Uma releitura aprofundada do declínio relativo dos Estados Unidos a partir da obra de Maria da Conceição Tavares, articulando capital financeiro, internacionalização produtiva, poder monetário e sobrecarga geopolítica.
1. Introdução
A reflexão de Maria da Conceição Tavares sobre os Estados Unidos nunca foi simplista, moralista ou declinista em sentido vulgar. Sua tese não sustenta que a potência norte-americana tenha simplesmente “fracassado”, nem que seu poder tenha evaporado. O argumento central é mais sofisticado: a hegemonia estadunidense se recompôs e se reafirmou em determinados momentos, sobretudo pela centralidade do dólar, pela supremacia financeira e pelo comando geopolítico-militar; ao mesmo tempo, esse mesmo processo corroeu parte importante da base orgânica da economia nacional que havia sustentado a liderança americana no pós-guerra (Tavares, 1985; Tavares; Melin, 1997; Fiori, 2000).
É precisamente nesse ponto que a análise de Tavares permanece atual. Seu pensamento permite compreender que o aparente paradoxo dos Estados Unidos — força monetária global combinada com desindustrialização relativa, financeirização extrema e tensões sociais internas — não é uma anomalia passageira, mas uma contradição estrutural do capitalismo contemporâneo sob liderança americana (Cintra, 2000; Seabra; Tavares; Burite, 2024).
2. A internacionalização vitoriosa que enfraquece o centro
Na leitura de Tavares, o ponto de inflexão está na própria expansão internacional das corporações norte-americanas. O que parecia ser a máxima expressão do êxito americano — a disseminação planetária de suas empresas, finanças, tecnologia e padrões de consumo — carregava um efeito regressivo sobre o núcleo nacional da acumulação. Em vez de reforçar automaticamente a economia continental dos Estados Unidos, a internacionalização deslocou parte dos nexos produtivos, tecnológicos e decisórios para fora do território americano, fragmentando a antiga articulação entre mercado interno, indústria, investimento e emprego (Tavares; Melin, 1997).
A corporação multinacional, que antes funcionava como elo estruturante do dinamismo interno, passa a operar segundo uma racionalidade transnacional. O centro de comando financeiro permanece fortemente ancorado nos Estados Unidos, mas os circuitos efetivos de valorização do capital tornam-se progressivamente mais dispersos. O resultado é uma mutação qualitativa: a potência continua mandando, porém já não o faz a partir da mesma densidade produtiva que caracterizou sua fase clássica de hegemonia industrial.
Essa formulação é decisiva porque evita duas armadilhas. A primeira é imaginar que a globalização dissolveu o poder americano. A segunda é supor que a projeção global do capital norte-americano fortaleceu indistintamente a sociedade americana. Para Tavares, nenhuma dessas leituras basta. O que houve foi uma reorganização hierárquica do poder: os Estados Unidos preservaram a primazia sistêmica, mas com crescente dissociação entre hegemonia internacional e coesão econômica doméstica (Tavares, 1985; Fiori, 2000).
3. Da hegemonia produtiva à hegemonia monetário-financeira
Um dos aportes mais originais de Tavares está em mostrar que a hegemonia americana não deve ser medida apenas pela indústria, mas pela capacidade de reorganizar o sistema monetário e financeiro internacional em seu favor. Em seu clássico “A retomada da hegemonia norte-americana”, a autora argumenta que, a partir da virada promovida pelo governo Volcker no início dos anos 1980, os Estados Unidos restauraram a centralidade do dólar e reafirmaram sua posição dominante no comando do crédito, da liquidez e dos fluxos financeiros globais (Tavares, 1985).
Aqui está uma distinção essencial: declínio industrial relativo não equivale a colapso hegemônico. Ao contrário, a potência americana demonstrou grande capacidade de compensação estratégica. A perda de competitividade em certos segmentos manufatureiros foi, em parte, contrabalançada pelo fortalecimento de mecanismos de senhoriagem monetária, pela atração de capitais internacionais e pela ampliação do poder de arbitragem do seu sistema financeiro. José Luís Fiori, ao interpretar Tavares, enfatiza justamente esse ponto: a hegemonia dos EUA transformou-se, tornando-se mais informal, mais financeirizada e mais corporativamente organizada (Fiori, 2000).
