segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Leviatã Digital e a corrupção da discordância

Nietzsche, bolhas políticas e o risco democrático nas eleições brasileiras de 2026


Lide

A frase atribuída a Friedrich Nietzsche — “a maneira mais segura de corromper um jovem é instruí-lo a ter em maior estima aqueles que pensam como ele do que aqueles que pensam diferente” — parece ter sido escrita para o nosso tempo. Ao lê-la, não penso apenas na juventude biológica, mas na juventude política de uma sociedade que ainda aprende, com dor, a viver democraticamente. O Brasil das últimas eleições presidenciais mostrou como a recusa da diferença pode ser transformada em método político, combustível eleitoral e arma de guerra cultural. Em 2026, mesmo com Jair Bolsonaro declarado inelegível pelo TSE por oito anos a partir das eleições de 2022, o bolsonarismo permanece como força simbólica, afetiva e digital capaz de reorganizar ressentimentos, medos e identidades políticas. O perigo, agora, não está apenas no líder, mas no sistema que aprendeu a fabricar obediência emocional em escala industrial. É aqui que entra o Leviatã Digital: a máquina invisível das plataformas, dos algoritmos, das bolhas, dos disparos, da inteligência artificial generativa e das narrativas que transformam divergência em inimigo.

O Tribunal Superior Eleitoral declarou Bolsonaro inelegível em 2023 por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, reconhecendo que ataques infundados ao sistema eleitoral afetam a confiança democrática.   Em 2024, o próprio TSE regulamentou o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral, proibindo deepfakes e exigindo identificação de conteúdos sintéticos, sinal de que o campo eleitoral entrou definitivamente na era da manipulação algorítmica.  


Artigo

Eu começo por Nietzsche porque há frases que envelhecem como advertências. Não são apenas pensamentos bonitos para circular em redes sociais; são lâminas conceituais. Quando leio que a forma mais segura de corromper um jovem é ensiná-lo a valorizar mais quem pensa como ele do que quem pensa diferente, vejo diante de mim o retrato moral da política contemporânea. A corrupção, nesse caso, não é apenas financeira, institucional ou jurídica. É uma corrupção da alma pública. É a deformação da capacidade de escutar. É a transformação da diferença em ameaça. É a substituição da inteligência pela fidelidade tribal.

A frase é atribuída a Nietzsche e aparece associada à obra Aurora, de 1881, em registros como o do Smithsonian American Art Museum.   Ainda que a circulação popular simplifique muitas vezes o contexto filosófico, o sentido permanece poderoso: uma sociedade se empobrece quando ensina seus jovens — e também seus adultos — a desconfiar do pensamento divergente. O problema não é concordar com os semelhantes. O problema é acreditar que somente os semelhantes merecem respeito.

Essa é a semente de toda política autoritária. Antes de destruir instituições, ela destrói a escuta. Antes de atacar tribunais, universidades, imprensa, ciência e Parlamento, ela ataca a disposição íntima de conviver com a diferença. Antes de prender corpos, aprisiona a imaginação. O autoritarismo começa quando o outro deixa de ser adversário e passa a ser inimigo moral.

Nas eleições brasileiras em que Jair Bolsonaro foi candidato, especialmente em 2018 e 2022, esse fenômeno apareceu de modo intenso. Não se tratou apenas de uma disputa convencional entre projetos de governo. Tratou-se de uma reorganização afetiva da política brasileira. A eleição virou campo de batalha identitária. Famílias se dividiram. Grupos de WhatsApp se transformaram em trincheiras. A imprensa foi apresentada como inimiga. A Justiça Eleitoral foi atacada. A ciência, durante a pandemia, foi relativizada. A urna eletrônica, sem prova consistente de fraude, tornou-se alvo permanente de suspeição.

O ponto central não é dizer que todo eleitor de Bolsonaro seja autoritário. Isso seria intelectualmente pobre e politicamente injusto. O ponto é outro: o bolsonarismo, como fenômeno político, soube explorar uma fragilidade humana profunda — o desejo de pertencer. Em momentos de medo, crise econômica, insegurança social e descrença institucional, muita gente prefere uma narrativa simples a uma explicação complexa. Prefere um culpado visível a uma análise estrutural. Prefere uma comunidade emocional a uma democracia cheia de dúvidas.

