Entre analfabetismo funcional, economia do engajamento e antipolítica, forma-se um eleitorado vulnerável a narrativas fáceis — e um Estado mais fácil de capturar.
Existe um erro confortável que a gente comete para “explicar” o Brasil: tratar desinformação como exceção, e não como ambiente. Só que a crise contemporânea é menos sobre uma fake news específica e mais sobre uma fragilidade estrutural: grande parte da população não dispõe de repertório cívico e informacional para auditar discursos de poder, entender o básico de governança e separar prova de performance. Quando isso acontece, líderes oportunistas passam a governar “em causa própria” com o aplauso de quem foi treinado a desconfiar de instituições — mas não foi treinado a fiscalizá-las.
. Por que este artigo existe
Vou direto: a maior vulnerabilidade brasileira hoje não é só econômica, nem só institucional. É pedagógica. Um país pode até ter Constituição, tribunais e eleições regulares, mas se uma parcela grande do povo não entende como o Estado funciona, a democracia vira um jogo de fé: “acredito no meu líder” contra “acredito no seu”. E fé política é terreno fértil para o governante que quer operar sem auditoria cidadã.
A tese aqui é simples e dura: sem maturidade informacional, cresce o apoio a lideranças que ignoraram (ou simulam ignorar) as dinâmicas de governança — orçamento, controle, legalidade, políticas públicas — para operar em causa própria, sustentadas por guerra cultural e engenharia de conflito (MUDDE, 2004; MOFFITT, 2016).
2. O que chamo de “maturidade informacional”
Maturidade informacional não é “ser inteligente”. É outra coisa:
- Saber ler evidência (o que é fonte? o que é opinião? o que é boato?).
- Entender mediações (por que existe Congresso? por que existe STF? por que existe controle?).
- Conhecer regras do jogo (o mínimo sobre orçamento, direitos, eleições e instituições).
- Resistir à manipulação emocional (o vídeo que te enfurece antes de te informar).
Sem isso, o eleitor vira presa fácil da política como espetáculo — e o país vira presa fácil de governantes que tratam o Estado como troféu.
3. O dado incômodo: analfabetismo, analfabetismo funcional e leitura do mundo
Aqui a conversa sai do “achismo” e entra no chão duro da realidade social.
O Brasil reduziu o analfabetismo nas últimas décadas, mas ele segue relevante e desigual. A PNAD Contínua Educação do IBGE acompanha esses indicadores e mostra que ainda há contingente expressivo de brasileiros com baixa escolaridade e dificuldades persistentes de aprendizagem e leitura. (IBGE, 2024).
Mas o ponto mais decisivo, politicamente, é o analfabetismo funcional: gente que até decodifica palavras, mas não domina leitura interpretativa, raciocínio aplicado e uso prático da informação.
O INAF voltou a mostrar como esse problema permanece estrutural e afeta diretamente a capacidade de compreender textos, gráficos, instruções e conteúdos cívicos básicos — o tipo de repertório que sustenta uma cidadania crítica. (AÇÃO EDUCATIVA; INAF, 2024).
E aqui entra uma consequência direta: se a pessoa não consegue interpretar um texto simples com segurança, como ela vai auditar um discurso sobre orçamento, urna, vacina, STF, ou “soberania”?
BOX — O ponto que quase ninguém fala
Sem repertório de leitura e checagem, o cidadão não vira “neutro”.
Ele vira dependente de “intérpretes”: o pastor, o influencer, o político, o grupo do WhatsApp, o apresentador indignado. E quem controla os intérpretes controla a realidade.
4. A democracia exige um “mínimo operacional” (e o Brasil não universalizou isso)
Democracia não é só voto. Democracia é auditoria social permanente.
E auditoria exige três alfabetizações mínimas:
- Alfabetização institucional (como Estado e poderes funcionam).
- Alfabetização midiática (como informação é produzida, distribuída e manipulada).
- Alfabetização estatística básica (risco, evidência, comparação, “o que um dado prova e o que não prova”).
A UNESCO há anos trata a alfabetização midiática e informacional como competência-chave para cidadania contemporânea, inclusive em currículos de formação docente. (UNESCO, 2011).
No Brasil, a própria criação de políticas e iniciativas federais nessa direção evidencia que o Estado percebeu o problema — ainda que tarde e de forma desigual. (SECOM, 2023).
5. A economia do engajamento: quando a mentira vira modelo de negócios
A crise não é apenas “cognitiva”. É econômica.
As plataformas recompensam conteúdo que gera reação rápida, sobretudo medo e raiva. Isso transforma a política em mercado: o que vende é indignação; o que fideliza é identidade; o que domina é a narrativa total.
