Como a nota pública de Michelle Bolsonaro mobiliza comparações hiperbólicas (Stalin, “campos de concentração”, “mordaça”) para transformar responsabilização judicial em perseguição — e por que isso é doxa, não episteme.
Em nota divulgada em 5 de setembro de 2025, Michelle Bolsonaro afirmou que uma “tríade da maldade” — Planalto, “alguns juízes” do STF e a “grande mídia parceira” — estaria “quebrando regras”, “retirando liberdades” e perseguindo Jair Bolsonaro, comparando o julgamento do 8 de Janeiro aos Julgamentos de Moscou de Stalin e evocando imagens de “torturas” e “campos de concentração” (MENEZES, 2025; PODER360, 2025). À luz dos fatos e do contexto histórico brasileiro, mostramos que essa construção é um arsenal retórico típico da doxa (opinião mobilizadora), não conhecimento fundamentado (episteme).
1) Doxa x episteme: a moldura analítica
Na tradição filosófica, doxa (opinião) contrapõe-se à episteme (conhecimento justificado). Discursos retóricos que apelam a crenças comuns, imagens fortes e analogias fáceis — sem demonstração empírica proporcional — operam no terreno da doxa. Ao tratarmos a nota de Michelle, adotamos o crivo epistêmico: o que é alegado e o que é demonstrável? (PLATÃO, 2006).
Tese: os termos e analogias centrais empregados por Michelle são doxásticos — slogans e comparações emotivas — que falham quando cotejados com evidências, procedimentos e garantias vigentes no Estado de Direito brasileiro.
2) O que foi dito: a nota e seus eixos retóricos
A nota enviada ao programa Pleno Time sustenta que: (a) há uma “tríade da maldade”; (b) a “narrativa absurda de golpe” é usada para perseguir Bolsonaro; (c) vivem-se “quebras de regras” e “retirada de liberdades”; (d) o julgamento seria um “espetáculo de horrores” à la Julgamentos de Moscou; (e) haveria “torturas” psicológicas, “campo de detenção” e “mortes de inocentes”; (f) o objetivo seria “eliminar opositores” e consolidar “poder absoluto” (MENEZES, 2025; PODER360, 2025).
3) “Tríade da maldade”: um rótulo conspiratório
Reclamação: Planalto + “alguns juízes” do STF + “mídia parceira” perseguiriam Bolsonaro.
Exame epistêmico: rótulos como “tríade da maldade” não provam conluio entre Executivo, Judiciário e imprensa. O que há de verificável é:
- o STF julga Bolsonaro e mais sete réus por tentativa de golpe, em sessões públicas, com defesa constituída e recursos (AGÊNCIA BRASIL, 2025; CNN BRASIL, 2025).
- a Primeira Turma (5 ministros) é quem julga; o presidente do STF (Barroso) não participa, o que contradiz a tese de “resultado combinado” (CARTA CAPITAL, 2025; AGÊNCIA BRASIL, 2025).
Conclusão: rótulo político, sem evidência de cartel institucional. (PODER360, 2025; AGÊNCIA BRASIL, 2025; CARTA CAPITAL, 2025; CNN BRASIL, 2025).
4) “Narrativa absurda de golpe”? O fato do 8 de Janeiro
Fato histórico: em 8/1/2023, apoiadores de Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, pedindo ruptura institucional. O episódio foi reconhecido por instituições brasileiras e pela comunidade internacional como ataque à democracia (UFSM, 2023; STF, 2024; MJSP, 2024).
Situação atual: em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF julga Bolsonaro por tentativa de golpe, com produção probatória (documentos, mensagens, testemunhos), sustentação do PGR e defesa técnica (AP; AGÊNCIA BRASIL; VEJA; MIGALHAS, 2025).
Chamar isso de “ficção” desconsidera atos, registros e procedimentos — um típico uso de doxa para deslegitimar fatos verificáveis.
