A busca de notoriedade faz com que seguidores de escalão menor usem líderes como palco, lançando críticas vazias e agressões para aparecer no grupo.
Na política, nas religiões e nas instituições, há sempre aqueles que, sem trajetória própria, tentam subir nos ombros de líderes para ganhar visibilidade. Transformam críticas em espetáculo, recorrem à doxa em vez da razão e buscam apenas o aplauso da plateia. O problema é que, ao fazerem isso, corroem o debate, enfraquecem instituições e reduzem a liderança a trampolim pessoal.
1. O fascínio de ser visto
A necessidade de reconhecimento social não é trivial. Robert Cialdini e colaboradores demonstraram que indivíduos tendem a se apropriar de vitórias coletivas, dizendo “nós ganhamos” mesmo sem ter participado do esforço, fenômeno chamado de BIRGing (Basking in Reflected Glory) (CIALDINI et al., 1976). Em política, ocorre o mesmo: o brilho do líder se reflete sobre seus seguidores.
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2. Relações parasociais e culto à personalidade
Segundo Horton e Wohl (1956), muitos seguidores estabelecem vínculos unilaterais e ilusórios com figuras públicas, fenômeno chamado de “interação parasocial”. Esse mecanismo explica a forma como cidadãos interpretam gestos e discursos de líderes como se fossem mensagens pessoais. Esse culto à personalidade reforça a sensação de intimidade e justifica comportamentos de aproximação desmedida.
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3. Quando a busca de palco vira violência
Em casos extremos, a ânsia de aparecer degenera em tragédia.
• Mark David Chapman e John Lennon (1980): Chapman assassinou Lennon não por motivação política, mas para inscrever seu nome na história. Foi um gesto de busca doentia por visibilidade (BRITANNICA, s.d.; HISTORY, 1980; NEWSWEEK, 2020).
• John Hinckley Jr. e Ronald Reagan (1981): Hinckley disparou contra Reagan para impressionar a atriz Jodie Foster, exemplo paradigmático de comportamento parasocial que transborda para a violência (HISTORY, 2018; THE GUARDIAN, 2024).
• Arthur Bremer e George Wallace (1972): seu diário registrava a obsessão de sair do anonimato (WASHINGTON POST, 2015).
• Lynette “Squeaky” Fromme e Gerald Ford (1975): buscou atenção pública tentando matar o presidente (LA TIMES, 2024).
Esses episódios revelam como o desejo de ser visto pode levar indivíduos sem trajetória a atos extremos. São casos-limite de um padrão também presente em arenas cotidianas: quando aparecer vale mais que construir.
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4. O seguidor de escalão menor: o “áulico agressivo”
No dia a dia político, emerge a figura do seguidor oportunista que tenta usar o líder como trampolim. Diferente do bajulador, ele busca palco pelo confronto. Critica em público, interrompe reuniões, lança acusações genéricas e slogans fáceis. Sua meta não é resolver problemas, mas ganhar aplausos como o “destemido” que enfrentou o chefe.
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5. A doxa como instrumento de vaidade
Platão, em A República, diferenciou a doxa (mera opinião) da episteme (conhecimento). O “áulico agressivo” não apresenta análises consistentes; prefere frases de efeito, generalizações e discursos vazios. É a substituição da razão pelo espetáculo (PLATÃO, 1997).
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6. As consequências institucionais
Esse comportamento corrói instituições:
• Esvazia debates — substitui a análise pela retórica;
• Cria ambientes tóxicos — o mérito perde espaço para a ousadia performática;
• Enfraquece lideranças legítimas — líderes viram trampolim para vaidades;
• Reforça o espetáculo — a política se transforma em palco, não em arena de transformação.
Como apontam Padilla, Hogan e Kaiser (2007), trata-se de uma das faces do “triângulo tóxico”, onde seguidores oportunistas prosperam em ambientes permissivos.
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7. Crítica final: parasitas do prestígio
Ao fim, resta a constatação: esses personagens não trilharam caminho algum. Não viveram a solidão da liderança, não carregaram o peso da responsabilidade, não investiram anos em estudo ou sacrifício. Mas querem se apoderar das conquistas alheias.
São parasitas do prestígio. Personagens que não têm nada para dar, apenas consomem a glória dos que construíram com suor e perseverança. Transformam cada vitória em vitrine pessoal, cada líder em trampolim.
É preciso denunciá-los. Não como censura, mas como alerta. Porque quem sobe nos ombros dos outros para aparecer não merece ser lembrado como líder. Deve ser registrado apenas como sombra incômoda no caminho da história — e nada mais.
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Referências
BOLINO, M. C.; LONG, D.; TURNLEY, W. H. Impression management in organizations: critical questions, answers, and areas for future research. Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, v. 3, p. 377-406, 2016.
BRITANNICA. Murder of John Lennon. Disponível em: https://www.britannica.com. Acesso em: 27 ago. 2025.
CIALDINI, R. B. et al. Basking in Reflected Glory: Three (Football) Field Studies. Journal of Personality and Social Psychology, 1976.
FREUD, S. Psicologia das massas e análise do eu. 1921.
GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2002 [1959].
HISTORY. John Lennon shot and killed. 1980. Disponível em: https://www.history.com.
HORTON, D.; WOHL, R. R. Mass communication and para-social interaction. Psychiatry, v. 19, p. 215-229, 1956.
LA TIMES. Squeaky Fromme revisited. 2024.
PADILLA, A.; HOGAN, R.; KAISER, R. B. The toxic triangle: Destructive leaders, susceptible followers, and conducive environments. The Leadership Quarterly, v. 18, p. 176-194, 2007.
PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.
THE GUARDIAN. The day John Hinckley shot Reagan. 2024.
WASHINGTON POST. Bremer’s diary and the Wallace shooting. 2015.
WEBER, M. Economia e sociedade. Brasília: UnB, 1999 [1922].
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