domingo, 2 de novembro de 2025

CHACINA, POLÍTICA E O PREÇO DA PAZ: A NECRÓPOLÍTICA BRASILEIRA E A CARNE NEGRA COMO MOEDA ELEITORAL

Quando a paz veste farda: o uso político da violência e o silêncio sobre a carne negra no Brasil — entre o sangue e o discurso, a democracia brasileira sob o império da necropolítica — como a tragédia virou propaganda na farsa do “Consórcio da Paz”.



Resumo

A recente operação policial no Rio de Janeiro, denominada Operação Contenção, resultou em mais de uma centena de mortes, em sua maioria jovens negros e pobres das periferias. A falta de preservação do local da chacina, a imediata criação do chamado “Consórcio da Paz” e as declarações de governadores e parlamentares que celebraram a operação revelam um fenômeno antigo e perverso: o uso político da violência. Este artigo propõe uma análise crítica e ética do episódio, articulando conceitos de necropolítica (Mbembe, 2019), populismo penal (Pratt, 2007; Garland, 2001), racismo estrutural (Almeida, 2018), e sociedade do espetáculo (Debord, 1997), com o testemunho do deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), cuja fala no plenário rompeu o silêncio conivente e recolocou a questão da vida como eixo moral da política. O texto sustenta que a chacina carioca constitui não apenas uma tragédia humanitária, mas um retrato do colapso democrático e civilizacional do Brasil contemporâneo, onde a “paz” é invocada como retórica de guerra e a carne negra segue sendo o corpo político do sacrifício.


Palavras-chave: necropolítica; populismo penal; racismo estrutural; democracia; violência de Estado; Consórcio da Paz.





1. Introdução: o corpo como prova e o silêncio como política



A madrugada carioca amanheceu com sirenes, helicópteros e manchetes apressadas.

Mais de cem corpos estendidos nas vielas — e nenhum perímetro preservado.

Como não houve isolamento da cena, só resta o corpo para perícia.

Resta o corpo como testemunha muda da barbárie; o corpo como documento do fracasso do Estado; o corpo como símbolo da República que continua a naturalizar a morte de seus próprios filhos.


Cada corpo é uma narrativa interrompida.

Mas o Brasil desaprendeu a ler seus mortos.


A ausência de perícia não é apenas erro técnico — é política de apagamento.

Quando o Estado não preserva a cena da chacina, ele destrói o que restava de verdade. Apaga vestígios, corrompe a memória, reescreve o crime como sucesso. O silêncio institucional é cúmplice: converte a tragédia em estatística e a dor em propaganda.

Esse mecanismo revela a lógica descrita por Achille Mbembe (2019) como necropolítica: o poder soberano de decidir quem pode viver e quem deve morrer.


No Brasil, a necropolítica é racializada. Ela tem endereço, CEP e cor.

Os mortos da Operação Contenção não são exceções — são parte de um padrão que se repete há décadas.

A seguir, a Seção 2 demonstra como essa violência é instrumentalizada politicamente sob a máscara do “combate ao crime”, enquanto a Seção 3 revela como a extrema direita converteu o horror em plataforma eleitoral.

O que se chama de “paz” é, na verdade, o silêncio imposto pelos fuzis.





2. Referencial Teórico: Populismo Penal, Necropolítica e o Espetáculo da Violência



A exploração midiática da violência e a manipulação do medo social tornaram-se elementos centrais das democracias esvaziadas. O uso político de tragédias e chacinas — como a do Rio de Janeiro — revela a persistência de uma razão necropolítica (MBEMBE, 2019), na qual o Estado exerce soberania através da administração da morte. O resultado é o fortalecimento de políticas de extermínio legitimadas pela emoção coletiva.


Esse processo é alimentado pelo populismo penal (PRATT, 2007; GARLAND, 2001), isto é, a exploração do medo e do clamor por punição como capital político. Governos que falham em garantir educação, moradia e emprego recorrem à promessa de força como narrativa de eficiência. A violência é vendida como justiça.

O que deveria ser um problema social é transformado em espetáculo.


