sexta-feira, 1 de maio de 2026

O progresso que cobra vidas: capitalismo, escravidão e o mito sacrificial da modernidade

Quando a eficiência econômica transforma seres humanos em combustível da história


Introdução

Há uma pergunta incômoda que atravessa a história moderna: quem pagou a conta do chamado progresso? A narrativa tradicional costuma apresentar a modernidade como uma marcha luminosa da razão, da ciência, da técnica, da indústria e da liberdade. Nessa versão, a Revolução Industrial aparece como resultado quase natural da criatividade europeia, do espírito empreendedor, da inovação tecnológica e da organização racional da produção. Mas essa história, contada apenas pelo ponto de vista dos vencedores, deixa nas sombras uma engrenagem decisiva: a acumulação de capital produzida pela escravidão, pelo colonialismo, pelo tráfico transatlântico e pela exploração brutal de povos considerados “inferiores”.

É justamente contra essa narrativa confortável que autores como Eric Williams, Aimé Césaire, Enrique Dussel e Walter Benjamin oferecem instrumentos críticos fundamentais. Cada um, a seu modo, desmonta a ilusão de que o progresso moderno foi moralmente neutro. Williams mostra que capitalismo e escravidão não são fenômenos separados, mas historicamente articulados. Césaire denuncia o colonialismo como processo de coisificação do ser humano. Dussel revela o mito sacrificial da modernidade, isto é, a lógica segundo a qual a dor do outro é aceita como preço inevitável do avanço histórico. Benjamin, por sua vez, alerta que todo monumento de civilização também carrega marcas de barbárie.

O ponto central é duro: a modernidade não pode ser compreendida apenas por suas fábricas, máquinas, universidades, parlamentos e descobertas científicas. Ela também precisa ser lida a partir dos navios negreiros, das plantations, da pilhagem colonial, dos corpos explorados, dos territórios destruídos e das vidas descartadas em nome da riqueza. Quando essa dimensão é ignorada, o progresso vira mito. E o mito, quando não é criticado, transforma injustiça em destino.

1. Eric Williams e a economia política da escravidão

Eric Williams, em Capitalismo e escravidão, realiza uma das intervenções mais importantes para compreender a relação entre escravidão atlântica e desenvolvimento capitalista. Sua tese central é que a escravidão não foi um acidente moral dentro da modernidade econômica, nem um resíduo arcaico incompatível com o capitalismo. Ao contrário, ela foi parte constitutiva do processo de acumulação que permitiu a expansão comercial, financeira e industrial da Europa moderna (Williams, 2012).

A importância dessa leitura está em deslocar o debate. A escravidão deixa de ser vista apenas como uma tragédia humanitária — embora tenha sido isso também — e passa a ser compreendida como uma instituição econômica central para a formação do mundo moderno. O tráfico transatlântico, a produção de açúcar, algodão, tabaco e outros produtos coloniais, os seguros marítimos, os bancos, as companhias comerciais e os portos europeus formaram uma rede de acumulação profundamente ligada ao trabalho escravizado.

A Revolução Industrial inglesa, frequentemente celebrada como símbolo do gênio técnico europeu, não pode ser separada desse contexto. O algodão produzido por mãos escravizadas alimentou a indústria têxtil. O comércio colonial movimentou capitais. Os lucros do sistema escravista fortaleceram bancos, companhias mercantis, infraestrutura portuária e capacidade de investimento. Portanto, falar de industrialização sem falar de escravidão é como descrever uma árvore ignorando suas raízes.

Williams não afirma apenas que a escravidão gerou riqueza. Ele mostra que essa riqueza foi historicamente funcional ao capitalismo nascente. A escravidão foi lucrativa enquanto serviu à expansão econômica; depois, quando deixou de ser tão conveniente para certos setores do capital britânico, passou a ser combatida também por razões econômicas, e não apenas humanitárias (Williams, 2012). Essa é uma tese desconfortável, pois retira da abolição o verniz puramente moral e mostra que os interesses econômicos continuaram operando por trás das grandes decisões políticas.

Essa leitura é essencial para o presente. Ainda hoje, muitos discursos econômicos tentam separar riqueza e violência, crescimento e exploração, mercado e desigualdade. Mas Williams ensina que é preciso investigar a origem histórica da riqueza. Nem toda prosperidade nasce da inovação limpa, do mérito individual ou da eficiência produtiva. Muitas vezes, ela nasce da expropriação.

2. Aimé Césaire e a coisificação colonial do ser humano

Aimé Césaire aprofunda a crítica ao mostrar que o colonialismo não foi apenas um sistema de exploração econômica, mas também uma máquina de desumanização. Em Discurso sobre o colonialismo, Césaire argumenta que colonizar significa coisificar: transformar pessoas em objetos, culturas em obstáculos, territórios em propriedades e povos inteiros em instrumentos de enriquecimento (Césaire, 2010).

Essa ideia é decisiva. O colonialismo não dominou apenas pela força militar. Ele precisou produzir uma justificativa moral, cultural e racial para a dominação. Para explorar, foi necessário primeiro negar a humanidade plena do outro. O colonizado foi descrito como atrasado, bárbaro, infantil, incapaz de governar a si mesmo. Assim, a violência colonial pôde ser apresentada como missão civilizatória.

