quinta-feira, 7 de maio de 2026

Jason Stanley, religião e poder

Como os mecanismos da política fascista encontram pontos de contato em usos políticos do neopentecostalismo no Brasil


Índice

1. Lide

2. O ponto de partida: fé não é fascismo, mas pode ser instrumentalizada

3. O “nós” e “eles” religioso

4. O passado mítico e a restauração moral

5. Propaganda, linguagem sagrada e legitimação política

6. Anti-intelectualismo e suspeita contra universidade, ciência e crítica

7. Irrealidade, guerra espiritual e teorias conspiratórias

8. Hierarquia, autoridade pastoral e obediência

9. Vitimização: a maioria moral que se diz perseguida

10. “Lei e ordem”, gênero e pânico moral

11. Cidade, decadência e a geografia moral da salvação

12. Prosperidade, mérito e a figura do “produtor”

13. Onde a análise precisa ser cuidadosa

14. Conclusão

Referências


1. Lide

Há um erro frequente no debate público brasileiro: tratar toda religião conservadora como se fosse automaticamente autoritária, ou, no extremo oposto, imaginar que a religião, por ser religião, estaria imune a formas de instrumentalização política antidemocrática. As duas posições são pobres. A primeira é intelectualmente preguiçosa. A segunda é politicamente ingênua. O desafio real é outro: compreender em que condições uma tradição religiosa, uma linguagem de fé, uma liderança eclesiástica ou uma cultura devocional podem ser convertidas em veículo de uma política que já não busca convivência democrática, mas mobilização moral contra inimigos.

É exatamente aqui que a obra de Jason Stanley se torna útil. Em Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”, Stanley não reduz o fascismo a um uniforme histórico nem a um símbolo explícito. Ele o examina como um conjunto de táticas: passado mítico, propaganda, anti-intelectualismo, irrealidade, hierarquia, vitimização, “lei e ordem”, ansiedade sexual, demonização das cidades e a separação entre “produtores” e “parasitas”. O autor insiste que o sintoma central dessa política é a divisão intencional da população entre “nós” e “eles”.

Quando esse esquema é colocado em diálogo com a experiência brasileira, sobretudo com certos segmentos e certos usos políticos do protestantismo neopentecostal, o resultado é inquietante. Não porque o neopentecostalismo seja, em essência, fascista. Essa afirmação seria sociologicamente errada e teologicamente grosseira. Mas porque parte de seu vocabulário religioso, de sua gramática moral e de sua forma de organizar autoridade pode ser capturada com grande eficiência por projetos de extrema-direita. Estudos acadêmicos sobre neopentecostalismo no Brasil destacam, entre outros elementos, a centralidade da teologia da prosperidade, da guerra espiritual, da disputa moral em torno de gênero e sexualidade e da crescente presença política evangélica à direita.  

2. O ponto de partida: fé não é fascismo, mas pode ser instrumentalizada

É preciso começar com uma distinção rigorosa. O neopentecostalismo é um fenômeno religioso complexo, heterogêneo e historicamente plural. Ele não pode ser reduzido a um bloco único, e menos ainda a um simples braço da extrema-direita. A literatura acadêmica mostra que o campo pentecostal e neopentecostal no Brasil é diverso, atravessado por disputas internas, distintas formas de inserção social e variados modos de relação com a política. Ao mesmo tempo, essa mesma literatura registra uma forte inflexão conservadora e direitista em segmentos importantes desse universo, especialmente nas últimas décadas.  

Essa precisão importa porque Stanley também não trabalha com essências congeladas. Seu argumento é tático: o perigo está em mecanismos de poder que podem aparecer em diferentes contextos nacionais e institucionais. Aplicado ao caso religioso, isso significa que a pergunta correta não é “o neopentecostalismo é fascista?”, mas outra: em que medida certas formas de discurso, autoridade e mobilização neopentecostal oferecem afinidades eletivas com a política fascista descrita por Stanley? Essa pergunta é mais útil, mais honesta e mais sociologicamente consistente.

3. O “nós” e “eles” religioso

Para Stanley, o coração da política fascista é a divisão da sociedade entre “nós” e “eles”.   Em muitos usos políticos do neopentecostalismo, essa clivagem aparece com notável facilidade. O mundo é narrado em termos de salvos e perdidos, ungidos e ímpios, povo de Deus e inimigos espirituais, família de bem e agentes da corrupção moral. A literatura sobre o campo evangélico à direita no Brasil mostra justamente a presença crescente de um conservadorismo religioso que se organiza por fronteiras morais duras e por antagonismos públicos intensos.  