É exatamente aí que Nietzsche se torna atual. Corromper um jovem — ou um eleitor — é ensiná-lo a confundir pensamento crítico com traição. É ensiná-lo a ver o contraditório como ameaça. É fazê-lo acreditar que a verdade está sempre com o grupo, nunca com o argumento. Quando isso acontece, a política deixa de ser exercício público da razão e passa a ser liturgia de pertencimento.

O Brasil viveu isso com força. Em 2022, a desconfiança contra o sistema eleitoral foi alimentada de maneira sistemática. O TSE reconheceu, ao declarar Bolsonaro inelegível, que houve abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação em reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada, na qual se atacou a credibilidade do processo eleitoral brasileiro.   O fato é grave porque não se tratava de um cidadão comum emitindo opinião privada. Tratava-se do chefe de Estado usando sua posição institucional para corroer a confiança no próprio sistema pelo qual havia sido eleito.

Essa corrosão é uma das formas mais perigosas de violência política moderna. Não precisa necessariamente de tanques nas ruas para começar. Basta semear a dúvida permanente. Basta repetir que nada é confiável. Basta insinuar que toda derrota é fraude. Basta convencer uma base política de que as instituições só são legítimas quando confirmam sua vontade.

O nome disso é erosão democrática. Ela não ocorre de uma vez. Ela acontece por gotejamento. Um ataque à imprensa hoje. Uma suspeita contra as urnas amanhã. Uma teoria conspiratória depois. Uma desumanização do adversário na semana seguinte. Quando a sociedade percebe, já não debate mais políticas públicas; debate fantasmas.

É nesse cenário que proponho a imagem do Leviatã Digital. Thomas Hobbes imaginou o Leviatã como o grande corpo político que concentra força para evitar a guerra de todos contra todos. No mundo contemporâneo, porém, surgiu outro monstro: não necessariamente o Estado soberano clássico, mas uma arquitetura invisível de plataformas, algoritmos, bancos de dados, inteligência artificial, métricas de engajamento, impulsionamento, vigilância comportamental e manipulação emocional.

Esse Leviatã Digital não precisa mandar diretamente. Ele sugere. Ele ranqueia. Ele recomenda. Ele oculta. Ele amplifica. Ele mostra ao cidadão aquilo que o prende por mais tempo diante da tela. E, como a raiva engaja mais do que a serenidade, como o medo circula mais rápido do que a prudência, como a mentira escandalosa muitas vezes viaja mais depressa do que a correção responsável, a máquina tende a privilegiar conteúdos emocionalmente inflamáveis.

A política aprendeu isso. E quem aprendeu melhor passou a tratar o eleitor não apenas como cidadão, mas como alvo comportamental. A pergunta deixou de ser apenas: “qual projeto de país convence essa pessoa?”. Passou a ser: “qual medo ativa essa pessoa?”, “qual inimigo mobiliza essa pessoa?”, “qual ressentimento faz essa pessoa compartilhar uma mensagem às duas da manhã?”.

Essa mudança é profunda. A democracia liberal moderna foi construída sobre a ideia de cidadão racional, informado, capaz de deliberar. Mas o capitalismo de plataformas descobriu o cidadão pulsional, irritável, ansioso, solitário, ressentido, monitorado e previsível. A política digital não fala apenas à razão. Ela fala ao sistema nervoso.

Por isso, 2026 preocupa. Não porque se possa afirmar com certeza o que ocorrerá, mas porque as condições tecnológicas e emocionais para uma nova rodada de radicalização continuam presentes. Bolsonaro está inelegível por decisão do TSE, que o tornou impedido de disputar eleições por oito anos contados a partir de 2022.   Mesmo assim, o bolsonarismo não depende apenas da presença formal de Bolsonaro na urna. Ele opera como cultura política. Como linguagem. Como identidade. Como rede de influenciadores. Como gramática de suspeição. Como economia moral do ressentimento.

