Como a extrema direita transforma frustração popular em força eleitoral, enquanto preserva velhas estruturas de poder
Índice
- Lide
- Introdução — Quando a dor do povo vira mercadoria política
- O ressentimento como combustível do autoritarismo
- A família Bolsonaro e a política como herança, espetáculo e guerra permanente
- 1930 e 2026: o que há de semelhante e o que não pode ser confundido
- Do fascismo histórico ao neofascismo algorítmico
- O trabalhador abandonado e a falsa promessa da liberdade neoliberal
- Religião, pátria e família como linguagem de captura emocional
- A elite econômica e o povo usado como escudo
- O Leviatã Digital e a fabricação industrial da indignação
- O papel da educação pública diante da barbárie política
- Conclusão — A democracia precisa disputar o coração do povo
- Pontos relevantes
- Perguntas comuns
- Indicação de livros
- Referências
Lide
Há momentos em que a história parece voltar, não como repetição exata, mas como assombração. O Brasil de 2026 não é o Brasil de 1930; não vive a mesma economia, não possui as mesmas instituições, não respira o mesmo mundo. Mas algo profundamente inquietante atravessa esses dois tempos: a capacidade de transformar medo em obediência, frustração em ódio, pobreza em ressentimento e ressentimento em projeto de poder. O bolsonarismo não criou a dor social brasileira, mas aprendeu a explorá-la. Fez da insegurança econômica, do abandono do trabalhador, da humilhação cotidiana e da descrença nas instituições uma gramática política. Falou em nome do povo, mas entregou sua energia às elites. Prometeu liberdade, mas ofereceu precarização. Prometeu ordem, mas produziu instabilidade. Prometeu pátria, mas atacou a própria democracia.
1. Introdução — Quando a dor do povo vira mercadoria política
Eu parto de uma constatação incômoda: nenhum projeto autoritário se sustenta apenas pela força. Ele precisa, antes de tudo, tocar uma ferida real. Precisa encontrar uma população cansada, frustrada, com medo, ressentida e disposta a acreditar que alguém finalmente diz aquilo que “ninguém tinha coragem de dizer”.
Foi assim em vários momentos da história. E é assim, guardadas as diferenças, no Brasil contemporâneo.
O bolsonarismo não surgiu do nada. Ele nasceu sobre um terreno social marcado por desigualdade histórica, violência cotidiana, crise econômica, descrença nas instituições, antipetismo, precarização do trabalho, ressentimento de classe média, moralismo religioso e desorientação digital. Não se trata apenas de uma ideologia; trata-se de uma máquina afetiva. Uma máquina que captura sentimentos legítimos e os redireciona contra inimigos fabricados.
A tese central deste artigo é direta: o bolsonarismo opera como uma força política de elite com base de massa. Ele se apresenta como voz do povo, mas sua função histórica tem sido canalizar o inconformismo popular para preservar estruturas tradicionais de poder. O povo entra com a raiva; as elites saem com o benefício.
Jair Bolsonaro foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral por oito anos, contados a partir das eleições de 2022, em razão de abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação em reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada, conforme decisão do próprio TSE (Tribunal Superior Eleitoral, 2023). Posteriormente, em 2025, a Agência Brasil registrou que Bolsonaro e aliados também foram condenados pelo STF no contexto da chamada trama golpista, com nova consequência de inelegibilidade pelo prazo de oito anos (Agência Brasil, 2025). A Reuters informou que Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes, decisão da qual sua defesa afirmou discordar e recorrer (Reuters, 2025).
Mas o ponto aqui é mais profundo do que a trajetória jurídica de um indivíduo. O problema central é o método político que se formou ao redor dele: a política como guerra permanente, a democracia como obstáculo, a imprensa como inimiga, a educação como ameaça, a ciência como suspeita, a religião como senha eleitoral e o ressentimento como combustível.
2. O ressentimento como combustível do autoritarismo
O ressentimento é uma das matérias-primas mais perigosas da política moderna. Ele nasce quando alguém sofre, mas não consegue compreender claramente as causas de seu sofrimento. O trabalhador precarizado sente que perdeu direitos. O pequeno comerciante sente que trabalha muito e não avança. O jovem percebe que estudou e não encontrou lugar. A classe média sente medo de cair socialmente. A população pobre convive com insegurança, filas, abandono e humilhação.
Essas dores são reais. O problema começa quando uma liderança política não as interpreta estruturalmente, mas as manipula emocionalmente.
