sábado, 13 de junho de 2026

A juventude entre o diploma frustrado e a falsa rebeldia da extrema direita

Como a promessa quebrada da mobilidade social abriu espaço para o discurso disruptivo do neofascismo contemporâneo


Índice

  1. Uma história para começar: o diploma no banco do motorista
  2. Introdução: a juventude que fez tudo “certo” e mesmo assim perdeu
  3. A promessa educacional quebrada
  4. Quando o mercado não absorve o sonho
  5. A extrema direita como falsa força antissistema
  6. O darwinismo social e a pedagogia da culpa
  7. Homens jovens, masculinismo e pânico moral
  8. Fascismo histórico e neofascismo contemporâneo: semelhanças e diferenças
  9. A esquerda institucional e o vazio da ruptura
  10. Redes sociais, ressentimento e política como performance
  11. O paradoxo: rebeldia contra o sistema para produzir mais sistema
  12. Conclusão: disputar a juventude é disputar o futuro
  13. Cinco pontos relevantes
  14. Cinco perguntas comuns
  15. Três livros indicados
  16. Referências em ABNT

Lide

Um jovem brasileiro acorda cedo, abre o aplicativo de transporte, aceita a primeira corrida do dia e segue pelas ruas carregando no porta-luvas o diploma que prometia mudar sua vida. Ele estudou, pagou mensalidade, fez estágio, ouviu que bastava se esforçar. Mas o mercado lhe respondeu com precarização, salário baixo e ausência de futuro. É nesse espaço entre a promessa e a frustração que a extrema direita encontrou uma entrada poderosa: apresentar-se como a única força capaz de “quebrar o sistema”. O problema é que essa ruptura não liberta. Ela apenas radicaliza o próprio sistema que produziu a frustração.

1. Uma história para começar: o diploma no banco do motorista

Às seis e meia da manhã, Rafael já estava dentro do carro. O celular preso ao suporte no painel, a garrafa de água no console, uma marmita fria no banco de trás e um cansaço antigo no rosto. O primeiro passageiro entrou sem dizer bom dia. Pediu pressa. Tinha reunião às sete.

Rafael dirigia em silêncio, mas por dentro fazia contas. Combustível, prestação do carro, aluguel, internet, comida, parcela atrasada da faculdade. No porta-luvas, dobrado entre recibos e documentos, estava o diploma de engenheiro civil. Ele o guardava ali por ironia ou esperança, nem ele sabia mais. A mãe dizia que diploma era chave. O pai dizia que quem estudava não sofria como ele sofreu. A propaganda da faculdade dizia que o futuro começava ali. Mas o futuro, para Rafael, tinha se transformado em uma sequência de corridas curtas, avaliações por estrelas e medo de adoecer.

Quando se formou, tirou foto com beca, sorriu para a família e ouviu muitos parabéns. “Agora vai.” Mas não foi. Mandou currículo, fez entrevista, aceitou proposta humilhante, tentou concurso, pensou em pós-graduação, desistiu, voltou para o aplicativo. Aos poucos, algo mudou dentro dele. A tristeza virou raiva. A raiva procurou culpados. E os culpados foram aparecendo, sempre prontos, em vídeos curtos: os políticos, os professores, os pobres que “não querem trabalhar”, as feministas, os servidores públicos, os direitos humanos, os sindicatos, os imigrantes, a universidade, a esquerda, o Estado.

Um dia, no intervalo entre uma corrida e outra, Rafael viu um influenciador dizendo: “Você não fracassou. O sistema te roubou. Mas a culpa também é sua se você continuar sendo fraco.” Aquilo o atingiu como uma pancada e um abraço ao mesmo tempo. A frase era cruel, mas parecia oferecer um caminho. Ser mais duro. Reclamar menos. Competir mais. Odiar quem, supostamente, atrapalhava sua ascensão. A política, para ele, deixou de ser debate sobre sociedade. Virou guerra emocional.

É nesse Rafael fictício, mas profundamente realista, que mora uma parte importante do drama contemporâneo. Ele não é fascista por natureza. Não nasceu autoritário. Não acordou um dia odiando a democracia. Ele foi sendo capturado por uma gramática política que transforma insegurança social em ressentimento, frustração profissional em antipolítica e sofrimento individual em combustível para a extrema direita.

