Uma explicação socio-política consistente não pode depender apenas de impressão ou julgamento moral sobre “irracionalidade eleitoral”. Este artigo reúne um bloco empírico para compreender por que setores populares sustentaram o bolsonarismo, combinando evidências de (i) resultados eleitorais oficiais, (ii) surveys de comportamento político e (iii) estudos sobre o ecossistema digital, com ênfase no WhatsApp. O objetivo é mostrar como religião, território, renda, autoposicionamento ideológico e infraestrutura de informação convergem para reduzir incertezas e estabilizar lealdades — inclusive quando há contradições e custos.
1. Introdução: do “paradoxo” à evidência
A pergunta “por que o pobre apoia a extrema direita?” costuma pressupor que preferências políticas são, antes de tudo, cálculo econômico. A evidência empírica, no entanto, aponta para uma arquitetura mais complexa: valores morais, identidades religiosas, antipetismo, percepções de ordem e ameaça, e ambientes informacionais fechados podem pesar tanto quanto renda.
Esse bloco empírico opera com uma hipótese orientadora: o apoio popular ao bolsonarismo é heterogêneo, mas encontra estabilidade quando três condições se alinham:
(1) marcadores identitários fortes (religião, moralidade, pertencimento),
(2) territorialidade política (regiões e economias locais com redes de influência próprias), e
(3) infraestrutura informacional (celular como dispositivo dominante; WhatsApp como “praça pública” privatizada).
2. Como observar empiricamente o bolsonarismo popular
2.1 Resultados eleitorais (TSE)
A camada mais sólida de evidência é a totalização oficial por município, zona e seção, disponível em dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O repositório “Resultados – 2022” explicita que há bases por município e detalhamento de apuração, permitindo análises territoriais de alta resolução (TSE, 2022).
O ponto metodológico é simples: o mapa não explica sozinho, mas orienta perguntas: onde o voto se concentra? Que economias locais e redes religiosas predominam? Onde há maior presença do agronegócio, de circuitos empresariais regionais, de fronteiras de expansão urbana e de redes de igrejas?
2.2 Surveys nacionais (ESEB e DataSenado)
Para compreender por que indivíduos votam, são necessários surveys com variáveis de religião, escolaridade, renda, confiança institucional e consumo informacional.
O ESEB (Estudo Eleitoral Brasileiro), hospedado pelo CESOP/UNICAMP, oferece ondas (2002–2022) e disponibiliza questionários, fichas técnicas e (em certos casos) microdados. A página do ESEB-2022 confirma realização em novembro de 2022 e sua vinculação ao CESOP/UNICAMP (CESOP, 2022).
O ESEB-2018 também está catalogado com documentação análoga (CESOP, 2018).
Em complemento, o Panorama Político 2024 (DataSenado) entrega uma amostra ampla, probabilística, com módulos sobre identificação ideológica, religião, renda e confiança eleitoral, permitindo observar como brasileiros se distribuem entre “esquerda”, “direita”, “centro” e “nenhum” (DATASENADO, 2024).
2.3 Ecossistema digital e infraestrutura de acesso (TIC Domicílios e estudos sobre WhatsApp)
A TIC Domicílios (Cetic.br/NIC.br) é crucial porque descreve o “chão material” do debate público: dispositivo, conectividade, práticas e desigualdades digitais.
No relatório TIC Domicílios 2024, enviar mensagens instantâneas aparece como prática praticamente universal entre usuários de internet: 92% declararam fazê-lo em 2024, segundo o próprio sumário de indicadores do relatório (CETIC.BR; NIC.BR, 2024).
O mesmo relatório observa que usuários com menor escolaridade e menor renda tendem a acessar a internet exclusivamente pelo telefone celular, padrão associado a desigualdades de habilidades e de checagem (CETIC.BR; NIC.BR, 2024).
No plano político, relatórios do ITS Rio identificaram, nas eleições de 2018, sinais compatíveis com automação ou comportamento semi-automatizado, além de ação coordenada entre usuários e grupos no WhatsApp, sugerindo capacidade de amplificação organizada (ITS RIO, 2018).
3. Geografia do voto: onde a polarização se enraíza
O resultado por município (TSE) não é só “mapa”; é estrutura de oportunidades políticas. A polarização nacional se territorializa porque redes econômicas e religiosas são territorializadas.
Visualizações por município (a partir da totalização oficial) reforçam um padrão: a disputa presidencial se organiza em blocos regionais, com diferenças relevantes entre interiorização econômica, redes do agronegócio, cidades médias em expansão e capitais (TSE, 2022; NEXO, 2022).
O cuidado analítico aqui é indispensável: “região” não vota; as redes votam. Em muitos territórios, o bolsonarismo opera como coalizão entre:
- influenciadores locais e redes de WhatsApp;
- lideranças religiosas e circuitos de sociabilidade;
- repertórios morais de “ordem”, “família”, “anticorrupção”;
- e economias locais que percebem políticas redistributivas como ameaça ou como “privilégio do outro”.
