Como os critérios de Barbara W. Tuchman explicam a gestão da COVID-19, a inelegibilidade do ex-presidente e a condenação do STF — e por que a educação crítica (Paulo Freire) é o antídoto democrático.
Este artigo aplica o conceito de insensatez de Barbara W. Tuchman — a persistência de grupos no poder em políticas contraproducentes, com alternativas viáveis, sabendo-se disso no próprio tempo — à condução da COVID-19 no Brasil e aos desdobramentos institucionais posteriores (inelegibilidade no TSE e condenação no STF). Defendemos que publicizar fatos e responsabilizar são formas de educação política do povo, compatíveis com a pedagogia emancipadora de Paulo Freire.
1) Por que Tuchman agora?
Em A Marcha da Insensatez, Tuchman descreve padrões recorrentes de teimosia coletiva: governos insistem no erro mesmo quando alertados e quando há saídas melhores. A categoria não é moralismo; é diagnóstico histórico de decisões que sabotam o interesse público por hubris, ideologia ou cálculo político de curto prazo (TUCHMAN, 1989). A pandemia ofereceu um “experimento ao vivo” para ver esse mecanismo na prática.
2) A pandemia em números (e por que retomá-la)
Em 28 de março de 2023, o Brasil alcançou 700 mil mortes por COVID-19, marco reconhecido pelo Ministério da Saúde. O próprio governo federal enfatizou que vacinas e medidas baseadas em ciência salvam vidas — lição tardia, mas inequívoca.
No plano internacional, as séries de mortalidade mostram o Brasil entre os países mais afetados, sobretudo no pico de abril de 2021 (com mais de 4 mil óbitos em 24h); a Médicos Sem Fronteiras qualificou a situação como “catástrofe humanitária” e cobrou coordenação nacional efetiva.
Por que voltar a isso? Porque os números condensam o custo público de decisões políticas — essenciais para entender as consequências jurídicas e democráticas que vieram depois.
3) Aplicando Tuchman à gestão 2020–2022
(1) Contraproducente e reconhecido à época. Havia consenso científico (máscaras, distanciamento, testagem, rastreamento e, depois, vacinação). A comunicação oficial politizou recomendações, promoveu “tratamento precoce” sem eficácia e descoordenou a resposta, fatores associados à piora de casos e mortes (como detalhado na CPI da Pandemia).
(2) Existiam alternativas viáveis. Países que combinaram medidas não farmacológicas com compra antecipada de vacinas mitigaram impactos. No Brasil, a CPI documentou atrasos em imunizantes e falhas de coordenação.
(3) Persistência coletiva. Não foi um desvio individual: envolveu cúpula, ministérios e aliados, como registram os relatórios e pedidos de indiciamento da CPI (2021). É o núcleo da insensatez: um grupo persevere no erro apesar dos alertas.
4) Educação crítica e laica: prevenção estrutural (Paulo Freire)
Para Paulo Freire, educação é prática de liberdade e desenvolvimento da consciência crítica; sem ela, a sociedade sucumbe à manipulação e à falsa solução autoritária (FREIRE, 1968; 1996). Em crises sanitárias, isso se traduz em:
- Alfabetização científica e informacional para reconhecer evidências;
- Debate público racional contra a desinformação;
- Controle social de políticas, com cobrança de accountability.
Pesquisas no Brasil durante a COVID-19 mostram que preferências políticas correlacionaram-se a menor conhecimento factual e maior adesão a desinformações, reforçando a urgência da formação crítica do cidadão. (GRAMACHO et al., 2021).
Em chave freiriana: publicizar fatos, julgar e responsabilizar também é pedagogia pública — cria memória cívica e melhora a qualidade da escolha democrática.
5) 8 de janeiro de 2023: do ataque ao julgamento
Em setembro de 2023, o STF iniciou os julgamentos penais de 8/1. A Corte consolidou que se tratou de ataque coordenado às instituições, com condenações por abolição violenta do Estado Democrático de Direito (art. 359-L) e golpe de Estado (art. 359-M), entre outros crimes.
Esse capítulo é continuação da mesma lógica de insensatez: negação de regras, fatos e limites constitucionais — agora voltada a subverter o resultado eleitoral.