Em chave estritamente religiosa, essa distinção pode fazer parte de uma cosmologia de fé. O problema começa quando ela é trasladada para o campo político de maneira totalizante. Nesse momento, o adversário já não é apenas alguém que discorda; ele se torna instrumento das trevas, inimigo da família, ameaça à nação cristã, corruptor da infância, perseguidor do povo de Deus. A passagem da diferença teológica para a inimizade política absoluta é precisamente o ponto em que o esquema de Stanley se torna operacional.

4. O passado mítico e a restauração moral

Stanley mostra que a política fascista recorre a um passado mítico, puro e patriarcal, destruído pelo liberalismo, pelo cosmopolitismo e pela igualdade.   Essa estrutura encontra forte ressonância em discursos neopentecostais politizados que falam em “retomar a nação”, “restaurar os valores cristãos”, “recolocar Deus no centro”, “reconstruir a família” e “voltar ao tempo em que havia respeito”.

A questão central não é se tais frases podem ser usadas legitimamente em contexto religioso. Podem. A questão é quando passam a funcionar como mito político restaurador. Nesse ponto, o Brasil é descrito como nação originalmente cristã, moralmente íntegra, ordenada e heterossexual, depois corrompida por feminismo, laicidade, pluralismo religioso, direitos LGBTQIA+, universidades, mídia e esquerda. A literatura acadêmica sobre religião e política no Brasil tem mostrado como esse tipo de enquadramento disputa os sentidos da fé evangélica e a converte em instrumento de intervenção pública de forte marca conservadora.  

Esse passado, claro, não é história. É narrativa disciplinadora. Assim como em Stanley, ele funciona para legitimar hierarquias no presente.

5. Propaganda, linguagem sagrada e legitimação política

Stanley observa que a propaganda fascista usa ideais virtuosos para encobrir fins destrutivos.   No universo religioso, esse mecanismo ganha força ampliada, porque a linguagem da fé já possui enorme autoridade simbólica. Palavras como “Deus”, “família”, “benção”, “propósito”, “proteção”, “unção”, “libertação” e “verdade” têm peso emocional muito maior do que slogans seculares comuns.

Quando lideranças religiosas associam determinado projeto político à vontade divina, a disputa democrática se desequilibra. O voto deixa de ser apresentado como decisão prudencial entre propostas e passa a ser narrado como fidelidade espiritual. A propaganda política, nesse caso, não diz apenas “este candidato é melhor”; ela sugere “este candidato está com Deus”. O adversário, então, deixa de ser apenas contestado; passa a ser moralmente satanizado.

Essa dinâmica se intensifica em ambientes neopentecostais marcados pela centralidade da autoridade pastoral e da comunicação de massa. Estudos sobre a ascensão política pentecostal e sobre a presença evangélica à direita mostram como religião e política têm sido articuladas de maneira cada vez mais orgânica em certos segmentos, inclusive por meio de mídias próprias, púlpitos e lideranças com alta capacidade de mobilização.  

6. Anti-intelectualismo e suspeita contra universidade, ciência e crítica

Um dos capítulos mais fortes de Stanley é o do anti-intelectualismo. A política fascista, diz ele, mina o discurso público atacando educação, especialização e linguagem.   Aqui a correlação com certos usos do neopentecostalismo é particularmente nítida.

Parte da retórica neopentecostal politizada tem operado por oposição sistemática a universidades, professores, ciências humanas, jornalismo profissional e pesquisa sobre gênero e sexualidade. Esses espaços são frequentemente descritos como lugares de “doutrinação”, “marxismo cultural”, “ataque à família” ou “perseguição aos cristãos”. Trabalhos acadêmicos recentes mostram precisamente a instrumentalização religiosa de temas ligados à sexualidade e ao gênero no fortalecimento do conservadorismo e da extrema-direita no Brasil.  

O efeito político é claro: enfraquecem-se as mediações críticas que poderiam limitar o poder da narrativa religiosa totalizante. A ciência deixa de ser correção da crença e passa a ser vista como inimiga da fé. A crítica deixa de ser parte normal da vida pública e passa a ser percebida como ataque espiritual.

7. Irrealidade, guerra espiritual e teorias conspiratórias

Stanley mostra que, quando propaganda e anti-intelectualismo avançam, instala-se um estado de irrealidade em que conspirações e notícias falsas substituem o debate fundamentado.   Esse talvez seja um dos pontos de contato mais delicados com certos segmentos neopentecostais.

