domingo, 7 de setembro de 2025

Independência do povo do Brasil: história, mitos e o sentido de 7 de setembro em 2025

 Do “Dia do Fico” à guerra na Bahia, do mito do cavalo à construção da democracia: por que a soberania se faz no cotidiano — e por que 7 de setembro é também dia de celebrar a Constituição.


Neste 7 de setembro de 2025, vale olhar para trás com lupa histórica e para frente com compromisso cívico. A Independência não foi um instante teatral à beira de um riacho, mas um processo político, econômico e militar complexo que começou anos antes e só se consolidou depois — e cujo sentido, hoje, passa por defender a soberania nacional, repudiar aventuras antidemocráticas e fortalecer a Constituição de 1988.





O que se celebra em 7 de setembro?

Celebramos o marco político pelo qual o Brasil rompeu sua sujeição às Cortes de Lisboa e afirmou-se como Estado soberano, em 1822. Não foi “um grito” apenas: foi o clímax de uma sequência de decisões (como o Dia do Fico e o “Cumpra-se”) e de lutas militares que se estenderam até 1823 na Bahia. (BRASIL, 1808; ARQUIVO NACIONAL, 2022; FPC/BA, 2023).


Uma linha do tempo necessária (1808–1823)

1808 — Abertura dos Portos

Com a corte no Brasil, D. João assina a Carta Régia de 28 de janeiro de 1808, quebrando o exclusivo metropolitano e permitindo comércio direto com “nações amigas” — desfazendo a espinha do pacto colonial mercantilista. (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 1808; ARQUIVO NACIONAL, 2021; UNESCO, s.d.).

1820–1821 — Revolução do Porto e Cortes

A Revolução do Porto exige a volta do rei e tenta recolonizar o Brasil; D. João retorna a Lisboa em 1821, deixando D. Pedro como regente. (BIBLIOTECA NACIONAL, 2023).

9 de janeiro de 1822 — “Dia do Fico”

Pressionado por milhares de assinaturas entregues pelo Senado da Câmara do Rio, D. Pedro declara que fica. O documento e a frase (“Diga ao povo que fico”) estão registrados em fontes da época. (BRASILIANA FOTOGRÁFICA/BN, 2017).



Maio de 1822 —  “Cumpra-se”

Medida segundo a qual ordens das Cortes só valeriam no Brasil com sanção do príncipe, aprofundando a ruptura. (ARQUIVO NACIONAL – Mapa Cronológico, s.d.).


7 de setembro de 1822 — Proclamação

O rompimento é anunciado às margens do Ipiranga — mas a independência real exigiria armas, diplomacia e impostos. (NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL, 2025).

2 de julho de 1823 — Consolidação na Bahia

A Guerra de Independência expulsa as tropas portuguesas de Salvador; a Bahia celebra o 2 de Julho como vitória decisiva da separação. (FUNDAÇÃO PEDRO CALMON/BA, 2023; CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2015; UFBA, 2013).

Nem cavalo de raça, nem farda de gala: como nasce um mito

A imagem consagrada por Pedro Américo (1888), com D. Pedro de espada em punho e escolta montada em cavalos garbosos, é uma visão idealizada e tardia. Pesquisas do Museu Paulista/USP e análises historiográficas mostram que a comitiva subia a Calçada do Lorena em mulas, sem aparato de gala; o quadro foi pintado mais de 60 anos depois, com licenças poéticas. (PESQUISA FAPESP, 2022; AGÊNCIA BRASIL/EBC, 2022; Google Arts & Culture – Museu Paulista, s.d.).

Em jornalismo e ensino, é fundamental distinguir representação artística de evidência histórica. O heroísmo existe — mas não como tableau acadêmico.


O que mudou — e o que não mudou (1822 em perspectiva)

Político

Independência significou autonomia decisória e o fim da subordinação às Cortes. Ainda assim, nasceu uma monarquia constitucional (1824), não uma república — reformas ficaram para depois. (ARQUIVO NACIONAL – Período Imperial, s.d.).

Econômico

Antes de 1822, vigorava o pacto colonial: monopólios, companhias privilegiadas, controle da metrópole e tributação como o quinto do ouro, tema das tensões da derrama. Abertos os portos em 1808, iniciou-se a desmontagem do exclusivo, permitindo o comércio direto e outras institucionalidades econômicas. (CÂMARA, 1808; MUSEU DA INCONFIDÊNCIA, s.d.).


Social

A independência não aboliu a escravidão. O Brasil seguiu como escravista até 1888, último das Américas a extingui-la, com consequências profundas no pós-abolição. (NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL, 2025).


O simbolismo dos desfiles cívico-militares

Os desfiles de 7 de setembro remontam ao século XIX e foram sendo reorganizados ao longo do tempo (do Rio à Esplanada). Eles combinam cerimonial de Estado, memória militar (Dragões da Independência, Debret), e civismo popular, encenando a narrativa da formação nacional. (MINISTÉRIO DA DEFESA, 2018/2022).