2. Introdução: a juventude que fez tudo “certo” e mesmo assim perdeu

A entrevista de Breno Altman ao Opera Mundi toca em um ponto decisivo para entender a conjuntura política contemporânea: a extrema direita tem conseguido disputar a juventude porque se apresenta como força disruptiva em uma sociedade que bloqueou o futuro de milhões de jovens. A tese central é dura, mas necessária: uma parte da juventude brasileira estudou mais que seus pais, acessou mais a universidade, internalizou a promessa meritocrática e, mesmo assim, encontrou um mercado de trabalho incapaz de oferecer estabilidade, renda e sentido.

Essa contradição é explosiva. Quando uma sociedade promete ascensão por meio da educação, mas entrega precarização, ela não produz apenas desemprego ou subemprego. Produz ressentimento. Produz desconfiança. Produz raiva contra as instituições. Produz uma pergunta silenciosa: “fiz tudo certo, então por que minha vida não melhorou?”

A extrema direita entendeu essa pergunta antes de boa parte da esquerda institucional. E respondeu de maneira simples, emocional e perigosa: “porque o sistema está tomado por inimigos; porque você foi traído; porque há grupos protegidos ocupando o seu lugar; porque o Estado sustenta parasitas; porque direitos sociais são privilégios dos outros; porque a democracia impede os fortes de vencerem”.

Essa narrativa é falsa, mas eficaz. Ela não explica estruturalmente a crise; ela oferece culpados. Não organiza solidariedade; organiza ressentimento. Não propõe emancipação; propõe hierarquia. Não supera o capitalismo; radicaliza sua face mais cruel.

O ponto mais importante da análise de Altman é este: a extrema direita não é revolucionária. Ela é disruptiva. Parece querer romper com a ordem, mas rompe apenas com os freios democráticos, sociais e civilizatórios que limitam a brutalidade da própria ordem. Ela promete destruir o sistema, mas entrega mais sistema: mais competição, mais punição, mais individualismo, mais mercado, menos direitos, menos proteção social e menos democracia.

3. A promessa educacional quebrada

Durante décadas, milhões de famílias brasileiras repetiram uma pedagogia da esperança: “estude para ser alguém na vida”. Essa frase carrega uma verdade histórica. Para famílias pobres e trabalhadoras, o acesso à escola e à universidade sempre representou possibilidade de mobilidade social. O diploma era mais que um documento; era símbolo de travessia.

O Brasil, de fato, ampliou o acesso ao ensino superior. Políticas públicas, expansão da rede federal, programas de financiamento, bolsas e crescimento do setor privado aumentaram o número de jovens nas universidades. Mas essa expansão teve contradições profundas. A quantidade avançou mais rapidamente que a qualidade. A formação cresceu mais rapidamente que o projeto nacional de desenvolvimento. O diploma se popularizou, mas o mercado de trabalho qualificado não cresceu no mesmo ritmo.

É aqui que a análise precisa ser honesta. Não se trata de desprezar a expansão educacional. Ela foi importante, democrática e necessária. O problema é imaginar que educação, sozinha, resolve uma estrutura econômica dependente, desindustrializada, desigual e financeirizada. Formar mais engenheiros, professores, administradores, arquitetos e tecnólogos é fundamental. Mas o que acontece quando o país não cria postos de trabalho compatíveis com essa formação? O que acontece quando a economia se organiza cada vez mais em torno de serviços precarizados, plataformas digitais, informalidade e baixa complexidade produtiva?

A resposta está nas ruas. Está no jovem graduado que trabalha como entregador. Está na bacharela que vende doces para complementar renda. Está no licenciado que abandona a sala de aula porque o salário não paga o aluguel. Está no técnico que vira operador de aplicativo. Está no estudante endividado que conclui a faculdade e descobre que seu diploma não tem o valor prometido.

A frustração não nasce apenas da pobreza objetiva. Nasce também da distância entre expectativa e realidade. Quando a expectativa é baixa, a resignação pode prevalecer. Mas quando a expectativa é alta e a realidade a destrói, a raiva cresce. E a política sempre disputa a raiva.

4. Quando o mercado não absorve o sonho

O capitalismo brasileiro produziu uma juventude educada para desejar ascensão, mas não criou uma economia capaz de universalizar essa ascensão. Esse é o nó. O jovem foi convocado a se tornar empreendedor de si mesmo, gestor da própria carreira, investidor da própria educação e responsável absoluto por seu sucesso. Só que encontrou um mercado saturado, salários comprimidos, baixa proteção trabalhista e empregos incompatíveis com sua formação.

