domingo, 11 de janeiro de 2026

ARTIGO 3 — A imaturidade informacional como “infraestrutura política”: por que tanta gente apoia lideranças que governam em causa própria

 Entre analfabetismo funcional, economia do engajamento e antipolítica, forma-se um eleitorado vulnerável a narrativas fáceis — e um Estado mais fácil de capturar.


Existe um erro confortável que a gente comete para “explicar” o Brasil: tratar desinformação como exceção, e não como ambiente. Só que a crise contemporânea é menos sobre uma fake news específica e mais sobre uma fragilidade estrutural: grande parte da população não dispõe de repertório cívico e informacional para auditar discursos de poder, entender o básico de governança e separar prova de performance. Quando isso acontece, líderes oportunistas passam a governar “em causa própria” com o aplauso de quem foi treinado a desconfiar de instituições — mas não foi treinado a fiscalizá-las.


. Por que este artigo existe



Vou direto: a maior vulnerabilidade brasileira hoje não é só econômica, nem só institucional. É pedagógica. Um país pode até ter Constituição, tribunais e eleições regulares, mas se uma parcela grande do povo não entende como o Estado funciona, a democracia vira um jogo de fé: “acredito no meu líder” contra “acredito no seu”. E fé política é terreno fértil para o governante que quer operar sem auditoria cidadã.


A tese aqui é simples e dura: sem maturidade informacional, cresce o apoio a lideranças que ignoraram (ou simulam ignorar) as dinâmicas de governança — orçamento, controle, legalidade, políticas públicas — para operar em causa própria, sustentadas por guerra cultural e engenharia de conflito (MUDDE, 2004; MOFFITT, 2016).





2. O que chamo de “maturidade informacional”



Maturidade informacional não é “ser inteligente”. É outra coisa:


  • Saber ler evidência (o que é fonte? o que é opinião? o que é boato?).
  • Entender mediações (por que existe Congresso? por que existe STF? por que existe controle?).
  • Conhecer regras do jogo (o mínimo sobre orçamento, direitos, eleições e instituições).
  • Resistir à manipulação emocional (o vídeo que te enfurece antes de te informar).



Sem isso, o eleitor vira presa fácil da política como espetáculo — e o país vira presa fácil de governantes que tratam o Estado como troféu.





3. O dado incômodo: analfabetismo, analfabetismo funcional e leitura do mundo



Aqui a conversa sai do “achismo” e entra no chão duro da realidade social.


O Brasil reduziu o analfabetismo nas últimas décadas, mas ele segue relevante e desigual. A PNAD Contínua Educação do IBGE acompanha esses indicadores e mostra que ainda há contingente expressivo de brasileiros com baixa escolaridade e dificuldades persistentes de aprendizagem e leitura. (IBGE, 2024).


Mas o ponto mais decisivo, politicamente, é o analfabetismo funcional: gente que até decodifica palavras, mas não domina leitura interpretativa, raciocínio aplicado e uso prático da informação.


O INAF voltou a mostrar como esse problema permanece estrutural e afeta diretamente a capacidade de compreender textos, gráficos, instruções e conteúdos cívicos básicos — o tipo de repertório que sustenta uma cidadania crítica. (AÇÃO EDUCATIVA; INAF, 2024). 


E aqui entra uma consequência direta: se a pessoa não consegue interpretar um texto simples com segurança, como ela vai auditar um discurso sobre orçamento, urna, vacina, STF, ou “soberania”?





BOX — O ponto que quase ninguém fala



Sem repertório de leitura e checagem, o cidadão não vira “neutro”.

Ele vira dependente de “intérpretes”: o pastor, o influencer, o político, o grupo do WhatsApp, o apresentador indignado. E quem controla os intérpretes controla a realidade.





4. A democracia exige um “mínimo operacional” (e o Brasil não universalizou isso)



Democracia não é só voto. Democracia é auditoria social permanente.

E auditoria exige três alfabetizações mínimas:


  1. Alfabetização institucional (como Estado e poderes funcionam).
  2. Alfabetização midiática (como informação é produzida, distribuída e manipulada).
  3. Alfabetização estatística básica (risco, evidência, comparação, “o que um dado prova e o que não prova”).



A UNESCO há anos trata a alfabetização midiática e informacional como competência-chave para cidadania contemporânea, inclusive em currículos de formação docente. (UNESCO, 2011). 


No Brasil, a própria criação de políticas e iniciativas federais nessa direção evidencia que o Estado percebeu o problema — ainda que tarde e de forma desigual. (SECOM, 2023). 





5. A economia do engajamento: quando a mentira vira modelo de negócios



A crise não é apenas “cognitiva”. É econômica.


