Do medo ao cansaço, da precariedade ao ódio: por que o fascismo contemporâneo não precisa repetir o passado para continuar sendo fascismo
Lide
O fascismo contemporâneo não precisa mais marchar com botas pelas ruas para se fazer presente. Ele pode aparecer na fila do hospital abandonado, no desemprego tratado como culpa individual, na violência contra pobres transformada em espetáculo, na humilhação cotidiana de quem depende do Estado e na indiferença social diante da dor alheia. Ao comentar a lógica atual do fascismo como “contragestão”, Vladimir Safatle aponta uma chave decisiva para compreender nosso tempo: o poder já não governa apenas organizando a vida; ele também governa desorganizando-a, abandonando populações inteiras à própria sorte e transformando essa precariedade em instrumento de controle. Este artigo parte dessa provocação para analisar o fascismo do século XXI como fenômeno político, afetivo, econômico e moral.
1. Introdução: o fascismo não voltou; ele mudou de roupa
Eu desconfio profundamente de toda análise política que procura o fascismo apenas nos arquivos empoeirados do século XX. É claro que a história importa. É claro que Mussolini, Hitler, Franco e Salazar continuam sendo referências incontornáveis para compreender a catástrofe autoritária moderna. Mas há um erro perigoso em acreditar que o fascismo só existe quando reaparece com a mesma estética, os mesmos símbolos, os mesmos uniformes e as mesmas instituições do passado.
O fascismo não é peça de museu. É tecnologia política.
Ele não precisa repetir sua forma histórica para preservar sua lógica profunda. Pode abandonar a camisa, a marcha e o partido único, mas continuar operando por meio da produção de inimigos, da naturalização da violência, da destruição da solidariedade e da transformação do sofrimento social em combustível político.
É nesse ponto que a formulação de Vladimir Safatle ganha força. Em entrevista ao The Intercept Brasil, publicada em abril de 2026, Safatle afirma que o perigo fascista no Brasil não se encerrou com a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022, pois o bolsonarismo expressaria uma forma mais ampla e persistente de organização política e afetiva da sociedade (Safatle, 2026).
A imagem anexada destaca uma ideia central atribuída a Safatle: o fascismo contemporâneo opera pela contragestão, isto é, pelo uso do abandono social como ferramenta de controle. A palavra é forte porque inverte a expectativa comum sobre o poder. Estamos acostumados a pensar que governar é administrar, coordenar, proteger, ordenar. Mas, no fascismo contemporâneo, governar também pode significar abandonar, desmontar, precarizar, expor e deixar morrer.
Essa é a tese que desejo aprofundar aqui.
2. A contragestão como política do abandono
A noção de contragestão é decisiva porque rompe com uma ingenuidade muito comum: a ideia de que o abandono social é sempre falha do Estado. Nem sempre. Muitas vezes, o abandono é projeto.
Quando uma população inteira passa anos sem saneamento básico, sem escola de qualidade, sem atendimento de saúde, sem transporte digno, sem segurança pública cidadã e sem perspectiva de futuro, isso não pode ser explicado apenas por incompetência administrativa. Há uma racionalidade política nesse desmonte.
O abandono produz medo.
O medo produz ressentimento.
O ressentimento procura culpados.
E o fascismo oferece inimigos.
É assim que a miséria social pode ser convertida em obediência política. O cidadão abandonado deixa de se perguntar por que seus direitos foram retirados e passa a odiar aquele que foi apontado como culpado por sua dor: o imigrante, o pobre, o negro, o comunista imaginário, o professor, o artista, o cientista, a feminista, o sindicalista, o servidor público, o estudante universitário, o morador da periferia.
Nesse processo, o poder deixa de responder ao sofrimento social com políticas públicas e passa a administrá-lo como matéria-prima da dominação.
Michel Foucault mostrou que o poder moderno não atua apenas proibindo ou reprimindo; ele produz corpos, condutas, subjetividades e formas de vida (Foucault, 2014). No caso da contragestão, pode-se dizer que o poder também produz desamparo. Ele fabrica sujeitos esgotados, isolados, endividados e emocionalmente disponíveis para discursos de força.
O abandono, portanto, não é ausência de governo. É governo por outros meios.
3. O fascismo histórico e suas metamorfoses
Para compreender o fascismo contemporâneo, é preciso evitar duas simplificações.
A primeira é dizer que tudo é fascismo. Isso esvazia o conceito.