Esse deslocamento também foi analisado por Marcos Antonio Macedo Cintra ao discutir a dinâmica do novo regime monetário-financeiro norte-americano. A dominância do dólar, a liberalização financeira e a sofisticação dos mercados de capitais permitiram aos EUA exercer poder não apenas pela produção, mas pelo controle da arquitetura financeira mundial, inclusive por meio de ativos, derivativos e redes bancárias globais (Cintra, 2000).
4. O Estado liberal americano e a ausência de um projeto nacional integrador
Outro eixo central da crítica de Tavares recai sobre a forma histórica do Estado norte-americano. Diferentemente de países como Japão, Alemanha ou França, cuja trajetória no pós-guerra foi fortemente marcada por coordenação estatal, política industrial e estratégias nacionais de longo prazo, os Estados Unidos operaram com uma estrutura interna mais fragmentada e menos orientada à proteção orgânica de sua base produtiva. Isso não significa ausência de Estado, mas sim um tipo peculiar de intervenção: poderosa na geopolítica, no aparato militar, no sistema monetário e na defesa de interesses estratégicos globais, porém menos comprometida com a coordenação explícita da reprodução industrial doméstica (Tavares; Melin, 1997; Medeiros, 2004).
Essa diferença ajuda a explicar por que rivais capitalistas puderam se modernizar com mais coesão produtiva. Sob o guarda-chuva estratégico dos EUA durante a Guerra Fria, Alemanha e Japão reconstruíram suas economias com forte apoio estatal e menor peso relativo de gastos militares, enquanto os Estados Unidos sustentavam os custos da ordem global. A ironia histórica destacada por Tavares é contundente: a mesma arquitetura geopolítica que consolidou a liderança americana também criou as condições para o fortalecimento de concorrentes industriais altamente eficientes (Tavares; Melin, 1997; Medeiros, 2004).
5. A “Pax Americana” como custo de reprodução do império
A manutenção da hegemonia envolve custos. Esse é um ponto em que a leitura de Tavares se aproxima de grandes debates da economia política internacional, mas preserva originalidade própria. O poder americano não foi apenas monetário ou empresarial; ele exigiu presença militar planetária, alianças estratégicas, defesa de rotas, sustentação de regimes aliados e capacidade permanente de intervenção. Em termos históricos, isso significou uma sobrecarga imperial. O império não é gratuito. Ele consome recursos fiscais, desloca prioridades e subordina a economia nacional a imperativos geoestratégicos (Fiori, 2000; Seabra; Tavares; Burite, 2024).
A literatura internacional costuma chamar atenção para esse tipo de tensão entre expansão externa e vitalidade interna. Na chave de Tavares, porém, o problema não é um “excesso moral” de império, mas uma contradição objetiva da reprodução hegemônica: para manter a ordem global, os EUA precisaram financiar uma estrutura de poder cuja rentabilidade sistêmica nem sempre coincide com a saúde produtiva, social e territorial da própria sociedade americana.
É por isso que o tema da “ruína” não deve ser lido como desaparecimento, e sim como desgaste estrutural. O país segue extraordinariamente poderoso, mas sua potência opera cada vez mais apoiada em finanças, moeda, tecnologia militar e comando geopolítico, e menos na integração virtuosa entre indústria, salários, produtividade e coesão social que marcou o auge do fordismo americano.
6. A aparente contradição: decadência ou recomposição da hegemonia?
Uma leitura apressada pode supor incoerência entre “declínio” e “retomada da hegemonia”. Não há incoerência. Em Tavares, a hegemonia americana se recompõe precisamente por meios que aprofundam sua fragilidade estrutural. A reafirmação do dólar, a absorção de capitais do resto do mundo e a reorganização financeira global sob comando dos EUA foram respostas eficazes à crise dos anos 1970 e 1980 (Tavares, 1985).
Entretanto, essa vitória foi assimétrica. Ela fortaleceu os instrumentos de comando sistêmico, mas não reconstituiu integralmente a antiga base material da hegemonia. A liderança passou a depender mais intensamente de finanças globalizadas, endividamento, mercados de capitais e supremacia militar. Em outras palavras, os EUA venceram a batalha pela reorganização da ordem mundial, mas não sem mutilações internas relevantes. Daí o caráter paradoxal de sua supremacia contemporânea.