Em vez de dizer que a desigualdade brasileira é produto de uma formação social excludente, de um modelo tributário injusto, de concentração de renda, de fragilidade dos serviços públicos e de um capitalismo periférico dependente, o discurso autoritário oferece culpados simples: a esquerda, o Supremo, a universidade, a imprensa, os professores, os artistas, os pobres que recebem benefício social, as minorias, os movimentos sociais, os servidores públicos, os ambientalistas.
É uma operação brutal de desvio.
O sujeito que deveria perguntar “por que trabalho tanto e continuo pobre?” passa a perguntar “quem está roubando o meu lugar?”. O trabalhador que deveria se organizar coletivamente passa a se imaginar como empreendedor isolado. A pessoa explorada passa a defender a agenda de quem a explora. A raiva, que poderia ser transformada em consciência política, é convertida em obediência emocional.
Adorno (2019), ao analisar a personalidade autoritária, já indicava que regimes e movimentos autoritários dependem de disposições subjetivas profundas: submissão à autoridade, agressividade contra grupos vulneráveis, pensamento estereotipado e desejo de ordem. Arendt (2012), por sua vez, mostrou que movimentos totalitários prosperam onde massas desamparadas perdem pertencimento, confiança e capacidade de julgar.
No Brasil, essa anatomia do ressentimento ganha uma forma própria. Ela mistura medo da violência, moralismo religioso, racismo estrutural, anticomunismo reciclado, culto às armas, desprezo pelos direitos humanos, ódio à política e nostalgia autoritária.
O resultado é uma política que não quer convencer pela razão. Quer capturar pela ferida.
3. A família Bolsonaro e a política como herança, espetáculo e guerra permanente
A família Bolsonaro transformou a política em patrimônio familiar, espetáculo midiático e guerra cultural contínua. Ao longo dos anos, seus membros ocuparam mandatos, redes sociais, palanques e espaços de influência a partir de uma estratégia muito clara: falar contra “tudo isso que está aí”, mesmo estando há décadas dentro da própria estrutura política brasileira.
Essa é uma contradição essencial. O bolsonarismo se vende como antissistema, mas é profundamente dependente do sistema. Ocupa o Congresso, negocia emendas, disputa fundos, articula alianças, mobiliza bancadas, protege interesses econômicos e constrói carreiras familiares dentro do Estado. A retórica é de ruptura; a prática é de ocupação.
Por isso, quando se diz que a família Bolsonaro não deu contribuição substantiva ao povo brasileiro, é preciso compreender o sentido político da afirmação. O que está em questão não é a existência formal de mandatos ou discursos, mas a ausência de um projeto nacional consistente de inclusão social, desenvolvimento produtivo, fortalecimento educacional, soberania científica, redução de desigualdades e ampliação de direitos.
O legado mais visível do bolsonarismo não é uma escola melhor, um SUS mais forte, uma indústria nacional renovada ou uma democracia mais sólida. Seu legado mais profundo é a radicalização afetiva da sociedade brasileira.
O bolsonarismo ensinou parte do país a desconfiar de tudo, exceto do líder. Ensinou a chamar ciência de ideologia, jornalismo de perseguição, universidade de doutrinação, direitos humanos de defesa de criminosos e adversário político de inimigo da pátria.
A política, nesse modelo, deixa de ser espaço de mediação e se torna cruzada. Quem discorda não é apenas alguém com outra visão de mundo; é traidor. Quem critica não é cidadão; é inimigo. Quem investiga não é instituição; é perseguidor.
Essa lógica não fortalece o povo. Ela o aprisiona.
4. 1930 e 2026: o que há de semelhante e o que não pode ser confundido
Comparar 1930 e 2026 exige cuidado. A história não admite analogias preguiçosas. O Brasil de 1930 vivia a crise da Primeira República, marcada pela política oligárquica, pelo domínio das elites agrárias, pelas tensões regionais, pelo impacto da crise de 1929 e pela emergência de novas forças urbanas e militares. O Brasil de 2026 vive outra realidade: democracia constitucional, economia digital, redes sociais, instituições de controle mais complexas e uma sociedade de massas hiperconectada.
Ainda assim, há ecos perigosos.