A segunda é dizer que nada é fascismo se não repetir literalmente a Itália de Mussolini ou a Alemanha nazista. Isso paralisa a análise.
O fascismo histórico nasceu em meio às crises do capitalismo liberal, ao trauma da Primeira Guerra Mundial, ao medo das revoluções socialistas e à reorganização violenta das massas. Ele combinou nacionalismo extremo, culto da autoridade, militarização da política, perseguição a inimigos internos, destruição de organizações populares e promessa de regeneração nacional (Paxton, 2007).
Mas o fascismo nunca foi apenas um regime. Foi também uma gramática emocional.
Ele oferecia pertencimento a sujeitos humilhados. Dava sentido a sociedades em crise. Transformava frustração em ódio politicamente dirigido. Prometia ordem em meio ao caos. Convertia medo em obediência. Transformava violência em virtude.
É por isso que Theodor Adorno continua atual. Ao estudar a personalidade autoritária, Adorno e seus colaboradores mostraram que o autoritarismo não depende apenas de instituições políticas, mas também de estruturas psíquicas, afetivas e culturais que predispõem sujeitos à submissão diante dos fortes e à agressividade contra os vulneráveis (Adorno et al., 2019).
O fascismo contemporâneo conserva essa arquitetura afetiva, mas atua em outro cenário histórico. Hoje, ele se move dentro de democracias formais, usa redes digitais, apropria-se da linguagem da liberdade, apresenta-se como rebeldia contra “o sistema” e, ao mesmo tempo, serve frequentemente aos interesses mais duros do próprio sistema econômico.
Essa é sua astúcia: parecer antissistema enquanto protege as engrenagens mais brutais da desigualdade.
4. Neoliberalismo, precarização e fascismo social
Não se pode compreender o novo fascismo sem compreender o neoliberalismo.
O neoliberalismo não é apenas uma política econômica de privatizações, austeridade e redução de direitos sociais. Ele é uma racionalidade que transforma tudo em mercado: a escola, a saúde, o trabalho, o afeto, o corpo, a religião, a política e até a autoestima.
Wendy Brown argumenta que o neoliberalismo corrói a própria substância da democracia ao transformar cidadãos em empreendedores de si mesmos, submetendo todas as dimensões da vida ao cálculo econômico (Brown, 2019). Quando isso acontece, a sociedade deixa de ser comunidade política e vira arena concorrencial.
O sujeito neoliberal é ensinado a acreditar que está sozinho. Se venceu, foi mérito. Se fracassou, foi culpa sua.
Essa pedagogia da culpa individual é fundamental para o fascismo contemporâneo. O trabalhador precarizado, sem direitos, sem tempo, sem proteção e sem futuro, é levado a interpretar sua dor não como resultado de estruturas sociais injustas, mas como fracasso pessoal ou como consequência da ação de algum inimigo inventado.
A precariedade vira ressentimento.
O ressentimento vira ódio.
O ódio vira política.
Safatle, ao tratar dos novos fascismos globais, desloca a análise para essa dimensão interna das sociedades liberais: o fascismo não aparece simplesmente como força externa contra a democracia, mas como algo produzido pelas próprias contradições das democracias realmente existentes e das sociedades capitalistas contemporâneas (Safatle, 2026). A página institucional da USP sobre seu livro A ameaça interna destaca justamente essa tese do fascismo estrutural que assombra sociedades ditas liberais em situações de crise.
Aqui está a questão mais incômoda: o fascismo não nasce apenas contra a ordem liberal. Muitas vezes, nasce de dentro dela.
5. A política da dessensibilização
Um dos pontos mais importantes da formulação de Safatle é a ideia de que o fascismo contemporâneo opera por dois afetos centrais: dessensibilização e indiferença.
Esses afetos não são detalhes psicológicos. São fundamentos políticos.
Uma sociedade fascistizada não é apenas uma sociedade que odeia. É também uma sociedade que deixa de sentir. Ou melhor: sente seletivamente. Sente dor apenas pelos seus. Sente indignação apenas quando a vítima pertence ao grupo reconhecido como legítimo. Para os demais, oferece silêncio, desprezo ou aplauso diante da violência.
Essa dessensibilização é construída aos poucos.
Primeiro, naturaliza-se a desigualdade.
Depois, naturaliza-se a humilhação.
Depois, naturaliza-se a morte.
Por fim, naturaliza-se a ideia de que algumas vidas valem menos.
Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, mostrou que atrocidades políticas podem ser executadas não apenas por monstros excepcionais, mas por indivíduos comuns que deixam de pensar criticamente sobre as consequências de seus atos (Arendt, 1999). Essa reflexão é essencial para o nosso tempo. O horror contemporâneo nem sempre exige entusiasmo explícito. Muitas vezes, basta a indiferença.
A indiferença é o chão moral do fascismo.
Quando a sociedade passa a assistir à dor alheia como quem assiste a uma paisagem distante, o autoritarismo já venceu uma etapa decisiva. A violência deixa de escandalizar. A injustiça deixa de constranger. A morte do outro deixa de nos interromper.
Nesse ponto, a política se desumaniza.
6. O inimigo interno como método
Todo fascismo precisa de um inimigo interno.
O inimigo interno cumpre várias funções. Ele simplifica a realidade, organiza o medo, canaliza a frustração e desvia a atenção das estruturas reais de poder. Em vez de discutir concentração de renda, exploração do trabalho, captura do Estado por interesses privados ou destruição de políticas públicas, o debate público passa a girar em torno de ameaças fabricadas.
O fascismo precisa convencer as pessoas de que elas estão em guerra.
Guerra contra a esquerda.
Guerra contra a ciência.
Guerra contra os professores.
Guerra contra os artistas.
Guerra contra os direitos humanos.
Guerra contra a imprensa.
Guerra contra as minorias.
Guerra contra qualquer um que impeça a fantasia de uma sociedade homogênea.
Essa lógica aparece no Brasil de maneira muito evidente. O bolsonarismo não foi apenas um movimento eleitoral; foi uma pedagogia da hostilidade. Ele ensinou parte da sociedade a confundir brutalidade com autenticidade, ignorância com coragem, violência verbal com sinceridade e destruição institucional com liberdade.
O resultado é uma política fundada na permanente fabricação de inimigos.
Jason Stanley, ao analisar a política fascista, mostra que movimentos desse tipo frequentemente operam por meio de mitos de passado glorioso, propaganda, anti-intelectualismo, hierarquização social, vitimização do grupo dominante e criminalização dos adversários (Stanley, 2018). Esses elementos não precisam aparecer todos ao mesmo tempo nem da mesma forma. Mas, quando se articulam, criam uma atmosfera autoritária.
E atmosferas autoritárias antecedem regimes autoritários.
7. Biopolítica, necropolítica e abandono seletivo
A contragestão se conecta diretamente à biopolítica e à necropolítica.
Foucault mostrou que a modernidade política passou a administrar a vida: nascimento, saúde, população, higiene, sexualidade, produtividade, mortalidade (Foucault, 2014). O Estado moderno não apenas mata; ele também “faz viver” e “deixa morrer”.
Achille Mbembe radicaliza essa análise ao propor o conceito de necropolítica: o poder de decidir quem deve viver e quem pode morrer (Mbembe, 2018). Nas sociedades marcadas por racismo, colonialismo e desigualdade extrema, essa decisão não é abstrata. Ela tem endereço, cor, classe e território.
No Brasil, isso é brutalmente evidente.
O abandono não é distribuído igualmente. Ele pesa mais sobre periferias, populações negras, povos indígenas, trabalhadores pobres, moradores de rua, pessoas encarceradas e comunidades sem acesso efetivo a direitos básicos.
A contragestão, portanto, não abandona “a sociedade” de modo genérico. Ela abandona setores específicos da sociedade. E, ao fazer isso, ensina os demais a considerar esse abandono normal.
Aqui o fascismo contemporâneo se revela como gestão seletiva da morte social. Antes da morte física, há a morte simbólica: retirar de determinados grupos o direito de serem vistos como plenamente humanos.
Quando alguém diz “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, “pobre é pobre porque quer” ou “quem depende do Estado é vagabundo”, não está apenas expressando opinião. Está participando de uma economia moral fascistizante, na qual algumas vidas são expulsas do círculo da compaixão.
8. O papel das plataformas digitais: o fascismo como atmosfera algorítmica
O fascismo contemporâneo também aprendeu a viver nas redes.
As plataformas digitais não criaram o ódio, mas deram a ele velocidade, escala e monetização. O ressentimento passou a circular em tempo real. A mentira ganhou aparência de comunidade. A paranoia encontrou confirmação permanente. O absurdo encontrou audiência.
