quarta-feira, 6 de maio de 2026

Integralismo e Fascismo no Brasil: entre adaptação histórica e permanências autoritárias

Uma leitura crítica sobre a formação, estrutura e atualidade do autoritarismo na cultura política brasileira





Lide


O integralismo brasileiro não foi um desvio episódico, tampouco uma cópia imperfeita do fascismo europeu. Ao contrário, constituiu-se como uma das mais densas experiências de mobilização autoritária de massas no país, articulando religião, nacionalismo e disciplina social em um projeto político que atravessa o tempo. Ao revisitar sua trajetória, percebo que não estou apenas olhando para o passado — estou, sobretudo, tentando compreender os mecanismos pelos quais o autoritarismo se reinventa, adapta-se e retorna sob novas linguagens no presente.



1. Introdução: por que o integralismo ainda importa


Quando observo o cenário político contemporâneo, marcado por polarizações intensas, discursos moralizantes e apelos à ordem e à autoridade, sou inevitavelmente levado a revisitar o integralismo brasileiro. Não por curiosidade histórica, mas por necessidade analítica. Afinal, o que foi o integralismo? Um fenômeno isolado dos anos 1930 ou uma expressão profunda de estruturas permanentes da cultura política nacional?


A resposta, ao meu ver, exige abandonar interpretações superficiais. O integralismo não pode ser reduzido a um episódio exótico da história brasileira. Ele foi — e talvez ainda seja — uma manifestação concreta de algo mais profundo: a tensão estrutural entre democracia e autoritarismo no Brasil.


Meu objetivo neste artigo é justamente esse: analisar o integralismo como uma forma brasileira de fascismo, compreender suas bases teóricas e históricas e, principalmente, refletir sobre sua permanência sob novas formas. Para isso, mobilizo uma abordagem histórico-analítica, sustentada por autores clássicos e contemporâneos da teoria política, sociologia e historiografia.



2. O fascismo como fenômeno histórico: muito além da Europa


Antes de compreender o integralismo, precisei revisitar o próprio conceito de fascismo. Durante muito tempo, ele foi tratado como um fenômeno restrito à Itália de Mussolini e à Alemanha nazista. No entanto, essa visão é limitada.


Roger Griffin define o fascismo como uma forma de “ultranacionalismo palingenético”, ou seja, um projeto político que promete o renascimento da nação a partir de uma crise percebida (Griffin, 1991). Essa ideia de renascimento — quase messiânica — é central para entender sua força mobilizadora.


Já Stanley Payne propõe uma tipologia que inclui elementos como:


  • rejeição ao liberalismo,
  • anticomunismo,
  • mobilização de massas,
  • culto à liderança,
  • estética política disciplinadora (Payne, 1995).


Quando observo essas características, percebo que o fascismo não é um modelo fixo, mas um campo de possibilidades ideológicas que pode se manifestar de formas distintas em diferentes contextos nacionais.


É exatamente nesse ponto que o integralismo brasileiro se insere.



3. A crise da ordem liberal e o surgimento do integralismo


O integralismo nasce em um momento de ruptura. A década de 1930 no Brasil foi marcada pela crise da República Velha, pela ascensão de Getúlio Vargas e pela reconfiguração das relações entre Estado e sociedade.


Karl Polanyi já havia identificado que momentos de crise do liberalismo econômico tendem a gerar reações autoritárias (Polanyi, 2000). No Brasil, essa dinâmica não foi diferente.


O que vejo nesse período é uma combinação explosiva:


  • instabilidade política,
  • urbanização acelerada,
  • medo das revoluções sociais,
  • busca por ordem e identidade nacional.


É nesse cenário que surge a Ação Integralista Brasileira (AIB), liderada por Plínio Salgado.


O integralismo não se apresenta como uma ideologia entre outras. Ele se propõe como solução total. Seu lema — “Deus, Pátria e Família” — sintetiza um projeto de reorganização completa da sociedade, ancorado em valores tradicionais e na rejeição do liberalismo.


Como destaca Hélgio Trindade, o integralismo deve ser compreendido como “a forma mais acabada de fascismo no Brasil” (Trindade, 1979).



4. Integralismo: cópia ou criação?


Uma das questões que mais me intrigam é: o integralismo foi apenas uma importação do fascismo europeu?


Minha resposta é clara: não.


O integralismo foi uma tradução cultural do fascismo. Ele não apenas imitou — ele reinterpretou.


Enquanto o fascismo italiano se baseava fortemente no Estado e o nazismo no racialismo biológico, o integralismo incorporou elementos profundamente brasileiros:


  • catolicismo como eixo moral,
  • espiritualismo,
  • valorização da unidade nacional sem centralidade racial,
  • linguagem simbólica adaptada à cultura local.


Essa capacidade de adaptação confirma a tese de que o fascismo é um fenômeno transnacional, mas não homogêneo.


Como afirma Emilio Gentile, o fascismo deve ser entendido também como uma “religião política”, capaz de mobilizar crenças, rituais e símbolos (Gentile, 2005).


No integralismo, isso é evidente:


  • uniformes (camisas verdes),
  • saudações (“Anauê”),
  • rituais coletivos,
  • culto à liderança.


Nada disso é superficial. Trata-se de uma estratégia de construção de subjetividades.



