sábado, 2 de maio de 2026

SUS, China e Estados Unidos: três modelos de saúde e uma pergunta moral sobre o direito à vida

Entre o Estado social chinês, o mercado sanitário norte-americano e o universalismo brasileiro, a saúde revela muito mais do que eficiência administrativa: revela o valor que uma sociedade atribui ao povo.


Lide

Comparar os sistemas de saúde da China, dos Estados Unidos e do Brasil é mais do que comparar hospitais, filas, seguros, exames e tecnologias. É comparar projetos de sociedade. A China avança para ampliar cobertura, capacidade tecnológica e proteção social. Os Estados Unidos mantêm um dos sistemas mais caros do mundo, no qual milhões enfrentam barreiras financeiras para cuidar da própria saúde. O Brasil, apesar de suas limitações, possui uma das maiores conquistas civilizatórias da Constituição de 1988: o Sistema Único de Saúde, público, universal e gratuito. Por isso, qualquer tentativa de enfraquecer, subfinanciar ou privatizar o SUS deve ser lida como uma decisão política grave contra a população que mais depende dele.

1. China: cobertura ampla, tecnologia e projeto de Estado

A China tem buscado consolidar um sistema de saúde de ampla cobertura, articulado ao programa Healthy China 2030, uma estratégia nacional voltada à melhoria dos indicadores sanitários, prevenção de doenças e ampliação da qualidade dos serviços de saúde. A Organização Mundial da Saúde reconhece a iniciativa como parte de uma agenda ampla de promoção da saúde e redução de riscos populacionais.  

A literatura internacional aponta que a China alcançou cobertura básica de saúde para mais de 95% da população, embora ainda enfrente desigualdades regionais, desafios de financiamento e gastos diretos das famílias. O estudo publicado na The Lancet Public Health destaca que o país estabeleceu a meta de reduzir a participação do gasto direto das famílias no total das despesas em saúde para 25% até 2030.  

Assim, o modelo chinês não deve ser romantizado como se fosse plenamente gratuito ou sem contradições. Ele combina forte direção estatal, seguros públicos básicos, expansão da atenção primária, investimento tecnológico e metas nacionais de longo prazo. A diferença fundamental em relação ao modelo norte-americano está no fato de que a saúde chinesa é tratada como componente estratégico de desenvolvimento nacional, não apenas como produto de mercado.

2. Estados Unidos: alta tecnologia, alto custo e insegurança sanitária

Os Estados Unidos possuem hospitais, universidades médicas, centros de pesquisa e tecnologias de ponta. O problema não é ausência de capacidade médica; é o modo como o acesso é organizado. O país não possui um sistema universal gratuito semelhante ao SUS. Existem programas públicos relevantes, como Medicare, Medicaid e Veterans Health Administration, mas o acesso geral depende fortemente de seguros privados, vínculo empregatício, renda e capacidade de pagamento.

O Commonwealth Fund mostra que os EUA continuam apresentando graves problemas de cobertura, subseguro e endividamento médico. Em 2024, a pesquisa indicou que muitos adultos em idade ativa permaneciam sem seguro adequado ou enfrentavam custos elevados mesmo segurados.  

A KFF registra que cerca de quatro em cada dez adultos norte-americanos possuem algum tipo de dívida médica ou odontológica, o que evidencia que doença, nos EUA, pode se transformar em crise financeira familiar.   Outro levantamento da KFF aponta que, em 2024, 31% dos adultos sem seguro adiaram ou deixaram de buscar atendimento médico por causa do custo.  

Portanto, o modelo norte-americano demonstra uma contradição profunda: altíssima sofisticação médica combinada com barreiras econômicas severas. A tecnologia existe, mas o acesso não é universal.

3. Brasil: o SUS como patrimônio civilizatório

O SUS nasce de uma decisão constitucional: saúde não é favor, mercadoria ou privilégio; é direito. O artigo 196 da Constituição Federal afirma que “a saúde é direito de todos e dever do Estado”, garantida por políticas sociais e econômicas e pelo acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde.  

O Ministério da Saúde define a universalização como princípio segundo o qual o acesso deve ser garantido a todas as pessoas, independentemente de sexo, raça, ocupação ou condição social.   A Lei nº 8.080/1990 regulamentou o sistema e consolidou suas bases institucionais em todo o território nacional.  

O SUS não é apenas hospital. É vacinação, vigilância epidemiológica, transplantes, atenção básica, SAMU, Farmácia Popular, controle sanitário, prevenção, campanhas nacionais, assistência farmacêutica, tratamento de doenças crônicas, atendimento de urgência e ações de saúde coletiva. O próprio governo federal reconhece o SUS como o maior sistema público, gratuito e universal de saúde do mundo.  

Durante a pandemia, ficou evidente que sem o SUS o Brasil teria enfrentado uma tragédia ainda maior. A estrutura pública permitiu vacinação em massa, vigilância sanitária, atendimento hospitalar, produção científica e articulação federativa, ainda que sob muitos conflitos políticos e problemas de gestão.

