A marcha a pé de parlamentares entre Paracatu (MG) e Brasília (DF), iniciada em 19 de janeiro de 2026, foi apresentada como “Caminhada pela liberdade e justiça” e estruturada como protesto político contra prisões relacionadas ao 8 de janeiro e em defesa de Jair Bolsonaro (PODER360, 2026; CONGRESSO EM FOCO, 2026). O problema democrático não reside no direito de manifestação, mas no deslocamento de função: o gesto performático ocupa o lugar do trabalho legislativo verificável, e a celebração popular disso reforça a erosão da responsabilidade institucional (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2022).
A cena política e o fato bruto
A marcha foi anunciada e iniciada em 19 de janeiro de 2026, com divulgação de percurso de aproximadamente 240 km pela BR-040, partindo de Paracatu (MG) rumo a Brasília (DF), sob o mote “Caminhada pela liberdade e justiça” (PODER360, 2026; CONGRESSO EM FOCO, 2026). A apresentação pública do ato tem um núcleo político claro: protesto contra prisões relacionadas ao 8 de janeiro e defesa de Bolsonaro, somado a críticas ao STF e ao governo federal (CONGRESSO EM FOCO, 2026; GAZETA DO POVO, 2026).
O ponto decisivo não é a quilometragem. É o rearranjo simbólico: o parlamentar desloca a expectativa pública do que importa — trabalho legislativo, fiscalização, presença institucional — para o que rende atenção imediata: gesto, imagem, drama e narrativa.
Mandato não é símbolo: é função pública
O mandato parlamentar é uma delegação para exercer funções constitucionais. A Câmara sintetiza sem rodeios: deputado federal tem duas atribuições principais estabelecidas na Constituição — legislar e fiscalizar — e ganhou crescente relevância também na definição do Orçamento (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2022).
A Constituição, ao organizar o Poder Legislativo, estabelece o Congresso como espaço institucional de deliberação e controle (BRASIL, 1988). E, na prática, a engrenagem do Legislativo se realiza em plenário e, sobretudo, em comissões permanentes e temporárias, que estruturam o trabalho de análise e decisão (BRASIL, 1988).
Legislar: texto, consequência e responsabilidade
Legislar é um exercício de causalidade pública: definir regras que produzem consequências materiais, geram custos, criam incentivos e limitam poderes. Isso exige texto, técnica, negociação transparente, avaliação de impacto e coerência com o ordenamento (BRASIL, 1988). O que se vende como “coragem” no acostamento, muitas vezes, é apenas a recusa do trabalho mais exigente: enfrentar o conflito real com instrumentos institucionais, assumindo o ônus das consequências — aquilo que Weber descreveu como ética da responsabilidade, em oposição ao moralismo de efeito curto (WEBER, 2004).
Fiscalizar: o trabalho que não vira “reel”
Fiscalização é o lugar onde a democracia deixa de ser discurso e vira contenção de abuso, desperdício e arbitrariedade. O controle externo e a fiscalização contábil, financeira e orçamentária são pilares do desenho republicano (BRASIL, 1988; CONGRESSO NACIONAL, s.d.).
Fiscalização, porém, raramente rende estética heroica: é requerimento, relatório, checagem, insistência, trabalho de bastidor. Não se parece com marcha; por isso mesmo é mais importante do que marcha.
Representar: mediar interesses, não fabricar torcida
Representar não é encenar afinidade com uma bolha; é mediar demandas conflitantes e produzir decisões legitimáveis em público. Em democracias maduras, a legitimidade depende da capacidade de justificar decisões em processos institucionais — razão, prova e debate, não apenas emoção e antagonismo (HABERMAS, 2003). Quando o parlamentar troca o rito deliberativo por uma dramaturgia, o mandato migra do campo da responsabilidade para o campo da torcida.
O marketing político como substituto do Parlamento
A marcha Paracatu–Brasília é, por desenho, um produto de comunicação: narrativa linear, “capítulos” diários, trilha emocional, encontros, transmissões, promessa de clímax na chegada. A política se organiza como conteúdo seriado.