Nos anos 1930, o mundo assistiu à ascensão de movimentos autoritários que exploravam medo, crise econômica, nacionalismo, anticomunismo, culto à ordem e culto ao líder. No Brasil, a Ação Integralista Brasileira, fundada em 1932 por Plínio Salgado, foi um movimento de inspiração fascista, com organização nacional, símbolos, disciplina e forte apelo nacionalista, conforme registro histórico da FGV/CPDOC e de materiais de história política brasileira (FGV CPDOC, [s.d.]).
O integralismo não é idêntico ao bolsonarismo. Seria intelectualmente incorreto afirmar isso. O integralismo possuía doutrina, partido estruturado, estética uniformizada e inspiração explícita nos fascismos europeus. O bolsonarismo é mais fragmentado, digital, personalista, evangélico-político, militarizado simbolicamente e neoliberal na economia.
Mas ambos compartilham elementos de família autoritária: nacionalismo agressivo, moralismo, culto da força, hostilidade ao pluralismo, antipolítica, fabricação de inimigos internos, desprezo por mediações institucionais e promessa de regeneração nacional.
A diferença é que, no século XX, o fascismo marchava. No século XXI, ele viraliza.
Antes, era preciso ocupar a praça. Hoje, ocupa-se a timeline. Antes, havia uniforme, partido e comício. Hoje, há meme, live, grupo fechado, influencer, corte de vídeo e algoritmo. Antes, o rádio e o jornal eram instrumentos centrais da propaganda política. Hoje, a infraestrutura da radicalização passa por plataformas digitais que monetizam engajamento, indignação e conflito.
Por isso, o fascismo contemporâneo não precisa se apresentar com o mesmo rosto do passado. Ele pode falar em liberdade enquanto ataca direitos. Pode falar em democracia enquanto desacredita eleições. Pode falar em Deus enquanto cultiva ódio. Pode falar em pátria enquanto flerta com ruptura institucional.
5. Do fascismo histórico ao neofascismo algorítmico
O fascismo clássico foi um fenômeno histórico específico. Paxton (2007) o entende como uma forma de mobilização política marcada por obsessão com decadência nacional, culto da unidade, violência redentora, liderança autoritária e colaboração com elites tradicionais. Eco (2018), ao falar do “fascismo eterno”, destaca traços recorrentes: culto da tradição, rejeição da modernidade crítica, medo da diferença, apelo às classes médias frustradas, nacionalismo, obsessão conspiratória e linguagem empobrecida.
O neofascismo do século XXI não precisa repetir todos os elementos do fascismo clássico. Ele pode operar dentro de democracias formais, disputar eleições, usar linguagem de mercado, defender privatizações, aparecer em programas de entretenimento e se apresentar como defesa da liberdade individual.
Essa é sua astúcia.
Ele não diz necessariamente: “sou contra a democracia”. Ele diz: “as urnas são suspeitas”. Não diz: “sou contra a imprensa livre”. Diz: “a imprensa mente”. Não diz: “sou contra a universidade”. Diz: “a universidade doutrina”. Não diz: “sou contra os direitos”. Diz: “há direitos demais para quem não merece”. Não diz: “quero perseguir inimigos”. Diz: “quero proteger a nação”.
O neofascismo algorítmico é, portanto, uma política da suspeita permanente.
Ele precisa que o cidadão não confie em nenhum mediador: nem professor, nem jornalista, nem pesquisador, nem juiz, nem cientista, nem instituição. O único canal confiável passa a ser o líder e seu ecossistema de comunicação.
Isso produz uma comunidade fechada de crença. O adepto não apenas vota; ele pertence. Não apenas concorda; ele se identifica. Não apenas defende uma proposta; ele defende sua própria imagem moral.
É por isso que fatos muitas vezes não bastam. A adesão não é apenas cognitiva; é afetiva. O bolsonarismo, como outras direitas radicais contemporâneas, não se sustenta apenas por ideias. Sustenta-se por pertencimento, medo, ressentimento e identidade.
6. O trabalhador abandonado e a falsa promessa da liberdade neoliberal
Uma das maiores tragédias políticas do Brasil contemporâneo é ver trabalhadores defendendo projetos que enfraquecem a própria proteção social.
Isso não acontece por ignorância simples. Acontece porque o neoliberalismo conseguiu produzir uma mutação subjetiva profunda: o trabalhador passou a ser convocado a se enxergar como “empresa de si mesmo”.
O entregador de aplicativo é chamado de empreendedor. O trabalhador sem direitos é chamado de livre. O desempregado vira alguém que não se esforçou o bastante. A vítima da precarização é convencida de que sua situação decorre de falha individual, não de estrutura econômica.
