Como negacionismo, discurso anti-sistema e antipolítica se encadeiam em um dispositivo de disputa pelo poder — corroendo a esfera pública, normalizando a incivilidade e convertendo adversários em inimigos.
A extrema direita brasileira, sobretudo no ciclo 2013–2022, consolidou um repertório que vai além de “fala dura”. Trata-se de um método: começa minando a realidade compartilhada (negacionismo), avança ao transformar instituições em alvo (“o sistema”), veste-se de neutralidade (“não sou político”), rompe deliberadamente normas de civilidade (desrespeito), converte o outro em inimigo a ser aniquilado simbolicamente (destruir o outro) e culmina numa estética de ataque — o “escatológico”: não vim te ouvir, vim te atacar. Este artigo destrincha as peças, mostra como elas se alimentam e explica por que esse circuito é funcional para mobilização e hegemonia simbólica no Brasil contemporâneo (MUDDE, 2004; MOFFITT, 2016).
O dispositivo: não é “temperamento”, é engenharia de conflito
Antes de olhar item por item, convém assumir um ponto de partida de ciência política: quando práticas comunicacionais se repetem, geram adesão e mudam o comportamento do sistema, elas deixam de ser “estilo pessoal” e passam a operar como tecnologia de poder. É assim que um conjunto de gestos — negar, acusar o “sistema”, performar neutralidade, humilhar, desumanizar — pode se consolidar como um dispositivo integrado.
A literatura sobre populismo ajuda a explicar por quê. O populismo, entendido como uma ideologia “fina” que opõe “povo puro” e “elite corrupta”, moraliza a política e desloca a disputa do campo programático para o campo moral (MUDDE, 2004). Em paralelo, abordagens que enfatizam o populismo como estilo performático mostram como a retórica de crise e os “maus modos” não são acidente: são recurso para sinalizar autenticidade e conflito (MOFFITT, 2016).
Feito esse enquadramento, o primeiro componente do dispositivo aparece como condição de possibilidade para todos os demais: se você controla o que é “real”, controla o que é “político”. É por isso que o circuito costuma começar no negacionismo.
Negacionismo: quando negar vira método de governo e de mobilização
Negacionismo político não é apenas “ignorância” ou “erro factual”. No seu uso estratégico, ele funciona como corrosão deliberada da factualidade pública: a ideia de que há critérios compartilháveis para diferenciar evidência de boato. Em vez de construir uma tese alternativa robusta, o negacionismo busca impedir que a realidade se estabilize — e, com ela, a responsabilização.
Esse mecanismo é descrito, em outra arena (ciência e políticas públicas), como a produção estratégica de dúvida: manter controvérsia ativa, mesmo quando a evidência é ampla, para atrasar decisões e reorientar percepções (ORESKES; CONWAY, 2010). No Brasil, análises sobre a pandemia destacam como fatores políticos e narrativas negacionistas foram relevantes para o contexto nacional, associando desordem informacional, escolhas políticas e ambiente institucional (CASTILHO, 2023).
O efeito político do negacionismo é duplo. Primeiro, ele produz cinismo (“ninguém sabe de nada; tudo é manipulação”), o que reduz o custo moral de mentir. Segundo, ele produz identidade (“nós somos os que não aceitam a narrativa”), o que transforma evidência em marcador tribal. A partir daí, o terreno está preparado para a segunda peça: oferecer uma explicação total para o caos — o “sistema” como inimigo.
Discurso anti-sistema: o inimigo total que imuniza a liderança
Quando a factualidade comum é enfraquecida, a política fica mais dependente de narrativas totalizantes. É aí que o anti-sistema entra como cola ideológica e afetiva: “o sistema” vira uma entidade abstrata que explica tudo — crise econômica, corrupção, insegurança, “decadência moral”, censura, conspirações. O inimigo é difuso o suficiente para caber em qualquer evento e, por isso, difícil de refutar.
Essa operação é típica de cenários em que o populismo moraliza o conflito: não se trata de discordar de instituições; trata-se de descrevê-las como ilegítimas, inimigas do povo (MUDDE, 2004). O ganho tático é evidente: qualquer crítica à liderança pode ser reinterpretada como parte da perseguição do “sistema”, convertendo contestação democrática em prova de complô.
