Sétif, Guelma e Kherrata como feridas abertas da história colonial
Lide
Em 8 de maio de 1945, a Europa celebrava a derrota do nazismo. Em Paris, a palavra “libertação” tinha gosto de vitória. Mas, na Argélia colonizada, essa mesma palavra foi recebida a tiros. Em Sétif, Guelma e Kherrata, argelinos que foram às ruas celebrar o fim da guerra e reivindicar liberdade foram reprimidos pelo poder colonial francês. O episódio ficou conhecido como os massacres de Sétif, Guelma e Kherrata. O número de mortos segue disputado: estimativas históricas variam de milhares a dezenas de milhares, enquanto a memória oficial argelina fala em 45 mil mortos. O fato moral, porém, não depende da precisão aritmética: naquele dia, a França comemorou a derrota de Hitler enquanto reproduzia, em seu império colonial, a lógica brutal de desumanização que dizia combater.
1. A data que dividiu a memória do mundo
Há datas que a história oficial transforma em monumento. O 8 de maio de 1945 é uma delas. Para a Europa, foi o dia da vitória sobre o nazismo. Foi o fim formal da guerra na Europa, a derrota do Terceiro Reich, a queda de uma máquina política baseada no racismo, na guerra total, no extermínio e na ideia delirante de superioridade civilizacional.
Mas toda data histórica tem sombras. A mesma data que, na França, foi celebrada como libertação, na Argélia tornou-se lembrada como massacre. Enquanto a metrópole francesa comemorava a vitória contra Hitler, o poder colonial francês reprimia violentamente manifestações argelinas em Sétif, Guelma e Kherrata. A contradição é moralmente devastadora: a França celebrava a liberdade em Paris, mas negava a liberdade em Argel, Sétif, Guelma e Kherrata.
É impossível olhar para esse episódio sem sentir um incômodo profundo. A história, quando lida apenas pelos vencedores, costuma se apresentar limpa, heroica, patriótica. Mas, quando escutada pelo lado dos povos colonizados, ela muda de tom. O hino da vitória europeia passa a soar junto ao grito dos povos submetidos. E é nesse choque que a verdade histórica aparece com mais força.
O colonialismo francês na Argélia não foi um acidente lateral da modernidade europeia. Foi parte constitutiva de um projeto de poder. A Argélia foi ocupada pela França desde 1830 e transformada em colônia de povoamento, com presença massiva de colonos europeus, expropriação de terras, hierarquia racial, repressão política e negação sistemática de cidadania plena à população muçulmana argelina. A promessa universalista da República Francesa — liberdade, igualdade e fraternidade — não atravessava o Mediterrâneo com o mesmo sentido.
Por isso, o massacre de 1945 não pode ser tratado apenas como “excesso militar” ou “episódio trágico”. Ele precisa ser lido como revelação. Revelação de que a Europa democrática também carregava dentro de si estruturas imperiais profundamente violentas. Revelação de que a derrota do fascismo na Europa não significou, automaticamente, a derrota do racismo colonial. Revelação de que a maldade humana pode se vestir de civilização, de ordem pública, de missão republicana e de razão de Estado.
2. O que aconteceu em Sétif, Guelma e Kherrata
Naquele 8 de maio, argelinos foram às ruas. Muitos haviam participado do esforço de guerra francês. Outros haviam sido mobilizados politicamente por movimentos nacionalistas. Havia expectativa de que o fim do nazismo abrisse também uma nova era para os povos colonizados. Afinal, se a guerra fora travada em nome da liberdade, por que essa liberdade não valeria para a Argélia?
As manifestações tinham dois sentidos: celebrar a derrota do nazismo e reivindicar direitos políticos, libertação de presos nacionalistas e independência. Em Sétif, a exibição da bandeira argelina e de símbolos nacionalistas foi vista pelas autoridades coloniais como provocação intolerável. A repressão começou. Houve disparos contra manifestantes. A violência se espalhou. Em meio ao caos, colonos europeus também foram mortos por argelinos revoltados. Fontes históricas registram a morte de cerca de 102 europeus no contexto inicial dos confrontos. Em seguida, a resposta colonial francesa foi devastadora, atingindo civis argelinos em escala muito superior.