Dardot e Laval (2016) mostram que o neoliberalismo não é apenas uma política econômica. É uma racionalidade que transforma todos os aspectos da vida em competição. Brown (2019) aprofunda esse ponto ao indicar que o neoliberalismo corrói as bases democráticas ao subordinar cidadania, direitos e instituições à lógica do mercado.
O bolsonarismo se encaixa nesse quadro porque oferece uma narrativa emocional para a precarização. Ele diz ao trabalhador: “você está sofrendo porque o Estado atrapalha, porque há direitos demais, porque minorias têm privilégios, porque sindicatos são corruptos, porque professores doutrinam, porque a esquerda destruiu o país”.
E assim o trabalhador é deslocado de sua condição material para uma guerra simbólica. Ele deixa de discutir salário, jornada, aposentadoria, saúde, moradia e educação. Passa a discutir inimigos morais.
A luta social é desviada para a guerra cultural.
Essa é uma das funções mais eficientes do neofascismo contemporâneo: impedir que o povo reconheça a estrutura de sua própria exploração.
7. Religião, pátria e família como linguagem de captura emocional
Nenhuma sociedade democrática deve desprezar a fé, a família ou o sentimento de pertencimento nacional. Esses elementos fazem parte da vida humana. O problema começa quando eles são transformados em armas políticas.
A fé deixa de ser experiência espiritual e vira identidade eleitoral. A família deixa de ser espaço de cuidado e vira dispositivo de exclusão. A pátria deixa de ser comunidade política plural e vira propriedade simbólica de um grupo.
O bolsonarismo fez isso com grande habilidade. Transformou símbolos nacionais em marca partidária. Transformou a bandeira em senha ideológica. Transformou a religião em fronteira moral. Transformou divergência política em batalha entre bem e mal.
Essa operação é perigosa porque destrói o pluralismo democrático por dentro. Em uma democracia, ninguém é menos brasileiro por pensar diferente. Ninguém é menos digno por professar outra fé ou não professar nenhuma. Ninguém é inimigo da pátria por defender direitos humanos, ciência, educação pública, proteção ambiental ou justiça social.
Mas o autoritarismo precisa reduzir a complexidade. Ele não suporta ambiguidade. Ele precisa dividir o mundo entre puros e impuros, patriotas e traidores, homens de bem e inimigos internos.
Stanley (2018) observa que a política fascista frequentemente opera pela separação entre “nós” e “eles”, mobilizando medo, hierarquia, vitimização do grupo dominante e nostalgia de um passado idealizado. No Brasil, essa nostalgia assume formas variadas: saudade da ditadura, idealização da ordem militar, defesa abstrata da família tradicional e fantasia de um país moralmente homogêneo que nunca existiu.
O Brasil real é plural, mestiço, desigual, religioso e secular, urbano e rural, periférico e sofisticado, contraditório e vivo. O autoritarismo odeia essa complexidade. Por isso tenta substituí-la por uma caricatura: um povo único, uma fé única, uma moral única, uma pátria única e um líder que fala por todos.
8. A elite econômica e o povo usado como escudo
A pergunta decisiva é: quem ganha quando o povo briga entre si?
Quando trabalhadores passam a odiar professores, servidores, pobres, indígenas, artistas, universidades e movimentos sociais, quem se beneficia? Quando a energia popular é consumida por guerra cultural, quem deixa de ser questionado? Quando a política se transforma em escândalo moral permanente, que temas desaparecem?
Desaparecem a concentração de renda, a tributação dos super-ricos, os juros, a financeirização, a desigualdade patrimonial, a precarização trabalhista, a captura do orçamento público, os privilégios de setores econômicos, a devastação ambiental e a dependência tecnológica.
Essa é a grande engenharia política: o povo é mobilizado como massa de choque simbólica para defender interesses que não são seus.
Não se trata de dizer que todos os apoiadores do bolsonarismo são elite. Pelo contrário. Muitos são trabalhadores, pequenos empresários, aposentados, jovens, religiosos, pessoas comuns. Justamente por isso o fenômeno é tão grave. Ele demonstra como um projeto de poder pode se alimentar de sofrimentos reais e conduzi-los para uma direção politicamente regressiva.
O bolsonarismo oferece compensação simbólica onde falta reparação material. Ele não entrega necessariamente vida melhor; entrega sensação de superioridade moral. Não resolve a insegurança; oferece inimigos. Não reconstrói o país; produz pertencimento guerreiro.