5) “Julgamentos de Moscou”: analogia sem proporção
Nos anos 1936–1938, os Processos de Moscou foram julgamentos-farsa do stalinismo, com confissões sob tortura, provas fabricadas e execuções, no contexto do Grande Expurgo (WIKIPÉDIA, 2023; GAZETA DO POVO, 2025).
Contraste com o Brasil (2025):
- sessões públicas, transmissão, contraditório, ampla defesa e possibilidade de recurso;
- inexistem evidências de tortura de réus para obter confissões;
- pluralidade institucional (PGR, defesa, colegiado), e controle social pela imprensa.
Logo, a analogia a Stalin banaliza crimes históricos e erra na escala e na natureza dos fatos. É uma comparação hiperbólica — doxa, não episteme.
6) “Torturas”, “campo de concentração”, “mordaça”: desmontando imagens
- “Campo de detenção” pós-8/1: houve triagem inicial de detidos na PF e depois encaminhamentos judiciais. Não se trataram de campos de extermínio; o paralelo com nazismo é grotescamente desproporcional (PODER360, 2025; MJSP, 2024).
- “Torturas”/pressões por delação: a delação premiada é instrumento legal; alegações de abuso devem ser investigadas, mas não há demonstração de política estatal de tortura psicológica comparável a regimes totalitários (AP, 2025; AGÊNCIA BRASIL, 2025).
- “Mortes de inocentes”: casos de morte sob custódia exigem apuração e responsabilização, mas são de natureza diversa de execuções políticas sistemáticas como nas ditaduras. Generalizar a partir de casos trágicos distorce a realidade sistêmica.
7) “Eliminar opositores” e “poder absoluto”: a inversão retórica
A inelegibilidade de Bolsonaro (TSE) e um eventual veredito criminal não eliminam o conservadorismo democrático, tampouco “apagam” a oposição. O que está em julgamento são atos específicos de tentativa de ruptura institucional (AP; JOTA; AGÊNCIA BRASIL, 2025). Além disso, o presidente do STF, Luís Roberto Barroso, distinguira publicamente “extremismo” de posições conservadoras, liberais ou progressistas ao dizer que o extremismo deve ser “empurrado para a margem da história” — e não participa do julgamento (PODER360, 2025; GAZETA DO POVO, 2025).
8) As falas de Barroso, no contexto
Em 2023, no congresso da UNE, Barroso disse “nós derrotamos o bolsonarismo”, frase criticável no tom, mas cujo contexto oficial foi esclarecido: referência ao voto popular de 2022 e à defesa da democracia contra a violência política (AGÊNCIA BRASIL, 2023; CNN BRASIL, 2023). Em 1º/9/2025, disse que o extremismo deve ser “empurrado para a margem da história” — reforçando a convivência democrática entre conservadores, liberais e progressistas — e não atuará no julgamento (PODER360, 2025; GAZETA DO POVO, 2025). Transformar essas falas em “prova” de resultado prévio é extrapolação doxástica.
9) Memória histórica: o que foi, de fato, uma ditadura
A ditadura militar brasileira (1964–1985) prendeu, torturou e matou opositores, como documentam Brasil: Nunca Mais e o Relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV):
- Brasil: Nunca Mais sistematizou 1.800 casos de tortura e pelo menos 125 desaparecimentos a partir de processos judiciais (MEMORIAL DA DEMOCRACIA, 2025; BNM/MPF, s.d.).
- A CNV reconheceu 434 mortos e desaparecidos políticos e detalhou responsabilidades (CNV, 2014; AGÊNCIA BRASIL, 2014; CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2014).
Comparar o Brasil democrático de 2025 — com imprensa livre, eleições marcadas, julgamentos públicos e possibilidade de recurso — à violência sistemática de 1964–1985 apaga as vítimas reais e embaralha a noção de autoritarismo.
10) Por que essa retórica convence?
A eficácia do discurso de Michelle reside em três chaves persuasivas:
- Metáforas alarmistas (Stalin, “campos”), que criam equivalências morais instantâneas.
- Vitimização total (“querem eliminar Bolsonaro”), que simplifica conflitos jurídicos complexos.