4. O problema não é o SUS: é o subfinanciamento

As filas, a demora, a falta de profissionais e a precariedade de algumas unidades não provam que o SUS fracassou. Provam que um sistema universal precisa de financiamento estável, planejamento, gestão qualificada e prioridade política.

O Ipea mostra que a Emenda Constitucional nº 95, o chamado teto de gastos, gerou desafios para o SUS e afetou o acesso da população aos serviços públicos de saúde.   A Fiocruz também criticou a EC 95 por congelar despesas primárias por 20 anos, sustentando que ela atingiu o núcleo essencial do direito à saúde ao comprometer recursos necessários à sustentabilidade do sistema.  

A crítica, portanto, não é apenas ideológica. Há base técnica: quando a população cresce, envelhece e demanda mais serviços, congelar ou limitar investimentos reais significa pressionar o sistema até que ele pareça ineficiente. Depois, usa-se a precarização produzida politicamente como argumento para privatizar. É uma engrenagem conhecida: primeiro enfraquece-se o público; depois vende-se o privado como salvação.

5. Houve ações políticas concretas que ameaçaram o SUS?

Sim. Um exemplo objetivo foi o Decreto nº 10.530/2020, que qualificava a política de atenção primária à saúde no Programa de Parcerias de Investimentos, permitindo estudos sobre parcerias com a iniciativa privada para construção, modernização e operação de Unidades Básicas de Saúde. O decreto foi publicado em 26 de outubro de 2020 e revogado logo depois pelo Decreto nº 10.533/2020.  

Entidades da saúde interpretaram o decreto como abertura para privatização da atenção básica. O Conselho Federal de Enfermagem registrou que o texto tratava de alternativas de parceria com a iniciativa privada para construção, modernização e operação de UBS.   A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade afirmou que a medida não poderia ser compreendida isoladamente, mas dentro de um contexto de desfinanciamento e privatização da atenção primária.  

Outro eixo foi a proposta dos chamados “planos populares” ou “planos acessíveis”, criticada por especialistas por oferecer coberturas reduzidas e potencialmente empurrar para o SUS os casos mais caros e complexos. A Fiocruz publicou críticas a esse modelo em 2017, apontando riscos aos usuários.  

6. O SUS e a disputa entre direito e mercado

O debate sobre saúde não é neutro. De um lado, há a ideia de saúde como direito social. De outro, há a ideia de saúde como mercado. O SUS representa a primeira concepção. Os modelos privatizantes tendem à segunda.

Isso não significa negar a existência da saúde suplementar ou da iniciativa privada, que podem atuar de forma complementar, como prevê o próprio desenho constitucional. O problema começa quando o setor privado deixa de ser complementar e passa a disputar o orçamento, a narrativa pública e a legitimidade do sistema universal.

Lenir Bahia, em análise publicada na revista Saúde em Debate, discute justamente as contradições entre SUS, setor privado assistencial e processos de privatização no Brasil.  

Conclusão

A comparação entre China, Estados Unidos e Brasil revela três projetos distintos. A China utiliza planejamento estatal e metas de longo prazo para ampliar cobertura e fortalecer sua capacidade sanitária. Os Estados Unidos mostram que alta tecnologia sem universalidade pode produzir exclusão, medo e endividamento. O Brasil, por sua vez, possui uma das mais importantes experiências de saúde pública do mundo: o SUS.

O SUS não é perfeito. Mas sua imperfeição não autoriza sua destruição. Ao contrário: exige financiamento, valorização dos profissionais, gestão eficiente, controle social e defesa constitucional. Para milhões de brasileiros, o SUS não é uma abstração administrativa; é a diferença entre viver e morrer, entre tratar e abandonar, entre dignidade e desamparo.

Destruir o SUS, enfraquecê-lo ou transformá-lo em balcão de negócios não é apenas uma escolha econômica. É uma declaração política sobre quais vidas importam. E, em um país profundamente desigual, atacar o SUS significa atacar justamente quem mais precisa do Estado para continuar existindo com dignidade.

Referências essenciais em ABNT

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Artigos 196 a 200. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema Único de Saúde — SUS. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025.

BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para promoção, proteção e recuperação da saúde.

COMMONWEALTH FUND. The State of Health Insurance Coverage in the U.S.: Findings from the Commonwealth Fund 2024 Biennial Health Insurance Survey. New York: Commonwealth Fund, 2024.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Emenda Constitucional 95 fere o núcleo essencial do direito à saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2019.

IPEA. Estudo traça a evolução do piso federal per capita em saúde e os desafios para ampliar o financiamento do SUS. Brasília, DF: Ipea, 2023.

KFF. Americans’ Challenges with Health Care Costs. San Francisco: KFF, 2026.

YIP, Winnie et al. Universal health coverage in China. The Lancet Public Health, 2023.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Healthy China 2030: from vision to action. Geneva: WHO, 2016.


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