Quando a hegemonia dos Estados Unidos já não organiza sozinha o mundo
A fala do professor Leonardo Trevisan, na entrevista a Cesar Calejon, (https://youtu.be/1f71kJXxQS0?si=rKDEw9IXM5nSmr9v) tem uma força especial porque não se perde na espuma dos acontecimentos. Ele não olha apenas para Trump, para a China, para o Irã ou para o Brasil como peças isoladas. Ele enxerga o tabuleiro. E, nesse tabuleiro, a tese central é direta: os Estados Unidos continuam poderosos, mas já não conseguem organizar sozinhos a ordem mundial.
Essa é a grande mudança histórica. Durante décadas, Washington funcionou como eixo político, militar, financeiro e simbólico do sistema internacional. O dólar, a OTAN, Wall Street, o Vale do Silício, Hollywood, as bases militares e as instituições multilaterais davam aos Estados Unidos uma autoridade quase automática. Mas a história raramente termina onde os impérios imaginam. A hegemonia norte-americana não acabou, mas está sendo corroída por dentro e pressionada por fora.
Donald Trump é menos a causa dessa crise e mais o sintoma dela. Sua política externa agressiva, comercialmente protecionista e diplomaticamente errática expressa a tentativa de um império de recuperar, no grito, uma centralidade que já não se sustenta apenas pela força. Quando Trevisan fala do isolamento de Trump, inclusive diante de aliados europeus, ele está dizendo algo profundo: a liderança norte-americana deixou de ser consenso até entre aqueles que tradicionalmente orbitavam Washington.
A China não grita: ela controla gargalos
Um dos pontos mais importantes levantados por Trevisan é o papel das terras raras. A China não domina apenas fábricas, exportações e infraestrutura. Ela domina partes decisivas da cadeia material da tecnologia contemporânea.
Segundo a Agência Internacional de Energia, a China responde por cerca de 60% da produção minerada global de terras raras magnéticas, por mais de 90% do refino e por quase 95% da produção de ímãs permanentes. Esses materiais são fundamentais para veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, sistemas digitais e equipamentos militares.
Aqui está o coração da nova geopolítica: o poder do século XXI não está apenas no míssil, no porta-aviões ou no discurso presidencial. Está no mineral crítico, no semicondutor, no fertilizante, no porto, na rota marítima, no cabo submarino e na capacidade de transformar matéria-prima em dependência estratégica.
A China entendeu isso com antecedência. Enquanto parte do Ocidente ainda falava de globalização como se fosse apenas livre mercado, Pequim tratava cadeias produtivas como instrumentos de soberania. Isso não significa romantizar a China, nem ignorar seus interesses de potência. Significa reconhecer o óbvio: ela joga xadrez geoeconômico com paciência histórica.
Energia, fertilizantes e inflação: a guerra chega ao prato
Trevisan também chama atenção para os impactos econômicos das tensões no Oriente Médio. Esse ponto é essencial porque muitos ainda tratam geopolítica como algo distante, quase abstrato. Mas uma crise no Estreito de Ormuz aparece rapidamente no preço do petróleo, do gás, do frete, do fertilizante, do alimento e, por fim, no bolso do trabalhador.
O Banco Mundial projetou, no relatório Commodity Markets Outlook de abril de 2026, alta de 16% nos preços globais de commodities em 2026, puxada por energia, fertilizantes e metais. A instituição também projetou aumento de 24% nos preços de energia no ano, em razão do choque provocado pela guerra no Oriente Médio.
Esse dado confirma a intuição de Trevisan: ninguém sai ileso quando a cadeia produtiva global entra em desorganização. Talvez empresas petrolíferas lucrem no curto prazo, mas sociedades inteiras pagam a conta. Energia cara significa produção cara. Produção cara significa alimento caro. Alimento caro significa inflação. Inflação significa perda de renda, instabilidade social e pressão política.
A Reuters noticiou, em 1º de maio de 2026, que a crise energética provocada pela guerra com o Irã afetou o mercado global de gás natural liquefeito, com forte alta de preços na Europa e na Ásia. O Guardian, por sua vez, registrou a disparada do petróleo diante do agravamento das tensões envolvendo o Estreito de Ormuz.
É nesse ponto que a geopolítica deixa de ser mapa e vira supermercado.
O Brasil como fiel da balança
A parte mais provocadora da fala de Trevisan é a leitura sobre o Brasil. Ele afirma que o país vive uma espécie de “sorte histórica”. Eu diria de outro modo: o Brasil está diante de uma janela rara, mas janela não é destino. Pode ser oportunidade ou desperdício.
O Brasil tem alimentos, água, energia, biodiversidade, território, mercado interno, minérios estratégicos, capacidade diplomática e posição geográfica relevante. Em um mundo fragmentado, esses ativos deixam de ser apenas vantagens naturais e passam a ser instrumentos de negociação internacional.
A participação brasileira como país parceiro da Hannover Messe 2026 reforça essa percepção. A própria feira apresentou o Brasil como força da transformação industrial sustentável e maior economia da América Latina. A ApexBrasil informou que o Pavilhão Brasil reuniu empresas, instituições e governo em uma área de 2.660 m², distribuída em seis halls, com o objetivo de gerar negócios e fortalecer a imagem internacional do país.
Isso é mais do que vitrine. É sinal de reposicionamento. A Europa olha para o Brasil não apenas como exportador de soja, minério e carne, mas como parceiro potencial em energia limpa, indústria verde, biotecnologia, alimentos, minerais críticos e cadeias produtivas menos dependentes da Ásia.
