segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Do púlpito ao plenário: o avanço das bancadas religiosas e do bloco BBB, a laicidade sob pressão e o custo para a democracia

A expansão da bancada evangélica, a retração católica e a consolidação do bloco BBB revelam como a mistura entre fé e poder político ameaça a democracia laica brasileira.

O Brasil vive um paradoxo: embora a Constituição de 1988 tenha estabelecido o Estado laico, as últimas décadas mostram um avanço constante das pautas religiosas dentro do Congresso, do Senado e até da Presidência. A fé, que deveria inspirar valores éticos, vem sendo convertida em projeto de poder. Essa fusão histórica entre religião e política, que já legitimou impérios e regimes, retorna em novas roupagens e repete velhos problemas: autoritarismo moral, exclusão e polarização.



Quando a fé vira poder

A convivência entre religião e política sempre esteve marcada por ambiguidades. Se, de um lado, a fé traz horizonte ético e sentido para milhões de pessoas, de outro, sua fusão com o poder estatal abre brechas para a intolerância e para a imposição de visões exclusivas. No Brasil contemporâneo, esse dilema assume novas feições. A ascensão da bancada evangélica não se explica apenas pelo crescimento demográfico do evangelicalismo, mas também pela capacidade de transformar templos em palanques, redes sociais em púlpitos digitais e valores morais em slogans eleitorais.

Essa dinâmica ficou evidente quando pesquisas apontaram que 60% dos brasileiros priorizam valores familiares acima de propostas econômicas (DATAFOLHA, 2022). Questões como aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, identidade de gênero e ensino religioso nas escolas passaram a ocupar o centro da arena política. É inegável que tais pautas são importantes para uma sociedade que precisa debater seus dilemas éticos. O risco, porém, é reduzir a política a esse campo moral, enquanto problemas estruturais — economia, saúde, educação e meio ambiente — ficam em segundo plano.


O declínio católico e a nova hegemonia religiosa


Enquanto os evangélicos consolidam sua força, a Igreja Católica, historicamente dominante, perdeu espaço. A queda de fiéis — de quase 90% da população em 1980 para pouco mais de 50% em 2020 (IBGE, 2020) — reduziu o peso de sua bancada no Congresso. A fragmentação interna entre alas progressistas e conservadoras também enfraqueceu a coesão política. Diferente do ativismo midiático e pragmático das igrejas neopentecostais, a Igreja Católica optou por uma presença mais pastoral e social, o que abriu caminho para a hegemonia evangélica no espaço legislativo.


O bloco BBB: fé, bala e boi na mesma mesa


A consolidação do bloco BBB (Boi, Bala e Bíblia) é um dos fenômenos mais marcantes da política recente. Nele, interesses do agronegócio, da segurança pública e das pautas religiosas se articulam em bloco, negociando de forma unificada com o Executivo. Trata-se de um pragmatismo político radical: fé transformada em moeda de troca, valores religiosos usados para legitimar políticas de armas ou de flexibilização ambiental. Esse tipo de aliança amplia o poder do grupo, mas esvazia o debate plural que deveria caracterizar o Parlamento.



O domínio como missão divina

Esse movimento encontra respaldo ideológico na chamada Teologia do Domínio, popularizada por C. Peter Wagner (2008). A ideia é que cristãos têm a missão de conquistar as “sete montanhas” da sociedade — governo, família, educação, religião, mídia, artes e negócios. A política, nesse esquema, deixa de ser espaço de negociação democrática e passa a ser campo de batalha espiritual. Não se trata apenas de participar da vida pública, mas de dominar e governar em nome de Deus.

O problema dessa lógica é que ela transforma adversários políticos em inimigos espirituais, reforçando a polarização e corroendo as bases do diálogo democrático. Quando a política é lida como guerra santa, perde-se a essência da democracia: o reconhecimento do outro como interlocutor legítimo.


Um contraponto latino-americano

Curiosamente, a América Latina também produziu outra forma de diálogo entre fé e política: a Teologia da Libertação. Inspirada em Gustavo Gutiérrez (1971) e Leonardo Boff (1986), ela defendia a opção preferencial pelos pobres e denunciava as estruturas de opressão. Ao contrário da Teologia do Domínio, não buscava impor uma moral única nem transformar o poder político em território religioso. Seu objetivo era iluminar as lutas sociais com valores evangélicos de justiça e dignidade.

Esse contraponto mostra que a fé pode dialogar com a política sem se confundir com ela. A questão central não é excluir a religião da vida pública, mas impedir que ela seja convertida em projeto de poder excludente.


Religião corrompe a política ou a política corrompe a religião?

Essa é uma pergunta inevitável diante da realidade brasileira. Ao observarmos o avanço das pautas religiosas no Legislativo e no Executivo, surgem duas interpretações clássicas.

De um lado, há quem afirme que a religião corrompe a política ao impor dogmas no lugar do debate democrático. A Teologia do Domínio (WAGNER, 2008) é um exemplo explícito: transformar a fé em projeto de poder e substituir a pluralidade por uma visão espiritual exclusiva. Smith e Boas (2024) mostram que, na América Latina, pautas religiosas conservadoras reorganizam eleitorados, reconfigurando partidos e deslocando a política para guerras culturais.

De outro lado, é possível defender que a política corrompe a religião, reduzindo a fé a palanque e moeda de troca. Araújo (2019) mostra que lideranças políticas mobilizam símbolos religiosos para “distrair os pobres” de pautas econômicas redistributivas. O Datafolha (2022) revelou que valores familiares superam propostas econômicas para 60% do eleitorado, sinal de como a política instrumentaliza crenças para ganhar votos. Bourdieu (1998) já alertava que, ao adentrar o campo político, instituições religiosas sofrem pressões de poder que distorcem sua função espiritual.