- Apelo à ignorância histórica — segmentos que não conhecem Brasil: Nunca Mais e a CNV estão mais vulneráveis a confundir responsabilização com perseguição.
Antídoto: recuperar a memória dos golpes (Estado Novo, 1937; 1964) e suas violências; valorizar o devido processo legal; diferenciar punição de crimes políticos de supressão da oposição.
Conclusão
A nota de Michelle Bolsonaro usa palavras-choque para descrever um processo judicial complexo que tramita com garantias constitucionais. Os eixos semânticos — “tríade da maldade”, “ficção de golpe”, “Moscou”, “torturas”, “eliminação de opositores” — não resistem ao cotejo com fatos, procedimentos e com a história brasileira. Em termos epistemológicos, trata-se de doxa: opinião retórica, hiperbólica e descontextualizada. Em termos democráticos, é combustível para desconfiança e radicalização.
Proteger a democracia exige memória (para não banalizar ditaduras), método (aplicar a lei sem atalhos) e coragem (aceitar decisões judiciais fundamentadas, ainda que afetem líderes populares). O Brasil já pagou caro quando a doxa derrotou a episteme. Não se deve repetir o erro.
Referências
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Câmara dos Deputados. Comissão da Verdade responsabiliza 377 pessoas por repressão na ditadura. Brasília, 10 dez. 2014. Disponível em: Câmara. Acesso em: 06 set. 2025.
CartaCapital. Por que só 5 ministros do STF julgarão Bolsonaro pela tentativa de golpe? São Paulo, 31 ago. 2025. Disponível em: CartaCapital. Acesso em: 06 set. 2025.
CNN Brasil. “Nós derrotamos o bolsonarismo”, diz Barroso em evento da UNE. 13 jul. 2023. Disponível em: CNN Brasil. Acesso em: 06 set. 2025.
CNV – Comissão Nacional da Verdade. Relatório Final – Volume I e Volume III (Mortos e Desaparecidos). Brasília, 2014. Disponível em: CNV (Memórias Reveladas). Acesso em: 06 set. 2025.
Gazeta do Povo. Show trials: julgamentos políticos usados para perseguir opositores. 29 mar. 2025. Disponível em: Gazeta do Povo. Acesso em: 06 set. 2025.
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JOTA. Julgamento de Bolsonaro é “indispensável” para abandonar história de golpes, diz Barroso. 02 set. 2025. Disponível em: JOTA. Acesso em: 06 set. 2025.
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MENEZES, Ana Luiza. Michelle Bolsonaro: “A tríade da maldade vem quebrando regras”. Pleno.News, 05 set. 2025. Disponível em: Pleno.News. Acesso em: 06 set. 2025.
MJSP – Ministério da Justiça e Segurança Pública. Após um ano do 08 de janeiro, instituições celebram a democracia brasileira. Brasília, 08 jan. 2024. Disponível em: gov.br. Acesso em: 06 set. 2025.
PODER360. Michelle diz que “tríade da maldade” persegue Bolsonaro. Brasília, 06 set. 2025. Disponível em: Poder360. Acesso em: 06 set. 2025.
PODER360. “Vamos empurrar o extremismo para a margem da história”, diz Barroso. Brasília, 01 set. 2025. Disponível em: Poder360. Acesso em: 06 set. 2025.
PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2006.
STF – Supremo Tribunal Federal. 8 de janeiro: um ano depois, ministros reafirmam defesa da democracia. Brasília, 04 jan. 2024. Disponível em: Portal STF. Acesso em: 06 set. 2025.
UFSM – Observatório da Crise. Ataque à democracia brasileira: a invasão aos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Santa Maria, 2023. Disponível em: UFSM. Acesso em: 06 set. 2025.
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WIKIPÉDIA. Processos de Moscou. 2023. Disponível em: Wikipédia. Acesso em: 06 set. 2025.
BNM Digital/MPF. Brasil: Nunca Mais – acervo digital. s.d. Disponível em: MPF. Acesso em: 06 set. 2025.
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