A doutrina da guerra espiritual, bastante presente em setores neopentecostais, organiza o mundo como campo de batalha entre forças de Deus e forças demoníacas. Em si mesma, ela é uma construção teológica. Mas, politicamente instrumentalizada, pode se tornar matriz perfeita para teorias conspiratórias. O inimigo político vira agente satânico; políticas públicas indesejadas viram plano do mal; religiões afro-brasileiras, movimentos feministas, artistas, professores e minorias podem ser lidos como vetores de uma corrupção espiritual da nação. Estudos sobre neopentecostalismo no Brasil destacam justamente a centralidade da guerra espiritual e seu vínculo com discursos de domínio religioso e disputa cultural.  

Aqui, a contribuição de Stanley ajuda a ver o perigo: não é apenas que existam crenças fortes, mas que elas possam ser politicamente mobilizadas para destruir o solo comum da realidade compartilhada. Quando o debate público é reencenado como guerra cósmica, a prova empírica perde valor. A fidelidade ao líder espiritual ou político passa a valer mais que a evidência.

8. Hierarquia, autoridade pastoral e obediência

Stanley insiste que a política fascista substitui a igualdade por hierarquia.   Certos arranjos neopentecostais oferecem terreno fértil para isso porque se organizam em torno de forte autoridade pastoral, personalismo carismático e obediência intensiva.

Isso não significa que toda autoridade religiosa seja antidemocrática. Mas significa que, quando a figura do pastor é construída como intérprete privilegiado da vontade divina, a comunidade pode ser treinada para uma cultura de submissão vertical. O líder não apenas orienta espiritualmente; ele decide moralmente, interpreta politicamente e disciplina socialmente. O salto para o autoritarismo político torna-se menor, porque a forma de obediência já foi treinada na experiência religiosa.

Nesse ponto, a analogia com Stanley é poderosa: o líder fascista funciona como pai da nação; o líder religioso autoritário, como pai da comunidade moral. Quando essas duas figuras se alinham, a submissão espiritual pode ser traduzida em adesão política.

9. Vitimização: a maioria moral que se diz perseguida

Stanley mostra que a política fascista explora a vitimização da população dominante.   Nada é mais reconhecível, no Brasil recente, do que a produção da imagem do cristão conservador como maioria moral perseguida.

Essa narrativa é central em segmentos neopentecostais politizados: apesar do enorme crescimento institucional, midiático e parlamentar evangélico, parte do discurso segue afirmando que “os cristãos estão sendo calados”, “a igreja está sendo perseguida”, “não se pode mais pregar a verdade”, “há um plano para destruir a família cristã”. O efeito disso é extraordinário: uma posição socialmente forte consegue se apresentar como vítima sitiada.

A literatura sobre evangélicos à direita e sobre o embate de sentidos da fé no Brasil mostra essa reconfiguração da identidade evangélica em chave de confronto e perseguição moral.   Stanley ajuda a perceber o mecanismo: a vitimização não expressa fraqueza real; ela é tecnologia de mobilização.

10. “Lei e ordem”, gênero e pânico moral

Entre os mecanismos de Stanley estão “lei e ordem” e ansiedade sexual.  Ambos encontram paralelos fortes na politização neopentecostal.

De um lado, há a defesa punitivista da ordem, muitas vezes ligada a uma visão moralizante do crime, da polícia e da autoridade. De outro, há a centralidade das guerras culturais em torno de gênero, sexualidade, escola e infância. Pesquisas recentes mostram como sexualidade e gênero têm sido instrumentalizados religiosamente no fortalecimento do conservadorismo contemporâneo.  

Aqui, a correlação com Stanley é direta: o inimigo não é apenas o criminoso, mas o suposto corruptor da ordem moral; não é apenas o adversário político, mas o agente que ameaça crianças, família e masculinidade. A política se torna catequese punitiva.

11. Cidade, decadência e a geografia moral da salvação

Stanley observa que a política fascista tende a opor o campo moralmente puro à cidade cosmopolita e decadente.   Em vários discursos neopentecostais politizados, aparece algo parecido: a cidade como espaço de perdição, mistura, prostituição, drogas, relativismo e ataque espiritual; em contraste, a comunidade religiosa surge como refúgio moral, família ampliada e território da verdade.