6) Inelegibilidade (TSE/2023) e condenação no STF (2025)
Inelegibilidade até 2030. Em 30/06/2023, o TSE declarou Jair Bolsonaro inelegível por 8 anos pela reunião com embaixadores (abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação). Em 31/10/2023, o Tribunal voltou a condená-lo pelo uso eleitoral do Bicentenário de 7 de Setembro de 2022. São consequências jurídicas de práticas eleitorais que traduzem, na chave de Tuchman, insensatez política (alternativas legais existiam; alertas eram claros).
Condenação no STF (11/09/2025). A Primeira Turma do STF condenou Bolsonaro por cinco crimes (entre eles, organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado), fixando 27 anos e 3 meses de reclusão, regime inicial fechado e 124 dias-multa (placar 4–1). Cabem recursos, mas o marco é histórico.
Pela Lei da Ficha Limpa, condenação colegiada pode gerar nova inelegibilidade por 8 anos após o cumprimento da pena, ampliando, em tese, o horizonte de impedimento além de 2030 (interpretação discutida na imprensa e em análises jurídicas).
7) Conclusão — por que retomamos a COVID-19, por que falar da inelegibilidade e por que o julgamento no STF importa
Retomamos a pandemia porque ela é o experimento histórico onde se veem, em tempo real, os três critérios de insensatez (TUCHMAN, 1989): políticas contraproducentes reconhecidas (negação da ciência, “tratamento precoce”, atrasos de vacina), alternativas viáveis recusadas e persistência coletiva na direção errada. O saldo — 700 mil vidas — é o dado-síntese do custo público dessa trajetória.
Falamos da inelegibilidade (TSE/2023) porque ela é a consequência jurídica direta de atos eleitorais que materializam esse padrão de insensatez política: abusos de poder e instrumentalização de eventos de Estado para benefício próprio. Falamos da condenação no STF (11/09/2025) porque ela é outra consequência do mesmo padrão, agora contra o Estado Democrático de Direito: a tentativa de subverter as regras do jogo levou à punição penal mais grave do período democrático.
O alerta cívico: reeleger (se fosse possível) quem protagonizou essa marcha, ou eleger quem repete a retórica antidemocrática, reabre a porta a novos ciclos de insensatez — na saúde (negacionismo), na educação (ataques à escola laica), na segurança (iliberalismo) e nas demais políticas públicas. A “vacina institucional” tem duas doses:
- Instituições que responsabilizam — TSE e STF afirmam que ninguém está acima da lei;
- Instituições que educam — escola laica e universidade formam consciência crítica, para que o povo não terceirize o juízo a lideranças carismáticas e decida melhor, no espírito de Paulo Freire (FREIRE, 1968; 1996).
Em linguagem de sala de aula: insensatez política é um conteúdo que se reprova com fatos, lei e educação crítica. O Brasil passou por uma prova dura; aprender com ela é o que interrompe o cortejo da insensatez e abre caminho para a lucidez democrática.
Referências
- AGÊNCIA BRASIL. STF condena Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. Brasília, 11 set. 2025. Disponível em: portal da Agência Brasil. Acesso em: 12 set. 2025.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Brasil chega à marca de 700 mil mortes por Covid-19. Brasília, 28 mar. 2023. Disponível em: Gov.br/saúde. Acesso em: 12 set. 2025.
- CNN BRASIL. STF condena Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão. Brasília, 11 set. 2025. Acesso em: 12 set. 2025.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
- GRAMACHO, Wladimir; et al. Political Preferences, Knowledge, and Misinformation About COVID-19: The Case of Brazil. Frontiers in Political Science, 2021.
- MÉDICOS SEM FRONTEIRAS (MSF). Falhas na resposta à COVID-19 levam Brasil a catástrofe humanitária. 15 abr. 2021. Disponível em: msf.org.br. Acesso em: 12 set. 2025.
- REUTERS. STF condena Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe. 11 set. 2025. Acesso em: 12 set. 2025.
- TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Por maioria de votos, TSE declara Bolsonaro inelegível por 8 anos (reunião com embaixadores). 30 jun. 2023. Acesso em: 12 set. 2025.
- TSE (Tribunal Superior Eleitoral). TSE declara inelegíveis Bolsonaro e Braga Netto por abuso de poder no Bicentenário da Independência. 31 out. 2023. Acesso em: 12 set. 2025.
- TUCHMAN, Barbara W. A marcha da insensatez: de Tróia ao Vietnã. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
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