A promessa meritocrática depende de uma ilusão: a de que todos competem em condições minimamente justas. Mas a sociedade brasileira é marcada por desigualdades anteriores à competição. O jovem pobre não disputa com o jovem rico apenas uma vaga; disputa tempo, rede de contatos, domínio cultural, fluência linguística, estabilidade emocional, moradia adequada, alimentação, transporte, acesso à tecnologia e capital familiar.

Quando essa desigualdade é ignorada, o fracasso social aparece como defeito individual. O sistema desaparece do diagnóstico. Resta o indivíduo diante do espelho, perguntando-se onde errou.

É nesse ponto que a extrema direita entra com uma operação ideológica sofisticada: ela reconhece a dor, mas falsifica sua causa. Ela diz ao jovem que ele foi enganado, mas não aponta a estrutura econômica. Ela fala em liberdade, mas defende a destruição das proteções sociais. Ela critica políticos, mas serve aos setores mais duros do mercado. Ela denuncia privilégios, mas preserva os privilégios reais. Ela fala contra o sistema, mas protege o coração do sistema.

O jovem precarizado, no entanto, nem sempre percebe essa contradição imediatamente. Ele percebe, antes, que alguém está falando com sua angústia. Enquanto parte da política institucional fala em estabilidade macroeconômica, governabilidade, responsabilidade fiscal e defesa abstrata da democracia, a extrema direita fala em humilhação, raiva, força, pertencimento e vingança. Politicamente, isso tem enorme potência.

5. A extrema direita como falsa força antissistema

Breno Altman afirma que a extrema direita tem hoje uma vantagem: ela caminha quase sozinha no campo da ruptura. Ela é quem parece dizer “vamos mudar tudo isso que está aí”. A esquerda majoritária, por sua vez, aparece frequentemente como força de preservação institucional: defende a democracia liberal, as instituições, os pactos, as regras do jogo e reformas possíveis dentro do capitalismo.

Essa defesa é necessária diante do autoritarismo. Mas ela é insuficiente para mobilizar uma juventude sem futuro. Quem está desesperado dificilmente se apaixona por uma política que promete apenas impedir o pior. Impedir o fascismo é indispensável, mas a juventude também precisa de horizonte. Precisa de vida possível. Precisa de trabalho digno, moradia, cultura, afeto, pertencimento, tempo livre, reconhecimento e projeto nacional.

A extrema direita compreendeu que a juventude deseja movimento. Há uma dimensão quase física na juventude: impaciência, urgência, desejo de ruptura, recusa da espera infinita. Quando a política democrática não oferece transformação, a ruptura regressiva ocupa o lugar vazio.

Mas é preciso distinguir ruptura de emancipação. Nem toda ruptura liberta. Há rupturas que destroem direitos. Há rebeldias que servem à dominação. Há discursos antissistema que apenas retiram os obstáculos para que o sistema funcione com mais violência.

A extrema direita contemporânea promete quebrar a ordem democrática para restaurar hierarquias sociais ameaçadas. Ela não quer igualdade. Quer autoridade. Não quer justiça. Quer punição. Não quer povo organizado. Quer massa mobilizada emocionalmente. Não quer superar o capitalismo. Quer libertar o capitalismo de suas amarras democráticas.

6. O darwinismo social e a pedagogia da culpa

Um dos pontos mais importantes da entrevista é a discussão sobre o darwinismo social. A expressão designa a aplicação brutal da lógica da seleção, da competição e da sobrevivência dos “mais fortes” à vida social. Em linguagem contemporânea, ela aparece como meritocracia extrema: vence quem merece; fracassa quem não se esforçou; pedir ajuda é fraqueza; depender do Estado é vergonha; solidariedade é coisa de perdedor.

Esse discurso é sedutor porque conversa com valores já profundamente enraizados no capitalismo. Desde cedo, aprendemos que a vida é uma competição. A escola ranqueia. O vestibular seleciona. O mercado elimina. A internet compara. O sucesso vira vitrine. O fracasso vira culpa.

A extrema direita não inventou esse individualismo. Ela o exacerbou. Transformou a competição em ética, a agressividade em virtude, a insensibilidade em maturidade e a desigualdade em prova natural de superioridade. É a política do “se vira”. É a moral do “ninguém te deve nada”. É a religião civil do “trabalhe enquanto eles dormem”.