Esse é o ponto decisivo: uma liderança pode ser juridicamente afastada da disputa, mas a forma política que ela ajudou a consolidar pode permanecer viva. Em 2026, o risco não será apenas perguntar quem será o candidato apoiado por Bolsonaro ou por seu campo político. A pergunta mais importante será: que tipo de eleitorado foi produzido pela década anterior? Um eleitorado aberto à divergência ou treinado para odiá-la? Um eleitorado disposto a verificar fatos ou condicionado a rejeitar toda informação incômoda como conspiração? Um eleitorado que reconhece adversários ou que precisa de inimigos?

A frase de Nietzsche toca exatamente nessa ferida. O jovem corrompido não é aquele que escolhe uma posição política. Isso é natural. Toda pessoa pensa a partir de valores, experiências, classe social, religião, território, formação e afetos. O jovem corrompido é aquele que perde a capacidade de admirar a inteligência do outro. É aquele que só respeita quem confirma suas certezas. É aquele que confunde discordância com inferioridade moral.

No bolsonarismo, esse mecanismo apareceu muitas vezes pela lógica da pureza: “cidadãos de bem” contra “comunistas”; “patriotas” contra “traidores”; “povo” contra “sistema”; “Deus” contra “inimigos da fé”; “liberdade” contra “ditadura do Judiciário”. Essas fórmulas são politicamente eficazes porque simplificam o mundo. Elas dão conforto a quem está perdido. Mas também interditam a complexidade.

Quando a política se organiza assim, não há espaço para mediação. Quem discorda não está apenas errado; está corrompido. Quem questiona não está apenas fazendo crítica; está servindo ao inimigo. Quem pede prova não está defendendo método; está acobertando uma fraude. Esse é o mecanismo psicológico que transforma democracia em seita política.

O Leviatã Digital amplia esse processo porque entrega a cada grupo um espelho. O sujeito entra na rede achando que está vendo o mundo, mas muitas vezes está vendo apenas uma versão personalizada de si mesmo. Seu medo volta para ele em forma de notícia. Sua raiva volta em forma de meme. Seu preconceito volta em forma de “opinião corajosa”. Sua suspeita volta em forma de denúncia sem prova. Aos poucos, a pessoa deixa de conversar com a realidade e passa a conversar com sua própria bolha.

Essa é a corrupção nietzschiana em escala algorítmica. Antes, uma família, uma igreja, uma escola ou um partido poderiam ensinar alguém a desprezar quem pensa diferente. Hoje, uma infraestrutura digital inteira pode fazer isso de modo automatizado, lucrativo e permanente.

O problema se agrava com a inteligência artificial generativa. Em 2024, o TSE já proibiu deepfakes e estabeleceu regras sobre o uso de IA na propaganda eleitoral.   Essa decisão não surgiu por acaso. Ela indica que a democracia entrou numa fase em que não basta discutir mentira escrita. Será preciso discutir voz falsa, imagem falsa, vídeo falso, documento falso, áudio falso, print falso, emoção falsa e indignação fabricada.

A desinformação clássica dizia: “isso aconteceu”. A desinformação algorítmica diz: “veja com seus próprios olhos”. E quando os olhos podem ser enganados por imagens sintéticas, quando a voz de alguém pode ser clonada, quando um vídeo pode simular um acontecimento inexistente, a política entra numa crise epistemológica. A pergunta deixa de ser apenas “em quem votar?”. Passa a ser “em que realidade acreditar?”.

A UNESCO e a OCDE têm alertado para os riscos da inteligência artificial, da desinformação e dos deepfakes para a integridade informacional e a democracia.   No Brasil, esse risco assume contornos próprios porque a sociedade já passou por um ciclo recente de ataques ao processo eleitoral. Ou seja, a IA não chega a um terreno neutro. Ela chega a um país onde parte do eleitorado já foi treinada a desconfiar das instituições.