O relatório do Conselho da Europa sobre desordem informacional é útil aqui porque separa erro, manipulação e operação coordenada — e mostra por que isso vira problema de governança democrática. (WARDLE; DERAKHSHAN, 2017).
E quando a desinformação vira método, ela se organiza como “cadeia produtiva”: produção, distribuição, monetização e blindagem — exatamente o ecossistema que sustenta lideranças que governam com conflito permanente.
INFOGRÁFICO — Cadeia produtiva da manipulação (quadro para diagramação)
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Etapa |
Mecanismo |
Resultado polÃtico |
|
Isca emocional |
medo/raiva/nojo |
clique e compartilhamento |
|
Narrativa total |
“inimigo interno”, “sistema” |
identidade tribal |
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Mobilização |
convocação e ação “urgente” |
poder de rua |
|
Monetização |
doações , cursos, produtos |
financiamento |
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Blindagem |
“censura”, “perseguição ” |
impunidade simbólica |
6. Antipolítica e “gestão” como disfarce de projeto de poder
No Brasil, um motor central do apoio a certas lideranças é a antipolítica: a ideia de que “política é sujeira” e que o líder “não é político”, é “gestor”, “cidadão comum”, “homem do povo”.
Só que isso não elimina política; moraliza a política: “o povo puro” contra “a elite corrupta”. Essa é a arquitetura clássica do populismo como ideologia “fina”. (MUDDE, 2004).
E a performance do “anti-sistema” também funciona como estilo: o mau modo vira autenticidade, a crise vira palco, a agressão vira método. (MOFFITT, 2016).
Se o eleitor não entende governança, ele é capturado por um raciocínio infantilizado:
“se ele briga, é porque é honesto; se ele xinga, é porque fala a verdade”.
7. Governança “em causa própria”: como se captura o Estado sem tanque na rua
Aqui está o coração do Artigo 3: líderes que operam em causa própria precisam de um povo que não saiba auditar.
Como isso aparece na prática?
- loteamento de cargos como moeda de fidelidade;
- ataque a órgãos de controle (quando fiscalizam, viram “inimigos”);
- desmoralização da imprensa (para cortar o canal de verificação);
- deslegitimação do Judiciário (para reduzir freios);
- guerra cultural como cortina de fumaça (para deslocar debate de políticas públicas).
Sem maturidade informacional, parte do público interpreta isso como “coragem”, não como captura.
8. O laboratório brasileiro: pandemia, eleições e colapso do debate público
A pandemia foi um teste de alfabetização científica e cívica. E o Brasil viu florescer um ambiente em que evidência virou opinião e política pública virou identidade.
Os dados de mortes por COVID-19 no Brasil ultrapassaram a marca de 700 mil, como registram séries internacionais e painéis de acompanhamento. (OUR WORLD IN DATA, s.d.).
E análises acadêmicas sobre o negacionismo no país destacam o peso do componente político na crise sanitária — isto é, não foi apenas desinformação “espontânea”, mas ambiente de incentivos, discurso e disputa. (CASTILHO, 2023).
Eleições seguem a mesma lógica: se o cidadão não conhece como auditoria eleitoral funciona, qualquer narrativa de fraude “encaixa” — e vira pretexto para radicalização. A Justiça Eleitoral, por isso, estruturou ações e programas permanentes de enfrentamento à desinformação. (TSE, 2022; TSE, 2024).
9. O efeito 8 de janeiro: quando narrativa vira ação
Quando você mistura:
- ignorância institucional,
- desordem informacional,
- messianismo político,
- economia do engajamento,
você chega ao ponto em que “a versão” parece mais real que o fato. E aí a política vira ação direta.
A documentação pública sobre o 8 de janeiro e suas investigações (CPMI, relatórios e processos) consolidou o entendimento de que houve ataque às sedes dos Poderes com base em narrativa golpista. (SENADO FEDERAL/CPMI, 2023; STF, 2023).
Uma população com maturidade informacional pode odiar um governo e ainda assim entender que instituição não é inimigo. Sem isso, a pessoa acha que está “salvando o país” quando está quebrando o país.
10. Violência como política: por que parte do país aplaude o Estado que mata
Aqui o tema fica incômodo, mas necessário: a falta de maturidade cívica também explica por que operações letais viram espetáculo moral.
O caso do Jacarezinho (2021) e outras operações letais no Rio entraram no debate público como símbolos de um padrão de letalidade, com cobertura ampla e contestação por órgãos e entidades. (AGÊNCIA BRASIL, 2025; HRW, 2023).
Em outubro de 2025, por exemplo, uma operação de grande escala no Rio gerou reportagens internacionais e debate sobre letalidade e investigações. (AP, 2025).
Sem educação política, parte do público não pergunta:
“houve legalidade, prova, devido processo, investigação, controle externo?”
Pergunta só: “morreu quem eu odeio?”
Isso é a porta de entrada da necropolítica como rotina — e o Estado de Direito vira “detalhe”.
11. Fé, política e coerção: laicidade sem alfabetização vira guerra cultural
Sem maturidade informacional, laicidade vira mal-entendido:
“Estado laico” é ouvido como “Estado contra Deus”.
Aí o debate público degrada: política vira cruzada; oponente vira inimigo moral; política pública vira dogma.
E, nesse ambiente, governar em causa própria fica mais fácil, porque a régua deixa de ser “entrega e legalidade” e passa a ser “fidelidade”.
12. O círculo vicioso: desinformação → cinismo → culto → impunidade
O circuito é perverso:
- Desinformação destrói critérios comuns de realidade.
- A sociedade cai no cinismo (“nada é verdade”).
- No cinismo, vence quem oferece identidade (“nós contra eles”).
- Identidade vira culto.
- Culto vira impunidade para governar em causa própria.
E o país vai ficando mais frágil por dentro, mesmo quando “parece normal” por fora.
13. O que fazer: agenda mínima de alfabetização democrática
Não é doutrinação. É infraestrutura de cidadania.
Três frentes objetivas:
- Educação institucional na escola
Constituição, poderes, orçamento, políticas públicas, controle e participação. - Educação midiática e informacional
Fonte, evidência, checagem, algoritmo, manipulação afetiva. (UNESCO, 2011; SECOM, 2023). - Proteção institucional do processo democrático
Transparência, responsabilização e programas permanentes contra desinformação eleitoral. (TSE, 2022; TSE, 2024).
14. Fecho: o Brasil é frágil porque não ensinou o povo a defender a República
No fundo, o Brasil está pagando uma conta histórica: não universalizou a competência de ler o mundo público.
E, sem isso, o eleitor vira torcedor; a política vira reality show; o Estado vira prêmio; e governantes que operam em causa própria passam a ser defendidos como se fossem “salvação”.
Se o país quer sobreviver ao que vem pela frente — crise climática, IA, guerra informacional, crime organizado, choques econômicos — precisa de um povo capaz de fazer o básico: entender governança para poder cobrar governança.
Democracia não se sustenta com fé. Sustenta-se com cidadania.
15. Referências
AÇÃO EDUCATIVA; INAF — INDICADOR NACIONAL DE ALFABETISMO FUNCIONAL. Relatório INAF 2024. São Paulo: Ação Educativa, 2024. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
AGÊNCIA BRASIL (EBC). Veja as operações policiais mais letais no Rio nos últimos anos. Brasília: EBC, 28 out. 2025. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
ASSOCIATED PRESS (AP). Huge Brazilian raid on Rio gang leaves at least 64 people dead… 28 out. 2025. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
CASTILHO, M. Negacionismo e o papel dos fatores políticos para a crise sanitária da Covid-19 no Brasil. Novos Estudos CEBRAP, 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
HUMAN RIGHTS WATCH (HRW). Brazil: Inquiry in Police Killings Falls Short. Nova York: HRW, 07 nov. 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PNAD Contínua Educação (release e séries). Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
MOFFITT, B. The Global Rise of Populism: Performance, Political Style, and Representation. Stanford: Stanford University Press, 2016.
MUDDE, C. The Populist Zeitgeist. Government and Opposition, 2004. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
OUR WORLD IN DATA. Coronavirus (COVID-19) Deaths — Brazil. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
SECOM — SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Estratégia Brasileira de Educação Midiática (EBEM). Brasília: Governo Federal, 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
SENADO FEDERAL. Relatório Final da CPMI do 8 de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
STF — SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Informações institucionais e processos relativos aos ataques de 8 de janeiro. Brasília: STF, 2023. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
TSE — TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Eleições 2022: TSE e plataformas digitais firmam parceria para combate à desinformação. Brasília: TSE, 2022. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
TSE — TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação: resultados nas Eleições 2024. Brasília: TSE, 2024. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
UNESCO. Alfabetização midiática e informacional: currículo para formação de professores. Paris: UNESCO, 2011. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.
WARDLE, C.; DERAKHSHAN, H. Information Disorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Strasbourg: Council of Europe, 2017. Disponível em: conforme base consultada. Acesso em: 10 jan. 2026.