Mercosul-União Europeia: pragmatismo e disputa
Outro ponto decisivo é o acordo Mercosul-União Europeia. A Comissão Europeia informou que o acordo comercial passou a ser aplicado provisoriamente em 1º de maio de 2026 e cria uma zona comercial de aproximadamente 700 milhões de pessoas.
Esse acordo não é neutro. Há críticas ambientais, receios de agricultores europeus, disputas regulatórias e assimetrias produtivas. Mas, do ponto de vista geopolítico, ele sinaliza algo muito claro: Europa e América do Sul procuram alternativas diante de um mundo mais protecionista, instável e marcado pela rivalidade entre Estados Unidos e China.
Para o Brasil, o acordo pode ser uma chance de ampliar mercados, atrair investimentos e sofisticar sua inserção internacional. Mas também pode aprofundar uma armadilha antiga: exportar produtos primários e importar bens tecnológicos de maior valor agregado. Por isso, o debate não pode ser ingênuo. O Brasil não deve celebrar acordos apenas pela fotografia diplomática. Deve perguntar: isso fortalece nossa indústria? Amplia nossa capacidade tecnológica? Gera emprego qualificado? Aumenta nossa soberania?
Chancay, ferrovias e a geopolítica dos caminhos
Trevisan menciona o Porto de Chancay, no Peru, como exemplo da estratégia chinesa na América do Sul. Esse ponto é brilhante porque mostra que a disputa global não ocorre apenas em capitais, cúpulas e discursos. Ela ocorre nas rotas.
A Reuters informou que o porto chinês de Guangzhou iniciou, em 2025, uma rota direta para o Porto de Chancay, com expectativa de reduzir custos logísticos em cerca de 20%. Outras análises apontam que Chancay pode reduzir significativamente o tempo de transporte entre América do Sul e Ásia.
Isso muda o mapa mental da América do Sul. Durante muito tempo, nossa infraestrutura foi desenhada para olhar para o Atlântico, para a Europa e para os Estados Unidos. Agora, a China tenta redesenhar corredores para o Pacífico. Quem controla os caminhos, controla parte do comércio. Quem financia os portos, influencia as rotas. Quem encurta o tempo de viagem, muda a economia.
O Brasil precisa observar isso com realismo. Não se trata de rejeitar a China, nem de aderir cegamente a ela. Trata-se de compreender que infraestrutura é poder. Porto, ferrovia, hidrovia, energia e telecomunicações não são apenas obras: são instrumentos de soberania nacional.
Diplomacia profissional e interesse nacional
Trevisan elogia o Itamaraty, e esse elogio é justo. Em um país frequentemente capturado por paixões eleitorais de curto prazo, a diplomacia profissional brasileira é uma das poucas instituições que ainda pensa o Estado em escala histórica.
O Brasil precisa conversar com a China sem romper com os Estados Unidos. Precisa negociar com a Europa sem aceitar tutela moral seletiva. Precisa fortalecer o Mercosul sem abandonar sua projeção global. Precisa defender a Amazônia sem permitir que a pauta ambiental seja usada como instrumento de bloqueio comercial. Precisa vender commodities, mas também industrializar, inovar e agregar valor.
Essa é a diferença entre diplomacia adulta e alinhamento automático. O país que se comporta como satélite não formula destino próprio. Apenas gira em torno do projeto dos outros.
Minha leitura: o Brasil não pode desperdiçar a história
A entrevista de Trevisan me parece importante porque ajuda a romper com duas ilusões comuns no debate público brasileiro.
A primeira ilusão é achar que o mundo continua igual, como se os Estados Unidos ainda fossem o centro incontestável da ordem global. Não são. Continuam imensamente poderosos, mas enfrentam concorrência econômica, tecnológica, diplomática e logística.
A segunda ilusão é imaginar que o Brasil é pequeno demais para influenciar o tabuleiro. Não é. O Brasil é grande, mas muitas vezes pensa pequeno. Tem escala continental, mas age com mentalidade provinciana. Tem ativos estratégicos, mas frequentemente os entrega sem projeto nacional. Tem diplomacia competente, mas nem sempre tem elite política à altura.
O Brasil pode ser fiel da balança, sim. Mas, para isso, precisa saber o que quer. Não basta estar no lugar certo da história. É preciso ter estratégia, Estado, ciência, indústria, educação, infraestrutura e soberania.
O mundo que nasce diante de nós será menos confortável, menos previsível e mais duro. Nele, países desorganizados serão pressionados por todos os lados. Países estratégicos, porém, poderão negociar melhor. O Brasil tem condições de estar no segundo grupo.
Mas isso exige uma escolha: deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e tornar-se uma potência produtiva, científica, energética, alimentar e diplomática. A fala de Leonardo Trevisan aponta justamente para isso. O Brasil não está fora do jogo. Está no centro de uma disputa que talvez ainda não tenha compreendido plenamente.
Referências
BANCO MUNDIAL. Commodity Markets Outlook. Washington, 2026.
COMISSÃO EUROPEIA. The EU-Mercosur trade agreement. Bruxelas, 2026.
HANNOVER MESSE. Brazil: Partner Country 2026. Hannover, 2026.
INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Rare Earth Elements: pathways to secure and diversified supply chains. Paris, 2026.
REUTERS. China’s Guangzhou port starts shipping route to Peru. 2025.
THE GUARDIAN. Oil price tops $126 a barrel after Trump warns Iran blockade could last months. 2026.
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