Guy Debord (1997) descreve essa dinâmica como sociedade do espetáculo: a realidade é substituída pela imagem, e a barbárie, reencenada como triunfo moral. O Consórcio da Paz, anunciado logo após a chacina, é expressão desse paradoxo — invoca a paz enquanto institucionaliza a guerra.


A semântica da repressão é travestida de virtude: “combate”, “defesa da família”, “lei e ordem”. Como ensina Stanley Cohen (2002), tais discursos constroem pânicos morais, criando “demônios sociais” que justificam a violência estatal. No Brasil, o “inimigo” é quase sempre o mesmo: o jovem negro da periferia.


Para Byung-Chul Han (2014) e Naomi Klein (2007), essa racionalidade é típica das democracias neoliberais, nas quais crises são exploradas para consolidar controle e acumular poder. No caso brasileiro, o discurso de “paz armada” cumpre essa função: desvia o foco das desigualdades estruturais e produz consenso por meio do medo.





3. Análise Crítica: violência como capital político e a instrumentalização do Estado



O governador Cláudio Castro, ao comemorar a operação dizendo que “as únicas vítimas foram policiais mortos”, sintetizou o colapso moral da política pública. Seu discurso foi seguido por outros governadores de direita, como Romeu Zema (MG), que afirmou: “Quem ocupa espaço é terrorista.”

Essas falas constroem um inimigo conveniente — genérico, desumanizado — que serve de pretexto para operações letais e marketing eleitoral.


A “Operação Contenção” foi transformada em espetáculo de poder, com imagens de favelas sitiadas transmitidas em tempo real. Poucos dias depois, o mesmo grupo político anunciou o Consórcio da Paz, apresentado como inovação cooperativa. Na prática, trata-se de uma aliança repressiva, um pacto federativo de violência travestido de política pública.


A crítica à lógica do “resultado rápido” é central. Como alertou Garland (2001), a política punitiva é um substituto simbólico da política social. Ao invés de escolas, tanques; em lugar de saúde, helicópteros; no lugar da reforma urbana, enterros coletivos.

A “paz” que nasce da bala é apenas a pausa entre duas operações.





4. Implicações para a Governança Democrática e Crítica ao “Consórcio da Paz”



O Consórcio da Paz foi anunciado como resposta à violência, mas simboliza o fracasso da democracia deliberativa.

Como observa Habermas (1997), a ação comunicativa — aquela que busca consenso e racionalidade — é substituída pela ação estratégica, voltada ao controle.

O termo “paz” aqui é uma ironia semântica: uma anestesia simbólica que mascara a barbárie.


O consórcio é exemplo de federalismo punitivo: estados cooperando para ampliar estruturas de repressão, e não de justiça. Essa inversão desfigura a função pública do Estado.

Como explica Wendy Brown (2015), o neoliberalismo converte direitos em obstáculos à eficiência, e a cidadania em plateia.

O resultado é um país que chama de “gestão” aquilo que é, de fato, execução sumária institucionalizada.


A política do espetáculo transforma a morte em ativo político. O “pão e circo” da Roma antiga reaparece em versão digital: manchetes, vídeos, postagens.

A violência se torna moeda de popularidade.

E o consórcio, longe de ser política pública, é um instrumento de blindagem moral — a tentativa de justificar a barbárie com o discurso da união nacional.





5. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”: a tragédia racial brasileira e o testemunho ético



O verso de Elza Soares ressoa com força profética diante das imagens do Rio de Janeiro.

A carne negra continua sendo a mais barata porque o Estado insiste em precificar a vida por critérios de cor, classe e território.

A chacina foi o espelho cruel do racismo estrutural: jovens mortos sem investigação, sem perícia, sem nome.


Em meio ao coro que aplaudia a operação, uma voz rompeu o consenso:

o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), evangélico, negro e conservador, subiu à tribuna da Câmara para denunciar:


“Quatro dos jovens mortos eram filhos de fiéis da minha igreja. Nenhum portava fuzil.

No Brasil, basta ser preto e estar correndo em dia de operação para ser considerado criminoso.

Recebi imagens com requinte de crueldade. Há indícios de execuções.

