A autofagia do Partido Liberal e a substituição da agenda de Estado pelo drama familiar
Introdução — quando a política vira novela e o país sai de cena
Imagine uma trabalhadora que acorda às cinco da manhã em uma periferia brasileira. Antes de o sol nascer, ela já está negociando com a vida: o ônibus atrasado, o alimento mais caro, o filho que precisa de escola em tempo integral, a mãe que aguarda consulta no SUS, a conta de luz que chegou acima do esperado, o emprego sem estabilidade e o medo de que qualquer doença desorganize toda a família. Essa mulher não vive dentro de uma abstração chamada “conjuntura”. Ela vive dentro da política real. A política chega à sua casa pela tarifa, pela fila, pelo salário, pela creche, pelo remédio, pela segurança alimentar, pelo orçamento público e pela presença — ou ausência — do Estado.
No entanto, no Brasil de 2026, parte expressiva da disputa pública parece ter sido deslocada desse chão concreto para uma dramaturgia de bastidores. O conflito entre Michelle Bolsonaro, presidente do PL Mulher, e Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato presidencial do Partido Liberal, em torno das articulações eleitorais no Ceará, não pode ser compreendido apenas como fofoca política ou desentendimento familiar. O episódio é mais profundo. Ele revela um sintoma de esgotamento de um modelo político baseado no personalismo, na espetacularização permanente, na fragilidade programática e na confusão entre interesse público, partido político e patrimônio simbólico familiar.
A tese central deste artigo é a seguinte: o racha público no interior do bolsonarismo e do Partido Liberal expressa uma forma contemporânea de autofagia partidária, na qual a ausência de um projeto consistente de Estado é compensada pela produção contínua de conflito, emoção e espetáculo. Em vez de apresentar respostas para os dilemas estruturais do país — fome, trabalho precarizado, educação, saúde, mobilidade, orçamento público, infraestrutura e desenvolvimento nacional —, a extrema-direita institucionalizada no PL transforma disputas internas em conteúdo político. A agenda pública deixa de ser organizada pelas urgências constitucionais do povo brasileiro e passa a ser sequestrada por dramas de sucessão, ressentimentos familiares e cálculos eleitorais regionais.
Esse fenômeno pode ser lido a partir de três chaves teóricas. A primeira é a sociedade do espetáculo, conceito de Guy Debord, para quem a vida social moderna passa a ser mediada por imagens, representações e mercadorias simbólicas. A segunda é o patrimonialismo, discutido por Max Weber e, no Brasil, por Sérgio Buarque de Holanda, especialmente quando a fronteira entre público e privado se dissolve. A terceira é a crise dos movimentos personalistas, em que lideranças carismáticas, ao perderem centralidade institucional, deixam atrás de si facções em disputa pelo espólio político.
O problema, portanto, não é apenas o conflito entre Michelle e Flávio. O problema é o que esse conflito revela: quando um partido que pretende dirigir o Estado brasileiro organiza sua energia pública em torno da administração de tensões familiares, algo essencial se rompe. A política deixa de ser projeto coletivo e se converte em espetáculo de lealdades. A República vira cenário. O cidadão vira plateia. E o Brasil real, aquele que acorda cedo e paga a conta, desaparece do centro da conversa.
A estética do conflito: a política como espetáculo permanente
Guy Debord afirmou que, nas sociedades dominadas pelo espetáculo, “tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação” (DEBORD, 1997). A frase ajuda a compreender o modo como a política contemporânea, especialmente nas redes digitais, deixou de ser apenas disputa por programas, instituições e decisões públicas. Ela passou a ser também disputa por atenção, imagem, narrativa e emoção.
No caso analisado, o conflito não se desenvolve prioritariamente por meio de documentos partidários, resoluções internas, convenções programáticas ou debates públicos sobre o Ceará, o Nordeste ou o Brasil. Ele emerge como vídeo, nota, resposta, retratação, gesto performático, enquadramento moral e circulação algorítmica. A mensagem política é construída como peça audiovisual. O conflito é roteirizado. A dor é apresentada como argumento. A indignação se converte em ativo eleitoral.
