domingo, 12 de abril de 2026

Religião, política e algoritmos na modernidade líquida

Como Bauman ajuda a compreender a disputa moral das novas gerações entre líderes religiosos, igrejas digitais e plataformas de atenção


Índice

  1. Lide
  2. O que significa pensar uma política da religiosidade líquida
  3. Bauman: vínculos frágeis, poder disperso e cultura em fluxo
  4. Da autoridade herdada à autoridade performática
  5. Igrejas digitais e o sagrado em regime de conexão
  6. Algoritmos como curadores invisíveis da experiência religiosa
  7. A nova geração entre desafiliação, busca espiritual e consumo de sentido
  8. Quando a religião entra na arena política por meio das plataformas
  9. O risco da moral instantânea e da indignação programada
  10. Conclusão
  11. Referências


A religiosidade líquida não afeta apenas a fé privada; ela reorganiza também a formação moral, a autoridade simbólica e a própria disputa política no Ocidente. Em uma época descrita por Zygmunt Bauman como marcada pela fragilidade dos vínculos, pela dissolução de formas duráveis e pela substituição de estruturas por redes, a religião deixa de ser apenas herança familiar ou pertença estável e passa a circular como oferta, conexão, conteúdo e performance. Nesse cenário, líderes religiosos já não disputam somente fiéis dentro dos templos, mas atenção dentro das plataformas; igrejas já não operam apenas como comunidades locais, mas como ecossistemas midiáticos; e algoritmos passam a selecionar quais sermões, indignações, símbolos e guerras culturais serão vistos, repetidos e internalizados pelas novas gerações. Ao mesmo tempo, dados recentes mostram que o desligamento da religião herdada cresceu em muitos países, que a desafiliação é expressiva entre jovens adultos e que o universo digital ocupa posição estrutural na vida cotidiana dos adolescentes. A questão já não é apenas se os jovens têm ou não religião, mas quem, como e por quais mediações está formando sua imaginação moral.  Em muitos países, grandes contingentes de adultos deixaram a religião da infância, e a categoria dos religiosamente não afiliados tem registrado ganhos líquidos por mudança religiosa. Nos Estados Unidos, pesquisas recentes também não mostram evidência clara de um “grande avivamento” nacional entre jovens adultos, ainda que existam movimentos localizados e maior visibilidade digital de experiências religiosas. 


O que significa pensar uma política da religiosidade líquida


Pensar religião, política e algoritmos a partir de Bauman exige ir além da sociologia tradicional da secularização. O problema central não é apenas que menos pessoas obedecem automaticamente à religião dos pais ou dos avós. O problema é que a própria religião foi deslocada para um ambiente histórico em que quase tudo circula sob o signo da escolha individual, da revisão permanente, da competição por atenção e da curta duração.


Em Tempos líquidos, Bauman descreve uma condição em que as organizações sociais já não conseguem manter sua forma por muito tempo, o poder se afasta da política e os indivíduos são lançados a um universo de incerteza e responsabilidade privatizada.  Em Amor líquido, ele mostra que o sujeito contemporâneo deseja vínculo, mas teme seu peso; precisa conectar-se, mas quer preservar a reversibilidade da conexão.  Em A cultura no mundo líquido moderno, ele sugere que a cultura deixou de operar prioritariamente como formação durável para operar como circuito de ofertas, estímulos e seduções. 


Aplicado ao fenômeno religioso, isso significa que a fé passa a habitar o mesmo ambiente das mercadorias simbólicas, dos influenciadores, dos fluxos emocionais, das identidades moduláveis e das redes que conectam e desconectam sem grande custo estrutural. A religião continua presente, mas sua forma social muda. Ela se torna mais móvel, mais midiática, mais seletiva e mais exposta à lógica política da visibilidade.


Bauman: vínculos frágeis, poder disperso e cultura em fluxo


Há três ideias de Bauman especialmente úteis aqui.


A primeira é a de que a modernidade líquida dissolve as estruturas longas que antes ofereciam estabilidade à experiência. Isso enfraquece a transmissão religiosa familiar e comunitária, porque a tradição já não encontra as mesmas condições institucionais de repetição. 


A segunda é o divórcio entre poder e política. Bauman sustenta que o poder efetivo se desloca para esferas extraterritoriais e globalizadas, enquanto a política continua local e fragilizada.  Hoje, parte desse poder simbólico circula pelas plataformas digitais: elas não são igrejas, não são parlamentos, não são escolas, mas condicionam fortemente a circulação da crença, da moral e da indignação.


A terceira é a transformação da cultura. Em vez de consolidar identidades estáveis, a cultura líquido-moderna passa a estimular a mutação constante.  Isso atinge diretamente a religião. O fiel herdado cede lugar ao usuário de repertórios espirituais; a ortodoxia densa cede espaço, em muitos casos, à curadoria pessoal do sagrado.


Da autoridade herdada à autoridade performática


Nas gerações anteriores, a autoridade religiosa costumava ser transmitida por uma cadeia relativamente sólida: família, comunidade, templo, rito, tradição, clero, calendário. O padre, o pastor, o rabino, o dirigente ou o ancião tinham autoridade porque ocupavam um lugar reconhecido numa estrutura durável.


Na modernidade líquida, essa autoridade não desaparece por completo, mas perde exclusividade. Ela passa a competir com uma nova forma de autoridade: a autoridade performática, isto é, aquela que nasce da capacidade de circular, engajar, emocionar, viralizar e fixar atenção. O líder religioso continua podendo ser institucional, mas seu alcance é cada vez mais mediado por linguagem audiovisual, presença em rede, carisma de plataforma e capacidade de leitura algorítmica do ambiente público.


Isso altera profundamente a política da religião. O líder que antes formava fiéis por convivência prolongada agora frequentemente forma públicos por contato recorrente, porém fragmentado. Ele fala menos a uma comunidade estável e mais a uma audiência oscilante. Seu sermão já não compete apenas com outros sermões; compete com influenciadores, entretenimento, escândalos, notícia, memes, guerra cultural e economia da distração.


Igrejas digitais e o sagrado em regime de conexão


As igrejas digitais são um dos fenômenos mais expressivos dessa mutação. Não se trata apenas de transmissão de cultos. Trata-se de uma reorganização do religioso em linguagem de plataforma: cortes curtos, pregação em formato de vídeo vertical, discipulado por comunidades de mensagem, aconselhamento por direct, identidade de grupo mediada por hashtags, pastoreio parcial por lives, consumo de doutrina por recomendação algorítmica.


Esse processo tem ganhos claros. Amplia acesso, reduz barreiras geográficas, aproxima jovens que talvez nunca entrassem num templo tradicional, permite circulação de formação religiosa e cria novas portas de entrada para a experiência espiritual. Mas ele também produz uma transformação estrutural: a religião entra em regime de conexão, e não necessariamente em regime de pertença duradoura.


Bauman antecipou algo semelhante ao mostrar que a rede serve tanto para conectar quanto para desconectar, e que a lógica das conexões tende a deslocar a lógica dos relacionamentos densos.  O problema, no campo religioso, é que uma conexão espiritual recorrente não equivale automaticamente a uma comunidade ética robusta. Pode haver proximidade simbólica sem responsabilidade compartilhada. Pode haver identidade declarada sem disciplina formativa. Pode haver presença digital sem enraizamento.


Algoritmos como curadores invisíveis da experiência religiosa


É aqui que os algoritmos entram como elemento decisivo. Eles não criam a religião, mas organizam sua visibilidade. Em grande parte, eles decidem qual conteúdo será mais visto, repetido, monetizado e emocionalmente reforçado. Em outras palavras: os algoritmos funcionam como curadores invisíveis de parte relevante da experiência religiosa contemporânea.


