O Exército Vermelho, a derrota do nazifascismo e a disputa geopolítica pela memória do século XX
Lide
O 9 de maio de 1945 não é apenas uma data comemorativa. É uma trincheira da memória histórica. Foi nesse marco, celebrado como Dia da Vitória, que a rendição nazista passou a simbolizar, para a antiga União Soviética e para grande parte do mundo, o fim da guerra mais devastadora já produzida pela humanidade. Mas essa vitória, tantas vezes recontada de forma seletiva, não pode ser compreendida sem reconhecer o papel decisivo do Exército Vermelho, das batalhas de Stalingrado e Kursk, do cerco final a Berlim e do sacrifício humano de milhões de soviéticos. Ao narrar esse fato histórico, não estou apenas olhando para o passado. Estou observando uma disputa política do presente: quem controla a memória da Segunda Guerra Mundial também tenta controlar o sentido moral da ordem mundial que nasceu depois dela.
1. A data que incomoda: por que 9 de maio ainda é uma questão geopolítica
Há datas que funcionam como monumentos. Elas não apenas lembram um acontecimento; elas obrigam uma sociedade a decidir o que fará com a própria memória. O 9 de maio de 1945 é uma dessas datas. Para grande parte da Europa Ocidental, o fim da guerra na Europa é lembrado em 8 de maio, o chamado Victory in Europe Day, quando milhões celebraram a rendição alemã e o encerramento da guerra no continente europeu. O Imperial War Museums registra o 8 de maio como o dia em que os Aliados comemoraram o fim da guerra na Europa, embora o conflito ainda continuasse no Pacífico.
Mas, em Moscou, por causa da diferença de fuso horário no momento da assinatura final da rendição alemã, a vitória passou a ser celebrada em 9 de maio. Esse detalhe cronológico se transformou em símbolo político. Não se trata apenas de calendário. Trata-se de perspectiva histórica. Para os povos soviéticos, a vitória contra o nazismo foi vivida como experiência de sobrevivência nacional, trauma coletivo e afirmação civilizatória.
O que me incomoda, ao observar certas narrativas contemporâneas, é a tentativa de transformar essa história em uma espécie de peça decorativa do liberalismo ocidental. Como se a derrota de Hitler tivesse sido obra quase exclusiva dos desembarques anglo-americanos, da aviação britânica, do esforço industrial dos Estados Unidos e das democracias ocidentais. Tudo isso teve importância, evidentemente. Seria absurdo negar o papel dos Estados Unidos, do Reino Unido, da resistência francesa, dos partisans iugoslavos, dos combatentes italianos antifascistas, dos chineses contra o Japão e de tantos outros povos. Mas também seria historicamente desonesto esconder que o teatro oriental da guerra foi o maior, mais brutal e mais decisivo campo de destruição da máquina militar nazista.
O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos descreve o front oriental como o maior e mais letal teatro da Segunda Guerra Mundial, lembrando que a Alemanha nazista e seus aliados invadiram a União Soviética em 22 de junho de 1941 e conduziram ali uma guerra de extermínio contra povos, cidades e populações civis.
Quando se entende isso, o 9 de maio deixa de ser apenas uma comemoração russa ou soviética. Ele passa a ser uma chave para compreender a geopolítica da memória. E memória, no mundo contemporâneo, é poder.
2. A invasão da União Soviética e a guerra de aniquilação
A Operação Barbarossa, lançada em 22 de junho de 1941, foi muito mais que uma ofensiva militar. Foi a execução de um projeto ideológico. Hitler não pretendia apenas derrotar a União Soviética. Pretendia destruir o Estado soviético, escravizar populações, eliminar judeus, comunistas, eslavos considerados “inferiores” pela ideologia nazista e abrir espaço territorial para o chamado Lebensraum, o “espaço vital” alemão.
A guerra no Leste, portanto, não foi uma guerra convencional. Foi uma guerra racial, colonial e genocida. O nazismo levou para o território soviético uma lógica de extermínio que articulava anticomunismo, racismo biológico, expansão imperial e destruição social. Não se tratava apenas de conquistar Moscou, Leningrado ou Stalingrado. Tratava-se de reorganizar a Europa Oriental como colônia do Reich.
É por isso que considero superficial qualquer leitura da Segunda Guerra que reduza o conflito a uma disputa militar entre Estados. A guerra contra a União Soviética foi uma guerra contra uma forma inteira de existência histórica. Não era apenas o Exército Vermelho que estava sob ataque. Eram camponeses, operários, judeus, crianças, mulheres, cidades inteiras, bibliotecas, fábricas, aldeias, memórias, idiomas e modos de vida.