Isso não significa afirmar que toda manifestação emocional seja falsa. A política é feita também de afetos, reconhecimentos, ressentimentos e pertencimentos. O problema começa quando o afeto substitui a deliberação, quando a performance ocupa o lugar do programa e quando a exposição de uma ferida interna passa a valer mais do que a discussão sobre o país.
O vídeo de Michelle Bolsonaro, pelas características descritas pela imprensa, foi interpretado como um pronunciamento longo, grave e cuidadosamente construído. Sua força comunicativa não está apenas no conteúdo verbal, mas também na estética: o cenário, o tom, a gravidade, a ausência de ruído, a tentativa de construção de autoridade moral e a mobilização de símbolos associados à sua trajetória pública. Na lógica da comunicação política contemporânea, nada disso é secundário. A forma comunica tanto quanto a palavra.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, respondeu inicialmente tentando minimizar a crise e depois recuou para um tom mais conciliatório. Esse movimento revela uma tensão central do bolsonarismo: a dificuldade de controlar, dentro da própria família política, a máquina afetiva que ajudou a construir. Durante anos, a extrema-direita brasileira operou com eficiência sobre indignação, conflito, inimigos internos, polarização moral e engajamento digital. Agora, essa mesma engrenagem se volta para dentro. A máquina que antes triturava adversários passa a triturar aliados.
Aqui entra o que podemos chamar de tecnopolítica do afeto. As redes sociais não são apenas meios neutros de circulação de mensagens. Elas possuem uma lógica própria de recompensa: premiam intensidade, antagonismo, simplificação, indignação e espetáculo. Como observa Castells (2013), os movimentos políticos contemporâneos são atravessados por redes de comunicação que reorganizam a construção de poder. Mas essas redes não apenas ampliam a democracia; elas também podem deformar a esfera pública quando a atenção substitui a reflexão.
Nesse ambiente, a crise interna do PL torna-se produto de alto rendimento comunicacional. O público acompanha quem disse, quem respondeu, quem traiu, quem foi humilhado, quem recuou, quem venceu a rodada. O vocabulário da política é substituído pelo vocabulário do reality show. O cidadão não é convocado a avaliar um projeto de país, mas a tomar partido em uma disputa de bastidor.
O resultado é grave: quando a política vira espetáculo permanente, a realidade material perde centralidade. A fome não viraliza como uma briga familiar. A fila do SUS não rende o mesmo engajamento que uma acusação pública. A precarização do trabalho é complexa demais para o algoritmo. O orçamento público parece árido demais para a lógica da emoção instantânea. E, assim, a política mais importante — aquela que decide a vida concreta das pessoas — é empurrada para a sombra.
Neopatrimonialismo: quando o partido parece extensão da família
Max Weber (1999) descreveu formas de dominação em que a autoridade se organiza a partir de vínculos pessoais, patrimoniais e tradicionais. No patrimonialismo, o governante tende a tratar a estrutura política como extensão de sua casa, de seu patrimônio ou de sua rede pessoal. Sérgio Buarque de Holanda (1995), ao analisar a formação brasileira, mostrou como a cultura política nacional foi marcada pela dificuldade histórica de separar a esfera privada da esfera pública.
Essa chave é fundamental para interpretar o caso. O Partido Liberal não é uma propriedade familiar. É uma organização partidária inserida no sistema constitucional brasileiro, financiada em parte por recursos públicos e responsável por representar interesses, formular programas, selecionar candidaturas e disputar o poder dentro das regras democráticas. Quando suas principais disputas são narradas como conflitos de autoridade familiar — esposa, filhos, herança, lealdade ao patriarca, bênção do líder —, há um rebaixamento da política institucional ao vocabulário doméstico.
É evidente que famílias sempre participaram da política brasileira. O país conhece oligarquias regionais, sobrenomes tradicionais, dinastias eleitorais e lideranças que transferem capital político entre parentes. O ponto específico aqui é outro: no caso bolsonarista, a família não é apenas participante do jogo; ela é a gramática central do movimento. O pertencimento ao núcleo familiar funciona como critério de legitimidade, selo de autenticidade e mecanismo de sucessão.
O problema republicano aparece quando essa lógica atravessa a vida partidária e pretende organizar a disputa pelo Estado. A Constituição Federal de 1988 estabelece, no artigo 37, que a administração pública deve obedecer aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (BRASIL, 1988). Embora partidos políticos não sejam órgãos da administração direta, eles exercem função pública essencial na democracia representativa. Por isso, quando estruturas partidárias sustentadas por recursos públicos são capturadas por conflitos personalistas, há uma tensão evidente com o espírito republicano.
A impessoalidade não é mero detalhe jurídico. Ela é uma conquista civilizatória contra a confusão entre o “meu” e o “nosso”. O Estado não existe para resolver dramas familiares. O partido não existe para administrar heranças simbólicas. A candidatura presidencial não deveria ser tratada como transmissão hereditária de capital político. A República exige que o interesse público prevaleça sobre a lógica do quintal.
Nesse sentido, o episódio do Ceará funciona como laboratório. A discussão sobre apoiar ou não Ciro Gomes, sobre privilegiar determinada candidatura ao Senado ou sobre compor alianças regionais deveria ser tratada como decisão estratégica partidária, submetida a critérios claros: programa, viabilidade eleitoral, coerência ideológica, impacto regional, compromisso público. No entanto, a crise se desloca rapidamente para a disputa de autoridade: quem fala por Jair Bolsonaro? Quem interpreta sua vontade? Quem tem legitimidade para comandar a base? Quem é herdeiro verdadeiro?
Quando a vontade do líder ausente ou limitado politicamente se torna objeto de disputa hermenêutica entre familiares, a política se aproxima de uma corte. E cortes não são repúblicas. Cortes vivem de proximidade, favoritismo, intriga e disputa por sucessão. Repúblicas vivem de instituições, normas, programas, responsabilidades e prestação de contas.
A autofagia do PL: purismo ideológico contra pragmatismo regional
O conflito no Ceará também revela uma contradição estrutural do bolsonarismo dentro do PL: a tensão entre discurso ideológico purista e pragmatismo eleitoral regional. O bolsonarismo se consolidou nacionalmente como movimento de antagonismo: contra a esquerda, contra o sistema, contra a velha política, contra determinados atores identificados como inimigos morais. Sua base foi alimentada por fronteiras rígidas entre “nós” e “eles”.
O PL, porém, possui outra tradição. É uma legenda que, historicamente, opera dentro da lógica pragmática do sistema partidário brasileiro, buscando alianças, espaços, recursos, tempo de televisão, capilaridade municipal e sobrevivência institucional. Essa diferença de natureza produz uma contradição quase inevitável: o movimento quer pureza; o partido precisa de cálculo. A base exige coerência simbólica; a máquina eleitoral negocia palanques.
No Ceará, essa tensão aparece de forma explícita. A aproximação com Ciro Gomes, figura historicamente crítica ao bolsonarismo, pode ser compreendida como estratégia regional para reposicionar o PL num estado adverso à direita bolsonarista. Mas, para uma base formada por antagonismos morais, o pragmatismo soa como traição. A política real exige alianças; a política de seita exige fidelidade absoluta.
Essa é a raiz da autofagia. Movimentos organizados por pureza tendem a devorar seus próprios integrantes quando entram em contato com a complexidade da realidade. Como não conseguem admitir contradições, transformam divergências táticas em acusações morais. O aliado de ontem vira traidor hoje. O pragmático vira vendido. O negociador vira infiel. O partido, em vez de processar conflitos internamente, passa a expô-los como guerra santa.
Antonio Gramsci (2000), ao discutir hegemonia, mostrou que a direção política exige mais do que força ou carisma. Exige capacidade de construir consenso, organizar interesses e formular uma visão de mundo com densidade. O problema do PL bolsonarizado é que sua hegemonia interna parece depender menos de formulação programática e mais de fidelidade emocional ao núcleo familiar. Quando a emoção se fragmenta, a hegemonia se dissolve.
Essa dissolução não significa, automaticamente, desaparecimento eleitoral. Movimentos políticos podem sobreviver por muito tempo em crise, especialmente quando possuem base social, recursos públicos, redes digitais e inimigos mobilizadores. Mas o episódio indica uma perda de unidade simbólica. O bolsonarismo original, centrado na figura de Jair Bolsonaro, começa a se decompor em facções: filhos, esposa, aliados regionais, governadores pragmáticos, parlamentares ideológicos, dirigentes partidários e lideranças religiosas. Cada fração tenta reivindicar para si a autenticidade do movimento.
A autofagia, portanto, não é apenas briga. É mecanismo de reorganização de poder em um campo que perdeu seu centro absoluto.
Mulheres na política: presença simbólica e exclusão decisória
Outro elemento importante do episódio é a dimensão de gênero. Michelle Bolsonaro ocupa posição estratégica no PL Mulher e possui forte capacidade de comunicação com segmentos femininos, religiosos e conservadores. Sua imagem pública foi construída em torno de temas como família, fé, acessibilidade e sensibilidade social. Para o bolsonarismo, ela funciona como ponte com públicos nos quais a imagem masculina agressiva do movimento encontra maior resistência.
Mas a crise expõe uma pergunta incômoda: até que ponto as mulheres são incorporadas como sujeitos reais de decisão dentro de estruturas partidárias conservadoras? E até que ponto são mobilizadas como peças de suavização estética?
A política brasileira possui longa tradição de sub-representação feminina. Mesmo com avanços legais e cotas eleitorais, as mulheres ainda enfrentam barreiras materiais, simbólicas e partidárias para ocupar espaços majoritários e decisórios. Muitas vezes são chamadas para campanhas, eventos, mobilização de base e construção de imagem, mas ficam à margem quando se definem recursos, palanques, alianças e candidaturas competitivas.
No caso em questão, a defesa de Priscila Costa por Michelle Bolsonaro e a disputa por espaço no Senado evidenciam essa tensão. Quando lideranças femininas são valorizadas como discurso, mas preteridas na arquitetura real do poder, produz-se uma contradição entre retórica e prática. O partido afirma valorizar a mulher, mas reproduz a lógica tradicional dos caciques masculinos.
Isso não significa romantizar automaticamente Michelle ou qualquer liderança feminina. Mulheres na política também podem defender projetos conservadores, autoritários, liberais, progressistas ou contraditórios. O ponto analítico é outro: a presença feminina não basta se não houver poder efetivo. Representação não é apenas aparecer no vídeo, subir no palanque ou emocionar a base. Representação é participar da decisão.
A crise, nesse aspecto, revela uma dupla disputa: uma disputa pela sucessão bolsonarista e uma disputa pelo lugar das mulheres dentro dessa sucessão. Michelle tenta se afirmar como liderança autônoma, mas sua autonomia esbarra na estrutura familiar e partidária que, paradoxalmente, ajudou a projetá-la. Ela é necessária como símbolo, mas incômoda como sujeito político independente.
O vazio programático e as pautas de Estado abandonadas
A consequência mais grave da espetacularização é o esvaziamento programático. Enquanto o debate público se concentra em conflitos internos do PL, o país segue enfrentando problemas concretos que exigem resposta de Estado.
A segurança alimentar deveria ocupar o centro de qualquer projeto nacional. Falar de fome não é fazer caridade discursiva; é discutir renda, produção agrícola, abastecimento, agricultura familiar, crédito, logística, merenda escolar, inflação de alimentos e política social. Um país que naturaliza a insegurança alimentar compromete sua própria democracia, porque a cidadania não floresce onde falta comida.
O mundo do trabalho também exige nova gramática política. A expansão da uberização, da informalidade sofisticada por plataformas, dos vínculos frágeis e da insegurança previdenciária desafia tanto a esquerda quanto a direita. O Brasil precisa discutir produtividade, proteção social, regulação tecnológica, qualificação profissional, reindustrialização e novos direitos. Mas esse debate não cabe no espetáculo familiar. Ele exige estudo, diagnóstico, negociação e responsabilidade.
A educação pública, por sua vez, enfrenta desafios imensos: recomposição de aprendizagem, infraestrutura, formação docente, conectividade, inteligência artificial, evasão, ensino técnico, financiamento e valorização dos profissionais. Nenhum país se desenvolve tratando educação como bordão eleitoral. Educação exige política de longo prazo, não frase de efeito.
Na saúde, o SUS continua sendo uma das maiores construções republicanas do Brasil, mas convive com subfinanciamento, filas, desigualdades regionais, pressão tecnológica, envelhecimento populacional e necessidade de gestão eficiente. Defender ou criticar governos sem discutir o financiamento e a governança do SUS é fugir do essencial.
Há ainda a infraestrutura: transporte público, mobilidade urbana, saneamento, energia, obras paralisadas, conectividade e logística. A política que importa é aquela que faz a criança chegar à escola, o trabalhador chegar ao emprego, o paciente chegar ao hospital, o alimento chegar à mesa e a produção circular pelo território.
Por fim, há o orçamento. A política real mora na LOA, na LDO, no PPA, nas emendas, no arcabouço fiscal, nas prioridades de gasto e na execução pública. Quem controla a narrativa controla a atenção; mas quem controla o orçamento controla a vida concreta. Quando partidos preferem transformar sucessão familiar em espetáculo, deixam de prestar contas sobre o que fariam com os recursos do Estado.
O TSE informa que o Fundo Especial de Financiamento de Campanha é composto por recursos públicos destinados às campanhas eleitorais, e a distribuição observa critérios legais vinculados à representatividade partidária (TSE, 2026). Em 2026, o PL aparece como a legenda com maior fatia do fundo eleitoral, segundo dados divulgados pela Justiça Eleitoral e noticiados pela imprensa pública (AGÊNCIA BRASIL, 2026). Isso torna ainda mais relevante exigir impessoalidade, transparência e responsabilidade pública de suas decisões.
Cesarismo decadente e disputa pelo espólio
Karl Marx, em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, analisou como certas figuras políticas emergem em momentos de crise apresentando-se como solução pessoal para contradições sociais profundas (MARX, 2011). O bonapartismo, em sua leitura clássica, envolve centralização, personalismo, apelo direto às massas e fragilização das mediações institucionais.
Sem fazer transposições mecânicas, é possível perceber traços semelhantes em lideranças contemporâneas de perfil cesarista: o líder se apresenta como encarnação do povo, fala contra as instituições, organiza a política em torno de lealdade pessoal e transforma adversários em inimigos existenciais. O problema é que, quando o líder perde capacidade de comando direto, o movimento revela sua fragilidade. Como não construiu institucionalidade sólida, passa a depender da disputa pelo nome, pela imagem, pela memória e pela herança.
É isso que se observa no bolsonarismo de 2026. A figura de Jair Bolsonaro continua central para a identidade da direita radical, mas seu papel político está condicionado por inelegibilidade, processos judiciais, restrições e desgaste. Nesse contexto, o capital político acumulado passa a ser disputado por herdeiros biológicos, conjugais, partidários e regionais.
Flávio Bolsonaro aparece como sucessor formal em parte das movimentações do campo. Michelle Bolsonaro aparece como liderança com densidade simbólica própria. Outros atores da direita, como governadores e partidos do centro conservador, calculam seus passos de olho não apenas em 2026, mas também em 2030. O que está em jogo, portanto, não é somente uma eleição. É a reorganização do campo conservador brasileiro após o declínio da centralidade absoluta de Jair Bolsonaro.
Esse processo pode produzir diferentes desdobramentos. Pode haver recomposição tática, com tentativa de unidade em torno de uma chapa ou de um acordo. Pode haver fragmentação, com candidaturas concorrentes e migração de lideranças. Pode haver substituição gradual do bolsonarismo familiar por uma direita mais pragmática, menos estridente e mais adaptada ao sistema. Ou pode haver radicalização de nichos que preferem a pureza da derrota à negociação do poder.
O ponto fundamental é que a crise atual revela uma passagem: do bolsonarismo como comando vertical para o bolsonarismo como espólio em disputa. E espólios, por definição, atraem herdeiros, advogados, disputas e ressentimentos.
A armadilha para a esquerda: vencer o espetáculo não basta
A crise do PL pode favorecer conjunturalmente o governo e as forças progressistas, porque desloca a atenção pública das dificuldades de articulação, das tensões no Congresso e dos problemas econômicos. Porém, seria erro estratégico imaginar que a autodestruição do adversário basta.
A esquerda brasileira também precisa enfrentar sua própria prova histórica: entregar resultados concretos. Não basta apontar o espetáculo da extrema-direita se a vida material do povo não melhorar. Não basta denunciar o patrimonialismo alheio se a gestão pública não for eficiente, transparente e sensível. Não basta defender a democracia como valor abstrato se ela não chegar ao prato, ao salário, ao transporte, à escola, ao posto de saúde e à moradia.
A democracia precisa ser defendida institucionalmente, mas também precisa ser sentida socialmente. Uma democracia que protege urnas, mas não enfrenta desigualdades, fica vulnerável ao ressentimento. Uma democracia que preserva ritos, mas não entrega serviços, abre espaço para aventureiros. Uma democracia que fala em cidadania, mas tolera abandono material, perde densidade popular.
Portanto, o declínio narrativo da extrema-direita não deve ser interpretado como salvo-conduto para acomodação progressista. Ao contrário: abre uma oportunidade e uma cobrança. Se o campo democrático deseja consolidar hegemonia, precisa recolocar a política pública no centro do debate. Precisa falar de orçamento sem tecnocracia fria, de economia sem desprezar o cotidiano, de educação sem slogans, de segurança sem brutalidade, de desenvolvimento sem destruição ambiental, de direitos sem perder a linguagem popular.
O espetáculo do adversário pode até gerar alívio momentâneo. Mas só a entrega concreta constrói confiança duradoura.
Conclusão — o Brasil não cabe em uma briga de família
O episódio envolvendo Michelle Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, o PL e as articulações no Ceará é mais do que uma crise interna. É um retrato de uma forma de fazer política que chegou ao limite de sua própria lógica. O bolsonarismo cresceu explorando emoção, conflito, personalismo, redes digitais e antagonismo permanente. Agora, diante da ausência de um centro incontestável e de um projeto programático robusto, essa energia se volta para dentro. A política do inimigo passa a precisar de inimigos internos. A máquina de indignação começa a devorar seus operadores.
A autofagia do PL não significa o fim imediato da extrema-direita brasileira. Seria ingenuidade afirmar isso. Movimentos políticos não desaparecem apenas porque entram em crise. Eles se reorganizam, mudam de nome, migram de legenda, renovam símbolos e buscam novos líderes. Mas o episódio marca um enfraquecimento simbólico importante: quando o eleitor percebe que a promessa de ordem se converte em desordem interna, que a defesa da família se converte em disputa familiar pública, que o discurso de moralidade convive com cálculo fisiológico e que o patriotismo retórico não apresenta respostas para a vida real, algo se rompe.
O Brasil precisa superar a política como espetáculo de bastidores. A República exige outro patamar de debate. Exige que partidos sustentados por recursos públicos tratem o cidadão como titular de direitos, não como audiência cativa. Exige que candidaturas presidenciais apresentem diagnósticos, prioridades, equipes, programas e compromissos verificáveis. Exige que a disputa pelo poder seja subordinada à pergunta essencial: que país se pretende construir?
A trabalhadora que acorda às cinco da manhã não pode esperar que a política resolva seus dramas internos para depois lembrar dela. O estudante que precisa de escola pública de qualidade não pode ser figurante de guerra familiar. O paciente na fila do SUS não pode ser plateia de reality show partidário. O agricultor, o professor, o motorista, a enfermeira, o servidor público, o pequeno empreendedor e o jovem desempregado não vivem de narrativas; vivem de decisões.
A história ensina que espetáculos podem fascinar por algum tempo, mas não alimentam, não educam, não curam, não transportam e não governam. Quando a política abandona o Estado e se refugia no drama privado, ela trai sua função mais nobre. E quando um movimento político transforma o país em cenário para disputar herança familiar, ele revela não sua força, mas sua decadência.
O Brasil é maior do que qualquer clã. A Constituição é maior do que qualquer sobrenome. E a vida real do povo brasileiro precisa voltar ao centro da política.
Referências
AGÊNCIA BRASIL. PL receberá maior fatia do fundo eleitoral para campanhas do TSE. Brasília, 3 jun. 2026.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
CHADWICK, Andrew. The hybrid media system: politics and power. Oxford: Oxford University Press, 2017.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MANIN, Bernard. As metamorfoses do governo representativo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 10, n. 29, 1995.
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.
MAIR, Peter. Ruling the void: the hollowing of Western democracy. London: Verso, 2013.
TSE — TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Fundo Especial de Financiamento de Campanha. Brasília: TSE, 2026.
WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora UnB, 1999.
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