A vítima não é o traficante. A vítima é o povo, usado por político covarde e incompetente.”

(Câmara dos Deputados, 29 out. 2025)


A fala do deputado constitui um testemunho ético raro dentro das estruturas do poder. Ele quebrou o pacto de silêncio e expôs a farsa moral de uma política que transforma a tragédia em marketing.

Como lembraria Hannah Arendt (1963), há momentos em que dizer a verdade é o ato político mais revolucionário.


Ao afirmar que “pretos correndo em dia de operação não são bandidos, são brasileiros tentando sobreviver”, Otoni de Paula recolocou o valor da humanidade acima da ideologia.

Seu gesto devolve sentido à política — e denuncia a falência da República.


A presença dessa voz na tribuna é o contraponto necessário à necropolítica.

Ela comprova que ainda há espaços de consciência em meio à barbárie institucionalizada.

A denúncia do deputado, somada à força simbólica da canção de Elza Soares, revela o enredo trágico do Brasil: um país que não protege sua juventude negra e ainda chama de paz o seu extermínio.





6. Conclusões Gerais e Recomendações de Políticas Públicas



A chacina com interesse eleitoral no Rio de Janeiro é mais do que um episódio isolado: é a síntese da decadência ética e democrática do país.

Quando governantes transformam mortes em palanque, e quando a sociedade aplaude operações sem perícia, a política deixa de servir à vida e passa a alimentar-se da morte.


É vergonhoso — e historicamente inaceitável — que, diante de corpos estendidos no chão, surja o cinismo de algo chamado “Consórcio da Paz”.

É preciso coragem para admitir: essa paz é falsa, e esse consórcio é um consórcio de omissão e de culpa.

Como escreveu um jornalista, trata-se de “fazer política em cima de caixões” — de usar o sangue como bandeira e o luto como plataforma.


Aqueles que apoiam uma chacina e a transformam em slogan político carregam o peso da história.

Usar a desgraça alheia como projeto de poder é o ato mais vil de um Estado que perdeu o sentido da palavra “República”.

Não há democracia possível onde há lucro eleitoral sobre corpos mortos.


O Brasil precisa urgentemente reconstruir seu pacto ético e institucional.

A segurança pública deve ser reconfigurada como política de proteção, não de punição; de inclusão, não de vingança.

Isso exige cinco medidas urgentes:


  1. Criação de um Conselho Federal de Controle da Letalidade Policial, com transparência pública e participação social.
  2. Câmeras corporais obrigatórias e auditoria independente em todas as operações.
  3. Formação antirracista e de direitos humanos para todas as forças de segurança.
  4. Fundo nacional para apoio às famílias das vítimas da violência de Estado.
  5. Reforma da linguagem política e midiática, substituindo a retórica da guerra pela cultura da paz, da dignidade e da responsabilidade.



Enquanto o Brasil continuar a aceitar a necropolítica como normalidade, continuará a matar seus próprios filhos em nome da ordem.

E enquanto o povo continuar a aplaudir, continuará a enterrar-se junto.


A verdadeira paz não nasce de fuzis, mas de escolas.

Não se constrói com tanques, mas com justiça.

Não se anuncia em consórcios, mas se planta em políticas públicas.


O futuro do país depende de um gesto simples e urgente: parar de confundir segurança com vingança, e justiça com espetáculo.





Referências



ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2018.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BROWN, Wendy. Undoing the Demos: Neoliberalism’s Stealth Revolution. New York: Zone Books, 2015.

CALDEIRA, Teresa. City of Walls: Crime, Segregation, and Citizenship in São Paulo. Berkeley: University of California Press, 2000.

COHEN, Stanley. Folk Devils and Moral Panics. London: Routledge, 2002.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. São Paulo: FBSP, 2025.

GARLAND, David. The Culture of Control. Chicago: University of Chicago Press, 2001.

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.

HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

KLEIN, Naomi. A doutrina do choque. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

LEMGRUBER, Julita. Violência, crime e punição no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 Edições, 2019.

PRATT, John. Penal Populism. London: Routledge, 2007.

SOARES, Elza. A carne. Álbum Do Cóccix até o Pescoço, 2002.

VILALTA, Carlos; FONDEVILA, Gustavo. Populismo penal na América Latina. México: Instituto Igarapé, 2023.


Como citar esse artigo:

VASCONCELOS, Eduardo Silva. Chacina, política e o preço da paz: a necropolítica brasileira e a carne negra como moeda eleitoral. Brasil Esfera Pública, Cristalina, 2025. Disponível em: https://brasilesferapublica.blogspot.com. Acesso em: 2 nov. 2025.


sábado, 1 de novembro de 2025

Quando a fé se converte em arma: o perigo do discurso antidemocrático de Michelle Bolsonaro

A retórica moral que transforma o medo em virtude, a violência em justiça e a democracia em obstáculo



1. Introdução — A operação que virou sermão político



No final de outubro de 2025, o país testemunhou um episódio que sintetiza o delicado momento da democracia brasileira. Em meio à repercussão da operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, com mais de cem mortos nos complexos da Penha e do Alemão, Michelle Bolsonaro, líder do PL Mulher, divulgou um manifesto intitulado “As mães e a (in)segurança pública”.


O documento, publicado oficialmente pelo próprio partido (Poder360, 2025), defende integralmente a ação policial e acusa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT de “cumplicidade com o narcotráfico”. Em tom de cruzada moral, afirma que os traficantes brasileiros “deixaram de ser meros vendedores de drogas” e se tornaram “narcoterroristas”.


Sob a aparência de piedade e proteção materna, o texto resgata uma retórica de guerra, moraliza a política e amplia a divisão entre “os cidadãos de bem” e “os inimigos da nação”. É essa operação simbólica — e não apenas a policial — que ameaça os pilares democráticos do país.





2. A moralização da política e o retorno da cruzada



Ao associar fé, maternidade e segurança pública, Michelle Bolsonaro constrói uma teologia política disfarçada de compaixão. Seu discurso se ancora em arquétipos religiosos: “mães que oram pelos filhos”, “trabalhadores aterrorizados pelo crime” e “zonas de exclusão dominadas pelas trevas”.

Mas por trás da imagem da mulher piedosa que clama por ordem, há um gesto político mais profundo: a tentativa de substituir o contrato social por um pacto de fé.


Como advertia Rousseau (1762), a vontade geral só pode existir quando a razão substitui o dogma. Ao transformar o Estado em cruzada, o que se estabelece não é a república, mas o governo dos salvos contra os condenados.


Esse discurso religioso-punitivista transforma o debate sobre políticas públicas em disputa moral, esvaziando o espaço da racionalidade democrática — aquele em que ideias se confrontam com argumentos, e não com pecados.





3. Da segurança pública ao espetáculo da guerra



O manifesto do PL Mulher reforça uma ideia perigosa: a violência como instrumento de purificação social.

A operação no Rio, que resultou em mais de cem mortes, é apresentada como “vitória do bem”. Nenhuma menção é feita a investigações, direitos humanos ou proporcionalidade do uso da força.

O foco não está na legalidade, mas na moralidade: quem morre é culpado, quem mata é justo.


Segundo Hannah Arendt (1963), o grande perigo do totalitarismo está justamente na “banalização do mal” — quando a sociedade se habitua à morte institucionalizada. Ao aplaudir a letalidade como sucesso, o discurso transforma o Estado de Direito em Estado de vingança.


É a lógica do canhão para matar a mosca: o poder desproporcional que destrói o que diz proteger.





4. O medo como capital político



Byung-Chul Han (2014) descreve o fenômeno da psicopolítica, em que o poder contemporâneo controla não mais por coerção, mas por medo.

O discurso de Michelle Bolsonaro é exemplar desse processo: ele promete segurança, mas produz ansiedade; promete paz, mas instala suspeita.

O cidadão é ensinado a desconfiar do outro — do morador da favela, do político de esquerda, do ativista de direitos humanos. A coesão social é substituída pela paranoia moral.


