sábado, 13 de junho de 2026

A pobreza fabricada e a consciência capturada

Por que parte dos pobres defende projetos políticos que aprofundam a própria pobreza?


Índice

  1. Introdução: a história de Carlos, o homem que votava contra si mesmo
  2. Lide
  3. A tese central: pobreza fabricada e consciência capturada
  4. O pobre não é burro: é uma pessoa disputada por narrativas
  5. Quando a dor encontra uma explicação falsa
  6. A extrema direita e a pedagogia do inimigo
  7. Identidade pesa mais que planilha econômica
  8. Religião, moralidade e pertencimento político
  9. Ressentimento, humilhação e desejo de punição
  10. Desinformação, algoritmo e indústria da atenção
  11. Gramsci: hegemonia e direção moral da sociedade
  12. Bourdieu: dominação simbólica e naturalização da desigualdade
  13. Paulo Freire: consciência crítica contra fatalismo social
  14. O Brasil entre pobreza, desigualdade e guerra cultural
  15. Conclusão
  16. Cinco pontos relevantes
  17. Cinco perguntas comuns
  18. Três livros indicados
  19. Referências em ABNT

1. Introdução: a história de Carlos, o homem que votava contra si mesmo

Era sábado de manhã em uma pequena cidade brasileira. Carlos saiu do supermercado carregando duas sacolas leves demais para o dinheiro que tinha acabado de gastar. Havia comprado arroz, feijão, óleo, café, dois pacotes de macarrão e alguns produtos de limpeza. A carne ficou para depois. A fruta também. O leite, só uma caixa.

No caminho para casa, encontrou três conhecidos na praça. Um deles falava alto, com o celular na mão, mostrando um vídeo político.

— Está vendo? O problema do Brasil é esse povo que não quer trabalhar. É professor doutrinando aluno, artista mamando na lei de incentivo, bandido protegido por direitos humanos e político de esquerda comprando voto com benefício social.

Carlos concordou com a cabeça.

Ele trabalhava havia vinte anos. Já tinha sido ajudante de pedreiro, motorista de aplicativo, vendedor informal, auxiliar de estoque e vigia noturno. Nunca teve estabilidade. Nunca teve férias planejadas. Nunca escolheu de verdade o que queria fazer da vida. A vida escolhia por ele.

Mesmo assim, quando ouvia alguém falar em direito trabalhista, desconfiava. Quando ouvia falar em sindicato, torcia o nariz. Quando alguém defendia imposto sobre grandes fortunas, dizia que era inveja de rico. Quando o governo ampliava programa social, repetia que aquilo era coisa de vagabundo.

Na mesma noite, Carlos parcelou a conta de energia. Depois abriu o celular e compartilhou uma mensagem dizendo que o país precisava de menos Estado, menos direitos e mais gente “de bem” no poder.

Carlos não era uma caricatura. Não era burro. Não era mau. Era um homem cansado, endividado, religioso, trabalhador, ressentido e bombardeado diariamente por narrativas prontas. Ele queria ordem, respeito e alguma sensação de dignidade. Como não encontrava isso na economia real, encontrou na política do inimigo.

Essa história é fictícia, mas poderia acontecer em qualquer esquina do Brasil.

E ela nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: por que pessoas pobres, trabalhadores precarizados, pequenos comerciantes sufocados, aposentados endividados e famílias dependentes de serviços públicos muitas vezes defendem políticos e projetos que reduzem direitos, atacam políticas sociais e protegem privilégios econômicos?

A resposta fácil seria dizer: “porque são ignorantes”.

Mas essa resposta é arrogante, superficial e politicamente inútil.

A resposta verdadeira é mais difícil: existe uma máquina de produção de sentido que transforma sofrimento social em ressentimento político. Essa máquina pega a dor real das pessoas e oferece uma explicação falsa. Pega a frustração econômica e entrega um inimigo cultural. Pega a humilhação cotidiana e transforma em orgulho agressivo. Pega a insegurança material e converte em voto autoritário.

No artigo anterior, defendemos que a pobreza é fabricada por escolhas políticas e econômicas. Agora precisamos dar um passo adiante: além da pobreza material, fabrica-se também uma percepção da pobreza. E, quando essa percepção é capturada, o pobre pode ser convencido de que seu inimigo não é a estrutura que o explora, mas outro pobre, o professor, o artista, a mulher feminista, o jovem negro, o imigrante, o beneficiário de programa social, a universidade pública, a imprensa, a urna, o movimento social ou qualquer figura transformada em ameaça moral.