Zuboff descreve o capitalismo de vigilância como uma nova lógica econômica baseada na captura e predição do comportamento humano (Zuboff, 2021). Essa lógica não atua apenas no consumo. Ela reorganiza a política, pois transforma atenção em mercadoria e emoções em matéria-prima de engajamento.
A raiva engaja.
O medo engaja.
A humilhação engaja.
A desinformação engaja.
A violência simbólica engaja.
Nesse ambiente, o fascismo deixa de depender exclusivamente de organizações partidárias tradicionais. Ele se espalha como linguagem, meme, piada, comentário, vídeo curto, corrente de WhatsApp, corte de podcast, falso escândalo moral e teoria conspiratória.
O algoritmo não precisa ser fascista em intenção para produzir efeitos fascistizantes. Basta que recompense sistematicamente o conteúdo que desumaniza, polariza, simplifica e incendeia.
É nesse sentido que se pode falar em um Leviatã digital: não um monstro estatal centralizado, mas uma arquitetura difusa de controle, vigilância, manipulação afetiva e administração da atenção.
O fascismo do século XXI não precisa apenas de milícias nas ruas. Precisa também de bolhas digitais, influenciadores do ressentimento, empresários da mentira e plataformas que lucram com a decomposição do espaço público.
9. O Brasil e a pedagogia do abandono
O Brasil é terreno fértil para essa análise porque nunca resolveu plenamente suas heranças autoritárias.
A escravidão terminou formalmente, mas sua estrutura social permaneceu.
A República nasceu excludente.
A democracia foi interrompida por golpes.
A ditadura militar deixou marcas profundas.
A desigualdade continuou organizando o acesso à vida.
Por isso, o fascismo brasileiro não precisa importar integralmente modelos europeus. Ele encontra aqui um solo próprio: racismo estrutural, elitismo econômico, violência policial, anticomunismo delirante, moralismo religioso seletivo e desprezo histórico pelos pobres.
O bolsonarismo deu forma política contemporânea a esses elementos. Ele não inventou o autoritarismo brasileiro, mas o atualizou. Transformou ressentimentos dispersos em identidade política. Deu linguagem a ódios antigos. Reabilitou simbolicamente a ditadura. Atacou universidades, imprensa, ciência, cultura e instituições democráticas. Fez da grosseria um estilo e da crueldade uma virtude.
Mas o mais grave talvez tenha sido outra coisa: a produção de indiferença.
Durante a pandemia de covid-19, por exemplo, o Brasil assistiu à politização da morte, à desqualificação da ciência e à banalização do sofrimento coletivo. Esse processo revelou como o abandono pode ser convertido em método de governo. Não se tratava apenas de negar a gravidade da crise sanitária; tratava-se de transformar a vulnerabilidade da população em experimento político de dessensibilização.
Ali ficou evidente que o fascismo contemporâneo não governa apenas pela repressão. Governa também pelo deboche diante da dor.
10. A falsa rebeldia autoritária
Uma das grandes armadilhas do fascismo contemporâneo é sua aparência de rebeldia.
Ele se apresenta como insubmissão contra elites, mídia, sistema, universidades e instituições. Mas, quando observado de perto, seu alvo real quase nunca é o poder econômico concentrado. Seu alvo preferencial são os vulneráveis, os intelectuais críticos, os direitos sociais, os sindicatos, os movimentos populares e qualquer forma de organização coletiva.
É uma rebeldia domesticada pelo capital.
Grita contra professores, mas silencia diante de bilionários.
Ataca artistas, mas protege especuladores.
Odeia pobres organizados, mas reverencia ricos predatórios.
Fala em liberdade, mas deseja obediência.
Fala em povo, mas governa para poucos.
Essa contradição é fundamental. O fascismo contemporâneo mobiliza o sofrimento real das pessoas, mas oferece uma explicação falsa para esse sofrimento. O trabalhador precarizado tem razão em estar revoltado. O problema é quando sua revolta é capturada por quem o convence de que seu inimigo é outro trabalhador ainda mais vulnerável.
Essa é a engenharia política da dominação: colocar os abandonados uns contra os outros, enquanto os verdadeiros beneficiários do abandono permanecem protegidos.
11. Como enfrentar o fascismo contemporâneo?
A pergunta do anexo é decisiva: qual alternativa seria possível para combater o fascismo que aparece hoje em novas formas?
A primeira resposta é: não basta defender abstratamente a democracia.