A crueldade desse discurso está em sua dupla armadilha. Primeiro, ele diz ao jovem que o sistema não deve nada a ele. Depois, quando esse jovem fracassa, diz que a culpa é exclusivamente sua. Assim, a raiva que poderia ser dirigida contra estruturas injustas se volta contra o próprio indivíduo ou contra bodes expiatórios: mulheres, pobres, negros, LGBTQIA+, servidores públicos, professores, sindicatos, movimentos sociais.

A meritocracia radical produz sujeitos cansados, culpados e ressentidos. Cansados porque precisam performar força o tempo todo. Culpados porque acreditam que todo fracasso é falha moral. Ressentidos porque veem qualquer política de igualdade como ameaça a uma competição que imaginam justa.

7. Homens jovens, masculinismo e pânico moral

A entrevista também aborda uma clivagem importante: homens jovens têm se deslocado mais à direita que mulheres jovens em diversas pesquisas internacionais e latino-americanas. Esse fenômeno não pode ser explicado apenas pela economia. Há uma dimensão de gênero decisiva.

Nas últimas décadas, mulheres conquistaram direitos, ampliaram presença no ensino superior, denunciaram violências, questionaram padrões patriarcais e recusaram papéis tradicionais de submissão. Para uma sociedade democrática, isso é avanço civilizatório. Para homens formados em uma cultura de privilégio masculino, pode ser vivido como perda.

É aqui que entram o masculinismo e o pânico moral. O masculinismo transforma a crise da masculinidade tradicional em ressentimento político. Diz aos jovens homens que eles estão sendo perseguidos pelo feminismo, que perderam autoridade, que a sociedade favorece mulheres, que a igualdade de gênero é uma ameaça. O pânico moral faz o mesmo em outros campos: apresenta mudanças culturais como sinal de decadência, destruição da família, corrupção das crianças ou colapso da civilização.

A extrema direita se alimenta desse medo. Ela oferece aos homens jovens uma identidade de combate: seja forte, seja dominante, não peça desculpas, não aceite limites, odeie o “politicamente correto”, combata feministas, ridicularize minorias, rejeite a sensibilidade, transforme empatia em fraqueza.

Esse discurso funciona porque oferece pertencimento a jovens que se sentem deslocados. Em vez de ajudá-los a compreender suas angústias em uma sociedade desigual e competitiva, oferece uma fantasia de restauração: voltar a um mundo em que homens mandavam mais, mulheres obedeciam mais, professores eram menos questionadores, trabalhadores reclamavam menos e autoridades eram temidas.

A política vira, então, compensação emocional. O jovem que não controla o próprio futuro passa a desejar controlar alguém. O jovem humilhado pelo mercado encontra alívio simbólico humilhando grupos vulneráveis. O jovem impotente diante da economia performa potência na cultura.

8. Fascismo histórico e neofascismo contemporâneo: semelhanças e diferenças

Comparar a extrema direita atual ao fascismo histórico exige cuidado. O fascismo italiano e o nazismo alemão nasceram em condições específicas: crise do liberalismo, trauma da Primeira Guerra Mundial, medo da revolução socialista, violência paramilitar, nacionalismo agressivo, crise econômica e apoio de setores das elites. Não se deve dizer que tudo é igual. A história não se repete como cópia.

Mas há semelhanças estruturais que não podem ser ignoradas. O fascismo histórico também mobilizou juventudes frustradas, ressentidas, desejosas de ação, ordem e pertencimento. Também transformou crise social em ódio contra inimigos internos. Também se apresentou como força de renovação contra a decadência. Também atacou a democracia liberal não para criar uma sociedade igualitária, mas para impor uma ordem ainda mais hierárquica.

O neofascismo contemporâneo opera em outro ambiente: redes sociais, plataformas digitais, guerras culturais, neoliberalismo, precarização e crise de representação. Ele nem sempre usa uniformes ou partidos de massa tradicionais. Muitas vezes aparece como meme, canal de YouTube, podcast, influenciador, líder religioso, coach, deputado performático ou comunidade digital.

Mas o mecanismo afetivo é parecido: produzir um “nós” puro contra um “eles” corruptor. “Nós”, os trabalhadores honestos. “Eles”, os vagabundos. “Nós”, os cidadãos de bem. “Eles”, os criminosos. “Nós”, os patriotas. “Eles”, os traidores. “Nós”, os homens fortes. “Eles”, as feministas, os comunistas, os professores, os artistas, os intelectuais.

Essa divisão simplifica o mundo e dá sentido ao sofrimento. O jovem não precisa entender financeirização, dependência econômica, desindustrialização, crise fiscal, precarização e desigualdade. Basta odiar o inimigo indicado.