A pobreza é fabricada. Mas a consciência que aceita a pobreza também pode ser fabricada.

2. Lide

A pergunta “por que pobre defende político que odeia pobre?” não pode ser respondida com desprezo contra o próprio pobre. Ela exige análise social, política, econômica e psicológica. O fenômeno envolve abandono real, propaganda profissional, identidade religiosa, ressentimento, desinformação, medo da perda de status, antipolítica, pânico moral e fabricação permanente de inimigos. A tese deste artigo é dupla: primeiro, a pobreza é produzida por estruturas econômicas e decisões políticas; segundo, sua manutenção depende da captura da consciência popular por narrativas que fazem os prejudicados defenderem os beneficiários da desigualdade.

3. A tese central: pobreza fabricada e consciência capturada

A pobreza não nasce do nada. Ela é produzida por escolhas institucionais: salário baixo, informalidade, tributação injusta, concentração de terra, educação desigual, saúde precarizada, moradia excludente, endividamento familiar, juros elevados e Estado capturado por interesses privados.

Mas nenhuma estrutura desigual se sustenta apenas pela força. Ela precisa também de uma história que a justifique.

Toda sociedade desigual precisa convencer parte dos prejudicados de que a desigualdade é natural, merecida ou inevitável. Precisa convencer o trabalhador pobre de que o bilionário é apenas esforçado. Precisa convencer a mãe sem creche de que o problema do país é o benefício recebido por outra mãe ainda mais pobre. Precisa convencer o pequeno comerciante endividado de que seus problemas não vêm dos bancos, dos juros, da baixa renda da população ou da concentração econômica, mas de algum inimigo cultural.

É aqui que entra a nova tese deste artigo: a extrema direita contemporânea opera como uma pedagogia da inversão. Ela ensina o pobre a olhar para baixo com raiva e para cima com admiração.

O rico vira exemplo de mérito. O pobre beneficiário de política social vira suspeito. O Estado vira monstro quando atende vulneráveis, mas vira instrumento legítimo quando protege aliados econômicos, policiais, religiosos ou empresariais. O líder autoritário vira vítima. A imprensa vira inimiga. A ciência vira opinião. A escola vira ameaça. A desigualdade vira resultado natural da vida.

Esse processo não acontece por acaso. Ele depende de comunicação permanente, redes digitais, igrejas politizadas, influenciadores, canais de vídeo, grupos de mensagem, lideranças carismáticas e repetição obsessiva de slogans simples.

Quando a economia abandona as pessoas, a extrema direita oferece pertencimento. Quando o Estado falha, ela oferece culpados. Quando a vida fica insegura, ela oferece autoridade. Quando a pessoa se sente humilhada, ela oferece a chance de humilhar alguém.

A política deixa de ser disputa por direitos e passa a ser guerra moral.

4. O pobre não é burro: é uma pessoa disputada por narrativas

Um erro grave da análise progressista superficial é tratar o eleitor pobre conservador como alguém simplesmente manipulado por falta de inteligência. Isso resolve o ego de quem analisa, mas não resolve o problema político.

Pessoas não votam apenas com a carteira. Votam com a memória, com a fé, com o medo, com a família, com a vizinhança, com o grupo de pertencimento, com a identidade moral, com a raiva acumulada e com a imagem que fazem de si mesmas.

Christopher Achen e Larry Bartels criticam a ideia romântica do eleitor como indivíduo plenamente informado, racional e orientado por programas. Para eles, eleitores frequentemente funcionam a partir de identidades, grupos e vínculos afetivos. Não se trata de negar a razão, mas de reconhecer que a razão política quase sempre opera dentro de pertencimentos sociais.

Isso ajuda a entender por que uma pessoa pode apoiar uma política econômica que a prejudica, se essa política vier embalada por símbolos que ela reconhece como seus: Deus, família, pátria, ordem, honestidade, punição, masculinidade, empreendedorismo, anticomunismo, antipetismo ou “cidadão de bem”.

A pessoa não está votando apenas em uma proposta. Está votando em uma imagem de si mesma.

Ela quer ser vista como trabalhadora, honesta, correta, religiosa, patriota, independente. Se a propaganda política consegue associar direitos sociais à vagabundagem e cortes de direitos à coragem moral, o prejuízo econômico passa a ser interpretado como virtude.