Uma democracia que abandona seu povo abre espaço para o fascismo. Uma democracia reduzida ao voto, mas incapaz de garantir dignidade material, proteção social, educação crítica e pertencimento coletivo, torna-se frágil diante das máquinas de ressentimento.
Combater o fascismo exige reconstruir as bases concretas da vida democrática.
Isso significa defender emprego digno, saúde pública, educação de qualidade, moradia, segurança alimentar, cultura, ciência, transporte, proteção ambiental e direitos sociais. Não como pauta secundária, mas como núcleo da luta antifascista.
A segunda resposta é disputar os afetos.
A esquerda, os democratas e os setores humanistas erram quando acreditam que basta apresentar dados corretos. Dados são necessários, mas não bastam. O fascismo não captura apenas opiniões; captura medos, dores, frustrações e desejos de pertencimento.
É preciso reconstruir uma linguagem pública capaz de falar com quem sofre sem humilhar, sem tratar o povo como massa ignorante e sem abandonar a dimensão emocional da política.
Paulo Freire já advertia que a educação libertadora não pode ser uma imposição vertical de saber, mas um processo dialógico de conscientização, no qual os sujeitos se reconhecem como capazes de compreender e transformar a realidade (Freire, 2019). Essa lição vale para a política democrática: não se combate o fascismo desprezando o povo que foi capturado por ele; combate-se criando condições para que esse povo reconheça a origem real de sua dor.
A terceira resposta é reconstruir instituições sem fetichizá-las.
Instituições importam. Supremo Tribunal Federal, Congresso, imprensa, universidades, escolas, sindicatos e órgãos de controle são barreiras relevantes contra o autoritarismo. Mas nenhuma instituição se sustenta sem base social democrática. A democracia precisa ser sentida como proteção concreta na vida cotidiana.
A quarta resposta é regular o poder digital.
Não há combate sério ao fascismo contemporâneo sem enfrentar a arquitetura das plataformas. A desinformação, o discurso de ódio e a radicalização algorítmica não podem ser tratados como simples opinião individual. Há uma indústria política e econômica da desestabilização democrática.
A quinta resposta é recuperar a ética da sensibilidade.
Parece simples, mas é revolucionário: voltar a se importar.
Importar-se com a criança sem escola.
Com o idoso sem atendimento.
Com a mãe que perdeu o filho para a violência.
Com o trabalhador exausto.
Com o jovem sem futuro.
Com o pobre humilhado.
Com o diferente perseguido.
Com a vítima transformada em estatística.
O fascismo cresce quando a dor do outro deixa de nos dizer respeito.
12. Conclusão: contra o fascismo, a reconstrução da humanidade comum
Eu concordo com Safatle quando ele afirma que o fascismo contemporâneo não pode ser compreendido como simples repetição do passado. Ele não precisa retornar com a mesma face porque aprendeu a habitar nossas instituições, nossos algoritmos, nossas conversas familiares, nossos medos privados e nossas frustrações coletivas.
Seu centro não está apenas no líder autoritário. Está na sociedade que aceita ser reorganizada pela indiferença.
A contragestão é justamente isso: o governo pelo abandono, a administração pela desproteção, o controle pela precariedade. É uma forma de poder que não precisa prometer vida digna. Basta transformar a insegurança em destino e oferecer inimigos para aliviar a angústia social.
Por isso, combater o fascismo exige mais do que indignação episódica. Exige projeto histórico. Exige Estado social. Exige educação crítica. Exige regulação democrática das plataformas digitais. Exige enfrentamento da desigualdade. Exige memória histórica. Exige linguagem popular. Exige coragem moral.
Mas, acima de tudo, exige reconstruir a capacidade de reconhecer o outro como humano.
Porque o fascismo começa exatamente quando essa capacidade morre.
E uma sociedade que já não se comove diante do sofrimento que produz está perigosamente pronta para aceitar qualquer barbárie em nome da ordem.
Referências
ADORNO, Theodor W. et al. A personalidade autoritária. São Paulo: Editora Unesp, 2019.
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. São Paulo: Politeia, 2019.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
SAFATLE, Vladimir. A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. São Paulo: Autêntica, 2026.
SAFATLE, Vladimir. Vivemos em fascismos restritos, não em democracias liberais. The Intercept Brasil, 15 abr. 2026. Disponível em: The Intercept Brasil. Acesso em: 5 maio 2026.
STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2018.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
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