A leitura mais equilibrada, porém, é a de que existe uma relação de mão dupla. Casanova (1994) descreveu esse processo de “desprivatização” da religião, em que a fé retorna ao espaço público. O problema, no Brasil, é que essa volta tem se dado menos como voz ética e mais como braço de disputa política. A religião busca legitimidade política, e a política, legitimidade moral. Ambas acabam se corrompendo mutuamente — a fé perde credibilidade e a política, legitimidade democrática.


O desafio democrático brasileiro

A fusão entre religião e política sempre produziu problemas: autoritarismo moral, esvaziamento da laicidade, polarização e enfraquecimento de debates estruturais. Como observa Araújo (2019), a religião pode “distrair os pobres” das propostas redistributivas, canalizando votos para pautas simbólicas que não transformam as condições concretas de vida.

O desafio do Brasil não é negar a relevância dos debates morais — eles são necessários e refletem dilemas legítimos de uma sociedade plural. O risco é transformá-los no único critério de decisão política. Religião e política têm papéis distintos: a primeira deve inspirar valores, a segunda deve organizar a convivência plural. Misturá-las como doutrina de governo tem, historicamente, produzido mais problemas do que soluções. O que a democracia brasileira precisa é aprender a ouvir a fé como voz ética da sociedade, sem permitir que ela se transforme em instrumento de domínio.




Conclusão — Por um Estado laico que proteja a fé a democracia


Este artigo é laico: defende, ao mesmo tempo, a liberdade de culto e a neutralidade do Estado. Justamente por isso, o princípio civilizatório a reafirmar é simples e firme: púlpito não é palanque e a esfera pública não pode ser usada como megafone partidário. Quando fé e poder se confundem, elas não se fortalecem — corrompem-se mutuamente: a religião perde a autoridade moral que nasce do testemunho e do serviço; a política perde a legitimidade democrática que vem da lei, da técnica e do debate plural.

A experiência brasileira recente confirma a armadilha dessa fusão. A expansão do voto orientado por guerras culturais elevou a temperatura moral do debate, mas rebaixou a qualidade do diálogo público: propostas econômicas, sociais e culturais — que pedem diagnóstico, metas, orçamento, evidências — cedem lugar a slogans identitários que dispensam prova. Onde o púlpito é convertido em palanque, o discernimento cívico dá lugar à lealdade confessional; onde a caneta administrativa se deixa guiar por catecismos particulares, a impessoalidade republicana se dissolve em privilégios de grupo. O resultado é previsível: políticas públicas confessionalizadas, direitos fundamentais submetidos a veto teológico, órgãos de Estado pressionados por redes de influência religiosa e polarização permanente — a transformação do adversário em “inimigo” moral.

Nada disso exige hostilidade à religião. Ao contrário: proteger a laicidade é proteger a própria fé, para que pregue sem tutela nem coação; é também proteger o Estado, para que administre com critérios universais (legalidade, impessoalidade, publicidade, eficiência) e com evidências — sobretudo em saúde, educação, segurança e meio ambiente. A Constituição de 1988 traça essa “distância justa”: veda alianças e dependências entre governo e igrejas (art. 19, I), mas garante ampla liberdade religiosa e colaboração impessoal de interesse público. Esse é o “firewall” democrático que impede duas deformações recorrentes: (i) a instrumentalização eleitoral da fé, que troca cuidado pastoral por capital político; e (ii) a catequização do Estado, que troca critérios técnicos por ortodoxias particulares.

Se quisermos um país em que crentes e não crentes caibam por inteiro, é preciso restaurar esse pacto: a fé como consciência crítica e serviço ao próximo; o Estado como casa comum, guiada por lei, ciência e direitos. Não se trata de expulsar a religião do espaço público, mas de impedir que uma religião capture o Estado de todos. O caminho constitucional — laico, republicano, humanizado — é o único que simultaneamente preserva a espiritualidade e fortalece a democracia. Quando a política deixar de buscar unção e a religião deixar de buscar cadeira, cada qual voltará a oferecer o que tem de melhor: a primeira, justiça e bem-estar; a segunda, sentido, ética e compaixão.


Referências


ARAÚJO, V. A. A religião distrai os pobres? Pentecostalismo e voto redistributivo no Brasil. São Paulo: Edusp, 2019.

BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. Petrópolis: Vozes, 1986.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 7. ed. São Paulo: Perspectiva, 1998.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 4439/DF. Rel. Min. Luís Roberto Barroso. Julgamento em 27 set. 2017. Brasília: STF, 2017.

CASANOVA, José. Public Religions in the Modern World. Chicago: University of Chicago Press, 1994.

DATAFOLHA – Instituto de Pesquisas. Valores familiares superam propostas econômicas para 60% do eleitorado. São Paulo, 03 set. 2022. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/09/valores-familiares-superam-propostas-economicas-para-60-do-eleitorado.shtml. Acesso em: 07 set. 2025.

GUTIÉRREZ, Gustavo. A Theology of Liberation. 2. ed. Maryknoll, NY: Orbis Books, 1988. (1ª ed. 1971).

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2022: características gerais da população – religião (resultados preliminares). Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 07 set. 2025.

SMITH, Amy Erica; BOAS, Taylor C. Religion, Sexuality Politics, and the Transformation of Latin American Electorates. British Journal of Political Science, v. 54, n. 1, p. 1–22, 2024.

WAGNER, C. Peter. Dominion! How Kingdom Action Can Change the World. Grand Rapids: Chosen Books, 2008.








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