A repressão não se limitou a uma ação policial imediata. Ela envolveu forças militares, autoridades locais, milícias de colonos, prisões, execuções, bombardeios e punições coletivas. Em Guelma, segundo estudos históricos, milícias civis de colonos participaram diretamente da violência, em articulação com autoridades coloniais. O massacre prolongou-se por semanas, aproximadamente de 8 de maio a 26 de junho de 1945.
Os números permanecem objeto de disputa. O governo argelino e a memória nacional argelina falam em 45 mil mortos. Historiadores apresentam estimativas variadas, muitas vezes entre 3 mil e 30 mil mortos, com trabalhos específicos apontando faixas intermediárias. Essa divergência numérica não deve ser usada para relativizar a violência. Pelo contrário: ela revela a dificuldade de contar mortos quando o próprio Estado responsável pela repressão controla arquivos, versões oficiais e mecanismos de memória.
A história dos massacres de Sétif, Guelma e Kherrata mostra que a contabilidade da morte é também disputa política. Quem conta? Quem registra? Quem arquiva? Quem silencia? Quem transforma cadáveres em estatística? Quem decide quais mortos merecem luto internacional e quais mortos permanecem escondidos nas margens da história?
3. A contradição moral da França republicana
O caso argelino expõe uma das contradições mais profundas da modernidade europeia: a coexistência entre discurso universalista e prática colonial. A França foi uma das nações que mais elaboraram politicamente a linguagem dos direitos, da cidadania e da república. Mas também foi uma potência colonial que submeteu povos inteiros na África, na Ásia e no Caribe.
Essa contradição não é pequena. Ela é estrutural. O colonialismo funcionou sustentado por uma divisão moral da humanidade. De um lado, o cidadão europeu, reconhecido como sujeito de direitos. De outro, o colonizado, tratado como menor, atrasado, perigoso, infantilizado ou ameaçador. A violência colonial não precisava negar a linguagem da civilização; ela se apresentava como instrumento dela.
Frantz Fanon, ao analisar a experiência colonial, mostrou que o mundo colonial é um mundo compartimentado, dividido entre zonas de privilégio e zonas de desumanização. Para Fanon, o colonialismo não é apenas dominação econômica ou militar; é uma estrutura que produz inferiorização, medo, ressentimento e violência (Fanon, 1968). Em Sétif, Guelma e Kherrata, essa lógica aparece com brutal nitidez: quando o colonizado ousa levantar sua bandeira, o colonizador interpreta esse gesto como ameaça à ordem.
A bandeira argelina, naquele contexto, não era apenas um pano. Era uma declaração de existência. Era a afirmação de que havia ali um povo. E talvez seja isso que mais assuste todo sistema colonial: não a violência do colonizado, mas sua aparição como sujeito histórico.
Albert Memmi também ajuda a compreender essa relação. Para ele, o colonialismo cria simultaneamente o colonizador e o colonizado: um se afirma como superior, o outro é produzido como inferior. A manutenção dessa estrutura exige justificativas morais permanentes, porque nenhum sistema de dominação sobrevive apenas pela força; ele precisa criar uma narrativa que torne a dominação aceitável (Memmi, 1977).
A França colonial dizia levar civilização. Mas em 1945, em Sétif, Guelma e Kherrata, o que levou foi repressão, medo e morte. Eis a ferida moral: a barbárie não estava apenas do lado derrotado da guerra. Ela também habitava os impérios dos vencedores.
4. A vitória contra Hitler não libertou os povos colonizados
A Segunda Guerra Mundial costuma ser narrada como confronto entre democracia e totalitarismo. Em parte, essa leitura é verdadeira. O nazismo representou uma forma extrema de destruição da dignidade humana. Mas a narrativa fica incompleta quando esquece os povos colonizados.
Milhares de africanos, árabes, asiáticos e caribenhos participaram direta ou indiretamente do esforço de guerra europeu. Lutaram em exércitos imperiais, serviram às metrópoles, produziram alimentos, matérias-primas e recursos. No entanto, ao fim da guerra, a liberdade proclamada em Londres, Paris e Washington não foi imediatamente estendida às colônias.
A pergunta moral é inevitável: como uma potência podia convocar colonizados para lutar contra o nazismo em nome da liberdade e, ao mesmo tempo, negar liberdade a esses mesmos povos?