4. Renda, escolaridade e autoposicionamento ideológico
Uma contribuição empírica decisiva do DataSenado 2024 é mostrar que identificação ideológica é profundamente assimétrica por renda. Entre brasileiros com renda menor que dois salários mínimos, 47% declaram neutralidade ideológica (não se consideram nem direita, nem esquerda, nem centro), enquanto esse percentual cai para 21% entre os que ganham mais de seis salários mínimos (DATASENADO, 2024).
Isso ajuda a desfazer uma caricatura: segmentos populares não necessariamente “escolhem direita” por doutrina econômica; muitas vezes se movem por rejeição, moralidade, segurança e pertencimento — e só depois organizam um rótulo ideológico. Em contexto polarizado, neutralidade pode ser instável: redes e lideranças “empurram” a neutralidade para um polo.
5. Religião e frequência a cultos: o efeito evangélico em perspectiva
A literatura brasileira recente oferece evidência forte de que religião, especialmente frequência a cultos, opera como mecanismo de mobilização eleitoral.
O artigo “O hábito de frequentar cultos como mecanismo de mobilização eleitoral: o voto evangélico em Bolsonaro em 2018” analisa a relação entre presença em cultos e comportamento eleitoral, tratando a frequência como canal de formação de preferência e coordenação política (FERREIRA, 2021).
Outros trabalhos aprofundam nuances: a identidade evangélica não “blinda” o eleitor de outras clivagens (sexo, raça/cor), produzindo efeitos heterogêneos dentro do próprio campo religioso (FERREIRA, 2022).
E há pesquisas mais recentes discutindo o comportamento evangélico em 2022, inclusive tensionando a ideia de base “monolítica” (VALLE, 2025).
No DataSenado 2024, a diferença aparece na autodeclaração ideológica: entre evangélicos, 35% se consideram de direita; entre católicos, 28% (DATASENADO, 2024).
O dado não “prova causalidade”, mas reforça um achado reiterado: religião é infraestrutura de sociabilidade, e sociabilidade organiza política.
6. WhatsApp e redes fechadas: quando comunicação vira ambiente político
Do ponto de vista empírico, é difícil exagerar o peso do WhatsApp como infraestrutura política no Brasil.
A TIC Domicílios 2024 mostra que mensagens instantâneas são a atividade comunicacional mais disseminada entre usuários de internet, alcançando 92% em 2024 (CETIC.BR; NIC.BR, 2024).
O mesmo relatório liga desigualdade de habilidades ao padrão “apenas celular” e sugere que parte dos usuários que acessam exclusivamente pelo celular pode estar menos exposta a práticas de checagem e verificação (CETIC.BR; NIC.BR, 2024).
Quando esse cenário encontra política polarizada, ocorre um deslocamento estrutural: o debate público migra do espaço aberto (jornal, TV, site) para canais fechados, onde confiança não depende de prova, mas de vínculo (“veio do grupo”). A consequência não é apenas desinformação; é redução do contraditório.
Relatórios do ITS Rio sobre 2018 descrevem padrões compatíveis com automação/semi-automação e coordenação entre usuários em grupos distintos, indicando capacidade organizada de amplificação (ITS RIO, 2018).
Esse tipo de dinâmica cria uma vantagem política: a mensagem não precisa convencer o país inteiro; ela precisa saturar redes específicas, gerando senso de unanimidade local e reduzindo dissonâncias (“se todo mundo do grupo acredita, então deve ser verdade”).
7. “Ganhos” materiais e simbólicos: o que aparece nos dados
A pergunta “o pobre ganha algo?” exige separar duas dimensões:
7.1 Ganhos materiais (heterogêneos e contextuais)
Do ponto de vista estritamente material, não existe um ganho único e garantido para “a classe pobre” ao apoiar a extrema direita. O que há são benefícios percebidos e expectativas: redução de crime, valorização do trabalho informal, menos regulação, promessa de “limpeza moral”, e rejeição ao adversário.
Empiricamente, isso aparece mais como percepção e identidade do que como cálculo redistributivo direto. Por isso, a análise baseada apenas em “interesse econômico” frequentemente falha: o voto se organiza por uma mistura de medo, moralidade, antipetismo e pertencimento.
7.2 Ganhos simbólicos (mensuráveis por atitudes e identidades)
Aqui os dados são mais consistentes: religião e renda se associam a autoposicionamento ideológico e a formas de confiança/desconfiança institucional (DATASENADO, 2024).
E a TIC Domicílios indica que a comunicação dominante (mensagens instantâneas) é massiva, o que permite que ganhos simbólicos sejam continuamente reforçados por repetição e validação grupal (CETIC.BR; NIC.BR, 2024).