Esse medo, entretanto, é rentável. Ele mobiliza eleitorados, consolida grupos religiosos e fortalece o imaginário de que o autoritarismo é necessário “para nos proteger”. Assim, o medo se converte em capital político — moeda de poder nas democracias em crise.





5. A linguagem da pureza e o inimigo interno



A retórica de Michelle Bolsonaro retoma a velha estratégia dos regimes autoritários: a invenção do inimigo interno.

Em nome da pureza — moral, patriótica, espiritual —, define-se quem merece viver sob a proteção da lei e quem pode ser eliminado por ela.


Essa lógica não é nova. Carl Schmitt (1932), teórico do nazismo, sustentava que “a essência do político é distinguir amigo de inimigo”.

Quando a ex-primeira-dama define quem são “as mães de bem” e quem são “os cúmplices do mal”, ela opera exatamente essa clivagem — um discurso schmittiano travestido de devoção cristã.


O perigo, portanto, não está apenas no conteúdo, mas na forma: é o modo como a palavra se torna instrumento de exclusão moral e, consequentemente, de eliminação política.





6. A democracia sitiada



A democracia se sustenta sobre a pluralidade e o dissenso.

Quando líderes religiosos ou políticos — especialmente os que orbitam o bolsonarismo — transformam suas crenças pessoais em dogmas públicos, a política deixa de ser espaço de mediação e torna-se campo de fé armada.

É o que Habermas (1984) chamou de “colonização do mundo da vida pela razão instrumental”: a comunicação é substituída pela dominação.


O resultado é previsível: o Estado laico cede à moral religiosa, a segurança pública à militarização, e o diálogo à polarização.

A democracia, então, não morre de golpe — morre de culto.





7. A erosão institucional e o estado de exceção moral



Giorgio Agamben (2003) denominou de “estado de exceção permanente” o regime em que a emergência se torna regra.

O discurso de Michelle Bolsonaro ajuda a criar esse ambiente. Ao legitimar ações policiais sem controle civil e ao demonizar qualquer crítica como “defesa de bandidos”, ele constrói o terreno simbólico para suspender direitos em nome da “ordem”.


Assim, a política se converte em religião e o Estado em púlpito.

A consequência é a erosão silenciosa das instituições: juízes passam a temer a opinião pública, defensores públicos são hostilizados e jornalistas críticos são taxados de inimigos da pátria.





8. A colonização da linguagem e o autoritarismo sentimental



Pierre Bourdieu (1991) explica que a violência simbólica é aquela que se impõe pela linguagem, quando o dominado aceita como natural o discurso do dominador.

No caso do bolsonarismo, essa dominação opera pelo afeto — pela ideia de que “quem ama o Brasil” precisa odiar o inimigo.


Michelle Bolsonaro representa o auge do autoritarismo sentimental: fala como mãe, mas age como militante; prega amor, mas dissemina medo; fala de Deus, mas cultiva a guerra.

É o uso estratégico da emoção para encobrir a razão, um populismo moral que anestesia o senso crítico coletivo.





9. Conclusão — Quando o moralismo destrói a República



O maior perigo do discurso de Michelle Bolsonaro não está em suas palavras isoladas, mas em seu efeito social acumulado: ele naturaliza a violência, santifica o ódio e deseduca a democracia.

Ao colocar a fé acima da Constituição e a moral acima dos direitos, ela não apenas fragiliza o debate público, mas oferece legitimidade simbólica à barbárie.


Como lembrou Hannah Arendt (1963), “o mal prospera quando o pensamento se cala”.

E o que o Brasil vive hoje é precisamente isso: o silêncio da reflexão diante da retórica da pureza, a aceitação da exceção em nome da segurança.


Democracias não são destruídas apenas por tanques — às vezes, bastam sermões.





Referências (ABNT)



ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1963.

AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2003.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1991.

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.

HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Martins Fontes, 1762.

SCHMITT, Carl. O conceito do político. Lisboa: Edições 70, 1932.

PODER 360. Michelle Bolsonaro defende operação no Rio e critica Lula e PT. 30 out. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-brasil/michelle-bolsonaro-defende-operacao-no-rio-e-critica-lula-e-pt/. Acesso em: 1 nov. 2025.