Democracia em alerta: o Brasil e os atos antidemocráticos

A democracia brasileira foi violentamente atacada em 8 de janeiro de 2023. Dois anos depois, o STF havia responsabilizado 898 pessoas (371 condenações à época), com novas condenações em 2024–2025 e relatório da CPMI do 8/1 detalhando redes de financiamento, logística e incitação. (STF, 2025; MPF/PGR, 2024–2025; Senado/CPMI, 2023).

Em setembro de 2025, o STF iniciou o julgamento de Jair Bolsonaro e aliados por tentativa de golpe — com a PGR apontando a “minuta do golpe” e conexões com o 8/1. Os processos reforçam que atacar as instituições e fraudar a vontade popular não é “divergência política”: é crime contra a ordem democrática. (AGÊNCIA BRASIL, 2025).

Conclusão: movimentos que pregam ruptura institucional, disseminam desinformação para corroer a confiança no voto e defendem “soluções” autoritárias são antidemocráticos, qualquer que seja a roupagem ideológica. A história brasileira é conquista, não concessão.

Soberania: do subsolo ao cotidiano

A Constituição de 1988 proclama que “todo poder emana do povo” (art. 1º, parágrafo único) e que o Brasil rege-se pela independência nacional (art. 4º, I). Recursos naturais estratégicos pertencem à União (art. 20; art. 176/177), como expressão da soberania sobre o território. (BRASIL, 1988).

Soberania também é econômica. Em 2025, os Estados Unidos anunciaram tarifas generalizadas sobre produtos brasileiros; o Itamaraty qualificou as medidas como incompatíveis com compromissos na OMC e passou a avaliar retaliação e disputa. Defender o interesse nacional é agir com diplomacia, legalidade e firmeza — não ceder a pressões unilaterais nem aceitar “taxações” que violem regras do comércio internacional. (MRE/MDIC, 2 abr. 2025; Reuters, 15 jul. 2025 e 28 ago. 2025; Agência Brasil, 12 mar. 2025).

O que significa 7 de setembro hoje

Significa, sobretudo, independência do povo do Brasil:

  • Respeitar o voto, a separação de poderes e as liberdades públicas.
  • Rejeitar aventuras golpistas e movimentos de ódio e desinformação — ignorância, preconceito ou oportunismo não legitimam ataques à ordem democrática.
  • Proteger nossa base produtiva e científica, negociar com o mundo com autonomia e regras, e fortalecer o pacto federativo.
  • Celebrar a Constituição, que dá forma jurídica à soberania popular.

Se, antes da independência, a riqueza do território servia prioritariamente à metrópole — via monopólios e tributos como o quinto —, hoje ela deve servir ao povo brasileiro, no marco constitucional e com responsabilidade ambiental e social. (CÂMARA, 1808; MUSEU DA INCONFIDÊNCIA, s.d.; CF/88).



Conclusão

O 7 de setembro é mais do que um marco histórico: é um convite permanente à reflexão crítica sobre o que significa ser independente e soberano no Brasil. A independência não se resume ao gesto simbólico de D. Pedro às margens do Ipiranga, mas resulta de um processo complexo de pressões externas, resistências internas e batalhas que envolveram diferentes grupos sociais. É, portanto, uma conquista plural, feita de vozes divergentes, tensões políticas e lutas populares, que só se consolidou ao longo dos anos seguintes.

Hoje, dois séculos depois, celebrar o 7 de setembro é reconhecer que a independência continua em construção. É afirmar que a soberania não está apenas nos tratados ou nas fronteiras, mas também no direito do povo de decidir o próprio destino, de usufruir de suas riquezas naturais e de viver em uma sociedade regida pela Constituição. É lembrar que a independência política de 1822 não aboliu a escravidão, não eliminou desigualdades sociais nem assegurou democracia plena — desafios que ainda ressoam em 2025.

A pluralidade desse dia exige que olhemos para o passado sem mitos, entendendo a pintura épica de Pedro Américo como representação artística, não como retrato fiel dos fatos. Exige também que olhemos para o presente sem ilusões, compreendendo que atos antidemocráticos, narrativas golpistas e manipulação da fé ou do medo não têm lugar em uma democracia que se constrói diariamente no voto, na justiça e na participação cidadã.

Comemorar o 7 de setembro é, portanto, celebrar a independência e a democracia como faces inseparáveis. É reafirmar que o Brasil só será verdadeiramente soberano se for capaz de proteger sua Constituição, fortalecer suas instituições e valorizar sua diversidade cultural e social. É lembrar que, assim como em 1822, a independência não é ponto final, mas processo contínuo — e que cabe a cada geração escrever, com coragem e consciência, os novos capítulos dessa história.

Em 2025, diante dos desafios internos e externos, o 7 de setembro deve ser entendido como dia da independência do povo do Brasil: um momento de memória e de compromisso, de celebração da pluralidade e de defesa intransigente da democracia, sem a qual não há soberania que resista, nem futuro que se construa.