9. A esquerda institucional e o vazio da ruptura

Uma crítica incômoda precisa ser enfrentada: a esquerda perdeu parte de sua capacidade de falar em futuro. Tornou-se, muitas vezes, administradora do possível. Defende políticas públicas importantes, combate retrocessos, protege instituições, amplia direitos quando consegue. Tudo isso importa. Mas, para uma juventude precarizada, pode soar pouco.

A juventude não quer apenas manutenção. Quer abertura de mundo. Quer acreditar que a vida pode ser diferente. Quando a esquerda fala apenas em preservar a democracia, mas não consegue associar democracia a trabalho digno, renda, moradia, cultura, tempo livre e soberania nacional, sua mensagem perde força.

Defender a democracia é essencial. Mas democracia não pode ser apresentada apenas como rito institucional. Precisa ser experiência concreta de vida. Democracia, para o jovem, precisa significar conseguir estudar sem fome, trabalhar sem adoecer, morar sem desespero, amar sem medo, circular sem violência, participar sem ser ridicularizado, sonhar sem ser enganado.

A esquerda também precisa recuperar linguagem. Parte de sua comunicação ficou técnica, burocrática, acadêmica ou moralista. Enquanto isso, a extrema direita fala em frases curtas, imagens fortes, inimigos claros e emoções intensas. A resposta não deve ser imitar a mentira ou a brutalidade. Mas é preciso reaprender a comunicar conflito, esperança e projeto.

10. Redes sociais, ressentimento e política como performance

A política digital favorece quem produz choque. O algoritmo não premia necessariamente verdade, complexidade ou responsabilidade. Premia engajamento. E nada engaja tanto quanto raiva, medo, humilhação e pertencimento tribal.

A extrema direita aprendeu a transformar política em espetáculo. Um corte de trinta segundos vale mais que uma tese. Uma ofensa viraliza mais que uma explicação. Uma mentira emocional viaja mais rápido que uma análise cuidadosa. Um inimigo caricaturado mobiliza mais que um problema estrutural.

Isso cria uma pedagogia política deformada. Jovens passam a aprender política como se fosse ringue. Debate vira destruição do adversário. Convicção vira identidade de torcida. Dúvida vira fraqueza. Complexidade vira covardia. O mundo se divide entre lacradores e humilhados.

Nessa dinâmica, o jovem frustrado encontra comunidade. Ele comenta, compartilha, ri, ataca, pertence. Muitas vezes, a adesão começa menos por ideologia elaborada e mais por estética: a estética da força, da coragem, da transgressão, do “falar o que ninguém tem coragem”. A extrema direita se vende como autenticidade em um mundo percebido como falso.

Mas essa autenticidade é fabricada. É uma performance de brutalidade. E sua função política é dessensibilizar. Primeiro, o jovem ri da piada contra minorias. Depois, aceita a desumanização. Em seguida, relativiza a violência. Por fim, passa a ver direitos como obstáculos e a democracia como fraqueza.

11. O paradoxo: rebeldia contra o sistema para produzir mais sistema

O grande paradoxo da extrema direita é este: ela se apresenta como antissistema, mas oferece hipersistema. Promete liberdade, mas entrega submissão ao mercado. Promete ordem, mas produz violência. Promete mérito, mas protege heranças e privilégios. Promete combater elites, mas governa para elas. Promete defender o povo, mas destrói direitos populares.

Quando chega ao poder, a extrema direita não reduz exploração. Ela a intensifica. Não democratiza a economia. Privatiza. Não fortalece trabalhadores. Enfraquece sindicatos. Não protege juventudes. Criminaliza suas expressões. Não melhora a escola pública. Ataca professores. Não enfrenta desigualdades. Naturaliza desigualdades como resultado de mérito.

Por isso, o discurso disruptivo da extrema direita é uma contra-revolução com linguagem de rebeldia. Ela captura a energia da mudança para impedir mudanças emancipatórias. Usa a raiva dos de baixo para proteger os interesses dos de cima. Transforma sofrimento social em guerra cultural.

Esse é o perigo. Uma juventude sem futuro pode ser levada a defender exatamente as forças que roubam seu futuro. Pode atacar políticas públicas das quais depende. Pode desprezar direitos que a protegeriam. Pode odiar professores que tentam formá-la criticamente. Pode chamar de liberdade a própria servidão.

