sábado, 13 de junho de 2026

Quando a fé quer governar a ciência

O perigo das frentes parlamentares confessionais, da captura religiosa das profissões e da corrosão do Estado laico


Índice

  1. Lide
  2. Introdução: o problema não é a fé, é o privilégio religioso
  3. A cena inicial: quando a clínica deixa de ser espaço de cuidado
  4. O que é a Frente dos Psicólogos Cristãos
  5. Liberdade religiosa não é licença para proselitismo profissional
  6. O argumento do FENPB e da Psicologia laica
  7. O precedente perigoso: psicólogos, médicos, professores e juízes “cristãos”
  8. A avalanche confessional e a erosão do Estado laico
  9. Gênero, sexualidade e sofrimento psíquico: onde mora o risco humano
  10. O exemplo histórico: Alemanha, Irã e a fusão entre Estado e religião
  11. Por que o Estado laico protege inclusive os religiosos
  12. Conclusão
  13. Referências


Lide

A criação da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos parece, à primeira vista, uma pauta inofensiva: afinal, quem seria contra a liberdade religiosa? O problema começa quando percebemos que a liberdade de crença individual pode ser usada como linguagem política para abrir espaço à interferência religiosa em profissões científicas, serviços públicos e políticas de Estado. A questão, portanto, não é se psicólogos podem ser cristãos. Podem. A questão é se a Psicologia, a Medicina, a Educação e outras áreas profissionais devem ser reorganizadas por identidades confessionais. Quando isso acontece, o Estado laico deixa de ser uma garantia de todos e passa a ser tratado como obstáculo por grupos que desejam transformar crença em norma pública.


Introdução: o problema não é a fé, é o privilégio religioso

Imagine uma jovem chamada Ana. Ela tem 19 anos, está na universidade, vive conflitos familiares, sofre ansiedade, carrega culpa por não corresponder às expectativas religiosas da casa onde cresceu e decide procurar atendimento psicológico. Ela não procura um pastor, um padre, um centro espírita, uma mesquita ou um terreiro. Ela procura uma clínica. Procura uma profissional de saúde mental.

Ana entra na sala esperando escuta técnica, acolhimento, sigilo, cuidado e respeito. Mas, em vez disso, começa a perceber que suas dores são interpretadas por uma lente moral religiosa. Suas dúvidas afetivas são tratadas como “desvio”. Sua sexualidade vira “problema espiritual”. Sua autonomia é substituída por aconselhamento confessional. Ela sai da consulta mais culpada do que entrou.

Esse é o ponto central do debate. O problema não é a psicóloga ter fé. O problema é a fé da psicóloga ocupar o lugar da ciência, da ética e da escuta profissional.

A Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos foi instituída pelo PRS nº 3/2026, de autoria do senador Magno Malta, do PL do Espírito Santo, com relatório favorável do senador Eduardo Girão, do NOVO do Ceará. O projeto foi aprovado no Senado e promulgado como Resolução nº 11/2026. Formalmente, a proposta afirma defender a liberdade de consciência, crença e manifestação religiosa no exercício profissional da Psicologia.  

Mas toda formulação política precisa ser lida para além do nome bonito. “Liberdade religiosa” pode significar proteção democrática contra perseguição. Mas também pode ser usada como escudo retórico para pressionar conselhos profissionais, flexibilizar normas éticas e abrir espaço para práticas confessionais dentro de serviços que devem ser laicos.

Minha tese é direta: a criação de frentes parlamentares confessionais por profissão representa um risco moral, social, religioso, científico, ético e democrático, porque desloca a regulação profissional do campo público e técnico para o campo da identidade religiosa.

Não se trata de perseguir cristãos. Trata-se de impedir que o Estado brasileiro comece a separar profissionais entre “cristãos” e “não cristãos”, como se a fé fosse critério institucional de legitimidade profissional.


A cena inicial: quando a clínica deixa de ser espaço de cuidado

Uma clínica psicológica não é uma igreja. Uma escola pública não é uma catequese. Um hospital público não é um templo. Um tribunal não é uma assembleia religiosa.

Essas frases parecem óbvias, mas deixam de ser óbvias quando grupos políticos passam a defender que determinadas profissões precisam de frentes parlamentares baseadas em identidade religiosa.

O psicólogo pode ser cristão, ateu, espírita, umbandista, candomblecista, judeu, muçulmano, budista, hinduísta ou agnóstico. Isso pertence à sua consciência. O que ele não pode é converter a assimetria da relação profissional em instrumento de influência religiosa.

Na clínica, há vulnerabilidade. O paciente não está em posição equivalente à do profissional. Ele busca ajuda, orientação, elaboração psíquica. Muitas vezes chega fragilizado, com medo, culpa, sofrimento, confusão emocional. Se o profissional usa esse lugar de autoridade para fazer proselitismo, ainda que disfarçado de cuidado, há violação ética.

A violência aqui nem sempre aparece como grito. Pode aparecer como sugestão. Como pergunta enviesada. Como interpretação moral. Como silêncio seletivo. Como tentativa de “corrigir” a identidade, o desejo, a crença ou a ausência de crença do paciente.

A questão é ainda mais grave quando envolve gênero e sexualidade. Pessoas LGBTQIA+, mulheres em sofrimento, adolescentes em conflito familiar, vítimas de violência religiosa, pessoas que romperam com comunidades de fé ou sujeitos pertencentes a religiões minoritárias podem ser profundamente afetados por uma prática clínica contaminada por doutrina.

O cuidado vira julgamento. A escuta vira catequese. A ciência vira púlpito.


O que é a Frente dos Psicólogos Cristãos

Segundo os registros oficiais, a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos foi criada para acompanhar e defender direitos fundamentais relacionados à liberdade de consciência, crença e manifestação religiosa no exercício da Psicologia. A Agência Senado registrou o argumento do relator Eduardo Girão de que a frente buscaria equilibrar regulação profissional e liberdades individuais.  

Até aqui, alguém poderia perguntar: onde está o problema?

O problema está no recorte: “psicólogos cristãos”.

Por que não “liberdade religiosa dos psicólogos”? Por que não “liberdade de consciência dos profissionais da Psicologia”? Por que o Estado, por meio de uma frente parlamentar, precisa reconhecer uma identidade religiosa específica dentro de uma profissão regulamentada?

A palavra “cristão” parece ampla. Poderia incluir católicos, evangélicos históricos, pentecostais, neopentecostais, ortodoxos, adventistas e outros grupos. No entanto, no contexto político brasileiro contemporâneo, a linguagem “cristã” tem sido frequentemente operada por setores conservadores, especialmente ligados à chamada bancada evangélica, em pautas de costumes, gênero, família, sexualidade e educação.

Isso não significa que todo cristão apoie essa frente. Também não significa que todo evangélico pense da mesma forma. Seria injusto e simplificador. Mas significa que a categoria “cristão”, nesse debate, não é neutra. Ela funciona como identidade política.

E quando uma identidade religiosa se converte em plataforma parlamentar para incidir sobre uma profissão científica, o alerta democrático precisa acender.


Liberdade religiosa não é licença para proselitismo profissional

A Constituição brasileira protege a liberdade de consciência e de crença. O art. 5º, VI, assegura o livre exercício dos cultos religiosos. Ao mesmo tempo, o art. 19, I, impede que a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios estabeleçam cultos religiosos, subvencionem igrejas ou mantenham relações de dependência ou aliança com elas.  

Essas duas normas precisam ser lidas juntas.

A liberdade religiosa protege o indivíduo contra o Estado. A laicidade protege o Estado contra a captura religiosa. Uma coisa não elimina a outra. Pelo contrário: uma depende da outra.

Sem Estado laico, a liberdade religiosa vira privilégio da religião dominante. Em um Estado confessional, quem pertence à fé majoritária se sente em casa; quem não pertence passa a viver como hóspede tolerado.

Por isso, a defesa da laicidade não é ataque à religião. É proteção da pluralidade religiosa. O Estado laico é o que permite que uma pessoa seja cristã, outra seja budista, outra seja muçulmana, outra seja de matriz africana e outra seja ateia sem que nenhuma delas tenha mais cidadania que a outra.

No exercício profissional, isso significa uma coisa simples: o profissional pode ter fé, mas a prática profissional deve obedecer à ética pública da profissão.

Um médico religioso não pode substituir conduta clínica por dogma. Um professor religioso não pode transformar aula em pregação. Um juiz religioso não pode decidir processo com base em doutrina. Um psicólogo religioso não pode transformar sofrimento psíquico em matéria de conversão moral.

A fé é direito. O proselitismo profissional é abuso.


O argumento do FENPB e da Psicologia laica

O Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira, o FENPB, posicionou-se contra a criação da frente. Segundo a nota, a proposição parte da alegação de que Conselhos Regionais de Psicologia perseguiriam profissionais que desejam associar fé à prática profissional. O Fórum rejeita essa leitura e defende que a Psicologia deve permanecer fundada em princípios éticos, científicos, democráticos e laicos.  

O FENPB também apoia a Resolução CFP nº 7/2023, que estabelece normas sobre o caráter laico da prática psicológica e veda a associação da Psicologia a quaisquer vertentes religiosas.  

A resolução não nega a importância da religiosidade na vida humana. Pelo contrário, reconhece que religião e espiritualidade podem fazer parte da subjetividade de indivíduos e grupos. O ponto é outro: o psicólogo pode acolher a experiência religiosa do paciente, mas não pode impor a sua própria crença nem usar métodos religiosos como se fossem técnicas psicológicas.

Essa distinção é fundamental.

Se um paciente diz que sua fé é importante para atravessar o luto, a Psicologia deve escutar isso. Se uma paciente relata sofrimento por intolerância religiosa, a Psicologia deve acolher. Se alguém fala de culpa, pecado, espiritualidade, descrença ou conflito com sua comunidade religiosa, tudo isso pode aparecer na clínica.

Mas uma coisa é o paciente trazer sua crença. Outra é o profissional levar sua doutrina para conduzir o atendimento.

A Resolução CFP nº 7/2023 afirma que psicólogas e psicólogos devem respeitar a diversidade de pensamentos, crenças e convicções, considerando o caráter laico do Estado e da ciência psicológica. Também determina que os profissionais utilizem princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidos pela Psicologia.  

Portanto, a norma não persegue religiosos. Ela protege pacientes.


O precedente perigoso: psicólogos, médicos, professores e juízes “cristãos”

Aqui está o ponto mais perigoso: o precedente.

Se o Congresso cria uma frente parlamentar dos psicólogos cristãos, por que não criar uma frente dos médicos cristãos? Dos professores cristãos? Dos psiquiatras cristãos? Dos enfermeiros cristãos? Dos juízes cristãos? Dos promotores cristãos? Dos assistentes sociais cristãos? Dos policiais cristãos?

À primeira vista, pode parecer apenas representação política. Mas, no fundo, isso muda a gramática do Estado.

A profissão deixa de ser regulada por critérios públicos — formação, ética, técnica, ciência, legislação, direitos humanos — e passa a ser disputada por identidade religiosa.

A pergunta deixa de ser: “qual é a conduta profissional correta?”
E passa a ser: “qual grupo religioso terá força para impor sua visão?”

Isso é perigoso porque fragmenta o espaço público. Em vez de termos Medicina, Psicologia, Educação e Justiça como campos regulados por normas republicanas, passamos a admitir subcategorias confessionais: Medicina cristã, Psicologia cristã, Educação cristã, Justiça cristã.

E, quando isso acontece, as pessoas de fora da identidade dominante começam a se perguntar: sou igualmente cidadão? Sou igualmente profissional? Minha crença será respeitada? Minha ausência de crença será aceita? Minha religião de matriz africana será tratada como legítima? Meu ateísmo será visto como ameaça?

Esse tipo de ambiente produz intimidação simbólica. Ninguém precisa expulsar formalmente o outro para tornar sua permanência desconfortável. Às vezes, basta fazer com que ele se sinta estrangeiro dentro do próprio Estado.


A avalanche confessional e a erosão do Estado laico

A sua preocupação com uma “avalanche” de frentes parlamentares confessionais é muito pertinente.

Instituições democráticas raramente se desfazem de uma vez. Elas se desgastam por camadas. Primeiro, aparece uma exceção aparentemente pequena. Depois, a exceção vira precedente. Depois, o precedente vira costume. Depois, o costume vira norma. E, quando percebemos, a fronteira entre Estado e religião já foi corroída.

A criação de frentes religiosas por profissão pode gerar três efeitos.

O primeiro é o efeito simbólico. O Parlamento passa a dizer, ainda que indiretamente, que uma identidade religiosa merece proteção especial dentro de uma categoria profissional.

O segundo é o efeito político. Essas frentes podem pressionar conselhos profissionais, ministérios, secretarias, universidades, currículos, protocolos técnicos e políticas públicas.

O terceiro é o efeito cultural. A sociedade passa a naturalizar a ideia de que a fé majoritária deve orientar a vida pública.

É assim que o Estado laico pode ser esvaziado sem ser formalmente abolido. A Constituição continua dizendo que o Estado é laico, mas a prática institucional vai sendo ocupada por uma moral religiosa dominante.

A isso podemos chamar de confessionalização progressiva do Estado.

Não é necessário que o Brasil se declare oficialmente uma república religiosa para que grupos não alinhados com a religião dominante sofram exclusão. Basta que a religião dominante passe a definir o que é família legítima, sexualidade aceitável, educação correta, ciência permitida, saúde moral e cidadania plena.


Gênero, sexualidade e sofrimento psíquico: onde mora o risco humano

O risco não é abstrato. Ele cai sobre corpos concretos.

Cai sobre a mulher que procura atendimento após violência doméstica e escuta que deve “preservar a família” a qualquer custo.

Cai sobre o adolescente LGBTQIA+ que procura ajuda e encontra alguém tentando “corrigir” sua identidade.

Cai sobre a pessoa ateia que é tratada como vazia de espiritualidade.

Cai sobre o praticante de religião afro-brasileira que vê sua fé ser demonizada.

Cai sobre o paciente muçulmano, judeu, budista ou espírita que percebe que a clínica não é neutra, mas orientada por uma visão cristã conservadora.

Cai também sobre os próprios cristãos que não seguem a linha dominante. Católicos progressistas, evangélicos inclusivos, cristãos de esquerda e religiosos comprometidos com direitos humanos também podem ser colocados à margem por uma política que sequestra o termo “cristão” e o reduz a uma agenda conservadora.

A Psicologia lida com sofrimento, identidade, trauma, vínculo, desejo, memória, culpa, medo e autonomia. Por isso, qualquer contaminação moralista nesse campo pode produzir danos profundos.

O paciente não precisa de um profissional que o enquadre em uma doutrina. Precisa de alguém que o ajude a compreender sua experiência, construir autonomia e elaborar seu sofrimento com segurança.

Quando a clínica vira tribunal moral, a saúde mental perde.


O exemplo histórico: Alemanha, Irã e a fusão entre Estado e religião

É preciso fazer comparações históricas com responsabilidade. A criação de uma frente parlamentar cristã no Brasil não equivale ao nazismo nem transforma automaticamente o país em teocracia. Mas a história serve para nos ensinar como processos de exclusão começam.

Na Alemanha nazista, os judeus foram progressivamente retirados da comunidade política. Antes da violência extrema, houve propaganda, segregação, perda de direitos, restrições profissionais, empobrecimento forçado e expulsão indireta. As Leis de Nuremberg, de 1935, retiraram dos judeus direitos de cidadania e os separaram juridicamente da comunidade nacional.  

No caso alemão, o antissemitismo nazista não foi apenas religioso; foi convertido em ideologia racial. Mesmo assim, a história mostra como a marcação de um grupo como “não pertencente” pode produzir exclusão institucional.

A lição é simples: quando o Estado começa a hierarquizar cidadãos por pertencimento religioso, moral, étnico ou identitário, abre-se uma porta perigosa.

O Irã oferece outro tipo de exemplo: uma estrutura política em que religião e Estado estão profundamente fundidos. A Constituição de 1979 estruturou uma república islâmica com instituições supervisionadas por corpos religiosos e por uma autoridade clerical superior, o rahbar.  

O Brasil não é o Irã. O Brasil tem Constituição democrática, pluralidade religiosa, instituições laicas e sociedade civil diversa. Mas justamente por isso deve cuidar das fronteiras. O Estado laico não desaparece apenas por golpe explícito; pode desaparecer por normalização gradual da ideia de que uma religião deve orientar o Estado.

E aqui está o alerta: toda vez que uma religião ganha privilégio institucional, as demais perdem igualdade pública.


Por que o Estado laico protege inclusive os religiosos

Muitos confundem laicidade com ateísmo de Estado. É erro grave.

