberania não pode ser desculpa para arbitrariedades. A democracia deve ser universal. A pobreza deve ser enfrentada como crime contra a humanidade. A internet precisa de regras. O clima deve ser tratado como prioridade absoluta.
Essa é a síntese do discurso e, ao mesmo tempo, sua grandeza. Não foi apenas uma fala sobre o Brasil, mas uma fala do Brasil ao mundo. Uma fala que resgata o espírito de solidariedade e coragem da diplomacia brasileira, mas que o projeta em novas direções, adequadas ao século XXI.
Análise Final
O discurso de Lula na ONU em 2025 é um documento histórico. Ele combina tradição e inovação, ética e política, nacionalismo e universalismo. Ao denunciar o genocídio em Gaza, criticar o unilateralismo, defender a democracia, propor a regulação digital e convocar a justiça climática, o presidente ofereceu ao mundo um manifesto de refundação.
O Brasil, nesse momento, não se apresenta como potência militar nem como hegemonia econômica, mas como potência ética e diplomática. Uma potência que fala pela dignidade humana, pela soberania democrática e pela responsabilidade compartilhada.
Num tempo em que líderes corroem instituições em nome da soberania absoluta, da violência e do espetáculo, a fala brasileira foi um sopro de esperança. Mostrou que ainda é possível construir uma ordem mundial baseada em cooperação, solidariedade e justiça. Mostrou que a democracia, longe de ser valor local, é patrimônio da humanidade.
Esse discurso é, portanto, mais do que fala de governo. É a reafirmação de um país que, mesmo diante de dificuldades internas, ousa erguer a voz em defesa do cidadão mundial, da democracia universal e da justiça global. É a prova de que o Brasil, quando fala com coragem, fala não apenas por si, mas por todos os povos que ainda acreditam na possibilidade de um futuro comum.
Referências
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