Uma leitura crítica sobre a formação, estrutura e atualidade do autoritarismo na cultura política brasileira
Lide
O integralismo brasileiro não foi um desvio episódico, tampouco uma cópia imperfeita do fascismo europeu. Ao contrário, constituiu-se como uma das mais densas experiências de mobilização autoritária de massas no país, articulando religião, nacionalismo e disciplina social em um projeto político que atravessa o tempo. Ao revisitar sua trajetória, percebo que não estou apenas olhando para o passado — estou, sobretudo, tentando compreender os mecanismos pelos quais o autoritarismo se reinventa, adapta-se e retorna sob novas linguagens no presente.
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1. Introdução: por que o integralismo ainda importa
Quando observo o cenário político contemporâneo, marcado por polarizações intensas, discursos moralizantes e apelos à ordem e à autoridade, sou inevitavelmente levado a revisitar o integralismo brasileiro. Não por curiosidade histórica, mas por necessidade analítica. Afinal, o que foi o integralismo? Um fenômeno isolado dos anos 1930 ou uma expressão profunda de estruturas permanentes da cultura política nacional?
A resposta, ao meu ver, exige abandonar interpretações superficiais. O integralismo não pode ser reduzido a um episódio exótico da história brasileira. Ele foi — e talvez ainda seja — uma manifestação concreta de algo mais profundo: a tensão estrutural entre democracia e autoritarismo no Brasil.
Meu objetivo neste artigo é justamente esse: analisar o integralismo como uma forma brasileira de fascismo, compreender suas bases teóricas e históricas e, principalmente, refletir sobre sua permanência sob novas formas. Para isso, mobilizo uma abordagem histórico-analítica, sustentada por autores clássicos e contemporâneos da teoria política, sociologia e historiografia.
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2. O fascismo como fenômeno histórico: muito além da Europa
Antes de compreender o integralismo, precisei revisitar o próprio conceito de fascismo. Durante muito tempo, ele foi tratado como um fenômeno restrito à Itália de Mussolini e à Alemanha nazista. No entanto, essa visão é limitada.
Roger Griffin define o fascismo como uma forma de “ultranacionalismo palingenético”, ou seja, um projeto político que promete o renascimento da nação a partir de uma crise percebida (Griffin, 1991). Essa ideia de renascimento — quase messiânica — é central para entender sua força mobilizadora.
Já Stanley Payne propõe uma tipologia que inclui elementos como:
- rejeição ao liberalismo,
- anticomunismo,
- mobilização de massas,
- culto à liderança,
- estética política disciplinadora (Payne, 1995).
Quando observo essas características, percebo que o fascismo não é um modelo fixo, mas um campo de possibilidades ideológicas que pode se manifestar de formas distintas em diferentes contextos nacionais.
É exatamente nesse ponto que o integralismo brasileiro se insere.
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3. A crise da ordem liberal e o surgimento do integralismo
O integralismo nasce em um momento de ruptura. A década de 1930 no Brasil foi marcada pela crise da República Velha, pela ascensão de Getúlio Vargas e pela reconfiguração das relações entre Estado e sociedade.
Karl Polanyi já havia identificado que momentos de crise do liberalismo econômico tendem a gerar reações autoritárias (Polanyi, 2000). No Brasil, essa dinâmica não foi diferente.
O que vejo nesse período é uma combinação explosiva:
- instabilidade política,
- urbanização acelerada,
- medo das revoluções sociais,
- busca por ordem e identidade nacional.
É nesse cenário que surge a Ação Integralista Brasileira (AIB), liderada por Plínio Salgado.
O integralismo não se apresenta como uma ideologia entre outras. Ele se propõe como solução total. Seu lema — “Deus, Pátria e Família” — sintetiza um projeto de reorganização completa da sociedade, ancorado em valores tradicionais e na rejeição do liberalismo.
Como destaca Hélgio Trindade, o integralismo deve ser compreendido como “a forma mais acabada de fascismo no Brasil” (Trindade, 1979).
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4. Integralismo: cópia ou criação?
Uma das questões que mais me intrigam é: o integralismo foi apenas uma importação do fascismo europeu?
Minha resposta é clara: não.
O integralismo foi uma tradução cultural do fascismo. Ele não apenas imitou — ele reinterpretou.
Enquanto o fascismo italiano se baseava fortemente no Estado e o nazismo no racialismo biológico, o integralismo incorporou elementos profundamente brasileiros:
- catolicismo como eixo moral,
- espiritualismo,
- valorização da unidade nacional sem centralidade racial,
- linguagem simbólica adaptada à cultura local.
Essa capacidade de adaptação confirma a tese de que o fascismo é um fenômeno transnacional, mas não homogêneo.
Como afirma Emilio Gentile, o fascismo deve ser entendido também como uma “religião política”, capaz de mobilizar crenças, rituais e símbolos (Gentile, 2005).
No integralismo, isso é evidente:
- uniformes (camisas verdes),
- saudações (“Anauê”),
- rituais coletivos,
- culto à liderança.
Nada disso é superficial. Trata-se de uma estratégia de construção de subjetividades.
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5. Cultura política e produção de subjetividades
Ao analisar o integralismo, não posso ignorar sua dimensão simbólica. Ele não era apenas um movimento político — era um sistema cultural.