Guy Debord descreveu essa lógica ao analisar a sociedade do espetáculo: a experiência pública é mediada por imagens que substituem o real, e o valor político passa a ser medido por visibilidade, não por substância (DEBORD, 1997). Na política conectada, esse mecanismo se intensifica: o ato que “viraliza” vence o ato que “resolve”.
A marcha não é apenas uma manifestação; é uma técnica de reposicionamento: desloca-se a régua de avaliação do mandato da esfera institucional (presença, relatoria, voto, fiscalização) para a esfera emocional (sacrifício, coragem, “perseguição”, “liberdade”).
“Caminha que passa”: a terceirização simbólica do dever
A crítica “caminha que passa” resume com precisão o que ocorre quando o gesto substitui a função: passa a obrigação.
Passa:
- a presença em comissões e a construção de acordos deliberativos;
- o enfrentamento técnico-jurídico no campo próprio (projeto, voto, emenda, relatório);
- a fiscalização documentada do Executivo e do uso do dinheiro público;
- a prestação de contas baseada em entregas.
O parlamentar que se apresenta como “peregrino” desloca sua identidade funcional: deixa de ser legislador e fiscalizador, passa a ser personagem. A política vira romance: herói, perseguidor, jornada, provação e redenção. O preço desse roteiro é alto: ele corrói a cultura da accountability e treina o público para confundir suor com trabalho.
A estética do sacrifício: suor como prova moral
A marcha opera pela moralização corporal: quanto mais difícil o gesto, mais “autêntico” ele pareceria. Trata-se de uma conversão do político em liturgia: sofrimento como certificado de verdade, cansaço como evidência de justiça.
Essa estética é sedutora porque simplifica o mundo. O problema é que a simplificação é antidemocrática: substitui a avaliação racional do mandato por uma devoção emocional à performance. Weber advertiu que a política exige disciplina, cálculo e responsabilidade — virtudes que não são fotogênicas, mas são civilizatórias (WEBER, 2004). A estética do sacrifício faz o oposto: premia o gesto que se exibe, não a decisão que se sustenta.
A inversão narrativa: “liberdade” como álibi e instituições como inimigas
A caminhada foi apresentada como “pela liberdade e justiça” e vinculada a críticas ao STF e à situação de presos do 8 de janeiro, além de defesa de Bolsonaro (CONGRESSO EM FOCO, 2026; PODER360, 2026; GAZETA DO POVO, 2026). O enquadramento produz uma inversão narrativa típica do populismo performático: instituições de controle viram “perseguidoras” e atores responsabilizados viram “perseguidos”.
Crítica legítima versus deslegitimação estrutural
Crítica institucional é parte do jogo democrático. O problema começa quando a crítica não mira atos concretos, mas a legitimidade do próprio sistema de controle — quando se troca o debate sobre decisões por uma guerra moral contra as instituições. Nesse cenário, o Estado de Direito vira obstáculo e a rua vira atalho.
O resultado é um rebaixamento deliberado do debate: substitui-se prova por impressão, procedimento por narrativa, jurisdição por “clamor”.
O curto-circuito democrático: juiz vira vilão, réu vira mártir
A marcha, enquanto espetáculo, tende a produzir um curto-circuito: julgamento vira perseguição; responsabilização vira opressão; o réu se transforma em mártir. Isso não é detalhe retórico: é engenharia política. Quando toda decisão contrária é rotulada como “injustiça”, a lei perde autoridade; e, quando a lei perde autoridade, o que resta é mobilização emocional permanente.
A rua não é um reality show
O eleitor como plateia: o símbolo de desprezo embutido na performance
O ponto mais corrosivo do espetáculo não é a marcha em si, mas o simbolismo que ela carrega sobre como o eleitor é percebido. Ao escolher a performance como linguagem central do mandato, assume-se que o eleitor não será tratado como cidadão apto a cobrar presença, voto, relatoria e fiscalização. Trata-se o eleitor como audiência a ser mantida excitada e leal.
Essa escolha comunica um desprezo silencioso: supõe-se que a população preferirá “capítulos” diários a relatórios, entregas e coerência. É uma pedagogia de rebaixamento cívico: menos cidadania, mais fandom.