É uma inversão poderosa: perder direitos passa a parecer prova de caráter.

5. Quando a dor encontra uma explicação falsa

A dor social precisa de explicação. Quem sofre quer saber por quê. Quer entender por que trabalha e não melhora de vida. Por que o filho não consegue emprego. Por que a conta não fecha. Por que a violência aumenta. Por que o bairro continua abandonado. Por que o hospital demora. Por que a escola não funciona. Por que o futuro parece bloqueado.

A política democrática deveria responder a isso com análise estrutural: desigualdade, concentração de renda, ausência de políticas públicas, precarização do trabalho, racismo, baixa qualidade dos serviços, captura do Estado, modelo tributário injusto.

Mas a extrema direita oferece outra resposta: a culpa é de um inimigo.

Esse inimigo muda conforme a conveniência: comunistas, feministas, professores, artistas, pobres beneficiários de programas sociais, imigrantes, população LGBTQIA+, indígenas, imprensa, universidades, movimentos sociais, organismos internacionais, urnas eletrônicas ou ministros de tribunais.

A vantagem política dessa estratégia é evidente. Explicações estruturais são complexas. Inimigos são simples. Explicações estruturais exigem estudo. Inimigos exigem raiva. Explicações estruturais pedem organização coletiva. Inimigos pedem ataque imediato.

A mentira política funciona não porque seja logicamente superior, mas porque é emocionalmente disponível.

Ela entrega uma narrativa curta para uma dor longa.

6. A extrema direita e a pedagogia do inimigo

A extrema direita contemporânea aprendeu a transformar sofrimento em combustível político. Ela não precisa resolver a pobreza; precisa administrar a raiva dos pobres. Não precisa melhorar a vida concreta; precisa produzir a sensação de que alguém será punido.

Esse é o núcleo da pedagogia do inimigo.

Primeiro, identifica-se uma dor real: desemprego, violência, medo, perda de renda, sensação de decadência moral, insegurança familiar.

Segundo, desloca-se a causa: em vez de falar de estrutura econômica, fala-se de inimigos culturais.

Terceiro, oferece-se um líder forte: alguém que promete enfrentar “tudo isso” sem precisar explicar tecnicamente como.

Quarto, transforma-se crítica em perseguição: qualquer investigação, denúncia ou responsabilização contra o líder vira prova de que ele incomoda o sistema.

Quinto, converte-se fidelidade política em identidade moral: apoiar o líder deixa de ser uma preferência eleitoral e passa a ser sinal de caráter.

É assim que a política vira religião secular. O líder não erra; é traído. Não governa mal; é impedido. Não mente; revela verdades proibidas. Não ataca instituições; enfrenta inimigos ocultos.

Quando esse ciclo se fecha, fatos perdem força. O pertencimento se torna mais importante que a realidade.

7. Identidade pesa mais que planilha econômica

Lilliana Mason mostra que a política contemporânea se tornou cada vez mais identitária. Isso não significa apenas identidade no sentido de raça, gênero ou sexualidade, mas identidade partidária, religiosa, moral, regional e cultural.

Quando a política vira identidade, mudar de opinião deixa de ser um gesto racional e passa a parecer traição ao grupo.

Por isso, argumentos econômicos muitas vezes fracassam. Você pode mostrar dados sobre emprego, renda, pobreza, inflação, salário mínimo, programas sociais e crescimento. Mesmo assim, a pessoa pode rejeitar tudo se esses dados ameaçarem sua identidade política.

A mente humana não funciona como uma planilha de Excel. Ela funciona como uma casa cheia de memórias, medos, vínculos, orgulho e vergonha.

Quando alguém diz “eu sou conservador”, “eu sou patriota”, “eu sou cristão”, “eu sou de direita”, muitas vezes está dizendo algo mais profundo: “este é o grupo ao qual pertenço; é aqui que sou reconhecido; é aqui que minha dor tem explicação”.

A disputa política, portanto, não é apenas programática. É simbólica. Quem controla os símbolos controla parte da interpretação da realidade.

8. Religião, moralidade e pertencimento político

A religião pode ser fonte de solidariedade, ética, acolhimento e luta por justiça. A história brasileira tem exemplos importantes de comunidades religiosas ligadas à defesa dos pobres, à educação popular e aos direitos humanos.

Mas a religião também pode ser instrumentalizada politicamente. Quando líderes transformam divergência política em guerra espiritual, o debate público deixa de ser racional e passa a ser sagrado. O adversário deixa de ser alguém com outro projeto de sociedade e passa a ser inimigo do bem.

Nesse ambiente, políticas econômicas concretas ficam escondidas atrás de slogans morais. O eleitor pode apoiar um programa que reduz direitos sociais porque acredita estar defendendo Deus, a família ou a pátria.

A questão não é ridicularizar a fé. Isso seria erro moral e político. A questão é distinguir fé de manipulação religiosa.

Fé pode libertar. Manipulação religiosa aprisiona.

Fé pode ampliar a compaixão. Manipulação religiosa organiza o ódio.

Fé pode defender os pobres. Manipulação religiosa convence pobres a defenderem projetos que os abandonam.

O problema não está na espiritualidade popular, mas no uso político da espiritualidade para proteger interesses materiais muito terrenos.

9. Ressentimento, humilhação e desejo de punição

A pobreza não produz apenas falta de dinheiro. Produz humilhação.

Humilhação de pedir fiado. Humilhação de não poder comprar o material escolar do filho. Humilhação de ser mal atendido no serviço público. Humilhação de depender de favor. Humilhação de ser chamado de preguiçoso. Humilhação de trabalhar muito e continuar invisível.

Essa humilhação acumulada pode seguir dois caminhos.

Um caminho é a consciência crítica: perceber que o sofrimento individual tem raízes sociais e que a saída passa por organização coletiva, direitos e transformação estrutural.

Outro caminho é o ressentimento: procurar alguém mais frágil para culpar e punir.

A extrema direita se alimenta do segundo caminho. Ela oferece ao humilhado a chance de se sentir superior a alguém. O trabalhador precarizado pode se sentir superior ao desempregado. O pobre formalizado pode desprezar o pobre beneficiário de programa social. O pequeno comerciante pode odiar o ambulante. O fiel pode desprezar quem vive diferente. O cidadão endividado pode sentir prazer simbólico ao ver alguém “apanhar do sistema”.

É uma compensação cruel: como não consegue subir, a pessoa encontra alívio em ver alguém descer.

Essa política não liberta o pobre. Ela apenas redistribui humilhação entre os próprios pobres.

10. Desinformação, algoritmo e indústria da atenção

A política contemporânea não acontece apenas em comícios, jornais e debates. Ela acontece no celular, no grupo de família, no vídeo curto, no recorte emocional, na montagem, no meme, na frase de efeito e na mentira repetida com aparência de denúncia.

As plataformas digitais transformaram atenção em mercadoria. Conteúdos que provocam medo, raiva e indignação circulam com enorme velocidade. A mentira emocionalmente eficiente muitas vezes chega antes da correção factual.

Isso favorece movimentos políticos especializados em guerra cultural. Eles não precisam provar tudo. Basta insinuar, repetir, emocionar e criar dúvida.

A desinformação política não funciona apenas por inventar fatos. Funciona por construir atmosferas: “ninguém presta”, “tudo é armação”, “a imprensa mente”, “a ciência é comprada”, “a eleição foi roubada”, “os professores doutrinam”, “os direitos humanos protegem criminosos”, “o comunismo está chegando”.

Quando a pessoa vive dentro dessa atmosfera, cada notícia é interpretada a partir dela. A realidade deixa de ser observada diretamente e passa a ser filtrada por suspeita permanente.

O resultado é devastador: uma população cansada passa a desconfiar justamente das instituições que poderiam protegê-la e a confiar em lideranças que lucram politicamente com sua desconfiança.

11. Gramsci: hegemonia e direção moral da sociedade

Antonio Gramsci é fundamental para compreender esse fenômeno. Para ele, a dominação não se mantém apenas pela força do Estado, mas também pela hegemonia: a capacidade de uma classe ou bloco social apresentar seus interesses particulares como se fossem interesses gerais da sociedade.

A hegemonia opera quando o explorado passa a repetir a visão de mundo do explorador.

Quando o trabalhador pobre diz que direito trabalhista atrapalha o país, há hegemonia. Quando o pequeno empreendedor endividado defende privilégios bancários achando que está defendendo liberdade econômica, há hegemonia. Quando o pobre acredita que imposto sobre grande fortuna é ameaça contra ele, embora não tenha fortuna alguma, há hegemonia.

Gramsci ajuda a entender por que a luta política é também luta cultural. Quem vence a disputa sobre o significado das palavras vence parte da disputa pelo poder.

Liberdade pode significar emancipação coletiva ou licença para exploração. Família pode significar cuidado ou controle moral. Pátria pode significar soberania popular ou obediência cega. Mérito pode significar reconhecimento do esforço ou apagamento das desigualdades de partida.

A batalha política passa pela linguagem.

12. Bourdieu: dominação simbólica e naturalização da desigualdade

Pierre Bourdieu aprofunda esse raciocínio ao mostrar como a dominação simbólica faz com que estruturas sociais pareçam naturais. A sociedade distribui desigualmente capital econômico, cultural, social e simbólico. Mas depois apresenta o sucesso dos privilegiados como se fosse apenas resultado de mérito individual.

É como se a corrida social começasse com alguns usando tênis profissional, acompanhamento médico e pista livre, enquanto outros largassem descalços, com fome e carregando peso. Depois, ao final, os vencedores diriam: “venci porque me esforcei mais”.

A dominação simbólica ocorre quando os perdedores da corrida acreditam nessa explicação.

No Brasil, isso aparece com força no discurso do empreendedorismo individual. É claro que empreender pode ser uma saída digna e criativa para muitas pessoas. Mas transformar todo trabalhador precarizado em “empreendedor de si mesmo” pode esconder relações de exploração.

O entregador sem direitos vira “parceiro”. O vendedor informal vira “guerreiro”. A ausência de proteção vira “liberdade”. A insegurança vira “flexibilidade”. A necessidade vira “vocação”.

A linguagem suaviza a exploração.

13. Paulo Freire: consciência crítica contra fatalismo social

Paulo Freire é indispensável nesse debate porque compreendeu que a opressão também vive dentro da consciência. O oprimido pode incorporar a visão do opressor e passar a enxergar a própria condição como culpa individual, destino ou inferioridade.

A educação libertadora, para Freire, não é doutrinação. É justamente o contrário: é a passagem da consciência ingênua para a consciência crítica. É aprender a ler o mundo, e não apenas a palavra.

Ler o mundo significa perguntar: quem ganha com essa narrativa? Quem perde? Quem está sendo culpado? Quem está sendo protegido? Que interesses estão escondidos atrás de valores aparentemente neutros?

Quando uma pessoa pobre percebe que sua dor não é fracasso pessoal, mas parte de uma estrutura social, algo muda. A vergonha pode se transformar em consciência. A raiva pode se transformar em organização. O medo pode se transformar em ação coletiva.

Por isso, projetos autoritários atacam tanto a educação crítica. Eles sabem que uma população capaz de interpretar estruturas é menos manipulável por inimigos fabricados.

14. O Brasil entre pobreza, desigualdade e guerra cultural

O Brasil é terreno fértil para essa captura da consciência porque combina desigualdade histórica, racismo estrutural, precarização econômica, baixa confiança institucional e forte presença de moralismo político.

A pobreza brasileira não é homogênea. Ela tem raça, território, gênero e idade. Está nas periferias urbanas, no campo concentrado, nas famílias chefiadas por mulheres, na juventude negra, nos trabalhadores informais e nos idosos que sustentam casas inteiras com aposentadorias pequenas.

Ao mesmo tempo, o Brasil convive com uma elite econômica altamente protegida. O país tributa fortemente o consumo, o que pesa proporcionalmente mais sobre os pobres, e historicamente tem dificuldade de tributar patrimônio, herança, lucros e rendas do topo.

Nesse cenário, a guerra cultural funciona como cortina de fumaça. Enquanto pobres brigam entre si por costumes, símbolos e boatos, questões estruturais saem do centro do debate: reforma tributária progressiva, juros, concentração bancária, valorização do salário mínimo, financiamento da educação, saneamento, moradia, política industrial, reforma urbana, transição ecológica e combate à fome.

A guerra cultural não é distração espontânea. Ela é método.

Ela desloca a pergunta “quem concentra riqueza?” para “quem ameaça meus valores?”. Desloca “por que meu salário não compra o básico?” para “quem está destruindo a família?”. Desloca “por que o Estado protege os ricos?” para “por que o Estado ajuda pobres que eu considero menos merecedores que eu?”.

A extrema direita moderna entendeu algo profundo: para vencer, não precisa convencer o pobre de que ele está rico. Basta convencê-lo de que há alguém abaixo dele tentando tomar algo.

15. Conclusão

A pobreza é fabricada por estruturas econômicas. Mas sua permanência depende de algo ainda mais sofisticado: a fabricação de uma consciência que aceite, justifique e defenda essas estruturas.

Quando o pobre defende político que despreza políticas para pobres, não estamos diante de uma simples contradição individual. Estamos diante de um fenômeno social complexo, produzido por abandono real, manipulação simbólica, identidade moral, medo, ressentimento, religião instrumentalizada, desinformação e captura afetiva.

O erro é rir do pobre. O desafio é disputar a narrativa.

É preciso mostrar que o inimigo do trabalhador não é outro trabalhador. O inimigo da família pobre não é outra família pobre que recebe benefício social. O inimigo do pequeno comerciante não é o professor da escola pública. O inimigo do cidadão religioso não é a universidade. O inimigo do povo não é a democracia.

O inimigo é a estrutura que transforma necessidade em culpa, direito em privilégio, exploração em mérito e abandono em liberdade.

A extrema direita é forte porque entendeu as feridas. A democracia precisa ser mais forte porque precisa curá-las sem mentir sobre elas.

Isso exige educação crítica, comunicação popular, políticas públicas concretas, reconstrução da confiança, presença territorial, linguagem acessível e coragem para enfrentar privilégios.

Não basta dizer ao povo que ele está sendo enganado. É preciso construir com ele outra explicação para sua dor.

Porque uma sociedade só começa a se libertar quando descobre que sua miséria não é destino, sua raiva não precisa virar ódio contra os fracos e sua fé não precisa ser usada como palanque para os fortes.

A pobreza foi fabricada. A consciência capturada também. Mas ambas podem ser desmontadas.

16. Cinco pontos relevantes

  1. A pobreza é produzida por estruturas econômicas, mas também sustentada por narrativas políticas.
  2. Pessoas pobres não votam necessariamente contra si por ignorância, mas por identidade, medo, pertencimento e captura simbólica.
  3. A extrema direita transforma dor social em guerra cultural e desloca a raiva popular para inimigos fabricados.
  4. Gramsci, Bourdieu e Paulo Freire ajudam a entender como a dominação opera dentro da consciência.
  5. A saída exige redistribuição material e reconstrução crítica da linguagem política.

17. Cinco perguntas comuns

1. Todo pobre conservador vota contra seus interesses?
Não. O voto é complexo. O problema é quando projetos concretos contra direitos sociais são defendidos por quem depende desses direitos.

2. Religião é o problema?
Não. O problema é a manipulação política da religião para produzir medo, obediência e ódio.

3. A esquerda também erra ao falar com os pobres?
Sim. Muitas vezes fala em linguagem técnica, distante e moralmente arrogante, enquanto a extrema direita fala diretamente às emoções.

4. Desinformação explica tudo?
Não. Ela é parte do problema, mas só funciona porque encontra abandono, medo, ressentimento e baixa confiança institucional.

5. Como enfrentar esse fenômeno?
Com educação crítica, presença popular, políticas públicas concretas, comunicação simples, combate à desigualdade e reconstrução da confiança democrática.

18. Três livros indicados

  1. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
  2. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  3. BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

19. Referências em ABNT

ACHEN, Christopher H.; BARTELS, Larry M. Democracy for realists: why elections do not produce responsive government. Princeton: Princeton University Press, 2016.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007.

DE SCHUTTER, Olivier; PIKETTY, Thomas; STIGLITZ, Joseph E. La pobreza se fabrica: también puede erradicarse. El País, Madrid, 11 jun. 2026.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

LAKOFF, George. Não pense em um elefante! Campinas: Vide Editorial, 2019.

MASON, Lilliana. Uncivil agreement: how politics became our identity. Chicago: University of Chicago Press, 2018.

NEEP. Roadmap for eradicating poverty beyond growth. 2026.

NORRIS, Pippa; INGLEHART, Ronald. Cultural backlash: Trump, Brexit, and authoritarian populism. Cambridge: Cambridge University Press, 2019.

PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

STIGLITZ, Joseph E. O preço da desigualdade. Lisboa: Bertrand, 2014.

WESTEN, Drew. The political brain: the role of emotion in deciding the fate of the nation. New York: PublicAffairs, 2007.


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