Clifford Geertz nos ensina que a cultura funciona como um sistema de significados compartilhados (Geertz, 1989). O integralismo operava exatamente assim: criando uma linguagem comum que moldava a percepção da realidade.
Mas talvez seja Michel Foucault quem melhor nos ajuda a compreender esse processo. Para ele, o poder não se exerce apenas por meio da repressão, mas pela produção de sujeitos (Foucault, 1979).
O integralismo produzia sujeitos disciplinados:
- obedientes,
- moralmente orientados,
- integrados a uma coletividade.
Essa dimensão é crucial. O autoritarismo não se sustenta apenas pela força — ele se sustenta pela internalização.
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6. Autoritarismo como estrutura: o caso brasileiro
Ao aprofundar minha análise, percebo que o integralismo não surge no vazio. Ele se insere em uma tradição autoritária brasileira.
Raymundo Faoro já havia demonstrado como o Estado brasileiro se estruturou historicamente de forma patrimonialista, concentrando poder e limitando a participação social (Faoro, 2001).
Sérgio Buarque de Holanda, por sua vez, aponta para o personalismo como traço marcante da cultura política nacional (Holanda, 1995).
Esses elementos criam um terreno fértil para o autoritarismo.
O integralismo, nesse sentido, não é uma ruptura — é uma continuidade.
Jessé Souza aprofunda essa leitura ao mostrar como as elites brasileiras reproduzem estruturas de exclusão (Souza, 2017). O discurso integralista, ao defender ordem e hierarquia, dialoga diretamente com essa lógica.
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7. O integralismo não morreu: ele se transformou
Talvez a parte mais inquietante da minha análise seja esta: o integralismo não desapareceu.
Ele se transformou.
Autores contemporâneos como Umberto Eco alertam para a existência de um “fascismo eterno”, que pode reaparecer sob diferentes formas (Eco, 2018). Esse fascismo não precisa de uniformes ou marchas — ele se adapta.
Hoje, ele pode se manifestar como:
- discurso moralista,
- intolerância política,
- rejeição à pluralidade,
- culto à autoridade.
Jason Stanley mostra como o fascismo moderno opera por meio da manipulação da linguagem e da construção de inimigos internos (Stanley, 2018).
Quando observo o cenário político atual, vejo ecos claros dessas estratégias.
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8. Fascismo como linguagem política contemporânea
O fascismo contemporâneo não se apresenta como fascismo. Ele se disfarça.
Cas Mudde descreve o populismo de direita radical como uma forma de política que combina nacionalismo, autoritarismo e anti-elitismo (Mudde, 2019).
Essa combinação é extremamente eficaz.
Ela transforma:
- medo em mobilização,
- ressentimento em identidade,
- crise em oportunidade política.
O integralismo, nesse sentido, pode ser visto como um precursor de dinâmicas que hoje se ampliam em escala global.
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9. Discussão crítica: limites e possibilidades da interpretação
É importante reconhecer que nem todos os estudiosos concordam com a classificação do integralismo como fascismo.
Alguns argumentam que ele possui especificidades que o diferenciam significativamente dos modelos europeus.
No entanto, ao considerar:
- estrutura organizacional,
- discurso político,
- mobilização de massas,
- rejeição ao liberalismo,
torna-se difícil ignorar suas proximidades com o fascismo.
A questão central, portanto, não é se o integralismo foi idêntico ao fascismo europeu, mas se ele compartilha sua lógica fundamental.
Minha resposta é afirmativa.
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10. Conclusão: entre memória e vigilância
Ao concluir esta análise, chego a uma constatação inquietante: estudar o integralismo é, acima de tudo, estudar o presente.
O autoritarismo não é um acidente na história brasileira. Ele é uma possibilidade recorrente, que se atualiza conforme as condições históricas.
O integralismo nos mostra que:
- ideias autoritárias podem se enraizar profundamente,
- movimentos de massa podem ser mobilizados por discursos de ordem,
- a democracia pode ser contestada a partir de dentro.
Mais do que um objeto histórico, o integralismo é um alerta.
Ele nos obriga a perguntar:
quais são, hoje, as novas formas do velho autoritarismo?
Se há uma lição a ser extraída, é esta:
a democracia não se sustenta apenas por instituições — ela depende de uma cultura política vigilante, crítica e comprometida com a pluralidade.
E talvez seja justamente isso que o integralismo, ontem e hoje, coloca em risco.
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Referências (ABNT)
BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: UNESP, 1995.
ECO, Umberto. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2018.
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
GENTILE, Emilio. As religiões da política. São Paulo: Edusp, 2005.
GRIFFIN, Roger. The nature of fascism. London: Routledge, 1991.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MUDDE, Cas. The far right today. Cambridge: Polity Press, 2019.
PAYNE, Stanley. A history of fascism, 1914–1945. Madison: University of Wisconsin Press, 1995.
POLANYI, Karl. A grande transformação. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
SOUZA, Jessé. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
STANLEY, Jason. How fascism works: the politics of us and them. New York: Random House, 2018.
TRINDADE, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. Rio de Janeiro: DIFEL, 1979.
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