A pergunta simples que exige uma resposta histórica, econômica e política
Um amigo me abordou hoje com uma pergunta direta, dessas que parecem simples, mas carregam um mundo inteiro dentro delas:
— A China é capitalista ou comunista?
A resposta mais honesta é: a China não é simplesmente capitalista, nem vive o comunismo pleno. Ela se define como um Estado socialista dirigido pelo Partido Comunista, com uma economia de mercado subordinada ao planejamento estatal.
A própria Constituição chinesa afirma que a República Popular da China é um Estado socialista e que a liderança do Partido Comunista é a característica definidora do “socialismo com características chinesas”.
1. O erro está na pergunta: capitalismo ou comunismo?
A pergunta costuma vir montada como uma oposição binária: ou a China é capitalista, porque tem empresas privadas, bilionários, comércio exterior e mercado; ou é comunista, porque é governada pelo Partido Comunista.
Mas, teoricamente, comunismo seria uma sociedade sem classes sociais, sem Estado coercitivo e sem propriedade privada dos meios fundamentais de produção. A China não afirma ter chegado a esse estágio. Ela se apresenta como uma sociedade em construção socialista.
Por isso, a resposta tecnicamente mais adequada é: a China é uma economia socialista de mercado sob direção política comunista.
2. O socialismo chinês como transição
Na tradição marxista, o socialismo é compreendido como uma etapa histórica de transição entre o capitalismo e o comunismo. A China interpreta sua própria experiência dentro dessa lógica: não como comunismo realizado, mas como uma longa construção histórica de desenvolvimento, modernização produtiva e fortalecimento nacional.
A expressão oficial mais usada é “socialismo com características chinesas”. Ela permite à China combinar planejamento estatal, propriedade pública estratégica, mercado, empresas privadas, investimento estrangeiro e forte controle político do Partido Comunista.
3. O mercado existe, mas não manda sozinho
A grande confusão nasce daqui: a China usa mecanismos capitalistas? Sim. Há lucro, concorrência, exportações, bilionários, empresas privadas e bolsas de valores.
Mas a questão decisiva é outra: quem comanda o sentido geral da economia?
No capitalismo liberal clássico, o Estado costuma atuar como regulador, garantidor da propriedade privada e mediador dos interesses do capital. Na China, a lógica é diferente: o capital privado existe, mas é politicamente subordinado ao projeto nacional definido pelo Estado e pelo Partido.
A Lei das Companhias chinesa prevê a existência de organizações do Partido Comunista nas empresas, que devem ter condições para desenvolver suas atividades.
4. O Estado controla os setores estratégicos
A China não entregou seu coração econômico ao mercado. Energia, finanças, infraestrutura, telecomunicações, transporte, defesa, grandes bancos e conglomerados industriais permanecem sob forte presença estatal.
Segundo a SASAC, órgão estatal que supervisiona grandes empresas públicas centrais, os ativos das empresas estatais centrais chinesas ultrapassaram 90 trilhões de yuans em 2024.
Esse dado é essencial: a China aceita o mercado, mas conserva o comando estratégico sobre os instrumentos fundamentais do desenvolvimento nacional.
5. O sistema financeiro como instrumento produtivo
Outro ponto decisivo: na China, o sistema financeiro não opera apenas como mecanismo de rentismo e especulação. Ele é fortemente orientado pelo Estado para financiar infraestrutura, indústria, inovação, tecnologia, urbanização e cadeias produtivas.
Essa diferença é profunda. Em muitos países capitalistas periféricos, o setor financeiro se autonomiza e passa a capturar o Estado. Na China, ao menos em sua arquitetura institucional, o Estado busca capturar o sistema financeiro para subordiná-lo a metas nacionais.
6. Capital privado existe, mas não governa
A China permitiu o crescimento de empresários privados porque compreendeu que o mercado poderia acelerar a produção de bens, inovação tecnológica e integração global. Mas isso não significa que o empresariado privado controle o poder político.
Essa é uma diferença estrutural. Na China, um bilionário pode enriquecer, mas não pode se tornar maior do que o Partido. O capital privado é tolerado, estimulado e usado, desde que não ameace a soberania política do Estado.
7. Então a China é capitalista?
Depende do critério usado.
Se o critério for a existência de mercado, lucro e empresas privadas, alguém poderia dizer que há fortes elementos capitalistas.
Mas, se o critério for quem controla o Estado, os setores estratégicos, o sistema financeiro, o planejamento nacional e o projeto de desenvolvimento, a China não cabe bem na definição simples de capitalismo liberal.
Por isso, chamá-la apenas de capitalista é reducionista.
8. Então a China é comunista?
Também não, no sentido teórico pleno. A China é governada por um Partido Comunista, mas não vive uma sociedade comunista acabada.
Há desigualdade social, propriedade privada, mercado, hierarquias salariais, consumo de massa, acumulação de riqueza e competição empresarial. Esses elementos não correspondem ao ideal comunista clássico.
Logo, a China é comunista no comando político-partidário, mas não comunista como estágio final de sociedade.
9. A melhor resposta: socialismo de mercado sob direção estatal
A formulação mais precisa é:
A China é um Estado socialista de partido único, dirigido pelo Partido Comunista, que utiliza mecanismos de mercado e capital privado como instrumentos subordinados a um projeto nacional de desenvolvimento.
É uma combinação singular: mercado sem liberalismo político; propriedade privada sem supremacia política do capital; planejamento estatal sem eliminação completa da concorrência; socialismo sem abandono da eficiência econômica.
Conclusão
Quando meu amigo perguntou se a China é capitalista ou comunista, a resposta mais curta seria: a China é socialista, com mercado, sob direção do Partido Comunista.
Mas a resposta mais profunda é esta: a China desafia as categorias tradicionais do século XX. Ela não é uma economia capitalista liberal, porque o capital não governa livremente o Estado. Também não é uma sociedade comunista realizada, porque mantém mercado, desigualdades e propriedade privada. Trata-se de uma experiência histórica própria: um socialismo de mercado, planejado, nacional-desenvolvimentista e politicamente centralizado.
A China talvez seja, hoje, o maior exemplo de que o mundo real é mais complexo do que os rótulos simples permitem enxergar.
Referências essenciais
CHINA. Constitution of the People’s Republic of China. Beijing: The State Council, 2019.
CHINA. Company Law of the People’s Republic of China. Beijing: National People’s Congress, 2024.
SASAC. Profits of China’s Central SOEs Reach 2.6 Trln Yuan in 2024. Beijing, 2025.
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