Isso é especialmente importante para as novas gerações. Nos Estados Unidos, pesquisa do Pew Research Center mostrou que 96% dos adolescentes usam internet diariamente, quase metade diz estar online “quase constantemente”, 73% acessam YouTube todos os dias, cerca de seis em cada dez acessam TikTok diariamente, e um terço usa pelo menos uma grande plataforma quase o tempo todo.  Esses dados não são religiosos em si, mas têm efeito religioso direto: é nesse ambiente que muitos jovens hoje encontram linguagem moral, pertencimento simbólico, referências de fé e líderes de autoridade difusa.


A UNESCO também tem alertado para o peso dos criadores de conteúdo na esfera pública digital. Em sua iniciativa sobre creators, a organização afirma que influenciadores se tornaram importantes disseminadores de informação e registra que 62% dos “news influencers” não verificam sistematicamente a informação antes de compartilhá-la; 42% usam curtidas e visualizações como critério de credibilidade; e 73% dizem querer formação em alfabetização midiática e informacional. 


Quando esse ecossistema se cruza com religião e política, o problema se adensa. Não se trata apenas de doutrina mal explicada ou simplificada. Trata-se de uma formação moral mediada por mecanismos de recompensa que favorecem impacto, velocidade, reforço identitário e polarização.


A nova geração entre desafiliação, busca espiritual e consumo de sentido


Os dados mais recentes mostram que a relação das novas gerações com a religião é mais complexa do que a fórmula simplista “os jovens abandonaram a fé” sugere. Em vários países, muitas pessoas têm deixado a religião da infância; o crescimento dos religiosamente não afiliados é expressivo; e, entre jovens adultos, a desafiliação segue relevante. O Pew encontrou, em 36 países, que em muitos deles uma parcela significativa dos adultos abandonou o grupo religioso em que foi criada, e que os “sem religião” aparecem como a categoria com maiores ganhos líquidos por switching. 


Nos Estados Unidos, o PRRI mostrou que, entre 18 e 29 anos, a proporção de pessoas religiosamente não afiliadas subiu de 32% em 2013 para 38% em 2024; entre as mulheres jovens, chegou a 40%, enquanto entre homens jovens ficou em 36%. A mesma análise também encontrou declínio na frequência semanal a serviços religiosos entre mulheres jovens e aumento da parcela que diz que a religião não é importante em sua vida. 


Ao mesmo tempo, o próprio Pew advertiu, no fim de 2025, que pesquisas recentes não indicam evidência clara de um amplo renascimento religioso nacional entre jovens adultos norte-americanos.  Isso é importante porque impede diagnósticos apressados. A nova geração não cabe numa única categoria. Ela mistura desafiliação, busca espiritual, experimentação moral, consumo seletivo de tradição, presença digital intensa e desejo de autenticidade.


É justamente essa ambivalência que Bauman ajuda a compreender. O jovem líquido não rejeita necessariamente o sentido; ele rejeita com frequência os formatos pesados, totais e não revisáveis de autoridade. Quer comunidade, mas teme clausura. Quer transcendência, mas desconfia de captura institucional. Quer linguagem moral, mas sob condição de autonomia biográfica.


Quando a religião entra na arena política por meio das plataformas


A politização contemporânea da religião não ocorre apenas por partidos, eleições ou púlpitos tradicionais. Ela ocorre também por ecossistemas digitais de influência. Líderes religiosos, igrejas online, perfis de comentário moral, canais confessionais e páginas de guerra cultural disputam enquadramentos do mundo: família, gênero, nação, guerra, escola, sexualidade, liberdade, autoridade, justiça, sofrimento, inimigo.


Nesse ponto, Bauman continua extremamente atual. Quando ele fala da separação entre poder e política, ajuda a perceber que parte do poder de moldar sensibilidades já não está nas instituições democráticas clássicas, mas em redes transversais de circulação simbólica.  A religião, então, torna-se uma das linguagens mais eficazes para oferecer orientação existencial num mundo fragmentado. E, por isso mesmo, torna-se também um recurso político muito poderoso.


A plataforma favorece mensagens claras, fortes, emocionais e identitárias. Logo, tende a premiar menos a tradição refletida e mais o conteúdo que organiza medos, fornece inimigos e oferece sensação de pertencimento imediato. O líder religioso digitalmente eficaz nem sempre é o mais teologicamente profundo; muitas vezes é o mais adaptado à gramática algorítmica da atenção.