Esse mecanismo permanece atual. Sempre que um grupo social é tratado como “mão de obra barata”, “população excedente”, “custo trabalhista”, “massa improdutiva” ou “entrave ao crescimento”, a linguagem econômica pode estar repetindo, em nova roupagem, a antiga coisificação colonial. A pessoa desaparece; fica apenas sua utilidade para o sistema.

Césaire também mostra que o colonialismo brutaliza o próprio colonizador. Ao aceitar a violência contra outros povos como normal, a sociedade colonizadora deteriora sua própria consciência moral. A barbárie praticada nas colônias retorna ao centro sob outras formas. Por isso, para Césaire, não é possível separar a violência colonial da crise ética da própria Europa moderna (Césaire, 2010).

A força de Césaire está em afirmar que o colonialismo não foi uma falha ocasional da civilização ocidental. Ele foi uma de suas faces constitutivas. A mesma modernidade que falava em liberdade, razão e humanidade universal aceitava o massacre, a pilhagem e a escravidão de povos inteiros. Essa contradição não é detalhe histórico; é o núcleo do problema.

3. Enrique Dussel e o mito sacrificial da modernidade

Enrique Dussel amplia a crítica ao deslocar o nascimento da modernidade para o encontro violento entre Europa e América. Em 1492: o encobrimento do outro, ele argumenta que a modernidade europeia se constituiu não apenas pela descoberta do mundo, mas pelo encobrimento do outro. A Europa não encontrou simplesmente povos diferentes; ela os reinterpretou a partir de sua própria superioridade presumida (Dussel, 1993).

Para Dussel, a modernidade construiu uma narrativa na qual a Europa aparece como portadora da razão, da civilização e do progresso. O outro — indígena, africano, colonizado — aparece como atraso a ser superado. Desse modo, a violência colonial é convertida em pedagogia histórica: mata-se, domina-se e explora-se em nome de um futuro supostamente superior.

É aí que surge o mito sacrificial da modernidade. O sofrimento do outro passa a ser visto como sacrifício necessário. A modernização exige vítimas. A expansão econômica exige destruição. O desenvolvimento exige que alguns sejam esmagados para que outros avancem. Essa lógica é profundamente perversa porque transforma injustiça em necessidade histórica.

Dussel ajuda a compreender que o problema da modernidade não é apenas econômico, mas também epistemológico. A Europa moderna não apenas explorou o outro; ela se colocou como medida universal da humanidade. O conhecimento europeu passou a ser apresentado como conhecimento universal. As experiências dos povos colonizados foram inferiorizadas, silenciadas ou tratadas como folclore.

Essa crítica é extremamente atual. Quando organismos econômicos, governos ou elites empresariais afirmam que determinadas populações precisam “pagar o preço” da austeridade, da flexibilização trabalhista, da informalidade ou da precarização, estamos diante de uma versão contemporânea do mito sacrificial. A linguagem mudou, mas a lógica permanece: alguns devem sofrer para que o sistema continue funcionando.

4. Walter Benjamin e a crítica à história dos vencedores

Walter Benjamin, em “Sobre o conceito de história”, oferece uma chave essencial para interpretar a ideia de progresso. Para ele, a história não deve ser lida como uma sequência linear de avanços inevitáveis. A visão triunfalista do progresso costuma ser a visão dos vencedores. Ela celebra conquistas, monumentos, impérios e revoluções técnicas, mas esquece os vencidos, os explorados e os mortos (Benjamin, 1987).

A famosa tese benjaminiana de que todo documento de cultura é também documento de barbárie ajuda a compreender o centro deste debate. Uma ferrovia, uma fábrica, um palácio, uma universidade ou uma fortuna nacional podem representar civilização. Mas também podem carregar, em sua origem, trabalho forçado, expropriação, violência e silenciamento.

Benjamin rompe com a ideia de que a história caminha automaticamente para melhor. Para ele, o progresso pode ser uma tempestade que empurra a humanidade para frente enquanto acumula ruínas pelo caminho. Essa imagem é poderosa porque nos obriga a olhar para aquilo que a narrativa oficial tenta esconder: os custos humanos do desenvolvimento.

Aplicada ao colonialismo e ao capitalismo, essa leitura impede qualquer celebração ingênua da modernidade. Não basta perguntar o que foi construído. É preciso perguntar quem construiu, sob quais condições, com quais perdas e para benefício de quem. A história crítica começa quando os vencidos deixam de ser estatística e voltam a ser sujeitos.

5. Eficiência econômica e dignidade humana

O problema não está apenas no passado escravista ou colonial. O perigo maior está na permanência da mesma lógica em estruturas contemporâneas de exploração.

Hoje, a linguagem dominante raramente fala em colonização. Fala em produtividade, competitividade, eficiência, flexibilização, redução de custos, modernização, ajuste fiscal, inovação disruptiva e racionalização. Muitas dessas palavras podem ter usos legítimos. O problema começa quando elas passam a justificar a degradação da vida humana.