Esse treinamento é a base da manipulação. Primeiro, enfraquece-se a confiança na imprensa. Depois, enfraquece-se a confiança na ciência. Em seguida, enfraquece-se a confiança no sistema eleitoral. Por fim, apresenta-se o líder ou seu grupo como única fonte legítima de verdade. Esse caminho é conhecido nas experiências autoritárias. A novidade contemporânea é que agora ele pode ser acelerado por redes sociais, microsegmentação e inteligência artificial.

A eleição de 2026, portanto, será muito mais do que uma disputa entre nomes. Será uma disputa pela capacidade coletiva de distinguir crítica legítima de sabotagem institucional. Democracia não exige obediência cega aos tribunais, governos ou meios de comunicação. Pelo contrário: exige fiscalização, crítica e transparência. Mas há uma diferença brutal entre criticar uma instituição com base em fatos e destruir a confiança pública com base em mentiras sistemáticas.

A crítica fortalece a democracia. A mentira organizada a envenena.

Quando Bolsonaro atacou as urnas sem apresentar provas proporcionais à gravidade das acusações, não estava apenas fazendo uma reclamação eleitoral. Estava produzindo uma subjetividade política: a subjetividade do eleitor que só aceita o resultado se vencer. Essa subjetividade é incompatível com a democracia. Democracia não é o regime em que meu lado sempre ganha. Democracia é o regime em que meu lado pode perder sem que eu destrua as regras do jogo.

Em 2026, esse será um teste decisivo. As datas eleitorais já foram definidas pelo TSE no calendário das eleições, com o primeiro turno previsto para outubro de 2026.   Mas a eleição real já começou antes: começou na disputa por atenção, na formação das bolhas, na guerra de narrativas, nas tentativas de reconstrução da memória de 2022 e 8 de janeiro, na tentativa de transformar punição judicial em martírio político, na fabricação de novas vítimas simbólicas.

O bolsonarismo, como outras formas contemporâneas de extrema direita, opera muito bem com a figura do perseguido. Mesmo quando ocupa posições de poder, apresenta-se como minoria oprimida. Mesmo quando ataca instituições, diz estar sendo atacado. Mesmo quando mobiliza multidões, diz ser silenciado. Essa inversão é uma técnica política poderosa. Ela transforma responsabilização em perseguição, processo judicial em censura, derrota eleitoral em fraude, crítica jornalística em conspiração.

O Leviatã Digital potencializa essa inversão porque permite que uma narrativa seja repetida milhares de vezes, por milhares de perfis, em múltiplas plataformas, até parecer espontânea. A mentira, quando coordenada, ganha aparência de consenso. A indignação, quando automatizada, ganha aparência de povo. A bolha, quando numerosa, ganha aparência de país.

Mas o país real é mais complexo do que qualquer bolha. O Brasil não cabe em um grupo de WhatsApp. Não cabe em um algoritmo de recomendação. Não cabe em uma live. Não cabe em uma hashtag. O Brasil é contraditório, desigual, plural, religioso e secular, urbano e rural, conservador e progressista, popular e elitizado, ressentido e generoso, violento e solidário. Quem tenta reduzir esse país a uma única narrativa não o ama; tenta possuí-lo.

É por isso que a política da semelhança é tão perigosa. Ela parece confortável, mas é empobrecedora. Quando só converso com quem pensa como eu, minha visão de mundo enferruja. Quando só leio quem confirma minhas convicções, minha inteligência fica preguiçosa. Quando só respeito quem pertence ao meu grupo, minha moral vira tribalismo. E quando a política inteira funciona assim, a democracia adoece.

Nietzsche, nesse sentido, não nos oferece uma cartilha eleitoral. Oferece uma provocação ética. Ele nos obriga a perguntar: que tipo de formação política estamos dando às novas gerações? Estamos formando jovens capazes de suportar a diferença ou jovens treinados para cancelar, odiar, ridicularizar e excluir? Estamos formando cidadãos ou militantes de reflexo automático? Estamos ensinando pensamento crítico ou apenas fidelidade identitária?

Essa pergunta vale para todos os campos políticos. Nenhum grupo está imune ao fechamento sectário. A diferença é que, no Brasil recente, a extrema direita bolsonarista transformou essa dinâmica em método sistemático de mobilização. O problema não é apenas ter opinião forte. O problema é converter opinião em muralha contra a realidade.