O risco da moral instantânea e da indignação programada


Aqui emerge talvez o ponto mais delicado. Em Modernidade e Holocausto, Bauman insiste que a distância social e a mediação técnica podem reduzir a responsabilidade moral e facilitar formas de indiferença. Ele fala da produção social da invisibilidade moral e da necessidade de uma ética da distância e das consequências distantes.


Transportado para o mundo digital-religioso, esse alerta é crucial. A moral pode tornar-se instantânea, altamente reativa e pouco reflexiva. Julga-se rápido, partilha-se rápido, condena-se rápido, absolve-se rápido. A religião corre então o risco de ser usada menos como via de aprofundamento ético e mais como mecanismo de aceleração afetiva da política.


A indignação programada é um exemplo claro. O algoritmo aprende que certos temas mobilizam medo, raiva, fervor e lealdade grupal; logo, entrega mais desse conteúdo. O resultado não é apenas polarização. É uma espécie de catequese emocional automatizada, na qual o feed vai selecionando quais causas merecem compaixão, quais grupos merecem suspeita, quais símbolos merecem veneração e quais inimigos merecem combate.


Nesse ambiente, forma-se uma religiosidade politicamente eficiente, porém muitas vezes moralmente rasa. Fala-se muito em verdade, mas sob baixa capacidade de escuta; fala-se muito em valores, mas sob forte seletividade; fala-se muito em comunidade, mas frequentemente em comunidade contra alguém.


Conclusão


O encontro entre Bauman, religiosidade líquida e política digital revela uma mudança profunda na formação moral das novas gerações. A religião já não pode ser pensada apenas como herança comunitária nem apenas como crença privada. Ela passou a circular como linguagem de identidade, conteúdo de plataforma, repertório político e mercadoria simbólica. Nesse processo, líderes religiosos tornaram-se também mediadores de atenção; igrejas passaram a operar como ecossistemas comunicacionais; e algoritmos assumiram, sem mandato democrático nem responsabilidade pastoral, um papel poderoso na curadoria do visível e do crível.


Os dados mais recentes sugerem um quadro complexo: cresce a desafiliação em muitos contextos, a tradição herdada perde automaticidade, e não há prova robusta de um grande retorno geral da juventude à religião organizada nos Estados Unidos, embora existam sinais localizados e visíveis de interesse espiritual e engajamento.  Ao mesmo tempo, a vida digital é tão intensa entre adolescentes e jovens que ignorar seu papel na formação religiosa e política seria intelectualmente ingênuo. 


O grande desafio do Ocidente, nesse cenário, não é apenas “trazer os jovens de volta” nem simplesmente celebrar toda forma de espiritualidade conectada. O desafio é mais difícil: construir comunidades éticas densas, intelectualmente honestas e politicamente responsáveis em uma civilização treinada para o fluxo, a reversibilidade e a excitação contínua. Bauman diria que o problema do nosso tempo é reunir novamente o que foi separado: vínculo e liberdade, cultura e responsabilidade, poder e política. No campo religioso, isso significa talvez reunir de novo fé e formação, presença e comunidade, convicção e prudência, transcendência e responsabilidade pelo outro. Sem isso, a religião corre o risco de sobreviver, sim, mas em estado líquido demais para sustentar uma moral pública à altura da crise contemporânea.


Referências


BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. 


BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. 


BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. 


BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar. 


PEW RESEARCH CENTER. Around the world, many people are leaving their childhood religions. 26 mar. 2025. 


PEW RESEARCH CENTER. Religion holds steady in America: recent polling shows no clear evidence of a religious revival among young adults. 8 dez. 2025. 


PEW RESEARCH CENTER. Teens, social media and technology 2024. 12 dez. 2024. 


PRRI. Gen Z, gender, and religion. 5 mar. 2025. 


UNESCO. UNESCO trains digital content creators to become trusted voices online. atual. 18 mar. 2025. 


UNESCO. Empowering digital content creators as trusted information relays. 2025. 



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