12. Conclusão: disputar a juventude é disputar o futuro

A juventude não está perdida. Ela está em disputa. Essa distinção é fundamental. Não se trata de afirmar que jovens são naturalmente progressistas ou naturalmente conservadores. Juventude não é essência; é condição histórica. Jovens respondem ao mundo que recebem. E o mundo que muitos receberam é brutal: diploma desvalorizado, trabalho instável, ansiedade permanente, redes sociais tóxicas, crise climática, endividamento, violência e ausência de horizonte.

A extrema direita oferece uma resposta falsa, mas emocionalmente poderosa. Ela diz ao jovem: “sua raiva faz sentido”. E, de fato, faz. O problema é que depois sequestra essa raiva e a dirige contra alvos errados. Em vez de transformar indignação em consciência social, transforma em ressentimento. Em vez de produzir solidariedade, produz competição. Em vez de organizar luta por direitos, organiza desejo de punição.

A tarefa democrática, popular e humanista é oferecer outra resposta. Não basta chamar esses jovens de ignorantes, fascistas ou manipulados. Isso pode até ser moralmente confortável, mas politicamente é insuficiente. É preciso entender a base material da frustração. É preciso reconhecer que a promessa meritocrática falhou. É preciso dizer com clareza que o problema não é o jovem que não se esforçou; é uma sociedade que privatiza o sucesso e socializa a culpa.

Disputar a juventude exige projeto nacional de desenvolvimento, educação pública de qualidade, trabalho digno, regulação das plataformas, democratização da comunicação, combate à misoginia, fortalecimento da cultura, reconstrução de vínculos comunitários e uma linguagem política capaz de falar ao coração sem abandonar a razão.

No fundo, a pergunta decisiva é simples: quem dará sentido à raiva de Rafael? A extrema direita dirá que ele precisa ser mais duro, odiar mais, competir mais e culpar os fracos. Uma política emancipatória precisa dizer outra coisa: Rafael não fracassou sozinho, porque ninguém vence sozinho. O futuro não será reconstruído pela guerra de todos contra todos, mas pela organização coletiva de uma sociedade que se recuse a transformar juventude em combustível de aplicativo, ressentimento e autoritarismo.

A extrema direita cresce onde a esperança social desaparece. Portanto, combater o neofascismo não é apenas defender instituições. É reconstruir futuro. Porque uma juventude sem futuro é sempre território em disputa. E onde a democracia não chega como promessa concreta de vida digna, o autoritarismo chega como falsa promessa de força.

13. Cinco pontos relevantes

  1. A extrema direita cresce entre jovens porque combina frustração material, linguagem emocional e promessa de ruptura.
  2. A expansão do ensino superior não foi acompanhada por um projeto econômico capaz de absorver todos os diplomados.
  3. O darwinismo social transforma problemas estruturais em culpa individual.
  4. Homens jovens são especialmente disputados por discursos masculinistas e antifeministas.
  5. A esquerda precisa recuperar capacidade de oferecer futuro, e não apenas defesa institucional do presente.

14. Cinco perguntas comuns

1. A juventude está ficando fascista?
Não de forma homogênea. O que existe é uma disputa intensa sobre a juventude, com crescimento de discursos conservadores e autoritários em determinados segmentos, especialmente entre homens jovens.

2. A culpa é da internet?
A internet não cria sozinha o fenômeno, mas acelera, organiza e amplifica ressentimentos que nascem de crises reais.

3. O diploma perdeu valor?
Não totalmente. O ensino superior ainda melhora chances de renda e emprego, mas sua capacidade de garantir mobilidade social diminuiu em muitos setores.

4. A extrema direita é realmente antissistema?
Não. Ela é antissistema apenas na aparência. Na prática, tende a radicalizar o mercado, reduzir direitos e fortalecer hierarquias.

5. Como disputar politicamente os jovens?
Com trabalho digno, educação de qualidade, linguagem direta, presença digital, combate às desigualdades e um projeto concreto de futuro.

15. Três livros indicados

  1. PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo.
  2. BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo.
  3. ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão.

16. Referências em ABNT

ALTMAN, Breno. Juventude e fascismo: a análise que você precisa ver. Opera Mundi, YouTube, 2026.

ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. São Paulo: Politeia, 2019.

FRASER, Nancy. O velho está morrendo e o novo não pode nascer. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: educação e trabalho. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.

INEP. Censo da Educação Superior 2024: notas estatísticas. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2025.

PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2018.

STREECK, Wolfgang. Tempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático. São Paulo: Boitempo, 2018.


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