Não se trata de dizer que o neopentecostalismo seja ruralista por definição. Muitas dessas igrejas são profundamente urbanas. O ponto é outro: a construção de uma geografia moral na qual o “mundo” é decadente e a comunidade dos salvos é pureza sitiada. Politicamente, isso facilita a transposição para o esquema “nós” e “eles”.

12. Prosperidade, mérito e a figura do “produtor”

Um dos mecanismos de Stanley é a oposição entre produtores e parasitas.   Aqui a conexão com a teologia da prosperidade é particularmente relevante. Trabalhos acadêmicos sobre neopentecostalismo destacam a centralidade da prosperidade material, da vitória imediata e da lógica segundo a qual fé, sacrifício e obediência produzem bênção concreta.  

Politicamente, isso pode favorecer uma visão moralizada da economia: prospera quem tem fé, disciplina e alinhamento; fracassa quem não se esforça, não crê ou está sob maldição. O passo seguinte é fácil: o pobre vira suspeito moral, o beneficiário de políticas sociais vira “dependente”, o opositor vira “parasita”, e o empresário religioso ou político vira “vencedor” legitimado por Deus. A gramática do mérito espiritual pode deslizar para a legitimação de desigualdades sociais e para a condenação moral dos vulneráveis.

13. Onde a análise precisa ser cuidadosa

Apesar de todas essas correlações, é preciso manter uma distinção decisiva: afinidade não é identidade. Nem toda igreja neopentecostal adere a essa lógica. Nem todo fiel compartilha desses usos políticos. Nem toda teologia da prosperidade desemboca em autoritarismo. Nem toda guerra espiritual vira conspiração política.

Além disso, o neopentecostalismo também responde a sofrimentos concretos: precariedade, doença, humilhação social, busca de pertencimento, desejo de cura, necessidade de reconstrução subjetiva. Há trabalhos que mostram o papel de cura, subjetivação e acolhimento dessas igrejas em contextos de vulnerabilidade.   Uma análise séria não pode ignorar isso.

O ponto, portanto, não é demonizar a experiência religiosa, mas mostrar como ela pode ser capturada por uma forma de política que Stanley descreve com precisão.

14. Conclusão

A leitura de Jason Stanley oferece uma lente poderosa para compreender os riscos presentes em certos usos políticos do neopentecostalismo no Brasil. Seu valor não está em fornecer um rótulo simplista, mas em permitir uma análise estrutural. Quando uma linguagem religiosa passa a organizar o mundo em “nós” e “eles”; quando mobiliza um passado moralmente puro a ser restaurado; quando sequestra palavras sagradas para legitimar projetos de poder; quando demoniza universidade, ciência e imprensa; quando transforma conflito político em guerra cósmica; quando exalta hierarquia, vitimização, punitivismo, patriarcado e prosperidade meritocrática, então ela se aproxima perigosamente da gramática da política fascista tal como Stanley a descreve.

O desafio democrático, portanto, não é combater a religião, mas impedir sua captura por projetos que desejam abolir a própria pluralidade do mundo. O problema não é a fé em Deus. O problema é quando a fé passa a ser usada para interditar a crítica, naturalizar a desigualdade, sacralizar o líder e converter o adversário em inimigo espiritual. Nesse ponto, a religião já não funciona como transcendência; ela se torna tecnologia de poder.

Referências

ALMEIDA, Ronaldo de. Evangélicos à direita. Horizontes Antropológicos, 2020.  

ANTONIO, Gerson Hélder Balieiro. O neopentecostalismo e os dilemas da modernidade periférica. Revista Brasileira de Ciência Política, 2014.  

GUERREIRO, Clayton et al. Negacionismo religioso: Bolsonaro e lideranças pentecostais na pandemia. Religião & Sociedade, 2021.  

MOURA, Cláudia H. G. Instrumentalização da religião, sexualidade e gênero no Brasil contemporâneo. Psicologia: Ciência e Profissão, 2023.  

PENA, Ariane A. P. Cristianismo de libertação, teologia da prosperidade e as disputas educacionais. Revista Brasileira de Educação, 2022.  

SILVA, Vagner Gonçalves da. Significados do ataque aos símbolos da herança religiosa afro-brasileira. Mana, 2007.  

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Tradução de Bruno Alexander. Porto Alegre: L&PM, 2018.  

SOUZA, André Ricardo de. Percursos do diabo e seus papéis nas igrejas neopentecostais. Horizontes Antropológicos, 2019.  



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