É nesse ponto que Sétif se torna símbolo. A manifestação argelina de 8 de maio de 1945 continha uma cobrança histórica: se a liberdade venceu na Europa, ela precisa chegar à Argélia. A resposta francesa foi mostrar que, para o império, a liberdade tinha fronteiras raciais e geopolíticas.
Aimé Césaire, no célebre Discurso sobre o colonialismo, denunciou a hipocrisia europeia ao afirmar que o nazismo chocou a Europa, entre outras razões, porque aplicou dentro do continente métodos de violência que antes haviam sido tolerados contra povos colonizados (Césaire, 1978). A força dessa análise está em deslocar o olhar: o horror europeu diante de Hitler não eliminava a longa história de brutalidade colonial praticada pelas próprias potências europeias.
Isso não significa igualar mecanicamente colonialismo e nazismo em todos os aspectos históricos. Significa reconhecer que ambos compartilharam elementos fundamentais: hierarquização da vida humana, desumanização do outro, naturalização da violência e construção de uma ordem política baseada na superioridade de alguns sobre a submissão de muitos.
Em Sétif, Guelma e Kherrata, a França não agiu como exceção moral. Agiu como potência colonial. E isso basta para tornar o episódio uma das grandes acusações históricas contra a falsa inocência dos impérios.
5. Bouzid Saâl e o símbolo da juventude assassinada
O texto do anexo menciona Bouzid Saâl, jovem argelino lembrado como uma das primeiras vítimas da repressão em Sétif. Sua morte tornou-se símbolo porque condensou o sentido político daquele dia. Um jovem, uma bandeira, uma manifestação, uma bala.
A história tem essa crueldade: às vezes, um corpo jovem carrega sozinho o peso de uma época. Bouzid Saâl representa todos aqueles que foram mortos não por ameaçarem militarmente um império, mas por anunciarem que já não aceitavam viver sem pátria, sem direitos e sem dignidade política.
É importante não transformar sua memória em mito vazio. Ele não deve ser lembrado apenas como mártir abstrato. Deve ser lembrado como jovem concreto, situado em uma sociedade concreta, submetido a uma estrutura concreta de dominação colonial. Sua morte revela a fragilidade do poder colonial: um império armado até os dentes sentia-se ameaçado por uma bandeira nas mãos de um jovem.
Essa é uma das imagens mais fortes da história política: o poder que se diz civilizado, mas dispara contra símbolos; o Estado que se diz racional, mas teme a memória; o colonizador que se diz portador da ordem, mas só consegue manter sua ordem pela violência.
Bouzid Saâl, nesse sentido, não pertence apenas à história argelina. Pertence à memória universal dos povos que foram ensinados a baixar a cabeça e, em algum momento, decidiram erguê-la.
6. O massacre como antecipação da Guerra de Independência da Argélia
Os massacres de 1945 marcaram profundamente a consciência nacional argelina. Muitos historiadores os interpretam como ponto de inflexão no caminho que levaria à Guerra de Independência, iniciada em 1954 e concluída em 1962. A partir de Sétif, Guelma e Kherrata, tornou-se cada vez mais difícil sustentar a esperança de uma emancipação pacífica concedida pela França.
A repressão produziu radicalização política. Para muitos argelinos, a mensagem colonial era clara: a França não entregaria a liberdade por generosidade republicana. A independência teria de ser conquistada contra a estrutura colonial.
Esse ponto é fundamental. O colonialismo frequentemente acusa os povos colonizados de violência quando estes se rebelam. Mas esquece de mencionar a violência anterior, cotidiana, institucional, prolongada, que tornou a rebelião historicamente compreensível. Nenhum povo nasce querendo guerra. Povos são empurrados à ruptura quando todas as portas da dignidade são fechadas.
A Guerra de Independência da Argélia seria uma das mais duras lutas anticoloniais do século XX. Envolveria tortura, guerrilha, repressão, terrorismo, deslocamentos, crises políticas na França e profunda divisão moral. Mas suas raízes não podem ser compreendidas sem 1945.
Sétif foi um aviso. Guelma foi uma ferida. Kherrata foi uma memória subterrânea. Juntas, essas cidades anunciaram que o império francês havia perdido sua legitimidade moral.