A brutalidade do front oriental ajuda a explicar o tamanho do sacrifício soviético. As estimativas variam conforme a metodologia, mas a literatura histórica frequentemente trabalha com a ordem de mais de 20 milhões de mortos soviéticos, incluindo militares e civis. Esse número não é detalhe estatístico. É uma ferida histórica. É a escala humana de uma guerra que atingiu a população soviética em seu corpo, sua economia, sua paisagem e sua memória.
3. Stalingrado: quando o nazismo começou a sangrar sem retorno
Stalingrado foi mais que uma batalha. Foi um terremoto histórico. Entre 1942 e 1943, a cidade às margens do Volga tornou-se o ponto de condensação da guerra total. Ali, o avanço alemão encontrou uma resistência que misturava estratégia militar, desespero civil, disciplina política e sobrevivência coletiva.
A Batalha de Stalingrado é geralmente reconhecida como um dos grandes pontos de virada da Segunda Guerra Mundial. A Encyclopaedia Britannica registra que a batalha envolveu perdas gigantescas e se tornou símbolo da derrota alemã no Leste. Em sua linha do tempo sobre Stalingrado, a Britannica estima cerca de 1,1 milhão de baixas soviéticas e aproximadamente 40 mil civis mortos.
Stalingrado destruiu a aura de invencibilidade da Wehrmacht. Até ali, a máquina militar alemã havia avançado com rapidez impressionante pela Europa. Polônia, França, Bélgica, Holanda, Noruega, Iugoslávia e vastas regiões soviéticas haviam sido ocupadas. Mas Stalingrado mostrou que o nazismo podia ser contido, cercado e derrotado.
A rendição do 6º Exército alemão, comandado por Friedrich Paulus, teve impacto militar e psicológico. Militarmente, significou a perda de uma força estratégica alemã. Psicologicamente, demonstrou ao mundo que Hitler não era invencível. Geopoliticamente, mudou o cálculo dos Aliados. A União Soviética não era apenas uma potência resistindo; era uma potência capaz de empurrar o Reich de volta para o coração da Europa.
Quando observo Stalingrado, vejo uma metáfora cruel da história: uma cidade destruída ensinou ao mundo que a barbárie também pode ser derrotada pedra por pedra, rua por rua, casa por casa. Não há romantização possível da guerra. Há apenas a constatação dura de que, naquele momento, a derrota do nazismo passou pela capacidade soviética de suportar o insuportável.
4. Kursk: a virada estratégica definitiva
Se Stalingrado quebrou o mito da invencibilidade alemã, Kursk consolidou a mudança de direção da guerra. Em julho de 1943, a Alemanha tentou recuperar a iniciativa estratégica no Leste. A ofensiva alemã contra o saliente de Kursk foi planejada como um golpe capaz de destruir forças soviéticas, estabilizar o front e recuperar margem política e militar.
Mas o resultado foi o oposto. Os soviéticos resistiram, absorveram o ataque, desgastaram as forças alemãs e passaram à contraofensiva. A partir de Kursk, a Alemanha nazista perdeu definitivamente a capacidade de conduzir grandes ofensivas estratégicas no front oriental. A guerra passou a caminhar, com custos humanos imensos, em direção a Berlim.
A Britannica descreve Kursk como a maior batalha de tanques da história e registra perdas expressivas alemãs, incluindo milhares de tanques e dezenas de milhares de homens. O National WWII Museum também destaca o peso devastador das campanhas no front oriental e a escala brutal das perdas militares alemãs e soviéticas.
Kursk é importante porque desmonta uma narrativa simplista: a de que a Alemanha perdeu apenas por erro de Hitler, inverno russo ou excesso de ambição. Esses fatores existiram, mas não explicam tudo. A Alemanha perdeu porque enfrentou um adversário que reorganizou sua indústria, aprendeu com derrotas, melhorou sua inteligência militar, mobilizou recursos humanos gigantescos e construiu uma capacidade operacional extraordinária.
A vitória soviética não foi milagre. Foi política industrial, comando militar, sacrifício popular, produção em massa, adaptação estratégica e brutal resistência.
5. Berlim e o fim do Reich
A queda de Berlim, em 1945, foi o desfecho simbólico e material da guerra na Europa. O Exército Vermelho chegou à capital do Reich depois de atravessar um caminho de devastação. A ofensiva final não foi apenas uma operação militar. Foi o colapso de um projeto histórico criminoso.