5. Cultura política e produção de subjetividades


Ao analisar o integralismo, não posso ignorar sua dimensão simbólica. Ele não era apenas um movimento político — era um sistema cultural.


Clifford Geertz nos ensina que a cultura funciona como um sistema de significados compartilhados (Geertz, 1989). O integralismo operava exatamente assim: criando uma linguagem comum que moldava a percepção da realidade.


Mas talvez seja Michel Foucault quem melhor nos ajuda a compreender esse processo. Para ele, o poder não se exerce apenas por meio da repressão, mas pela produção de sujeitos (Foucault, 1979).


O integralismo produzia sujeitos disciplinados:


  • obedientes,
  • moralmente orientados,
  • integrados a uma coletividade.


Essa dimensão é crucial. O autoritarismo não se sustenta apenas pela força — ele se sustenta pela internalização.



6. Autoritarismo como estrutura: o caso brasileiro


Ao aprofundar minha análise, percebo que o integralismo não surge no vazio. Ele se insere em uma tradição autoritária brasileira.


Raymundo Faoro já havia demonstrado como o Estado brasileiro se estruturou historicamente de forma patrimonialista, concentrando poder e limitando a participação social (Faoro, 2001).


Sérgio Buarque de Holanda, por sua vez, aponta para o personalismo como traço marcante da cultura política nacional (Holanda, 1995).


Esses elementos criam um terreno fértil para o autoritarismo.


O integralismo, nesse sentido, não é uma ruptura — é uma continuidade.


Jessé Souza aprofunda essa leitura ao mostrar como as elites brasileiras reproduzem estruturas de exclusão (Souza, 2017). O discurso integralista, ao defender ordem e hierarquia, dialoga diretamente com essa lógica.



7. O integralismo não morreu: ele se transformou


Talvez a parte mais inquietante da minha análise seja esta: o integralismo não desapareceu.


Ele se transformou.


Autores contemporâneos como Umberto Eco alertam para a existência de um “fascismo eterno”, que pode reaparecer sob diferentes formas (Eco, 2018). Esse fascismo não precisa de uniformes ou marchas — ele se adapta.


Hoje, ele pode se manifestar como:


  • discurso moralista,
  • intolerância política,
  • rejeição à pluralidade,
  • culto à autoridade.


Jason Stanley mostra como o fascismo moderno opera por meio da manipulação da linguagem e da construção de inimigos internos (Stanley, 2018).


Quando observo o cenário político atual, vejo ecos claros dessas estratégias.



8. Fascismo como linguagem política contemporânea


O fascismo contemporâneo não se apresenta como fascismo. Ele se disfarça.


Cas Mudde descreve o populismo de direita radical como uma forma de política que combina nacionalismo, autoritarismo e anti-elitismo (Mudde, 2019).


Essa combinação é extremamente eficaz.


Ela transforma:


  • medo em mobilização,
  • ressentimento em identidade,
  • crise em oportunidade política.


O integralismo, nesse sentido, pode ser visto como um precursor de dinâmicas que hoje se ampliam em escala global.



9. Discussão crítica: limites e possibilidades da interpretação


É importante reconhecer que nem todos os estudiosos concordam com a classificação do integralismo como fascismo.


Alguns argumentam que ele possui especificidades que o diferenciam significativamente dos modelos europeus.


No entanto, ao considerar:


  • estrutura organizacional,
  • discurso político,
  • mobilização de massas,
  • rejeição ao liberalismo,


torna-se difícil ignorar suas proximidades com o fascismo.


A questão central, portanto, não é se o integralismo foi idêntico ao fascismo europeu, mas se ele compartilha sua lógica fundamental.


Minha resposta é afirmativa.



10. Conclusão: entre memória e vigilância


Ao concluir esta análise, chego a uma constatação inquietante: estudar o integralismo é, acima de tudo, estudar o presente.


O autoritarismo não é um acidente na história brasileira. Ele é uma possibilidade recorrente, que se atualiza conforme as condições históricas.


O integralismo nos mostra que:


  • ideias autoritárias podem se enraizar profundamente,
  • movimentos de massa podem ser mobilizados por discursos de ordem,
  • a democracia pode ser contestada a partir de dentro.


Mais do que um objeto histórico, o integralismo é um alerta.


Ele nos obriga a perguntar:

quais são, hoje, as novas formas do velho autoritarismo?


Se há uma lição a ser extraída, é esta:

a democracia não se sustenta apenas por instituições — ela depende de uma cultura política vigilante, crítica e comprometida com a pluralidade.


E talvez seja justamente isso que o integralismo, ontem e hoje, coloca em risco.



Referências (ABNT)


BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: UNESP, 1995.


ECO, Umberto. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2018.


FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.


FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.


GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.


GENTILE, Emilio. As religiões da política. São Paulo: Edusp, 2005.


GRIFFIN, Roger. The nature of fascism. London: Routledge, 1991.


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


MUDDE, Cas. The far right today. Cambridge: Polity Press, 2019.


PAYNE, Stanley. A history of fascism, 1914–1945. Madison: University of Wisconsin Press, 1995.


POLANYI, Karl. A grande transformação. Rio de Janeiro: Campus, 2000.


SOUZA, Jessé. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Leya, 2017.


STANLEY, Jason. How fascism works: the politics of us and them. New York: Random House, 2018.


TRINDADE, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. Rio de Janeiro: DIFEL, 1979.

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