E para as elites econômicas, isso é funcional. Enquanto a base se ocupa com cruzadas morais, a agenda econômica avança longe do centro emocional do debate.
9. O Leviatã Digital e a fabricação industrial da indignação
O conceito de Leviatã Digital ajuda a compreender a dimensão nova do problema. Hobbes imaginou o Leviatã como poder soberano capaz de organizar a sociedade e conter a guerra de todos contra todos. No século XXI, porém, surge uma criatura diferente: um poder distribuído em plataformas, bancos de dados, algoritmos, influenciadores, publicidade segmentada e arquiteturas invisíveis de atenção.
Esse Leviatã não precisa mandar diretamente. Ele organiza o campo do visível. Ele decide o que aparece, o que se repete, o que emociona, o que indigna, o que desaparece.
A política passa a ser disputada não apenas no plano das ideias, mas no plano da atenção. E as plataformas digitais possuem uma inclinação estrutural: conteúdos que provocam medo, raiva, humilhação e conflito tendem a gerar mais engajamento. O extremismo não é apenas uma distorção moral; é também um modelo de negócios.
Nunes (2022) chama atenção para a nova gramática das redes e das mobilizações contemporâneas, nas quais ação política, afetos e tecnologia se misturam. Castells (2013) também mostrou que as redes digitais alteraram profundamente a comunicação política, abrindo possibilidades democráticas, mas também novas formas de manipulação.
No caso brasileiro, o bolsonarismo compreendeu cedo que a comunicação digital permite contornar mediações tradicionais. Não é necessário convencer a sociedade inteira. Basta criar comunidades intensas, fiéis, emocionalmente mobilizadas e permanentemente indignadas.
A indignação vira rotina. O escândalo vira método. A mentira vira teste de fidelidade. A conspiração vira linguagem comum.
Quando tudo é suspeito, qualquer absurdo pode parecer plausível. Quando o cidadão perde confiança em todos os mediadores, ele se torna vulnerável ao primeiro grupo que lhe oferece pertencimento e certeza.
Esse é o triunfo do neofascismo digital: transformar a dúvida democrática em paranoia autoritária.
10. O papel da educação pública diante da barbárie política
A resposta ao neofascismo não pode ser apenas eleitoral. Também não pode ser apenas jurídica, embora as instituições sejam fundamentais. A resposta precisa ser cultural, educacional, econômica e moral.
É aqui que a educação pública ganha centralidade. Escolas, universidades e Institutos Federais são espaços fundamentais de resistência democrática porque formam pensamento crítico, convivência plural, capacidade científica e compreensão histórica.
O autoritarismo ataca professores porque sabe que a educação liberta do pensamento único. Ataca universidades porque sabe que a ciência desorganiza o obscurantismo. Ataca a cultura porque sabe que a arte amplia a imaginação moral. Ataca a imprensa porque sabe que informação qualificada limita o domínio da mentira.
A educação pública deve assumir uma tarefa histórica: formar cidadãos capazes de distinguir crítica de ódio, liberdade de desinformação, fé de fanatismo, patriotismo de idolatria política, opinião de mentira e indignação de manipulação.
Mas isso exige mais do que aulas abstratas sobre democracia. Exige condições materiais. Ninguém combate ressentimento apenas com discurso. É preciso entregar dignidade: escola de qualidade, trabalho protegido, saúde pública, cultura, segurança, transporte, moradia, oportunidade e pertencimento.
A democracia precisa voltar a ser sentida como melhoria concreta da vida.
Se o povo só encontra abandono, alguém transformará esse abandono em ódio. Se a democracia não organiza esperança, o autoritarismo organiza ressentimento.
11. Conclusão — A democracia precisa disputar o coração do povo
Eu não vejo o Brasil de 2026 como mera repetição de 1930. A história não é uma roda mecânica. Mas vejo, sim, sinais de uma permanência inquietante: em momentos de crise, setores autoritários conseguem capturar a dor popular e colocá-la a serviço de projetos conservadores de poder.
O fascismo do século XX marchava com uniforme, partido, mito nacional e culto explícito da força. O neofascismo do século XXI pode aparecer de camiseta da seleção, celular na mão, Bíblia no discurso, mercado no programa econômico e algoritmo como praça pública. Ele não precisa abolir imediatamente as instituições; pode corroê-las por dentro. Não precisa censurar tudo; pode inundar o debate público com mentira, ruído e suspeita. Não precisa convencer pela razão; basta viciar a sociedade na raiva.