As plataformas recompensam conteúdo que gera reação rápida, sobretudo medo e raiva. Isso transforma a política em mercado: o que vende é indignação; o que fideliza é identidade; o que domina é a narrativa total.


O relatório do Conselho da Europa sobre desordem informacional é útil aqui porque separa erro, manipulação e operação coordenada — e mostra por que isso vira problema de governança democrática. (WARDLE; DERAKHSHAN, 2017). 


E quando a desinformação vira método, ela se organiza como “cadeia produtiva”: produção, distribuição, monetização e blindagem — exatamente o ecossistema que sustenta lideranças que governam com conflito permanente.





INFOGRÁFICO — Cadeia produtiva da manipulação (quadro para diagramação)

Etapa

Mecanismo

Resultado político

Isca emocional

medo/raiva/nojo

clique e compartilhamento

Narrativa total

“inimigo interno”, “sistema”

identidade tribal

Mobilização

convocação e ação “urgente”

poder de rua

Monetização

doações , cursos, produtos

financiamento

Blindagem

“censura”,  “perseguição ”

impunidade simbólica



6. Antipolítica e “gestão” como disfarce de projeto de poder



No Brasil, um motor central do apoio a certas lideranças é a antipolítica: a ideia de que “política é sujeira” e que o líder “não é político”, é “gestor”, “cidadão comum”, “homem do povo”.


Só que isso não elimina política; moraliza a política: “o povo puro” contra “a elite corrupta”. Essa é a arquitetura clássica do populismo como ideologia “fina”. (MUDDE, 2004). 


E a performance do “anti-sistema” também funciona como estilo: o mau modo vira autenticidade, a crise vira palco, a agressão vira método. (MOFFITT, 2016). 


Se o eleitor não entende governança, ele é capturado por um raciocínio infantilizado:

“se ele briga, é porque é honesto; se ele xinga, é porque fala a verdade”.





7. Governança “em causa própria”: como se captura o Estado sem tanque na rua



Aqui está o coração do Artigo 3: líderes que operam em causa própria precisam de um povo que não saiba auditar.


Como isso aparece na prática?


  • loteamento de cargos como moeda de fidelidade;
  • ataque a órgãos de controle (quando fiscalizam, viram “inimigos”);
  • desmoralização da imprensa (para cortar o canal de verificação);
  • deslegitimação do Judiciário (para reduzir freios);
  • guerra cultural como cortina de fumaça (para deslocar debate de políticas públicas).



Sem maturidade informacional, parte do público interpreta isso como “coragem”, não como captura.





8. O laboratório brasileiro: pandemia, eleições e colapso do debate público



A pandemia foi um teste de alfabetização científica e cívica. E o Brasil viu florescer um ambiente em que evidência virou opinião e política pública virou identidade.


Os dados de mortes por COVID-19 no Brasil ultrapassaram a marca de 700 mil, como registram séries internacionais e painéis de acompanhamento. (OUR WORLD IN DATA, s.d.). 


E análises acadêmicas sobre o negacionismo no país destacam o peso do componente político na crise sanitária — isto é, não foi apenas desinformação “espontânea”, mas ambiente de incentivos, discurso e disputa. (CASTILHO, 2023).


Eleições seguem a mesma lógica: se o cidadão não conhece como auditoria eleitoral funciona, qualquer narrativa de fraude “encaixa” — e vira pretexto para radicalização. A Justiça Eleitoral, por isso, estruturou ações e programas permanentes de enfrentamento à desinformação. (TSE, 2022; TSE, 2024). 





9. O efeito 8 de janeiro: quando narrativa vira ação



Quando você mistura:


  • ignorância institucional,
  • desordem informacional,
  • messianismo político,
  • economia do engajamento,



você chega ao ponto em que “a versão” parece mais real que o fato. E aí a política vira ação direta.


A documentação pública sobre o 8 de janeiro e suas investigações (CPMI, relatórios e processos) consolidou o entendimento de que houve ataque às sedes dos Poderes com base em narrativa golpista. (SENADO FEDERAL/CPMI, 2023; STF, 2023). 


Uma população com maturidade informacional pode odiar um governo e ainda assim entender que instituição não é inimigo. Sem isso, a pessoa acha que está “salvando o país” quando está quebrando o país.





10. Violência como política: por que parte do país aplaude o Estado que mata



Aqui o tema fica incômodo, mas necessário: a falta de maturidade cívica também explica por que operações letais viram espetáculo moral.


O caso do Jacarezinho (2021) e outras operações letais no Rio entraram no debate público como símbolos de um padrão de letalidade, com cobertura ampla e contestação por órgãos e entidades. (AGÊNCIA BRASIL, 2025; HRW, 2023). 