7. A maldade humana e a burocracia da desumanização
O episódio obriga a pensar a maldade humana não apenas como impulso individual, mas como estrutura. É fácil imaginar a maldade como ação de monstros excepcionais. Essa imagem consola, porque separa “eles” de “nós”. Mas a história do colonialismo mostra algo mais incômodo: a maldade pode ser administrada por instituições, legitimada por leis, executada por funcionários, normalizada por jornais e celebrada por cidadãos comuns.
Hannah Arendt, ao discutir a banalidade do mal, chamou atenção para a capacidade de sistemas políticos transformarem violência extrema em rotina administrativa (Arendt, 1999). Embora seu objeto fosse o totalitarismo nazista, a reflexão ajuda a pensar outros contextos em que a desumanização se torna burocrática. O mal, muitas vezes, não aparece gritando. Ele aparece carimbando documentos, expedindo ordens, justificando repressões, arquivando mortos.
Em Sétif, Guelma e Kherrata, a violência colonial não foi apenas explosão espontânea. Ela envolveu hierarquias, comandos, permissões, silêncios e cumplicidades. E é justamente aí que está sua gravidade. Quando a violência se torna política de Estado, o assassinato deixa de parecer crime para se apresentar como “restabelecimento da ordem”.
Essa linguagem é perigosa. Toda vez que um poder chama a reivindicação de direitos de ameaça à ordem, deve-se acender um alerta moral. A história mostra que, muitas vezes, a ordem defendida pelos poderosos é apenas o nome elegante da opressão.
A maldade humana, nesse caso, não está apenas no disparo. Está também na justificativa do disparo. Está no jornal que minimiza. Está no político que silencia. Está no cidadão que diz “alguma coisa eles fizeram”. Está no arquivo que desaparece. Está na escola que não ensina. Está na diplomacia que reconhece parcialmente, mas evita pedir perdão integral.
8. Memória, silêncio e disputa política
Até hoje, Sétif, Guelma e Kherrata seguem como tema sensível nas relações entre França e Argélia. Houve reconhecimentos parciais por autoridades francesas. Em 2012, François Hollande mencionou massacres e violências coloniais durante visita à Argélia, reconhecendo sofrimento e injustiças. Mais recentemente, a memória colonial voltou ao centro das tensões diplomáticas entre os dois países. A Argélia segue exigindo reconhecimento, desculpas e reparações mais amplas.
O problema é que reconhecimento parcial não encerra feridas históricas. Às vezes, apenas reorganiza o silêncio. Um Estado pode admitir “excessos” sem reconhecer o sistema que os produziu. Pode lamentar mortos sem nomear responsabilidades. Pode falar em tragédia sem falar em crime. Pode pedir reconciliação sem enfrentar reparação.
A memória colonial é sempre campo de disputa. Para a antiga metrópole, lembrar demais pode ameaçar a autoimagem nacional. Para o povo colonizado, esquecer é uma segunda violência. Por isso, a memória argelina preserva Sétif, Guelma e Kherrata como marco fundador de dor e resistência.
Não se trata de alimentar ódio eterno entre povos. Trata-se de impedir que a reconciliação seja construída sobre esquecimento imposto. Nenhuma paz verdadeira nasce do apagamento. A paz exige verdade. E a verdade exige coragem para olhar os próprios crimes históricos sem maquiagem patriótica.
A França contemporânea é muito mais do que seu passado colonial. Mas não pode escapar dele. Nenhuma nação escapa de sua história apenas mudando o vocabulário. A grandeza moral de um país não está em fingir inocência, mas em assumir responsabilidades.
9. Por que esse episódio ainda fala ao presente
Sétif, Guelma e Kherrata não pertencem apenas ao passado. O massacre continua atual porque o mundo ainda convive com hierarquias de humanidade. Ainda há vidas que comovem mais do que outras. Ainda há mortos que viram manchete e mortos que viram nota de rodapé. Ainda há povos inteiros descritos como ameaça quando reivindicam liberdade.
A memória colonial ajuda a entender a permanência de certas estruturas contemporâneas: racismo, islamofobia, desigualdade global, militarização da política, criminalização de movimentos populares e seletividade moral das potências. O colonialismo não terminou completamente com as independências formais. Ele deixou marcas econômicas, culturais, territoriais e simbólicas.
Quando se observa o tratamento dado a migrantes africanos e árabes na Europa, a disputa sobre memória colonial, a resistência de antigos impérios em pedir desculpas formais, percebe-se que o passado continua trabalhando no presente. Ele não desaparece. Apenas muda de forma.