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Perguntas frequentes

  1. O Grito do Ipiranga realmente aconteceu como é contado?
    R: Sim, mas sem o dramatismo épico que a pintura transmitiu — D. Pedro estava em um animal comum e indisposto.  
  2. Qual foi o papel real de D. Pedro I no processo?
    R: Ele simbolizou a ruptura, mas a estrutura das elites permaneceu, e a mudança foi gradual.
  3. O que está em jogo na democracia brasileira hoje?
    R: A tentativa de golpe judicial e política, o ataque à votação e à Constituição. Mas também a resposta vigorosa do STF e da Justiça.  
  4. Como a soberania se manifesta?
    R: No respeito à Constituição, nos direitos sociais, no valor do voto e na defesa da riqueza nacional.
  5. Por que devemos ligar o passado ao presente ao comemorar 7 de Setembro?
    R: Porque é nossa memória que nos fortalece; sem lembrar do que se conquistou, não resistimos às ameaças atuais.


Cinco pontos relevantes

  1. A independência foi um processo histórico complexo, não só um grito heroico.
  2. A simbologia (como a tela de Américo) idealizou o evento, mas distorceu detalhes.
  3. A soberania não nasceu em 1822; ela é construída diariamente pelo povo.
  4. O presente mostra que a democracia brasileira precisa ser defendida diante de núcleos antidemocráticos.
  5. Comemorar 7 de Setembro é, antes de tudo, reafirmar o espírito democrático e a Constituição — um compromisso ativo, não apenas simbólico.


Três sugestões de leitura

  • “A quase morte da democracia brasileira”, de Eugênio Bucci — análise crítica dos movimentos antidemocráticos recentes.  
  • Relatório da Democracia 2025, V-Dem — contexto global e recuos democráticos.  
  • Análise de tentações golpistas, F. N. Sousa — ameaça continuada à institucionalidade brasileira.  


Referências

  • AGÊNCIA BRASIL. Bicentenario da Independência: como o grito do Ipiranga foi retratado. Brasília: EBC, 31 ago. 2022. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • AGÊNCIA BRASIL. Trama golpista: STF inicia julgamento de Bolsonaro e mais sete aliados. Brasília: EBC, 2 set. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • ARQUIVO NACIONAL (Brasil). Período Imperial (1822–1889) – Cronologia. Rio de Janeiro: AN, s.d. Disponível em: https://mapa.an.gov.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • BIBLIOTECA NACIONAL. A volta de D. João. Rio de Janeiro: BNDigital, 2023. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • BRASIL. Carta Régia de 28 de janeiro de 1808. Coleção de Leis do Brasil. Brasília: Câmara dos Deputados, 1808. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Planalto, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • BRASILIANA FOTOGRÁFICA (BN/AGCRJ). O centenário do Dia do Fico pelo fotógrafo Augusto Malta. Rio de Janeiro, 2017. Disponível em: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • FUNDAÇÃO PEDRO CALMON (BA). Independência do Brasil na Bahia (cartilha e acervo). Salvador: FPC, 2023. Disponível em: https://www.ba.gov.br/fpc/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • MINISTÉRIO DA DEFESA. História e tradição marcam o desfile 7 de Setembro. Brasília: Gov.br, 3 set. 2018 (atual. 4 nov. 2022). Disponível em: https://www.gov.br/defesa/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • MPF/PGR. 8 de janeiro: Supremo condena mais 58 réus pelos atos antidemocráticos. Brasília: PGR, 16 dez. 2024; 8 de janeiro: Supremo condena mais três denunciados…, 4 fev. 2025. Disponível em: https://www.mpf.mp.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. 7 de setembro: quem foi D. Pedro I? São Paulo: NatGeo, 4 set. 2025; Abolição da escravatura no Brasil: 3 fatos essenciais. 13 maio 2025. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • PESQUISA FAPESP. Erros e acertos dos caminhos da Independência. São Paulo: FAPESP, 12 maio 2022. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • REUTERS. Brazil looks to solve US tariff issue before deadline. 15 jul. 2025; Brazil starts formal process to assess US tariff retaliation. 28 ago. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • STF. Em dois anos, STF responsabilizou 898 pessoas por atos de 8 de janeiro. Brasília: STF Notícias, 7 jan. 2025. Disponível em: https://noticias.stf.jus.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • SENADO FEDERAL. Relatório final da CPMI do 8 de Janeiro (PDF). Brasília: Senado, 17 out. 2023. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • MUSEU DA INCONFIDÊNCIA (Ibram/MinC). A Derrama e o Quinto do Ouro (recurso educativo). Ouro Preto: s.d. Disponível em: https://tabv.mg.gov.br/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • MRE/MDIC (Itamaraty). Medidas comerciais adotadas pelo governo dos EUA em 2/4/2025 – Nota conjunta. Brasília, 2 abr. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mre/. Acesso em: 6 set. 2025.
  • AGÊNCIA BRASIL (EBC). Brasil avalia recorrer à OMC contra tarifa dos EUA ao aço e alumínio. Brasília, 12 mar. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/. Acesso em: 6 set. 2025.


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