Em outubro de 2025, por exemplo, uma operação de grande escala no Rio gerou reportagens internacionais e debate sobre letalidade e investigações. (AP, 2025). 


Sem educação política, parte do público não pergunta:

“houve legalidade, prova, devido processo, investigação, controle externo?”

Pergunta só: “morreu quem eu odeio?”


Isso é a porta de entrada da necropolítica como rotina — e o Estado de Direito vira “detalhe”.





11. Fé, política e coerção: laicidade sem alfabetização vira guerra cultural



Sem maturidade informacional, laicidade vira mal-entendido:

“Estado laico” é ouvido como “Estado contra Deus”.


Aí o debate público degrada: política vira cruzada; oponente vira inimigo moral; política pública vira dogma.

E, nesse ambiente, governar em causa própria fica mais fácil, porque a régua deixa de ser “entrega e legalidade” e passa a ser “fidelidade”.





12. O círculo vicioso: desinformação → cinismo → culto → impunidade



O circuito é perverso:


  1. Desinformação destrói critérios comuns de realidade.
  2. A sociedade cai no cinismo (“nada é verdade”).
  3. No cinismo, vence quem oferece identidade (“nós contra eles”).
  4. Identidade vira culto.
  5. Culto vira impunidade para governar em causa própria.



E o país vai ficando mais frágil por dentro, mesmo quando “parece normal” por fora.





13. O que fazer: agenda mínima de alfabetização democrática



Não é doutrinação. É infraestrutura de cidadania.


Três frentes objetivas:


  1. Educação institucional na escola
    Constituição, poderes, orçamento, políticas públicas, controle e participação.
  2. Educação midiática e informacional
    Fonte, evidência, checagem, algoritmo, manipulação afetiva. (UNESCO, 2011; SECOM, 2023).  
  3. Proteção institucional do processo democrático
    Transparência, responsabilização e programas permanentes contra desinformação eleitoral. (TSE, 2022; TSE, 2024).  






14. Fecho: o Brasil é frágil porque não ensinou o povo a defender a República



No fundo, o Brasil está pagando uma conta histórica: não universalizou a competência de ler o mundo público.


E, sem isso, o eleitor vira torcedor; a política vira reality show; o Estado vira prêmio; e governantes que operam em causa própria passam a ser defendidos como se fossem “salvação”.


Se o país quer sobreviver ao que vem pela frente — crise climática, IA, guerra informacional, crime organizado, choques econômicos — precisa de um povo capaz de fazer o básico: entender governança para poder cobrar governança.


Democracia não se sustenta com fé. Sustenta-se com cidadania.





15. Referências



AÇÃO EDUCATIVA; INAF — INDICADOR NACIONAL DE ALFABETISMO FUNCIONAL. Relatório INAF 2024. São Paulo: Ação Educativa, 2024. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


AGÊNCIA BRASIL (EBC). Veja as operações policiais mais letais no Rio nos últimos anos. Brasília: EBC, 28 out. 2025. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


ASSOCIATED PRESS (AP). Huge Brazilian raid on Rio gang leaves at least 64 people dead… 28 out. 2025. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


CASTILHO, M. Negacionismo e o papel dos fatores políticos para a crise sanitária da Covid-19 no Brasil. Novos Estudos CEBRAP, 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.


HUMAN RIGHTS WATCH (HRW). Brazil: Inquiry in Police Killings Falls Short. Nova York: HRW, 07 nov. 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PNAD Contínua Educação (release e séries). Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.


MOFFITT, B. The Global Rise of Populism: Performance, Political Style, and Representation. Stanford: Stanford University Press, 2016. 


MUDDE, C. The Populist Zeitgeist. Government and Opposition, 2004. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


OUR WORLD IN DATA. Coronavirus (COVID-19) Deaths — Brazil. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


SECOM — SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Estratégia Brasileira de Educação Midiática (EBEM). Brasília: Governo Federal, 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


SENADO FEDERAL. Relatório Final da CPMI do 8 de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


STF — SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Informações institucionais e processos relativos aos ataques de 8 de janeiro. Brasília: STF, 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


TSE — TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Eleições 2022: TSE e plataformas digitais firmam parceria para combate à desinformação. Brasília: TSE, 2022. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


TSE — TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação: resultados nas Eleições 2024. Brasília: TSE, 2024. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


UNESCO. Alfabetização midiática e informacional: currículo para formação de professores. Paris: UNESCO, 2011. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


WARDLE, C.; DERAKHSHAN, H. Information Disorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Strasbourg: Council of Europe, 2017. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026. 


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