É por isso que estudar Sétif não é fazer arqueologia da dor. É compreender como sociedades modernas produzem zonas de indiferença. É perguntar por que algumas violências são chamadas de barbárie, enquanto outras são chamadas de segurança. É perguntar por que certos Estados podem matar em nome da civilização. É perguntar por que o mundo ainda aceita que a dor de alguns povos seja sempre relativizada.
O massacre também nos ensina algo sobre a linguagem política. Toda vez que uma potência diz agir em nome da ordem, da estabilidade ou da civilização, é preciso perguntar: ordem para quem? estabilidade para quem? civilização contra quem?
10. A história moral que precisamos ensinar
Há um erro grave em ensinar a Segunda Guerra Mundial como se a história da liberdade terminasse em Berlim, em 1945. Para milhões de colonizados, a guerra contra a dominação continuou. O fim do nazismo não significou o fim dos impérios. A liberdade europeia não se converteu imediatamente em liberdade africana ou asiática.
Por isso, Sétif, Guelma e Kherrata deveriam ocupar lugar central em uma educação histórica verdadeiramente crítica. Não para diminuir a importância da derrota do nazismo, mas para ampliar a compreensão do século XX. A vitória contra Hitler foi necessária e civilizacionalmente decisiva. Mas ela não absolve os crimes coloniais dos vencedores.
A história moral da humanidade precisa ser ensinada sem zonas sagradas. Nenhum país deve ser blindado contra a crítica. Nenhum império deve escrever sozinho a memória do mundo. Nenhuma potência deve transformar seus crimes em rodapé.
O ensino desse episódio também ajuda a compreender que a democracia pode conviver com práticas autoritárias quando limita seu próprio universalismo. Uma república pode ser democrática para seus cidadãos metropolitanos e brutal para seus súditos coloniais. Uma constituição pode proclamar direitos enquanto um império administra desigualdades. Essa é uma lição fundamental para o presente.
A democracia só é moralmente consistente quando sua promessa vale para todos. Quando vale apenas para alguns, torna-se privilégio com linguagem universal.
Conclusão: a liberdade que não atravessou o Mediterrâneo
O 8 de maio de 1945 deveria ser lembrado em duas cenas simultâneas. Na primeira, Paris celebra a derrota do nazismo. Na segunda, argelinos são reprimidos por reivindicarem liberdade. Entre uma cena e outra há o abismo moral do colonialismo.
Esse abismo ainda nos interpela. Ele pergunta se a humanidade aprendeu, de fato, alguma coisa com suas tragédias. Pergunta se a palavra liberdade pode ser pronunciada honestamente por quem nega liberdade a outros. Pergunta se a civilização é medida pelos discursos que produz ou pelas vidas que respeita.
Sétif, Guelma e Kherrata mostram que a maldade humana não está apenas nos regimes que a história já condenou oficialmente. Ela também pode estar nos regimes que venceram guerras, escreveram tratados, fundaram instituições e se apresentaram como defensores da democracia. O horror não pertence apenas aos derrotados. Às vezes, ele marcha sob a bandeira dos vencedores.
A memória dos argelinos mortos em 1945 exige mais do que compaixão. Exige lucidez. Exige reconhecer que não há verdadeira vitória contra o fascismo enquanto práticas coloniais, racistas e desumanizadoras continuam sendo toleradas. Exige compreender que a liberdade, quando não é universal, deixa de ser liberdade e se torna privilégio.
A França derrotou Hitler na Europa. Mas, naquele mesmo dia, na Argélia, mostrou que ainda não havia derrotado o império dentro de si.
Referências
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Lisboa: Sá da Costa, 1978.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido de retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
SCIENCES PO. Sétif and Guelma: May 1945. Paris: Online Encyclopedia of Mass Violence, 2008. Acesso em: 9 maio 2026.
LE MONDE. In Algeria, the memory of massacres committed by the French colonial army in 1945 is intact. Paris, 2025. Acesso em: 9 maio 2026.
AL JAZEERA. France recognises Algeria colonial suffering. Doha, 2012. Acesso em: 9 maio 2026.
LE MONDE. “Sétif 1945”, de Jean-Louis Planche: sombre 8 mai 1945 en Algérie. Paris, 2006. Acesso em: 9 maio 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário