sábado, 2 de maio de 2026

O Equilíbrio do Dragão

Por que a China não tem pressa em derrubar a hegemonia americana?


Lide — A disputa entre China e Estados Unidos costuma ser narrada como uma nova Guerra Fria. Mas talvez essa imagem seja apressada. A China não parece interessada em uma ruptura imediata da ordem global. Seu projeto é mais paciente, industrial, tecnológico e estratégico: ocupar espaços, reduzir vulnerabilidades e remodelar regras sem provocar um colapso sistêmico que também a prejudicaria.


1. A ansiedade ocidental e o tempo longo chinês

A geopolítica contemporânea tem sido capturada por uma narrativa sedutora: a de que China e Estados Unidos estariam presos a uma disputa inevitável pela supremacia mundial. Essa leitura não é falsa, mas é incompleta. Há competição tecnológica, militar, comercial, monetária e diplomática. Há disputa por semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos, rotas marítimas, influência no Sul Global e capacidade de definir padrões internacionais. No entanto, transformar essa competição em uma espécie de “Guerra Fria 2.0” simplifica demais um processo histórico muito mais complexo.

A China não opera com a mesma gramática temporal das democracias liberais ocidentais. Enquanto Washington é pressionada por ciclos eleitorais curtos, disputas legislativas, polarização midiática e urgência de resultados, Pequim trabalha com horizontes estratégicos mais longos. Essa diferença de ritmo altera tudo. A potência ascendente nem sempre precisa derrubar a potência dominante. Às vezes, basta deixá-la se desgastar, enquanto acumula capacidade produtiva, autonomia tecnológica e influência financeira.

Essa é a chave da análise: a China não precisa ter pressa. O dragão não precisa incendiar o tabuleiro. Pode simplesmente reorganizá-lo.

O próprio discurso oficial chinês sustenta, desde pelo menos o Livro Branco de 2011, a ideia de “desenvolvimento pacífico” como estratégia de modernização nacional e inserção internacional, ainda que essa narrativa deva ser lida criticamente, pois toda potência formula discursos legitimadores de seus próprios interesses (China, 2011). O documento afirma que o desenvolvimento pacífico seria uma escolha estratégica para modernizar o país e ampliar sua contribuição internacional.  

A prudência chinesa, portanto, não deve ser confundida com passividade. Trata-se de cálculo. A China sabe que uma queda abrupta da hegemonia americana poderia produzir instabilidade financeira, corrida armamentista regional, retração do comércio mundial e ruptura de cadeias produtivas das quais ela própria depende.


2. A desindustrialização americana e o limite material da hegemonia

A força de uma potência não se mede apenas por porta-aviões, bases militares, moeda forte ou influência cultural. Mede-se, sobretudo, por sua capacidade de produzir. Em situações de conflito prolongado, a indústria é soberania. Quem controla aço, semicondutores, energia, máquinas, navios, fármacos, munições, logística e engenharia de produção controla parte decisiva da política internacional.

Os Estados Unidos seguem sendo a maior potência militar e financeira do mundo, mas sua base industrial sofreu transformações profundas nas últimas décadas. Não se trata de dizer que a indústria americana desapareceu. Isso seria incorreto. O país ainda possui setores industriais sofisticados, empresas tecnológicas dominantes e uma poderosa base de defesa. Mas a participação relativa da manufatura no emprego e no PIB caiu de maneira expressiva desde o fim do século XX, enquanto grande parte da produção foi deslocada para cadeias globais, sobretudo asiáticas.

Essa mudança reduziu custos para empresas, ampliou lucros e barateou produtos para consumidores. Mas também criou vulnerabilidades estratégicas. A pandemia de Covid-19, a guerra na Ucrânia e as tensões no Indo-Pacífico demonstraram que cadeias longas, embora eficientes em tempos de paz, são frágeis em tempos de crise. Por isso, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos lançou uma Estratégia Nacional de Indústria de Defesa em 2024, com foco em cadeias resilientes, força de trabalho, aquisição flexível e dissuasão econômica.  

Essa preocupação revela uma contradição central: a potência que liderou a globalização neoliberal agora percebe que terceirizou parte de sua musculatura produtiva. A hegemonia financeira sobrevive, mas a hegemonia industrial foi parcialmente deslocada.

A China, por sua vez, tornou-se o grande eixo manufatureiro do planeta. Dados do Banco Mundial mostram a magnitude da manufatura chinesa em valor adicionado, confirmando a centralidade industrial do país na economia global.   Essa base produtiva não é apenas econômica; é geopolítica. Ela dá à China capacidade de abastecer mercados, controlar gargalos, disputar padrões tecnológicos e resistir a sanções com maior margem de manobra.

Aqui está o ponto decisivo: no século XXI, poder não é apenas ter armas. É ter fábrica, laboratório, porto, energia, algoritmo e escala.


3. A fábrica do mundo e a política da paciência

A China aprendeu a transformar dependência externa em interdependência estratégica. Durante décadas, empresas ocidentais transferiram produção para o território chinês em busca de mão de obra barata, infraestrutura eficiente, incentivos estatais e escala. O resultado foi paradoxal: o Ocidente acreditava estar usando a China como plataforma produtiva; a China usou essa plataforma para absorver tecnologia, formar engenheiros, consolidar cadeias industriais e projetar poder.

Esse processo não ocorreu por acaso. Ele envolveu planejamento estatal, política industrial, investimento em infraestrutura, educação técnica, controle cambial, abertura seletiva e disciplina institucional. Enquanto muitos países periféricos foram integrados à globalização como exportadores de commodities ou consumidores de produtos industrializados, a China posicionou-se como núcleo produtivo da economia mundial.

Por isso, Pequim não tem interesse em destruir o comércio internacional. Ao contrário: precisa dele. A economia chinesa depende de mercados funcionais, rotas marítimas abertas, previsibilidade cambial, demanda externa e estabilidade mínima. Uma crise sistêmica poderia atingir suas exportações, seu emprego urbano, sua estabilidade social e seu projeto nacional.

Essa é uma diferença importante entre retórica e estratégia. A China critica a hegemonia americana, denuncia o unilateralismo ocidental, questiona sanções e defende uma ordem multipolar. Mas não deseja, ao menos no curto prazo, uma implosão caótica do sistema. O objetivo parece ser outro: reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos e, simultaneamente, aumentar a dependência do mundo em relação à China.

Essa estratégia é mais sofisticada do que uma ruptura frontal. Em vez de derrubar a mesa, a China troca lentamente os lugares à mesa.


4. O dólar: dependência, risco e transição cautelosa

A discussão sobre o declínio americano frequentemente se concentra no dólar. De fato, a moeda americana continua sendo uma das bases da hegemonia dos Estados Unidos. O dólar organiza reservas internacionais, contratos de energia, dívida soberana, comércio global e sistema financeiro. Mesmo quando países criticam Washington, muitos continuam dependendo da moeda americana para proteger reservas, financiar importações e estabilizar balanços externos.

Os dados do Fundo Monetário Internacional mostram que o dólar ainda representava 56,77% das reservas cambiais globais no quarto trimestre de 2025, enquanto o renminbi chinês permanecia em patamar muito inferior, com 1,95%.   Isso indica que a desdolarização existe como tendência política e estratégica, mas ainda não como substituição plena.

A China sabe disso. Uma queda brusca do dólar poderia gerar perdas financeiras globais, inclusive para países que possuem reservas denominadas em moeda americana. Também poderia desorganizar contratos internacionais e provocar fuga de capitais. Por isso, Pequim atua com cautela: amplia acordos em moedas locais, fortalece o uso internacional do renminbi, desenvolve sistemas alternativos de pagamento e acumula ouro, mas sem provocar uma ruptura abrupta.

A estratégia chinesa é de erosão gradual, não de demolição instantânea.

Esse ponto é fundamental. A China não precisa substituir o dólar amanhã. Basta reduzir progressivamente sua vulnerabilidade ao dólar e ampliar sua capacidade de negociar fora da esfera financeira americana. O objetivo não é necessariamente criar uma nova hegemonia monetária imediata, mas impedir que a antiga hegemonia monetária funcione como instrumento absoluto de coerção.


5. O trauma histórico asiático: Japão, imperialismo e memória

Para compreender a prudência chinesa, é preciso olhar para a história asiática. O Ocidente muitas vezes interpreta a segurança regional a partir da presença americana: bases militares, alianças com Japão e Coreia do Sul, proteção de Taiwan, patrulhamento marítimo e contenção da China. Mas, para Pequim, a questão não se resume aos Estados Unidos. Há uma memória histórica mais profunda: o trauma do imperialismo japonês.

A Reforma Meiji, iniciada em 1868, transformou o Japão em uma potência moderna, industrial e militarizada. O país incorporou técnicas ocidentais, reorganizou suas Forças Armadas, fortaleceu o Estado e passou a disputar territórios na Ásia. A abertura forçada dos portos japoneses pela expedição do comodoro Matthew Perry, em 1853, marcou simbolicamente o choque entre o Japão feudal e a pressão imperial ocidental. O Japão aprendeu rapidamente a lição amarga do século XIX: para não ser colonizado, tornou-se império.

O resultado foi devastador para a Ásia. Coreia, Manchúria e China sofreram com a expansão japonesa. A Segunda Guerra Sino-Japonesa e os crimes cometidos pelo Exército Imperial deixaram feridas profundas na memória chinesa. Portanto, quando Pequim observa o rearmamento japonês contemporâneo, não enxerga apenas uma política de defesa. Enxerga o retorno de um fantasma histórico.

O Japão aprovou, em 2022, um programa de fortalecimento de defesa com objetivo de ampliar capacidades até 2027, incluindo maior responsabilidade na resposta a invasões e ameaças, com apoio de aliados.   Além disso, análises recentes indicam que Tóquio tem acelerado sua meta de elevar os gastos em defesa para 2% do PIB, em resposta ao ambiente regional mais tenso.  

Para os Estados Unidos, isso pode parecer uma reorganização defensiva de aliados. Para a China, pode representar a reativação de uma memória traumática. A geopolítica não é feita apenas de interesses materiais; também é feita de medo, ressentimento, honra, humilhação e lembrança.


6. O risco do vácuo de poder na Ásia

Uma retirada abrupta dos Estados Unidos da Ásia não significaria automaticamente paz. Poderia significar vácuo. E vácuos geopolíticos raramente permanecem vazios. Japão, Coreia do Sul, Índia, Austrália, Rússia e potências do Sudeste Asiático teriam que recalcular rapidamente suas estratégias de segurança. Taiwan se tornaria ainda mais vulnerável. O Mar do Sul da China poderia se tornar palco de disputas mais intensas. A proliferação militar regional poderia acelerar.

Por isso, a China pode preferir uma erosão lenta da influência americana a uma expulsão imediata dos Estados Unidos da região. É uma escolha pragmática. Enquanto Washington permanece como fiador parcial da ordem regional, Pequim ganha tempo para fortalecer sua Marinha, desenvolver semicondutores, ampliar autonomia energética, consolidar rotas terrestres e marítimas e reduzir dependências críticas.

Essa lógica se aproxima do realismo político: Estados não agem apenas por ideologia, mas por sobrevivência, poder e cálculo de riscos (Mearsheimer, 2014). A China pode criticar a presença americana e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua retirada repentina produziria instabilidade inconveniente.

Na política internacional, o inimigo às vezes também é estabilizador. Essa é uma das ironias da hegemonia.


7. A máxima napoleônica: não interrompa o adversário quando ele erra

A frase atribuída a Napoleão Bonaparte — “nunca interrompa seu inimigo quando ele estiver cometendo um erro” — sintetiza bem a postura chinesa diante dos dilemas americanos. Os Estados Unidos enfrentam polarização interna, disputas fiscais, desgaste social, endividamento elevado, tensões raciais, crises de legitimidade institucional, guerras prolongadas, custos militares crescentes e dificuldade de recompor sua base industrial.

A China não precisa acelerar esse processo. Pode observá-lo.

Enquanto Washington se envolve em múltiplas frentes — Ucrânia, Oriente Médio, Taiwan, Mar do Sul da China, OTAN, rivalidade tecnológica, sanções, disputas comerciais — Pequim investe em infraestrutura, energia, indústria, educação técnica, inteligência artificial, veículos elétricos, painéis solares, baterias, portos e influência diplomática.

Isso não significa que a China esteja livre de problemas. Ao contrário. O país enfrenta envelhecimento populacional, crise imobiliária, desemprego juvenil, desaceleração do consumo, tensões sociais, controle político rígido, dependência energética e desafios ambientais. Mas a diferença está no foco estratégico. A China procura transformar vulnerabilidades em política de Estado.

Em abril de 2026, por exemplo, a liderança chinesa voltou a enfatizar segurança energética, autossuficiência tecnológica e fortalecimento do sistema industrial moderno diante de choques externos.   Esse tipo de orientação revela uma preocupação central: resistir a crises sem perder o rumo estrutural.

O Ocidente discute a conjuntura. A China organiza a estrutura.


8. A disputa real: quem escreverá as regras?

A disputa entre China e Estados Unidos não é apenas por território, comércio ou tecnologia. É uma disputa normativa. Quem definirá as regras do século XXI? Quem controlará os padrões de inteligência artificial, semicondutores, moeda digital, segurança cibernética, comércio de dados, infraestrutura 5G/6G, transição energética, propriedade intelectual e governança internacional?

A hegemonia americana foi construída não apenas por força militar, mas pela capacidade de criar instituições: FMI, Banco Mundial, OTAN, OMC, sistema de Bretton Woods, padrões financeiros, regras comerciais, universidades globais, idioma científico e cultura de massa. A China compreendeu que uma potência madura não apenas produz mercadorias; produz regras.

Por isso, Pequim investe em instituições paralelas, acordos bilaterais, bancos de desenvolvimento, fóruns multilaterais e iniciativas como a Nova Rota da Seda. A intenção não é simplesmente isolar-se do sistema ocidental, mas criar alternativas. Alternativas reduzem dependência. E quem reduz dependência aumenta soberania.

A Organização Mundial do Comércio ainda define sua missão como garantir que o comércio flua de forma previsível e livre quanto possível.   A China se beneficiou intensamente dessa arquitetura. Portanto, seu objetivo não é destruir o comércio regulado, mas disputar sua orientação. O conflito não é entre comércio e isolamento. É entre diferentes formas de organizar a interdependência.


9. O Brasil diante do tabuleiro: oportunidade e risco

Para o Brasil, essa transição global é decisiva. O país não pode observar passivamente a disputa sino-americana como se fosse um espectador periférico. A China é, desde 2009, o principal parceiro comercial brasileiro, segundo o Ipea, além de ser destino fundamental das exportações de diversas unidades da federação.   Essa relação trouxe ganhos importantes, especialmente para o agronegócio, a mineração e setores exportadores.

Mas há um risco: tornar-se apenas fornecedor de commodities em uma ordem liderada industrialmente por outros. Se os Estados Unidos representam a hegemonia financeira e militar, a China representa a hegemonia manufatureira e tecnológica emergente. Em ambos os casos, o Brasil precisa evitar a armadilha da dependência passiva.

A pergunta estratégica não é “ficar com Washington ou Pequim?”. Essa é uma pergunta pobre. A pergunta correta é: como defender o interesse nacional brasileiro em um mundo multipolar, sem abdicar da soberania produtiva, científica, energética e tecnológica?

O Brasil precisa de política industrial, educação técnica, ciência aplicada, semicondutores, transição energética, defesa cibernética, infraestrutura logística e diplomacia altiva. Caso contrário, trocará apenas o centro de dependência: ontem Washington, amanhã Pequim.

Uma nação continental não pode viver apenas de exportar soja, minério e carne. Precisa exportar inteligência, tecnologia, engenharia, software, máquinas, fármacos, equipamentos, conhecimento e valor agregado.


10. Conclusão: o dragão não quer o caos; quer a sucessão

A China não tem pressa em derrubar a hegemonia americana porque sabe que o colapso de uma ordem mundial raramente produz estabilidade imediata. O fim abrupto da liderança dos Estados Unidos poderia desorganizar mercados, gerar corrida militar na Ásia, afetar cadeias globais, fragilizar exportações chinesas e provocar choques financeiros de grande escala.

Pequim prefere outro caminho: acumular poder, reduzir vulnerabilidades, ampliar influência e esperar que a própria contradição americana faça parte do trabalho histórico. A estratégia chinesa não é romântica nem ingênua. É pragmática. O dragão não precisa destruir o Leviatã de uma vez. Pode deixá-lo cansar, enquanto fortalece as próprias garras.

A grande disputa do século XXI não será apenas militar. Será industrial, tecnológica, monetária, educacional, energética e normativa. Quem controlar a produção, os dados, os padrões técnicos, as rotas logísticas e as regras internacionais controlará o futuro.

A China entendeu isso. Os Estados Unidos tentam recuperar parte do que transferiram. E países como o Brasil precisam decidir se continuarão assistindo à história da arquibancada ou se terão coragem de construir um projeto nacional capaz de transformar recursos naturais em soberania, conhecimento em desenvolvimento e diplomacia em autonomia.

O mundo não está diante de uma simples substituição de impérios. Está diante de uma transição de gramáticas históricas. O Ocidente pensa em ciclos eleitorais. A China pensa em gerações. O Brasil, se quiser sobreviver com dignidade nesse novo século, precisa voltar a pensar como nação.


Referências

CHINA. China’s Peaceful Development. Beijing: State Council Information Office, 2011.

DOD — UNITED STATES DEPARTMENT OF DEFENSE. National Defense Industrial Strategy. Washington, DC: Department of Defense, 2024.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves — COFER. Washington, DC: IMF, 2026.

IPEA — INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. China: relações econômicas Brasil-China. Brasília: Ipea, 2026.

JAPAN MINISTRY OF DEFENSE. Defense Buildup Program. Tokyo: Ministry of Defense, 2022.

MEARSHEIMER, John J. A tragédia da política das grandes potências. Lisboa: Gradiva, 2014.

WORLD BANK. Manufacturing, value added — China. Washington, DC: World Bank, 2026.

WTO — WORLD TRADE ORGANIZATION. Global trade and rules-based trading system. Geneva: WTO, 2026.


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