Capítulos diários, algoritmo e a economia da atenção
A marcha se encaixa na lógica do engajamento. A política vira produto: trajetória, provação, superação. A economia digital recompensa o que mobiliza emoção rápida e polarização, e penaliza o que exige leitura, método e paciência (ZUBOFF, 2019). O Parlamento, com seu tempo lento e seus ritos, torna-se um ambiente “ruim para conteúdo”. A estrada, ao contrário, é perfeita para a câmera.
Quando essa lógica se normaliza, instala-se uma inversão de prioridade: o mandato passa a ser organizado para produzir mídia, e não para produzir política pública.
O “povo” que aplaude a fuga: idolatria e evasão coletiva de responsabilidade
A indignação central é a celebração popular do abandono simbólico do dever. Aplauso à marcha como se fosse “trabalho” revela uma fuga coletiva: o parlamentar foge do rito institucional, e parte do público foge do papel cívico de cobrar resultados.
Esse pacto é confortável: o político entrega espetáculo e recebe fidelidade; o eleitor entrega devoção e recebe catarse. A democracia, nesse arranjo, vira relação de consumo emocional. O cidadão regride a torcedor. E a accountability — a prestação de contas baseada em evidência — torna-se ruído inconveniente.
O custo de oportunidade: o que fica para trás enquanto a câmera filma a estrada
Mesmo que o Parlamento continue funcionando, o mandato é individualmente imputável: cada parlamentar foi eleito para estar no lugar onde se delibera. A Câmara descreve a centralidade das comissões e do plenário para a análise de propostas (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2022; TV CÂMARA, s.d.). E o Regimento Interno organiza esse funcionamento e reforça, na prática, a importância da presença e dos procedimentos institucionais (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2025).
A cada dia de estrada, perde-se:
- tempo de comissão (onde a política se qualifica ou se degrada);
- espaço de relatoria e negociação formal;
- capacidade de fiscalização documentada;
- responsabilidade pública associada ao voto, que é o gesto real do mandato.
A marcha é vendida como “prova de compromisso”, mas opera como conversão de compromisso em imagem.
O precedente: se a encenação dá voto, o mandato vira conteúdo
O perigo maior é o precedente cultural: se o espetáculo rende capital político, o incentivo para repetir e ampliar é estrutural. A política vira calendário de eventos performáticos, e a função institucional vira apêndice.
Nessa dinâmica, a democracia paga duas vezes:
- perde qualidade deliberativa, porque a energia migra para a encenação;
- perde capacidade de controle, porque a fiscalização vira detalhe sem glamour.
Quando a régua de avaliação se desloca do resultado para o engajamento, o fracasso material deixa de punir e a performance deixa de ser exceção — vira método.
Como cobrar sem cair na armadilha do espetáculo
A saída não é moralismo contra manifestações. A saída é recolocar o mandato na sua métrica própria.
Estudo do Senado sobre avaliação de desempenho legislativo propõe deslocar o foco de contagens superficiais para o conjunto de ações legislativas, dinâmica processual e resultados/impactos (INÁCIO; MENEGUIN, 2014). Em termos simples: medir o que importa, e não o que aparece.
Métricas mínimas de mandato
Cobrança pública pode começar pelo básico:
- presença em sessões e comissões;
- relatorias assumidas e entregues;
- coerência entre discurso e voto;
- participação em audiências e processos deliberativos (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2022).
Fiscalização verificável e transparência
Fiscalização séria deixa rastro:
- requerimentos e pedidos formais;
- relatórios e acompanhamento de execução;
- transparência sobre agenda, prioridades e gastos;
- controle sobre políticas e orçamento, com apoio do desenho constitucional de fiscalização (BRASIL, 1988).
Produção legislativa com impacto
Produzir lei não é “protocolar texto”. Importa:
- constitucionalidade e técnica;
- viabilidade e impacto;
- coerência com direitos e com limites do Estado;
- consequência mensurável na vida pública.
O resto é espuma.