José Luís Fiori sintetiza esse ponto ao afirmar que a transformação da hegemonia americana não significou seu fim, mas sua metamorfose. Essa observação é crucial para evitar diagnósticos precipitados sobre um suposto colapso imediato dos EUA. O que existe, antes, é uma combinação tensa entre continuidade do mando global e erosão relativa da consistência nacional interna (Fiori, 2000).
7. Atualidade do diagnóstico
A atualidade de Tavares salta aos olhos em três dimensões. A primeira é a persistência do dólar como instrumento de poder internacional, inclusive em contextos de sanções e disputas geopolíticas. A segunda é a permanência da financeirização como forma dominante de coordenação do capitalismo global. A terceira é a crise social no próprio centro do sistema, marcada por desigualdade, fragmentação territorial, precarização e polarização política, fenômenos que diversos intérpretes associam aos efeitos de longo prazo do neoliberalismo e da desestruturação produtiva (Seabra; Tavares; Burite, 2024).
Nesse sentido, o mérito de Tavares foi perceber cedo que o poder americano podia sobreviver ao enfraquecimento relativo de sua indústria, mas não sem produzir tensões explosivas dentro do próprio núcleo hegemônico. Sua análise, portanto, não descreve uma queda espetacular, e sim uma decadência contraditória: a potência continua central, porém sustentada por mecanismos cada vez mais abstratos, financeirizados e militarizados.
8. Conclusão
A contribuição de Maria da Conceição Tavares para a compreensão do declínio hegemônico norte-americano permanece uma das mais penetrantes da economia política brasileira. Sua tese não reduz os Estados Unidos a uma potência derrotada, tampouco celebra um colapso iminente. O que ela mostra é mais profundo: a hegemonia americana se reconstruiu por meio da financeirização, do dólar e do poder estratégico global, mas ao preço de corroer progressivamente a integração produtiva, social e territorial de sua própria economia nacional.
A chamada “ruína” dos EUA, nessa perspectiva, não é a ruína de sua capacidade de mando, mas a ruína de sua antiga completude histórica como economia continental articulada. O país continua sendo centro do sistema, mas um centro atravessado por fissuras. Seu poder permanece extraordinário; sua base orgânica, porém, já não é a mesma. Essa é a força da leitura de Tavares: mostrar que a decadência, no capitalismo contemporâneo, não precisa vir com desaparecimento. Ela pode vir, e muitas vezes vem, travestida de vitória.
Referências
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CINTRA, Marcos Antonio Macedo. A dinâmica do novo regime monetário-financeiro norte-americano. Estudos Avançados, São Paulo, v. 14, n. 38, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/BGHfH5Tx4zL667K4HDCtdwB/. Acesso em: 31 mar. 2026.
FIORI, José Luís. Maria da Conceição Tavares e a hegemonia americana. Lua Nova, São Paulo, n. 50, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ln/a/yRVB8XfmhvgmkMQq7Tvgvsy/. Acesso em: 31 mar. 2026.
MEDEIROS, Carlos Aguiar de. A economia política da internacionalização sob liderança dos EUA: Alemanha, Japão e China. In: FIORI, José Luís (org.). O poder americano. Petrópolis: Vozes, 2004.
SEABRA, Rafael; TAVARES, Marcus; BURITE, Haylana. Maria da Conceição Tavares e a retomada da hegemonia americana: relevância e atualidade. OPEU, 28 jun. 2024. Disponível em: https://www.opeu.org.br/2024/06/28/maria-da-conceicao-tavares-e-a-retomada-da-hegemonia-americana/. Acesso em: 31 mar. 2026.
TAVARES, Maria da Conceição. A retomada da hegemonia norte-americana. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 5, n. 2, 1985. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rep/a/LfqSgPmXDRDrbTrWdxXxNWG/. Acesso em: 31 mar. 2026.
TAVARES, Maria da Conceição; FIORI, José Luís (org.). Poder e dinheiro: uma economia política da globalização. Petrópolis: Vozes, 1997.
TAVARES, Maria da Conceição; MELIN, Luiz Eduardo. Pós-escrito 1997: a reafirmação da hegemonia norte-americana. In: TAVARES, Maria da Conceição; FIORI, José Luís (org.). Poder e dinheiro: uma economia política da globalização. Petrópolis: Vozes, 1997.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Instituto de Economia. Como os EUA construíram sua própria ruína | Maria da Conceição Tavares. YouTube, 28 mar. 2026. 1 vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=12lquDp8Tck. Acesso em: 31 mar. 2026.