No Brasil, essa gramática anti-sistema se acoplou à reorganização de segmentos da direita em reação ao ciclo político recente. Um estudo em Opinião Pública discute justamente a reorganização da direita brasileira e o papel da antipolítica nesse processo (BORGES, 2024).
Mas há um problema operacional para quem quer governar com essa retórica: se “tudo é política suja”, como pedir adesão ampla sem parecer apenas mais um político? A solução recorrente é vestir o poder com a máscara da neutralidade — o “modo apolítico” de fazer política.
Modo apolítico de fazer política: a neutralidade como álibi
A antipolítica é uma política que se apresenta como “limpeza” e “técnica”. Ela diz: “não sou ideológico”, “sou gestor”, “sou eficiente”. O objetivo é deslocar a disputa do campo do pluralismo (valores e interesses legítimos em conflito) para o campo da moralidade administrativa (“os bons” contra “os parasitas”). Na prática, isso reduz a legitimidade do dissenso: se eu sou “técnico”, quem discorda não tem projeto — tem interesse escuso.
Esse movimento aparece com nitidez em debates sobre a relação entre populismo e tecnocracia: em vez de opostos, podem operar como complementares, alternando o moralismo (povo vs elite) com a promessa de solução técnica (BICKERTON; ACCETTI, 2017). O resultado é uma política que nega a própria política: ela desqualifica mediações institucionais, imprensa, universidade, parlamento — tudo vira entrave à “vontade do povo” ou à “eficiência”.
Só que esse modo apolítico precisa de um selo de autenticidade: o líder deve parecer “fora do jogo”. É aqui que a incivilidade entra como sinal público de independência — o desrespeito não como falha, mas como performance.
Desrespeito ao outro: incivilidade como prova de autenticidade
A incivilidade, na lógica do dispositivo, não é ruído; é mensagem. Ela comunica: “eu não fui domesticado pelo sistema”, “eu falo como o povo fala”, “eu não devo nada às regras da elite”. É exatamente o tipo de “maus modos” que abordagens do populismo como estilo descrevem: a transgressão performática vira marca de autenticidade e de crise permanente (MOFFITT, 2016).
Há também uma função disciplinar. A humilhação pública não atinge apenas o alvo; ela educa a audiência por intimidação: “se você desafiar, será exposto”. Esse mecanismo é particularmente potente em ambientes digitais, onde o custo de ataque é baixo e a escala é alta. Ele corrói a esfera pública porque rebaixa o debate a um tribunal de ridicularização.
Mas a incivilidade, sozinha, ainda pressupõe um adversário humano. Para que o ataque se torne “necessário” e moralmente justificável, o dispositivo costuma avançar para a etapa seguinte: o outro deixa de ser adversário e vira inimigo — alguém a ser destruído.
Destruir o outro: da competição democrática à aniquilação simbólica
Quando o adversário vira inimigo moral (“traidor”, “bandido”, “anti-pátria”), a política deixa de ser competição de projetos e passa a ser purificação. Esse deslocamento é central para entender por que a linguagem se torna mais agressiva: se o outro é apresentado como ameaça existencial, destruí-lo parece “defesa”.
Aqui, o conceito de “discurso perigoso” é especialmente útil: trata-se de expressão que aumenta o risco de a audiência condonar ou participar de violência contra um grupo-alvo (BENESCH, 2016). O ponto não é dizer que toda retórica agressiva leva automaticamente à violência física, mas reconhecer que certas formas de desumanização ampliam permissividade social para agressões, assédio e intimidação.
No Brasil, iniciativas de monitoramento têm destacado a relevância do fenômeno da violência política nas redes, com atenção para assédio e ataques contra candidaturas. O relatório do MonitorA (parceria InternetLab) é um exemplo desse esforço de descrição e recomendação de políticas (INTERNETLAB, 2023).
A destruição do outro, porém, precisa de estética: precisa de um modo de ocupar a cena e capturar atenção. É nesse ponto que surge o que você chamou, com precisão sociológica, de “escatológico”.
O “escatológico”: quando a política deixa de persuadir e passa a atacar
O “escatológico”, no sentido político que você descreveu, é a substituição do debate por uma estética de rebaixamento: “eu não vim te ouvir; vim te atacar”. É uma política do nojo e da humilhação como finalidade. Ela não busca convencer o interlocutor; busca desmoralizá-lo diante da plateia e, ao mesmo tempo, sinalizar pertencimento ao grupo.
Essa prática se acopla ao ecossistema midiático contemporâneo, no qual choque e agressão tendem a circular mais do que nuance. Estudos sobre cultura do trolling ajudam a explicar como a provocação “obscena” pode ser funcional e compatível com a lógica de mídia e visibilidade, produzindo desgaste e silenciamento por exaustão (PHILLIPS, 2015).
Nesse estágio, o objetivo já não é “argumentar melhor”, mas impor hierarquia simbólica. O debate vira arena e a vitória vira espetáculo. E, quando esse padrão se repete, ele fecha o circuito: o ataque escatológico reforça o anti-sistema (“eles merecem”), reforça o negacionismo (“a verdade deles é mentira”), e reforça a antipolítica (“só eu falo a verdade”).
Para compreender por que esse circuito prospera no Brasil, é preciso conectá-lo às condições históricas e tecnológicas que o tornaram escalável.
Por que isso prosperou no Brasil: crises, reorganização da direita e infraestrutura digital
O dispositivo não nasce no vazio. Ele prospera quando há crise de representação, ressentimento social, descrédito institucional e oportunidades tecnológicas para amplificação. No Brasil, o ciclo iniciado em 2013 abriu espaço para uma combinação de antipolítica, moralização do conflito e novos empreendedores de discurso. O estudo de Borges (2024) ajuda a situar essa reorganização da direita e o papel da antipolítica na reação ao ciclo petista (BORGES, 2024).
A infraestrutura digital foi a condição de escala. Pesquisas sobre redes políticas no WhatsApp, por exemplo, mostram dinâmicas de circulação e coesão relevantes para entender como narrativas se capilarizam em ambientes de mensagem privada e sem transparência típica de redes abertas (PIAIA et al., 2020). E, quando esse ambiente é atravessado por desordem informacional, o circuito ganha velocidade: boatos e conteúdos manipulativos circulam com custos baixos e recompensas altas.
Relatórios como o de Wardle e Derakhshan oferecem um enquadramento útil ao distinguir mis/dis/malinformação e ao explicar por que a poluição informacional se torna um problema de governança democrática (WARDLE; DERAKHSHAN, 2017).
Dadas essas condições, a pergunta deixa de ser apenas “por que funciona?” e passa a ser “o que isso causa na democracia?”. É para isso que a próxima seção se dirige.
Consequências democráticas: erosão do mundo comum e normalização do inaceitável
As consequências mais graves não são “o aumento do barulho”, mas a corrosão de fundamentos democráticos: confiança mínima, legitimidade do dissenso e aceitação de mediações institucionais. Quando a factualidade se dissolve, a política vira guerra cultural permanente; quando a incivilidade se normaliza, a esfera pública perde sua função deliberativa; quando o adversário vira inimigo, cresce o risco de escaladas de violência e de exclusão.
No plano institucional, um sintoma importante é o esforço crescente de órgãos públicos para responder à desinformação eleitoral. O TSE, por exemplo, firmou parcerias com plataformas para coibir ou neutralizar desinformação em 2022 (TSE, 2022) e publicou resultados do Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação nas eleições de 2024 (TSE, 2024). Esses movimentos indicam que o problema deixou de ser periférico: passou a ser tratado como risco sistêmico à integridade do processo.
O diagnóstico, contudo, não basta. Se o dispositivo é eficaz porque captura atenção e reduz custos morais, a resposta democrática precisa evitar um erro clássico: combater brutalidade com brutalidade. É nesse ponto que entra a discussão sobre enfrentamento sem espelhamento.
Como enfrentar sem virar espelho do problema
A resposta democrática eficaz precisa combinar três dimensões: (1) epistemológica (recompor critérios de verdade pública), (2) institucional (reforçar procedimentos e responsabilização) e (3) cultural (reconstruir civilidade como tecnologia democrática). Algumas diretrizes objetivas:
- Recompor o factual com método: transparência de fontes, linguagem acessível, cadeia de evidências (WARDLE; DERAKHSHAN, 2017).
- Recusar a arena do rebaixamento: não disputar “quem humilha mais”, porque isso alimenta a lógica do espetáculo.
- Separar crítica de desumanização: firmeza analítica sem converter o outro em inimigo ontológico — sob pena de reproduzir o dispositivo.
- Aprimorar integridade informacional eleitoral: parcerias, sistemas de alerta, transparência e accountability, como indicam iniciativas da Justiça Eleitoral (TSE, 2022; TSE, 2024).
- Monitorar e coibir violência política online: recomendações de monitoramentos e relatórios devem ser incorporadas como política pública (INTERNETLAB, 2023).
Ao final, o enfrentamento bem-sucedido não é apenas “ganhar uma briga discursiva”; é reconstruir um ambiente no qual o debate volte a ser possível. E isso nos leva ao fecho: qual é, afinal, a tese geral sobre a extrema direita no Brasil a partir desse dispositivo?
Conclusão
O que você listou — negacionismo, anti-sistema, modo apolítico, desrespeito, destruição do outro e ataque escatológico — descreve com precisão um dispositivo de disputa política que tem lógica interna e escalada. O negacionismo enfraquece o árbitro da realidade; o anti-sistema fornece o enredo do inimigo total; a antipolítica amplia adesão sob a máscara da neutralidade; a incivilidade sinaliza autenticidade e rompe freios sociais; a desumanização transforma adversário em alvo; e o ataque escatológico converte a esfera pública em espetáculo de humilhação.
No Brasil, a combinação de crise de representação, reorganização da direita e infraestrutura digital de alta capilaridade ajudou a tornar esse dispositivo escalável (BORGES, 2024; PIAIA et al., 2020). O risco maior não é “polarização” em abstrato; é a erosão do mundo comum sem o qual a democracia vira apenas disputa de força e afeto. Por isso, uma resposta democrática precisa ser simultaneamente rigorosa e estratégica: recompor factualidade, fortalecer instituições e defender civilidade não como etiqueta, mas como contenção da violência política.
Referências
BENESCH, Susan. What is Dangerous Speech? Dangerous Speech Project, 2016. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
BICKERTON, Christopher; ACCETTI, Carlo Invernizzi. Populism and technocracy: opposites or complements? 2017. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
BORGES, A. As duas faces da nova direita brasileira: antipolítica e reação aos governos do PT (2003–2016). Opinião Pública, 2024. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
CASTILHO, M. Negacionismo e o papel dos fatores políticos para a crise sanitária da Covid-19 no Brasil. Novos Estudos CEBRAP (SciELO), 2023. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
INTERNETLAB. MonitorA 2022: relatório sobre violência política e eleitoral nas redes. 2023. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
MOFFITT, Benjamin. The Global Rise of Populism: Performance, Political Style, and Representation. Stanford: Stanford University Press, 2016.
MUDDE, Cas. The Populist Zeitgeist. Government and Opposition, 2004. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
ORESKES, Naomi; CONWAY, Erik M. Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming. New York: Bloomsbury Press, 2010.
PHILLIPS, Whitney. This Is Why We Can’t Have Nice Things: Mapping the Relationship Between Online Trolling and Mainstream Culture. Cambridge, MA: MIT Press, 2015.
PIAIA, Victor et al. Análise exploratória da rede bolsonarista no WhatsApp. Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, 2020. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
TSE — TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Eleições 2022: TSE e plataformas digitais firmam parceria para combate à desinformação. 2022. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
TSE — TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. TSE publica resultados do Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação nas Eleições 2024. 2024. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information Disorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Council of Europe, 2017. Disponível em: (página consultada). Acesso em: 8 jan. 2026.
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