O Leviatã Digital não cria sozinho o autoritarismo. Seria ingênuo culpar apenas a tecnologia. O ressentimento social tem raízes materiais: desigualdade, precarização do trabalho, medo da violência, crise de representação, humilhação cotidiana, frustração econômica, abandono territorial, falência de expectativas. A tecnologia não inventa esses sentimentos. Ela os captura, organiza e monetiza.

A extrema direita entendeu que muitas pessoas não queriam apenas propostas; queriam reconhecimento. Queriam ouvir que sua dor tinha culpados. Queriam ouvir que sua raiva era virtude. Queriam ouvir que sua confusão era lucidez. Queriam ouvir que odiar o outro era defender a pátria. Foi assim que o ressentimento virou identidade política.

A esquerda, o centro democrático, a imprensa, a universidade e as instituições precisam compreender isso com seriedade. Não basta chamar tudo de ignorância. Há ignorância, sim, mas há também abandono. Há manipulação, mas há também sofrimento real. Há fanatismo, mas há também medo. Uma democracia madura precisa combater a mentira sem desprezar o sujeito que foi capturado por ela.

Esse é um dos maiores desafios de 2026: enfrentar o bolsonarismo sem desumanizar seus eleitores. Criticar duramente lideranças autoritárias, redes de desinformação e ataques institucionais, mas sem cair na armadilha de tratar milhões de brasileiros como moralmente descartáveis. A democracia não vence imitando a lógica do inimigo absoluto. Vence reconstruindo espaços de verdade, justiça e convivência.

Mas isso exige coragem. Porque dialogar não é passar pano. Escutar não é concordar. Compreender não é absolver. Defender direitos não é aceitar chantagem golpista. Uma sociedade democrática precisa ser firme contra quem ataca as regras do jogo e, ao mesmo tempo, inteligente para recuperar aqueles que foram intoxicados pela pedagogia do ódio.

A pedagogia do ódio é simples: ela ensina que pensar diferente é ameaça. A pedagogia democrática é mais difícil: ela ensina que pensar diferente pode ser incômodo, mas é necessário. A primeira produz soldados de causa. A segunda produz cidadãos. A primeira precisa de inimigos. A segunda precisa de instituições. A primeira vive de certezas absolutas. A segunda sobrevive pela dúvida responsável.

O Leviatã Digital trabalha contra essa dúvida. Ele premia a certeza agressiva. Premia frases curtas, indignações rápidas, acusações virais, memes violentos, cortes descontextualizados. O pensamento complexo, por sua vez, é lento. Exige tempo, leitura, memória, contradição, paciência. Em uma sociedade acelerada, pensar virou quase um ato de resistência.

Talvez por isso a frase de Nietzsche incomode tanto. Ela nos lembra que a corrupção mais profunda não é ensinar alguém a errar. Errar faz parte da vida. A corrupção mais profunda é ensinar alguém a não querer encontrar quem possa mostrar seu erro. É destruir a humildade intelectual. É matar a curiosidade. É transformar convicção em cárcere.

As eleições de 2026 podem repetir comportamentos já observados: campanhas de suspeição contra pesquisas eleitorais, ataques preventivos ao sistema de votação, uso de pânico moral, exploração religiosa da política, circulação de vídeos manipulados, tentativa de transformar decisões judiciais em prova de perseguição, reativação de teorias conspiratórias, ataques à imprensa e mobilização afetiva contra “inimigos internos”. Não afirmo isso como profecia, mas como risco plausível diante do repertório político recente.

O Brasil precisa se antecipar. O TSE avançou ao regular IA, deepfakes e propaganda digital.   Mas regulação eleitoral não basta. É necessário fortalecer educação midiática, transparência algorítmica, responsabilização de plataformas, jornalismo profissional, cultura científica e formação política crítica. Uma democracia não se protege apenas com leis. Protege-se também com cidadãos capazes de reconhecer manipulação.