Hitler havia prometido um império de mil anos. Durou doze. Mas, nesse curto intervalo, produziu uma das maiores catástrofes morais da história humana: Holocausto, guerra total, destruição de cidades, genocídio, campos de extermínio, expansão imperial e culto político à morte.
A rendição alemã, autorizada após a morte de Hitler, foi formalizada em maio de 1945. A Royal British Legion lembra que a Alemanha se rendeu oficialmente em 7 de maio e que o 8 de maio entrou para a memória britânica como o Dia da Vitória na Europa. Para os soviéticos, entretanto, a assinatura final já correspondia ao dia 9 de maio em Moscou. Por isso, o 9 de maio tornou-se o marco da vitória soviética e pós-soviética contra o nazismo.
O ponto central, para mim, é que Berlim não caiu por abstração moral. Caiu porque soldados concretos chegaram até lá. E, entre eles, os soldados soviéticos tiveram papel decisivo.
6. A disputa pela memória: quando a história vira campo de batalha
O século XXI assiste a uma nova disputa em torno da Segunda Guerra Mundial. Essa disputa não ocorre apenas em livros didáticos. Ela aparece em discursos políticos, filmes, séries, museus, redes sociais, resoluções parlamentares, campanhas de desinformação e narrativas nacionais.
A memória da guerra virou um instrumento geopolítico. O Ocidente tende a enfatizar Normandia, Churchill, Roosevelt, o Plano Marshall e a reconstrução europeia. A Rússia enfatiza a Grande Guerra Patriótica, o Exército Vermelho, Stalingrado, Kursk e Berlim. Cada memória organiza uma moral política.
O problema começa quando uma narrativa tenta apagar a outra. Não há necessidade de diminuir o desembarque da Normandia para reconhecer Stalingrado. Não há necessidade de minimizar o esforço britânico para reconhecer Leningrado. Não há necessidade de reduzir o papel norte-americano para reconhecer o preço soviético. A história não precisa ser uma competição de vaidades nacionais. Mas ela exige proporção.
E a proporção histórica é inequívoca: o front oriental foi decisivo para a destruição do poder militar nazista.
Quando essa proporção é apagada, algo perigoso acontece. O nazismo deixa de ser compreendido como projeto histórico concreto e passa a virar uma espécie de mal abstrato, derrotado por valores genéricos. Isso é conveniente, porque permite que muitos países contemporâneos condenem Hitler sem examinar suas próprias práticas de colonialismo, racismo, militarismo, anticomunismo fanático e supremacismo civilizacional.
A memória seletiva é sempre uma forma de poder.
7. O 9 de maio e a ordem mundial do pós-guerra
A vitória de 1945 reorganizou o planeta. Dela nasceram a Organização das Nações Unidas, a divisão da Alemanha, a Guerra Fria, a bipolaridade nuclear, a reconstrução europeia, a expansão do socialismo no Leste Europeu, a crise dos impérios coloniais e uma nova linguagem internacional dos direitos humanos.
A União Soviética saiu da guerra devastada, mas também saiu como superpotência. O preço havia sido gigantesco. Cidades destruídas, milhões de mortos, economia arrasada. Ainda assim, o prestígio soviético era imenso entre movimentos antifascistas, comunistas, socialistas, nacionalistas anticoloniais e setores populares de vários países.
Esse ponto é essencial: a vitória soviética contra o nazismo teve impacto direto sobre o Sul Global. Ela fortaleceu movimentos de libertação nacional, acelerou a crise moral do colonialismo europeu e demonstrou que a Europa Ocidental não era o centro incontestável da história mundial.
Depois de 1945, os impérios coloniais começaram a ruir com maior velocidade. Índia, Indonésia, Vietnã, Argélia, países africanos e asiáticos passaram a confrontar mais diretamente a dominação colonial. A derrota do nazifascismo abriu uma contradição insustentável: como as potências europeias poderiam celebrar a liberdade contra Hitler e, ao mesmo tempo, manter povos inteiros sob domínio colonial?
Essa contradição não nasceu apenas da vitória soviética, mas foi intensificada por ela. O mundo colonial percebeu que a velha Europa podia ser derrotada, questionada e superada.
8. O antifascismo como responsabilidade do presente
Falar do 9 de maio hoje não significa endossar automaticamente governos contemporâneos, nem transformar a história em propaganda estatal. Significa reconhecer um fato histórico: a derrota do nazismo dependeu decisivamente do sacrifício soviético.