A família Bolsonaro tornou-se símbolo dessa política porque conseguiu transformar ressentimento em capital eleitoral, antipolítica em carreira, moralismo em espetáculo, religião em identidade partidária e crise democrática em método de mobilização. Sua força não está apenas no que propõe, mas no que desperta: medo, raiva, pertencimento, revanchismo e desejo de punição.
Mas nenhum povo está condenado ao ressentimento. A mesma dor que alimenta o autoritarismo pode alimentar justiça social. A mesma frustração que hoje é manipulada contra a democracia pode ser reorganizada em projeto nacional. A mesma indignação que foi sequestrada pela extrema direita pode ser devolvida ao campo da cidadania.
Para isso, é preciso dizer a verdade com coragem: não há democracia forte com povo humilhado. Não há racionalidade pública onde a mentira compensa mais do que a verdade. Não há liberdade real quando o trabalhador é abandonado à própria sorte. Não há pátria quando metade do país é tratada como inimiga. Não há fé digna quando Deus é usado como cabo eleitoral do ódio.
A luta contra o neofascismo brasileiro não será vencida apenas nos tribunais, nem apenas nas urnas, nem apenas nas redes. Será vencida quando a democracia voltar a tocar a vida concreta das pessoas. Quando o trabalhador perceber que direito não é privilégio. Quando o pobre entender que não é inimigo do país. Quando a juventude enxergar futuro. Quando a escola pública for defendida como patrimônio nacional. Quando a política deixar de ser guerra de ressentidos e voltar a ser construção comum.
O desafio de 2026 é maior do que derrotar um nome. É derrotar um método. É impedir que a dor do povo continue sendo usada como escada para quem nunca pretendeu libertá-lo.
5 pontos relevantes do artigo
- O bolsonarismo deve ser analisado como método político, não apenas como liderança individual.
- A comparação entre 1930 e 2026 é válida apenas se respeitar as diferenças históricas.
- O neofascismo atual opera mais por algoritmos, afetos e redes do que por partidos uniformizados.
- A guerra cultural desvia a atenção das estruturas econômicas de exploração.
- A resposta democrática precisa combinar educação crítica, justiça social e reconstrução material da esperança.
5 perguntas comuns sobre o tema
1. O bolsonarismo pode ser chamado de fascismo?
Pode ser analisado como fenômeno de direita radical com traços neofascistas, mas não deve ser confundido mecanicamente com o fascismo clássico europeu do século XX.
2. O Brasil de 2026 repete 1930?
Não repete. Mas há semelhanças estruturais: crise de representação, medo social, busca por autoridade, nacionalismo moral e fabricação de inimigos internos.
3. Por que trabalhadores apoiam projetos que retiram direitos?
Porque a precarização pode ser reinterpretada ideologicamente como liberdade individual, enquanto a culpa pelo sofrimento é deslocada para inimigos simbólicos.
4. Qual é o papel das redes sociais nisso?
As redes amplificam indignação, medo e pertencimento tribal, criando comunidades políticas fechadas e vulneráveis à desinformação.
5. Como enfrentar esse fenômeno?
Com democracia material: educação pública forte, proteção social, letramento digital, jornalismo sério, instituições firmes e políticas que melhorem concretamente a vida do povo.
3 livros indicados
- A anatomia do fascismo, de Robert O. Paxton.
- Como funciona o fascismo, de Jason Stanley.
- Nas ruínas do neoliberalismo, de Wendy Brown.
Referências
ADORNO, Theodor W. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo: Unesp, 2019.
AGÊNCIA BRASIL. Bolsonaro e aliados ficarão inelegíveis por oito anos. Brasília, 2025. Disponível em: Agência Brasil. Acesso em: 5 maio 2026.
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. São Paulo: Politeia, 2019.
CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
ECO, Umberto. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2018.
FGV CPDOC. Integralismo. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas. Disponível em: CPDOC/FGV. Acesso em: 5 maio 2026.
NUNES, Rodrigo. Do transe à vertigem: ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transição. São Paulo: Ubu, 2022.
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
REUTERS. STF condena Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. 2025. Disponível em: Reuters. Acesso em: 5 maio 2026.
STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2018.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Por maioria de votos, TSE declara Bolsonaro inelegível por 8 anos. Brasília: TSE, 2023. Disponível em: TSE. Acesso em: 5 maio 2026.
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