O que seria um gesto simbólico compatível com o cargo
Se a intenção declarada fosse discutir garantias, proporcionalidade e justiça, haveria caminhos institucionais compatíveis com o mandato:
- projetos de lei com redação e fundamentação claras;
- audiências públicas com contraditório e especialistas;
- requerimentos de informação e relatórios sobre eventuais abusos;
- atuação em comissões e relatorias para qualificar o debate.
Símbolo pode existir, mas subordinado ao trabalho. Quando o símbolo substitui o trabalho, vira marketing — e o mandato vira cenário.
Conclusão: a caminhada que o país precisa é outra
A marcha Paracatu–Brasília, iniciada em 19 de janeiro de 2026 e apresentada como “Caminhada pela liberdade e justiça”, é um caso exemplar de espetacularização do mandato: o gesto moralizador ocupa o espaço do dever institucional, e a política se organiza como narrativa para consumo (PODER360, 2026; CONGRESSO EM FOCO, 2026).
“Caminha que passa” não é apenas meme: é diagnóstico. Passa a presença em comissões, passa a fiscalização, passa o texto bem construído, passa a prestação de contas baseada em evidência. Fica o capítulo diário, a emoção imediata, a estética do sacrifício como moeda política.
E, quando parte do “povo” aplaude essa substituição, completa-se a engrenagem da fuga coletiva: o parlamentar foge do rito, o eleitor foge da cobrança, e a democracia se rebaixa a entretenimento. A rua não é — e não pode virar — reality show de mandato. O símbolo mais duro da caminhada não está na estrada; está na mensagem implícita: supõe-se que o eleitor aceita ser plateia.
A caminhada que o país precisa é outra: sair do culto à performance e voltar à exigência de obrigação cumprida. Democracia se sustenta com instituições funcionando, com controle verificável e com representantes avaliados por resultado — não por encenação.
Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: Planalto. Acesso em: 20 jan. 2026.
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Saiba quais são as atribuições do deputado federal. Brasília, DF: Agência Câmara de Notícias, 22 ago. 2022. Disponível em: Câmara dos Deputados. Acesso em: 20 jan. 2026.
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Regimento Interno da Câmara dos Deputados: atualizado até a Resolução nº 16, de 2025. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2025. Disponível em: Câmara dos Deputados. Acesso em: 20 jan. 2026.
CONGRESSO EM FOCO. Nikolas faz marcha a pé de MG até Brasília em defesa de presos do 8/1. Brasília, DF: Congresso em Foco, 19 jan. 2026. Disponível em: Congresso em Foco. Acesso em: 20 jan. 2026.
CONGRESSO EM FOCO. “Não é vaidade”, diz Nikolas sobre caminhada por presos do 8/1. Brasília, DF: Congresso em Foco, 20 jan. 2026. Disponível em: Congresso em Foco. Acesso em: 20 jan. 2026.
CONGRESSO NACIONAL. Atribuições. Brasília, DF: Congresso Nacional, s.d. Disponível em: Congresso Nacional. Acesso em: 20 jan. 2026.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
GAZETA DO POVO. Nikolas Ferreira inicia caminhada de protesto até Brasília. Curitiba, PR: Gazeta do Povo, 19 jan. 2026. Disponível em: Gazeta do Povo. Acesso em: 20 jan. 2026.
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.
INÁCIO, Magna; MENEGUIN, Fernando Boarato. Desempenho do Poder Legislativo: como avaliar? Brasília, DF: Senado Federal, Núcleo de Estudos e Pesquisas, 2014. (Textos para Discussão, n. 155). Disponível em: Senado Federal. Acesso em: 20 jan. 2026.
PODER360. De Paracatu a Brasília: Nikolas anuncia 240 km de caminhada pró-Bolsonaro. Brasília, DF: Poder360, 19 jan. 2026. Disponível em: Poder360. Acesso em: 20 jan. 2026.
TV CÂMARA. Conheça as atribuições dos deputados federais. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, s.d. Disponível em: Câmara dos Deputados. Acesso em: 20 jan. 2026.
WEBER, Max. A política como vocação. São Paulo: Cultrix, 2004.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
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