8. Soberania informacional: da bandeira ao problema estrutural
O bolsonarismo frequentemente mobiliza “soberania” como símbolo nacional. O bloco empírico, porém, sugere que a soberania mais decisiva hoje é informacional: quem controla os fluxos de atenção, os canais de circulação e os mecanismos de amplificação.
Quando a esfera pública depende de plataformas fechadas e arquiteturas de encaminhamento, a soberania democrática (capacidade de deliberar com base em contraditório e evidência) é tensionada. A automação e coordenação no WhatsApp descritas pelo ITS Rio (2018) indicam que “o jogo” pode ser manipulado sem precisar dominar a imprensa tradicional; basta dominar as redes que já estruturam a sociabilidade cotidiana.
Nesse sentido, a soberania vira paradoxal: enquanto se grita “soberania nacional”, a esfera pública pode estar sendo capturada por infraestruturas privadas e por técnicas de amplificação capazes de fabricar consenso local e reduzir contestação.
9. Conclusão
O bloco empírico aponta para uma tese central: o bolsonarismo popular não é um enigma psicológico nem uma irracionalidade coletiva, mas uma configuração social produzida por território, religião, renda, identidades morais e ecossistemas digitais. Resultados eleitorais oficiais permitem enxergar a territorialização da polarização; surveys (ESEB e DataSenado) mostram como religião e renda se associam a autoposicionamento ideológico; e a TIC Domicílios revela a base material do debate público, com mensagens instantâneas como prática quase universal e o celular como dispositivo dominante — sobretudo entre os de menor renda e escolaridade. Somados, esses elementos ajudam a entender por que o apoio pode persistir mesmo com custos: o voto não é apenas sobre “ganhar dinheiro”, mas sobre ganhar sentido, pertencimento, ordem moral e certeza informacional em um ambiente de incerteza. A questão da soberania, nesse quadro, desloca-se do território para o controle social da informação: sem soberania informacional, a democracia opera sob ruído permanente e sob risco de captura afetiva e tecnológica.
Referências
CETIC.BR; NIC.BR. Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros: TIC Domicílios 2024 [livro eletrônico]. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2025. Disponível em: https://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/20250512120132/tic_domicilios_2024_livro_eletronico.pdf. Acesso em: 26 jan. 2026.
CESOP (Centro de Estudos de Opinião Pública). ESEB-2018 Estudo Eleitoral Brasileiro. Campinas: UNICAMP, 2018. Disponível em: https://www.cesop.unicamp.br/por/banco_de_dados/v/4538. Acesso em: 26 jan. 2026.
CESOP (Centro de Estudos de Opinião Pública). ESEB-2022 Estudo Eleitoral Brasileiro. Campinas: UNICAMP, 2022. Disponível em: https://www.cesop.unicamp.br/por/banco_de_dados/v/4680. Acesso em: 26 jan. 2026.
DATASENADO (Instituto de Pesquisa). Panorama Político 2024: posicionamento político do brasileiro. Brasília, DF: Senado Federal, 2024. Disponível em: https://www.senado.leg.br/institucional/datasenado/relatorio_online/pesquisa_posicionamento_politico/2024/interativo.html. Acesso em: 26 jan. 2026.
FERREIRA, Matheus Gomes Mendonça. O hábito de frequentar cultos como mecanismo de mobilização eleitoral: o voto evangélico em Bolsonaro em 2018. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, DF, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcpol/a/fWvcZ49qvhjrpB9dNBK6sxB/. Acesso em: 26 jan. 2026.
FERREIRA, Matheus Gomes Mendonça. Nuances do efeito da identidade evangélica sobre o voto: interações entre religião, sexo e cor/raça no voto em Bolsonaro (2018). Agenda Política, São Carlos, 2022. Disponível em: https://www.agendapolitica.ufscar.br/index.php/agendapolitica/article/download/799/416/4122. Acesso em: 26 jan. 2026.
ITS RIO (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio). Poder computacional: automação no uso do WhatsApp nas eleições (Relatório). Rio de Janeiro: ITS Rio, 2018. Disponível em: https://itsrio.org/wp-content/uploads/2018/10/Poder-Computacional-Relatorio-Whatsapp-Eleicoes-ITS.pdf. Acesso em: 26 jan. 2026.
NEXO JORNAL. Resultado das eleições presidenciais de 2022, por município. São Paulo: Nexo, 2022. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/grafico/2022/10/03/resultado-das-eleicoes-presidenciais-de-2022-por-municipio. Acesso em: 26 jan. 2026.
TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Resultados – 2022 (Conjunto de dados). Brasília, DF: TSE, 2022. Disponível em: https://dadosabertos.tse.jus.br/dataset/resultados-2022. Acesso em: 26 jan. 2026.
VALLE, V. S. M. do. Evangélicos nas eleições nacionais de 2022: continuidades e inflexões. Espirales, Foz do Iguaçu, 2025. Disponível em: https://revistas.unila.edu.br/espirales/article/view/5175/4179. Acesso em: 26 jan. 2026.
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