Aqui volto à juventude. O jovem de Nietzsche, no Brasil de 2026, não é apenas o estudante na escola. É qualquer pessoa submetida diariamente à educação invisível dos algoritmos. Todos estamos sendo formados por telas. Todos estamos sendo treinados por sistemas de recomendação. Todos estamos sendo empurrados para comunidades de semelhança. A pergunta é: quem educa nossa atenção?

Se nossa atenção é educada pelo ódio, colheremos violência. Se é educada pela suspeita permanente, colheremos cinismo. Se é educada pela idolatria política, colheremos servidão. Se é educada pela diferença, pela leitura, pelo contraditório e pela responsabilidade, talvez ainda possamos colher democracia.

Não escrevo isso de modo neutro, porque neutralidade diante da destruição democrática pode virar cumplicidade. Escrevo em primeira pessoa porque considero necessário assumir posição: nenhuma sociedade sobrevive quando transforma adversários em inimigos existenciais. Nenhum país amadurece quando ensina seus jovens a desprezar quem pensa diferente. Nenhuma eleição é plenamente livre quando parte do eleitorado é bombardeada por mentiras calculadas para capturar medo, fé, ressentimento e identidade.

O Brasil precisa discutir 2026 não apenas como calendário eleitoral, mas como batalha civilizatória pela integridade da esfera pública. A questão não é apenas quem vencerá. A questão é que tipo de povo sairá dessa eleição. Um povo mais capaz de conviver ou mais treinado para odiar? Um povo mais crítico ou mais fechado em bolhas? Um povo mais livre ou mais domesticado pelo Leviatã Digital?

A democracia brasileira já mostrou força. Resistiu a ataques, realizou eleições, preservou a alternância de poder e manteve instituições funcionando. Mas resistência não é garantia eterna. Democracias morrem quando se acostumam com pequenas degradações. Morrem quando a mentira vira opinião legítima. Morrem quando a violência verbal vira estilo. Morrem quando a suspeição sem prova vira estratégia. Morrem quando a juventude — biológica ou política — aprende que só merece estima quem pensa igual.

Por isso, a frase atribuída a Nietzsche precisa ser lida como advertência nacional. O Brasil não será corrompido apenas por golpes explícitos. Pode ser corrompido por uma pedagogia cotidiana da intolerância. Pode ser corrompido por algoritmos que nos devolvem apenas nossos próprios fantasmas. Pode ser corrompido por líderes que exploram medo em vez de construir futuro. Pode ser corrompido por cidadãos que preferem a segurança da bolha ao desconforto da verdade.

Em 2026, o verdadeiro desafio não será apenas derrotar este ou aquele candidato. Será derrotar a lógica que transforma política em seita, tecnologia em manipulação e divergência em crime moral. Será reconstruir a capacidade de discordar sem destruir. Será lembrar que a democracia começa justamente onde termina a idolatria do semelhante.

Afinal, uma sociedade que só estima quem pensa igual já não pensa: apenas repete.


Cinco pontos relevantes do artigo

  1. A frase atribuída a Nietzsche permite interpretar a política contemporânea como crise da escuta e da convivência democrática.
  2. O bolsonarismo permanece relevante em 2026 como cultura política, mesmo com Bolsonaro inelegível.
  3. O Leviatã Digital representa a captura algorítmica da atenção, do medo e do ressentimento político.
  4. A inteligência artificial generativa aprofunda o risco eleitoral por meio de deepfakes, manipulação visual e desinformação personalizada.
  5. A defesa da democracia exige regulação, educação midiática, pensamento crítico e reconstrução da confiança pública.


Referências

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

NIETZSCHE, Friedrich. Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O’NEIL, Cathy. Algoritmos de destruição em massa. São Paulo: Rua do Sabão, 2020.

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. Facts not fakes: tackling disinformation, strengthening information integrity. Paris: OECD, 2024.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Por maioria de votos, TSE declara Bolsonaro inelegível por 8 anos. Brasília: TSE, 2023.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. TSE proíbe uso de inteligência artificial para criar e propagar conteúdos falsos nas eleições. Brasília: TSE, 2024.

UNESCO. Artificial intelligence and democracy. Paris: UNESCO, 2024.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


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