Estado laico não é Estado ateu. Estado laico é Estado que não tem religião oficial e, por isso, protege todas as religiões e também quem não tem religião.

É o Estado laico que garante ao evangélico abrir sua igreja. É o Estado laico que garante ao católico realizar sua missa. É o Estado laico que garante ao umbandista tocar seu atabaque. É o Estado laico que garante ao muçulmano fazer sua oração. É o Estado laico que garante ao ateu não professar crença alguma.

Quando uma religião tenta capturar o Estado, ela pode até parecer vitoriosa por algum tempo. Mas, no longo prazo, destrói a própria liberdade religiosa, porque transforma fé em instrumento de poder.

A fé que precisa controlar o Estado deixa de ser testemunho espiritual e passa a ser projeto de dominação.

Por isso, defender a laicidade não é atacar cristãos. É impedir que o cristianismo — ou qualquer outra religião — seja usado como critério de cidadania, currículo, diagnóstico, tratamento, contratação, julgamento ou pertencimento nacional.

O Brasil não precisa de Psicologia cristã, Medicina cristã ou Educação cristã como política de Estado. Precisa de profissionais cristãos, ateus, espíritas, judeus, muçulmanos, umbandistas, candomblecistas e budistas atuando sob as mesmas regras públicas, científicas e éticas.

Essa é a beleza da democracia: a pessoa pode ter fé; o Estado não pode ter igreja.


Conclusão

A criação da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos deve ser analisada com seriedade porque ela toca em uma fronteira delicada da democracia brasileira: a fronteira entre liberdade religiosa e privilégio confessional.

O problema não está em psicólogos serem cristãos. Isso é direito individual e deve ser protegido. O problema está em transformar essa identidade religiosa em categoria parlamentar específica dentro de uma profissão científica, regulamentada e eticamente orientada pela laicidade.

Quando o Parlamento começa a organizar profissões por fé, ele inaugura uma lógica perigosa. Hoje são psicólogos cristãos. Amanhã podem ser médicos cristãos, professores cristãos, juízes cristãos, psiquiatras cristãos, policiais cristãos. Aos poucos, a pergunta pública deixa de ser “qual é a conduta ética e técnica adequada?” e passa a ser “qual religião tem força política para definir a norma?”.

Essa mudança parece pequena, mas é profunda. Ela desloca o fundamento da vida pública da cidadania para a pertença religiosa. E, quando isso acontece, quem pertence à religião dominante passa a se sentir mais legítimo; quem não pertence passa a se sentir tolerado, vigiado ou excluído.

A história ensina que exclusões institucionais raramente começam com expulsões explícitas. Elas começam com distinções simbólicas, privilégios, suspeitas, narrativas de ameaça e hierarquias morais. Por isso, a defesa do Estado laico precisa ocorrer antes que a democracia esteja em ruínas.

O Estado laico não é inimigo da religião. É a única forma justa de proteger todas as religiões e também a liberdade de não ter religião. A clínica psicológica deve ser espaço de escuta, não de catequese. A escola deve ser espaço de formação crítica, não de doutrinação confessional. O hospital deve ser espaço de cuidado, não de imposição moral. O Estado deve ser casa comum, não templo de uma maioria.

No fundo, a pergunta é simples: queremos um país em que todos tenham liberdade de consciência ou um país em que uma consciência religiosa específica tenha poder sobre todas as outras?

A resposta democrática só pode ser uma: liberdade religiosa para todos, privilégio religioso para ninguém.


Referências

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Senado Federal. Projeto de Resolução do Senado nº 3, de 2026. Institui a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos. Brasília, DF: Senado Federal, 2026.

BRASIL. Senado Federal. Resolução nº 11, de 2026. Institui a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos. Brasília, DF: Senado Federal, 2026.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2005.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 7, de 6 de abril de 2023. Estabelece normas para o exercício profissional em relação ao caráter laico da prática psicológica. Brasília, DF: CFP, 2023.

FÓRUM DE ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA. Nota de repúdio ao PRS nº 3/2026. Brasília, DF: FENPB, 2026.

HABERMAS, Jürgen. Entre naturalismo e religião: estudos filosóficos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.

RAWLS, John. O liberalismo político. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Introduction to the Holocaust. Washington, DC: USHMM, 2024.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.


Nenhum comentário:

Postar um comentário