Quando trabalhadores são tratados como peças substituíveis, quando populações pobres são vistas como obstáculos ao crescimento, quando direitos sociais são apresentados como entraves econômicos, quando a educação pública é tratada como despesa e não como emancipação, a lógica sacrificial retorna. O altar já não é colonial no sentido clássico, mas continua exigindo vítimas.

A precarização do trabalho é um exemplo evidente. O trabalhador contemporâneo muitas vezes aparece como “empreendedor de si mesmo”, mas, na prática, assume riscos sem proteção, trabalha mais, recebe menos, vive inseguro e ainda é responsabilizado individualmente por sua própria vulnerabilidade. A exploração se torna mais sofisticada porque vem acompanhada de um discurso de liberdade.

O racismo estrutural também é continuidade histórica dessa lógica. As populações negras, indígenas e periféricas continuam ocupando, de forma desproporcional, os lugares sociais mais precarizados. O passado escravista não desapareceu; ele foi reorganizado nas desigualdades urbanas, educacionais, salariais, penais e territoriais. A abolição formal não produziu automaticamente justiça substantiva.

6. O falso dilema entre desenvolvimento e justiça social

Um dos argumentos mais perigosos da política econômica contemporânea é a ideia de que primeiro é preciso crescer para depois distribuir. Esse raciocínio parece pragmático, mas muitas vezes serve para adiar indefinidamente a justiça. A promessa é sempre a mesma: suportem agora, sacrifiquem-se agora, aceitem perdas agora, porque no futuro todos serão beneficiados.

Esse é o núcleo do mito sacrificial. O futuro é usado para justificar a dor presente. A dignidade concreta das pessoas é sacrificada em nome de uma abstração chamada crescimento. Mas que crescimento é esse? Crescimento para quem? Produzido por quem? Apropriado por quem?

Desenvolvimento verdadeiro não pode ser medido apenas pelo Produto Interno Bruto, pela balança comercial ou pela produtividade média. Ele precisa ser avaliado pela capacidade de ampliar a vida humana, reduzir desigualdades, proteger direitos, democratizar oportunidades e respeitar a dignidade dos grupos historicamente explorados.

Nesse sentido, a crítica de Williams, Césaire, Dussel e Benjamin converge para uma mesma exigência ética: nenhuma sociedade deve chamar de progresso aquilo que depende da degradação de seres humanos.

7. A atualidade política dessa crítica

A leitura dessas referências também tem implicações diretas para o debate político. Em tempos de crise econômica, é comum que discursos autoritários reapareçam prometendo ordem, eficiência e crescimento. Muitas vezes, esses discursos elegem inimigos internos: pobres, imigrantes, servidores públicos, professores, minorias, movimentos sociais ou populações periféricas.

A lógica é antiga: para salvar a nação, alguém precisa ser sacrificado. Para restaurar a economia, alguém precisa perder direitos. Para garantir a ordem, alguém precisa ser silenciado. Para proteger o desenvolvimento, alguém precisa ser descartado.

É nesse ponto que a crítica histórica se torna instrumento de vigilância democrática. A modernidade já mostrou que discursos de progresso podem conviver com práticas brutais. A técnica pode servir à emancipação, mas também pode servir ao controle. A economia pode organizar a vida social, mas também pode naturalizar a desigualdade. O Estado pode proteger direitos, mas também pode legitimar exclusões.

Por isso, a memória histórica não é luxo acadêmico. É defesa civilizatória. Conhecer a relação entre capitalismo, escravidão e colonialismo ajuda a perceber quando a linguagem do progresso está sendo usada para esconder violência social.

Conclusão

Não existe progresso verdadeiro quando a vida humana é convertida em custo, combustível ou resíduo do desenvolvimento. A partir de Eric Williams, compreende-se que a modernidade capitalista foi alimentada por circuitos de acumulação ligados à escravidão e ao tráfico transatlântico. Com Aimé Césaire, percebe-se que o colonialismo não apenas explorou corpos e territórios, mas produziu uma brutal coisificação do ser humano. Com Enrique Dussel, evidencia-se que a modernidade criou um mito sacrificial, no qual a dor dos povos colonizados foi tratada como preço inevitável do avanço histórico. Com Walter Benjamin, aprende-se que toda narrativa triunfal do progresso precisa ser confrontada com as ruínas deixadas pelo caminho.

A grande lição é que a história não pode ser contada apenas pelas máquinas, pelas fábricas, pelos impérios, pelas descobertas e pelos indicadores econômicos. Ela precisa ser contada também pelos corpos explorados, pelas vozes silenciadas e pelas vidas sacrificadas. Quando a eficiência econômica se torna valor absoluto, a sociedade corre o risco de repetir, em nova linguagem, a velha lógica colonial.

A verdadeira evolução não está em produzir mais a qualquer custo. Está em construir uma civilização na qual a técnica esteja subordinada à ética, a economia esteja subordinada à dignidade e o desenvolvimento seja medido não pela riqueza de poucos, mas pela humanidade garantida a todos.

Referências

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. v. 1.

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2010.

DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1993.

WILLIAMS, Eric. Capitalismo e escravidão. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


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