É preciso separar memória histórica de adesão política automática. Reconhecer o papel do Exército Vermelho não obriga ninguém a idealizar Stalin, ignorar repressões internas soviéticas ou romantizar autoritarismos. A maturidade histórica exige sustentar duas verdades ao mesmo tempo: a União Soviética cometeu graves violências internas, mas foi decisiva na derrota do nazismo. Uma verdade não cancela a outra.
O problema do debate público atual é sua infantilização. Ou se santifica, ou se demoniza. Ou se transforma tudo em mito, ou se apaga tudo por conveniência. A história exige mais do que isso. Exige complexidade.
O antifascismo, se quiser ser sério, precisa ser mais que uma palavra bonita. Ele precisa combater a reabilitação simbólica da extrema direita, a naturalização do ódio, a política do inimigo interno, o racismo, o militarismo, o culto ao líder forte, a mentira organizada e o desprezo pela vida humana.
O nazismo não começou com campos de extermínio. Começou com linguagem de desumanização, ressentimento social, propaganda, culto nacionalista, medo fabricado, perseguição a minorias, promessa de restauração moral e fantasia de grandeza perdida. Por isso, lembrar 1945 é também vigiar 2026, 2030 e todos os anos seguintes.
9. O perigo da reescrita histórica
Quando a história é reescrita para atender ao presente, o passado deixa de ser memória e vira munição. Isso acontece de várias formas: minimizando o papel soviético, equiparando mecanicamente comunismo e nazismo sem considerar contextos específicos, transformando colaboradores fascistas em “nacionalistas”, tratando a extrema direita como mera opinião conservadora ou substituindo análise histórica por marketing político.
A reescrita histórica não costuma começar com uma mentira total. Ela começa com deslocamentos sutis. Troca-se o centro pela periferia. Reduz-se o número de mortos a estatística fria. Apaga-se o contexto. Escolhem-se fotografias convenientes. Omitem-se batalhas. Esvaziam-se palavras. No fim, a memória pública fica tão fragmentada que qualquer narrativa cabe nela.
É por isso que o 9 de maio incomoda. Ele recoloca no centro da história aquilo que muitos preferem deslocar: o papel soviético na derrota do nazismo e o caráter profundamente geopolítico da memória antifascista.
10. Conclusão: lembrar é resistir ao cinismo histórico
Eu considero o 9 de maio uma das datas mais importantes da história contemporânea porque ela nos obriga a encarar três verdades difíceis.
A primeira é que o nazismo não foi derrotado apenas por discursos democráticos, mas por luta concreta, por sangue, por sacrifício, por produção industrial, por resistência popular e por milhões de vidas interrompidas.
A segunda é que o Exército Vermelho ocupou papel central nesse processo. Stalingrado, Kursk e Berlim não são notas de rodapé. São capítulos estruturantes da derrota do nazifascismo.
A terceira é que a disputa pela memória da Segunda Guerra Mundial continua viva porque o mundo atual ainda disputa os sentidos de fascismo, democracia, soberania, imperialismo, colonialismo e ordem internacional.
Lembrar o 9 de maio não é culto à guerra. É recusa do esquecimento. É reconhecer que a liberdade europeia custou também a vida de milhões de soviéticos. É impedir que a história seja higienizada até virar peça publicitária. É compreender que os velhos fantasmas não retornam usando necessariamente os mesmos uniformes. Muitas vezes voltam com linguagem moderna, estética digital, algoritmos, nacionalismos reciclados e discursos de ódio embalados como liberdade de expressão.
A memória histórica, quando tratada com seriedade, não serve para aprisionar o presente ao passado. Serve para impedir que o presente finja inocência diante dos sinais que já conhece.
Referências
BEEVOR, Antony. Stalingrado. Rio de Janeiro: Record, 2002.
BELLAMY, Chris. Guerra absoluta: a Rússia soviética na Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Record, 2009.
BRITANNICA. Battle of Stalingrad. Encyclopaedia Britannica, 2026.
BRITANNICA. Eastern Front: World War II. Encyclopaedia Britannica, 2026.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914–1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
IMPERIAL WAR MUSEUMS. What you need to know about VE Day. London: IWM, 2025.
JUDT, Tony. Pós-guerra: uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
OVERY, Richard. A guerra de Hitler. São Paulo: Record, 2014.
UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. The Soviet Union and the Eastern Front. Washington, DC: USHMM, 2022.
ZUBOK, Vladislav M. A failed empire: the Soviet Union in the Cold War from Stalin to Gorbachev. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2007.
Nenhum comentário:
Postar um comentário